Föxx Salema: Enfrentando o preconceito e o conservadorismo no Metal

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Por Maicon Leite, Fonte: Maicon Leite, Press-Release
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A cantora/musicista FÖXX SALEMA é pioneira no Brasil ao inserir a luta contra a transfobia no Heavy Metal Brasileiro. Por conta desta postura e pela sua militância de esquerda, ela tem sido alvo de ataques virtuais, propagados - inclusive - por pessoas ligadas à imprensa Rock/Metal brasileiras. Entretanto, além das dificuldades diárias de uma banda de Heavy Metal no Brasil, a vocalista ainda sofre com o preconceito. Manter uma banda do estilo no Brasil já é uma tarefa que exige um grande esforço, com tais fatos exigem uma dedicação ainda maior.

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Natural de Bragança Paulista/SP, FÖXX SALEMA segue divulgando seu primeiro álbum, "Rebel Hearts", lançado em maio passado. Autodidata em canto (e em inglês) é uma artista independente há mais de 20 anos e uma das pioneiras como pessoa transgênera no cenário Heavy Metal brasileiro.

Conversamos com Amy Salema para saber como tem sido essa jornada de intenso trabalho dentro do Heavy Metal brasileiro. Abordamos não apenas suas referências musicais, mas também os recentes ataques virtuais que tem sofrido, bem como a atual mentalidade de muitos headbangers, que, infelizmente, tem adotado uma postura preconceituosa e tão conservadora quanto tudo aquilo que muitas bandas e pessoas do meio tem lutado contra há 50 anos. Confira!

Amy, antes de qualquer coisa, parabéns pelo CD "Rebel Hearts"! Como foi chegar até esse trabalho? Sei que há um grande background que precede sua estreia como FÖXX SALEMA. Você poderia nos falar sobre seu histórico no Heavy Metal?

Amy Salema: Obrigada. Bom, eu canto desde criança e sempre gostei também do tema Terror, nessa época eu passava e via sem saber ao certo o que era, pôsteres do Iron Maiden na parede de uma pequena loja de discos e achava muito massa aqueles desenhos. Quando entrei na adolescência um primo meu que já colecionava fanzines do gênero e tinha vários discos, me apresentou devidamente ao Metal. Ele inclusive gravou em fita cassete o álbum "Seven Churches" do Possessed, ao qual eu pedi xerox do encarte para poder acompanhar nas letras o que era cantado. Dali para eu começar a cantar Metal e fazer shows foi algo natural, entre o "final" dos anos 90 e o começo dos 2000 (em diante), eu passei por bandas autorais e também outras que tocavam apenas covers. Já o meu nome artístico eu comecei a utilizar em meados de 2007, em 2013 lancei minha primeira música solo e em 2015 montei uma banda que levava esse meu nome e cuja formação perdurou até 2016. Em 2017 eu me concentrei em meu canal no YouTube e gravei vários covers em estúdio, fiz alguns shows em casas e festivais LGBT+s, até que em 2018 o meu companheiro Cleber me incentivou a gravar um álbum 100% autoral.

Em 2013 foi lançado o single "Constant Fight" em todas as plataformas digitais, pouco depois vindo a buscar mudanças com a formação de uma banda que leva o nome FÖXX SALEMA, já entre 2015/2016. Já com a formação consolidada, shows foram realizados nas cidades de São Paulo e Campinas. Inclusive, você realizou um festival próprio em sua cidade natal, Bragança Paulista. Como foi esse início?

Amy: Foi um recomeço interessante, naquela época a fim de manter a sonoridade da "Constant Fight", eu optei por enveredar pelo Classic Metal e o Hard Rock. Tocávamos no repertório hits de bandas do gênero e pensando em fortalecer a cena local, eu organizei um festival que teve três edições.

O próximo passo foi o lançamento do single "Mankind (Raw Version)", no Halloween de 2018. O que você poderia nos contar sobre esta música?

Amy: Essa foi uma composição cuja letra eu critiquei todos os aspectos políticos, religiosos e sociais que (a meu ver) fodem a vida da população, seja ela consciente disso ou não. O riff principal de guitarra unido ao pedal duplo da bateria foi criado por mim já pensando na linha vocal e essa levada conjunta foi inspirada pelo Megadeth. A imagem do single remete ao meu posicionamento de esquerda, eu a concebi antes mesmo do suposto atentado ao atual presidente e (obviamente) de sua posse; inclusive fui eu mesma que posei para o artista/ilustrador, ali estou vestindo minha jaqueta de couro e empunhando a bandeira LGBT+ contra o fundamentalismo e a direita no país/Brasil.

"Rebel Hearts" foi lançado em maio de 2019 e desde então tem colecionado excelentes reviews por parte da mídia especializada. Entretanto, nestes mesmos reviews há uma clara divisão entre qual estilo a banda se encaixa. Há citações ao Power Metal e ao Hard Rock. Como você definiria sua música?

Amy: Metal. "Rebel Hearts" é um álbum autoral de Heavy Metal "oitentista" com aspectos de Power e Speed. Eu acredito que o rótulo de Hard Rock dá-se principalmente devido aos timbres, que, diga-se de passagem, infelizmente não ficaram 100% do meu agrado (principalmente a bateria). Eu até pensei em alterar e refazer tudo do zero, mas isso atrasaria em meses o lançamento dele. Todavia se levarmos em conta o lance de eu não ter uma formação de banda, não tocar nenhum instrumento, ter recursos limitados, o produtor musical não ser do Metal e que tudo foi gravado, mixado e masterizado num home estúdio de uma cidade do interior, eu acho que conseguimos até que um bom resultado, ainda que não tenha sido o "ideal"/vislumbrado por mim.

Recentemente chegamos a conversar sobre suas influências, principalmente no que se referem à sua voz. Nos covers que você divulgou no Youtube há músicas do Stratovarius, Gamma Ray, Angra, Rage, Helloween... Mas na parte instrumental, o que acaba influenciando a sonoridade da banda?

Amy: Da minha parte, as minhas diversas influências de Metal: do mais tradicional e melódico, ao mais agressivo/extremo/pesado. Agora, em relação às pessoas que gravaram para mim em estúdio, eu não posso responder por elas.

Confira sua interpretação para "Lisbon", do Angra:

Lançado em formato independente, "Rebel Hearts" está disponível nas plataformas digitais e em formato físico. De que forma a mídia digital e física se completam? Talvez nem todos saibam que o resultado financeiro da mídia física é muito superior ao digital. Há inclusive várias discussões sobre os irrisórios valores que as plataformas pagam aos artistas. Você concorda que Spotify, Deezer a fins são apenas uma vitrine para que os fãs de Metal, colecionadores natos, venham a se interessar pelas bandas e daí sim procurar o material físico?

Amy: Concordo, os custos da prensagem (profissional) são bem altos, o meu álbum é um exemplo disso: não foi nada barato fazê-lo também em CD (no formato digipack e com encarte incluso). E sim, os valores de streamings repassados para artistas são pífios. A mídia digital muitas vezes serve como um tipo de "test drive" para o público, posteriormente quem realmente gostar da sonoridade comprará a versão física e também irá a shows. Eu mesma vendi "alguns" CDs via internet, com pessoas pedindo dedicatória e a minha assinatura; inclusive um fã comprou dois CDs pelo correio: um autografado e um lacrado para sua coleção.

Em paralelo ao lançamento do álbum você foi atacada virtualmente até mesmo por algumas pessoas da imprensa Rock/Metal nacional, claramente contrárias ao seu ponto de vista política e ao mesmo tempo demonstrando posicionamento transfóbico. O Heavy Metal, que não deveria ser um estilo de música conservador, tem se mostrado um tanto quanto reacionário, não é mesmo?

Amy: Porra, pra caralho! Isso é lamentável, mas quer saber? QUE SE FODA(M) quem me boicotou e me perseguiu utilizando-se de mentiras e transfobia para tentar desmerecer o meu trabalho artístico! São "pessoas" frustradas/infelizes/insignificantes, gado que cegamente defende o Governo brasileiro atual. Eu estou no direito de processá-las inclusive criminalmente, mas para mim não vale a pena. E outra, se eu incomodei este tipo de "gente", é sinal que estou no caminho certo.

De que forma podemos combater o preconceito dentro do Heavy Metal? Há um crescimento deste tipo de pensamento retrógrado em todos os âmbitos da sociedade, e geria ingenuidade acreditar que nosso estilo de música preferido passasse incólume a este tipo de situação... É algo que sempre existiu e em alguns momentos parece ser aflorado com a ascensão de políticos de caráter fascista e claramente preconceituosos. Como tem sido sua luta contra este tipo de acontecimentos?

Amy: A minha luta tem sido principalmente através das minhas letras/músicas e também de textos que escrevo e publico com o intuito de conscientização populacional, de fazer quem ler, pensar e rever sua cadeia de valores. Algumas vezes de maneira mais didática, outras de forma mais incisiva; o mesmo vale para entrevistas e também para minha participação em manifestações civis, vide, por exemplo, o "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro" que estive presente, ano passado em minha Cidade Natal, Bragança Paulista.

Há alguns meses o ex-deputado Jean Wyllys concedeu uma entrevista para o canal português Hedflow declarando apoio ao seu trabalho e questionou porque a comunidade LGBT (fora do Metal) não te apoiou neste momento de ataques virtuais. O fato de estar inserida no meio Heavy Metal pode ter alguma influência sobre isso?

Amy: Eu acredito que sim, mas não é algo que eu possa comprovar com 100% de certeza. No entanto, um fato pode ser observado: se analisarmos como um todo, "poucas" são as pessoas da comunidade LGBT+ que gostam de Metal no país/Brasil. Uma pena.

Ouça o álbum "Rebel Hearts" no Spotify:

Há uma clara divisão do público do Metal em relação a temas políticos. Há quem é a favor desta abordagem e há quem ache que não deve ser misturada música e política, mas ao mesmo tempo escutam bandas que são voltadas à direita ou à esquerda. Ao mesmo tempo há a segregação de ambos os lados. O headbanger que fala mal do Violator por serem de esquerda, ou o headbanger que fala mal do Burzum, por causa dos pensamentos de extrema direita do Varg Vikernes. Creio que seja impossível ficar em cima do muro nos dias de hoje. É algo complexo... Qual a sua opinião?

Amy: Eu sou contra o conservadorismo/fascismo/fundamentalismo/totalitarismo, e quem (claramente) aqui no país/Brasil representa isso "atualmente" é a direita e este Governo neoliberal. Eu, com pesar e ira, testemunho a queda da democracia em prol de uma teocracia evangélica. Todavia, não calada, dentro do meu alcance eu estou fazendo a minha parte!

Voltando às suas influências, em junho deste ano perdemos André Matos. Sendo ele um dos seus vocalistas preferidos, como foi participar de um show tributo acústico em sua memória?

Amy: Foi ótimo: a receptividade do público foi excelente e os músicos que dividiram o palco comigo foram fantásticos, fora que o Mister Rock é uma das melhores casas de shows de BH. Meu marido (Cleber) filmou esse momento tão especial/significativo e ao mesmo tempo tão triste para mim, como cantora/compositora e admiradora do André Matos.

Amy, obrigado pelo tempo cedido! Há alguma mensagem que queira passar para os leitores?

Amy: Disponha! Para os/as leitores/leitoras desta entrevista: acompanhem-me "na" internet, ouçam o meu álbum autoral "Rebel Hearts" no Spotify (ou em algum serviço de streaming); se gostarem indique o mesmo para novos/novas ouvintes e se gostarem MUITO, adquira o CD físico como outras pessoas já fizeram! =^.^= \m/

FÖXX SALEMA segue na busca por um guitarrista para dar sequência nos shows de divulgação do debut "Rebel Hearts". Para se candidatar ao posto de guitarrista, basta entrar em contato pela página da banda ou pelo e-mail da assessoria: wargodspress@gmail.com. Dentre os pré-requisitos, é necessário que os interessados cantem os backing vocals, deem ênfase na fidelidade dos arranjos e solos, sejam maiores de idade e emancipados judicialmente. O repertório é focado principalmente nas músicas autorais, com a adição de eventuais covers. Os testes e posteriores ensaios ocorrerão em um estúdio na cidade de Belo Horizonte/MG e não terão custos para os integrantes.

Site:
https://www.foxxsalemaband.com.br




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Sobre Maicon Leite

Maicon Leite é assessor de imprensa na Wargods Press, colaborador na revista Roadie Crew e um dos autores do livro Tá no Sangue! - A História do Rock Pesado Gaúcho, dentre outros projetos e publicações.

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