Além do bem e do mal: um mergulho no universo raulseixista
Por Evilásio Júnior
Fonte: Jornal Agora Santa Inês
Postado em 08 de setembro de 2019
O indivíduo nunca leu uma linha sobre estética, arte, indústria cultural, sobre a abordagem temática do Rock, sobre história, antropologia, filosofia, mas se respalda no direito "achista" de discorrer sobre as letras de Raul Seixas, mais precisamente a música "Eu nasci há 10 mil anos atrás", que está no álbum "Há 10 mil anos atrás", lançado no ano de 1976. Este disco conta ainda com músicas geniais como: Canto para minha morte, Meu amigo Pedro, Eu também vou reclamar, As Minas do Rei Salomão, entre outras.
"Raulzito" foi um artista muito à frente de sua época, suas músicas são atemporais, a profundidade de sua produção não pode ser compreendida numa simplória e pobre leitura superficial de uma letra, a obra do "Maluco Beleza" foi feita para ser dissecada, analisada, decodificada... Ele bebeu nas grandes fontes filosóficas e literárias, colocou os conceitos mais complexos da filosofia e da literatura mundial na boca do povo. Toda a obra musical raulseixista é um convite a um mergulho intertextual na grande produção de conhecimento humano.
Raul Seixas pega a mão do ouvinte e o leva para reconstruir as grandes narrativas históricas e míticas. "Eu nasci há 10 mil anos atrás" é um exemplo vivo disso, uma música na qual o eu lírico vai discorrendo sobre os principais acontecimentos da humanidade: A crucificação de Cristo, Idade Média e a caça as bruxas, Moisés e a travessia do Mar Vermelha, Pedro negando Cristo e cumprindo o que disse Jesus, A queda do Império Babilônico, Noé e arca diluviana, o Rei Salomão, Zumbi e o quilombo de Palmares, a ascensão do nazismo. Outros pontos podem ser encontrados na letra de "Eu nasci há 10 mil anos atrás, até o Conde Drácula e Rapunzel foram convidados para fazer parte deste passeio pela história e pela literatura.
A música vai se desenvolvendo numa narrativa não-linear, pois apesar de seguir uma linha histórica dos fatos, os pontos abordados não seguem uma linha cronológica reta, ascendente, de acontecimentos sucessivos, ela traz os fatos, mas sem a preocupação com que eles sigam um percurso em linha reta, linear. O primeiro acontecimento histórico que é posto na música é a Crucificação de Cristo, logo em seguida há um salto para a Idade Média, com as bruxas sendo queimadas para pagarem os seus pecados, posteriormente há uma volta no período bíblico do Velho Testamento e menciona-se Moisés guiando o povo no Êxodo.
Esta obra musical é perpassada por acontecimentos bíblicos, históricos e literários, mas os desavisados tentam manchar a grandiosidade de "Eu Nasci há 10 mil anos atrás" dizendo que a música é o registro de nascimento do diabo, dizendo que a música é satânica, que não é para ser ouvida, pois pode ter uma influência negativa na formação do indivíduo. Desta forma, cria-se uma sociedade que é construída em cima do medo, mistificação do pensamento, da alienação e que não compreende o verdadeiro papel da arte: levar o indivíduo a ser um questionador, pensar por si. Assim como Raul fez com sua música, sua arte transgressora e rebelde.
Para quem tem o pensamento pequeno, vendo demônios e diabo em tudo, por ter uma visão moldada pela fanatização de dogmas humanos, digo: "é melhor ser uma metamorfose ambulante do que ter uma opinião formada sobre tudo", eu aprendi isso há dez mil anos atrás num mergulho no universo polissêmico raulseixista.
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