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Não sei explicar. Vamos, então, tentar entender. Antes de descobrir Page e companhia, a minha vida era regada exclusivamente por heavy metal. O primeiro disco que eu comprei foi o ’74 Jailbreak do AC/DC, e na seqüência descobri Iron Maiden, Metallica, Venom, Judas Priest, Black Sabbath e toda aquela turma. Ou seja, meu aparelho de som era incompatível com sons acústicos. Ele só reconhecia guitarras distorcidas.
Então, um dia ouvi Stairway To Heaven. Não lembro onde, nem como. Só sei que ouvi essa música tanto, mas tanto que sabia a letra de cor, era capaz de escrevê-la inteira. Mas até aí, tudo beleza. Comprei alguns discos (o IV, o Presence, o The Song Remains The Same), mas, mesmo assim, não estava preparado para o choque que tive quando ouvi pela primeira vez o Physical Graffiti.
O disco das janelinhas mexeu com a minha cabeça. Definitivamente. Foi com ele que eu percebi que a música era muito mais. Aquelas quinze músicas me fizeram crescer, me fizeram viajar, e até hoje, quando as escuto, me trazem grandes e inesquecíveis recordações, sempre novas, sempre diferentes.
Physical Graffiti me chocou bastante, primeiramente, por três músicas. São elas: In My Time Of Dying, Kashmir e In The Light. In My Time Of Dying é, até hoje, a música mais impressionante que eu já ouvi. A bateria de John Bonham nesta faixa justifica todos, absolutamente todos os comentários passados, presentes e futuros sobre a sua técnica, sobra a sua potência. Cada vez que ela entra você sente um pontapé no peito. A mais chocante canção escrita pela banda faz qualquer pessoa, na primeira vez que a escuta, dar um pulo da cadeira e ficar alguns instantes em silêncio ao seu final. Precisa dizer mais alguma coisa ?
Kashmir é uma das canções mais conhecidas da banda, e um dos maiores clássicos da história do rock and roll. Com o seu andamento cadenciado, que lembra a batida do coração, mostra o enorme talento de Page e Plant como compositores, buscando no oriente novas sonoridades para o Zeppelin. Lembro que andava com o Opala do carro, os bancos reclinados, o Tojo regulado com o máximo de graves, e o toca-fitas Rio de Janeiro da Bosch tocando Kashmir a todo volume. Aquele andamento ia mexendo com você, fazendo o seu coração e todo o seu corpo pulsarem no ritmo da música. Teve até uma vez em que tive que desligar o som, tamanha era a viagem.
E, In The Light, é a mais viajandona das três. Com o seu início também remetendo ao oriente, traz uma interpretação magistral de Robert Plant, uma das melhores de toda a sua carreira. Toda a banda executa a música como se estivesse em outro nível, em outro plano. E, ao ouvi-la, você, ao fechar os olhos, realmente é transportado para o mundo mágico dos zeppelins. Recomendo a experiência.
Com o passar dos anos, ouvindo o disco mais e mais e mais e cada vez mais, fui descobrindo milhares de pérolas perdidas em cada faixa. Custard Pie é a típica canção que só o Led Zeppelin poderia criar. The Rover mostra para qualquer banda do mundo como compor um heavy metal clássico. Houses Of The Holy é rock and roll puro. Trampled Under Foot não tem explicação. Bron-Yr-Aur é Jimmy Page brincando com o seu violão (e até brincando ele é genial). Down By The Seaside é uma das minhas baladas favoritas desde sempre. Ten Years Gone é uma das mais belas canções já escritas. E as coisas seguem esse nível.
O Led Zeppelin gravou grandes, maravilhosos discos durante a sua carreira. Led Zeppelin I, Led Zeppelin II, Led Zeppelin III, Led Zeppelin IV e Houses Of The Holy estão entre os melhores momentos da história do rock. Todos eles estão repletos de grandes clássicos. Um é melhor que o outro. Mas foi com Physical Graffiti que o Led Zeppelin marcou o seu nome a ferro e fogo no DNA do rock and roll. É o seu último grande disco, a prova definitiva e escancarada de como a reunião de quatro gênios no auge de sua juventude pode gerar obras-primas de cair o queixo.
Physycal Graffiti é o melhor disco da história do rock. Para mim. E tenho certeza de que para muitas outras pessoas também. Escute-o. Conheça-o. Não passe por essa vida sem viver essa experiência. Tenho certeza de que você não vai sair imune após uma audição.
Rucardo C. Seelig, 31 anos, é publicitário e apaixonado por rock, quadrinhos e cinema. Outros textos como esse podem ser encontrados em seu site pessoal, www.ricardoseelig.blogger.com.br
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