Black Metal: o lado mais negro da cena brasileira

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Black Metal: o lado mais negro da cena brasileira

Por Alexandre Maia

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Na virada do milênio, o black metal norueguês já havia consolidado sua posição no contexto da cena metal, e sua gélida estética e cortante sonoridade inspiravam, por todo o globo, o surgimento de novas bandas. Uma resposta brasileira a esta "segunda onda do black metal" iniciada na Noruega não tardaria a ser formulada.

Nesse período a cena carioca, ganhando atenção da mídia especializada (leia-se: Rock Brigade), figurava como principal representante da reação brasileira ao metal negro norueguês. Do "Hell de Janeiro" surgia uma cena com bandas que são, hoje em dia, bem conhecidas dos bangers brasileiros atentos ao cenário nacional, entre elas o Mysteriis (que retomou suas atividades recentemente, após um hiato de alguns anos), o Unearthly (que, distanciando-se da estética black metal, aposta atualmente em uma sonoridade death metal) e o Nocturnal Whorshipper (cujas antigas glórias seu fundador hoje lamenta, prostrado aos pés da cruz, clamando a Jesus Cristo por perdão por seu passado blasfemo).

O que poucos sabem é que, paralelamente a esta cena carioca, emergia no Brasil uma outra cena, cuja existência maldita esteve fadada, desde o início, a permanecer confinada às mais sombrias profundezas do underground, presa a correntes que lançava sobre si mesma. Tais correntes se traduzem na baixa fidelidade sonora de seus artefatos, por vezes beirando uma crueza excessiva; na predileção por formatos antiquados, em especial as fitas cassete; lançamentos disponíveis em quantidades extremamente limitadas, normalmente com cópias numeradas à mão, distribuídos apenas por meios extremamente subterrâneos e inacessíveis; flertes com ideologias pouco populares e, creio ser possível dizer, "perigosas"; a total ausência de shows, apresentações ao vivo e divulgação de qualquer natureza, etc. Diante disso, apenas aqueles acostumados a arriscar-se nas mais negras profundezas e a encarar os mais profundos abismos podiam emergir conhecedores das blasfêmias inauditas proferidas por esta obscura cena. Para estes raros indivíduos, pouco ou nada significam aquelas linhas imaginárias que dividem nações: eles se encontram espalhados pelos quatro cantos do mundo, entre vermes e ossos, em fossos cavados em sua eterna busca pelas terríveis criaturas que habitam as profundezas.

Dessa forma eu, brasileiro, desconhecendo totalmente a existência desta besta subterrânea, alojada sob o próprio solo que habito, tomei conhecimento de sua face hedionda através de uma interessantíssima figura norte-americana: Aesop Dekker, baterista da lendária horda estado-unidense AGALLOCH (além de ex-baterista do finado LUDICRA), recentemente eleito #18 no ranking dos 25 melhores bateristas modernos do site metalsucks.net. Foi em uma entrevista de Aesop Dekker ao ótimo webzine Intervalo Banger que pela primeira vez ouvi proferidos, como palavras mágicas de um mórbido encantamento, os nomes DRAUGURZ, GEHEIMNIS, GHASH e THALLIUM, citados, curiosamente, ao lado de um dos maiores nomes da música pesada brasileira, o RATOS DE PORÃO.

Pesquisando sobre estas bandas, das quais Dekker se diz fã, assisti descortinar-se perante meus olhos a visão terrível e magnífica desta oculta entidade subterrânea. Aos poucos as informações sobre as diferentes bandas e projetos, unindo-se como peças de um quebra-cabeça, permitiam a visão de uma imagem mais ampla, de uma "unidade" que engloba o variado bestuário com que aqui lidamos. Creio que seja possível, assim, falar em uma "cena", uma vez que podemos identificar aqui e ali vínculos e interações entre estas bandas, seja por meio de lançamentos através de um mesmo selo, lançamentos conjuntos (os chamados "splits"), participações de membros de diferentes bandas em certos projetos paralelos, e também por se concentrarem as bandas, em sua maioria, nas regiões subtropicais do Brasil, espalhadas entre os Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

A seguir ofereço um insight no universo particular de cada uma das bandas que julguei serem os principais representates da "cena" que vos apresento...

EVIL

Pioneiros da segunda onda do black metal no Brasil, o paulista EVIL disseminava seus hinos de ódio consagrados ao caos já no remoto ano de 1995, tecendo, no decorrer de longos anos, uma teia de contatos no underground internacional que resultou em colaborações com nomes que figuram entre os mais odiosos e prestigiados do black metal no mundo. Temos, assim, os lançamentos conjuntos com as bandas CELESTIA (França) e MOONBLOOD (Alemanha), ambos de 1999, como o início de uma tradição que levaria o EVIL a unir forças, nos anos se se seguiriam, com uma série de outras bandas ilustres, incluindo BILSKIRNIR (Alemanha), SATANIC WARMASTER (Finlândia), DROWNING THE LIGHT (Australia), ABIGAIL (Japão) e muitas outras. Com uma sonoridade de baixíssima fidelidade e uma atmosfera de crueza primitiva, o Evil conseguiu obter grande sucesso em sua proposta de oferecer emanações sonoras do puro Mal aos ouvidos daqueles que anseiam por uma nova era de caos. Reza a lenda que um dos membros do EVIL teria sido preso no final da década de 90 pelo assassinato de um homossexual. Fica a pergunta: qualquer semelhança com os eventos transcorridos na Noruega seria simplesmente mera coincidência?

MASEREGOTH

Este bizarro duo paulistano surgiu em 1998 com uma demo de hinos sombrios que levam o ouvinte em uma viagem abismal à Idade das Trevas, lançado pelo lendário selo Southern, através do qual muitos lançamentos do EVIL foram editados.

THALLIUM

O THALLIUM surge em São Paulo no ano de 1999 como projeto da sombria e solitária figura de Warwolf, responsável por todos os instrumentos e vocais. A sonoridade remete àquela dos primórdios da horda polonesa GRAVELAND - não, entretanto, ao orgulhoso guerreiro eslavo, equipado com seu elmo e armadura reluzentes, a entoar hinos épicos que evocam a glória do BATHORY em sua era viking; mas sim ao místico encapuzado que conjura, com seus ocultos conhecimentos rúnicos, terríveis bestas e impenetrável escuridão, na qual pode reluzir apenas a afiada lâmina da Morte.

DRAUGURZ

Seguindo os passos do BURZUM, algumas bandas foram capazes de conjurar imagens sublimes de melancolia e ódio pagãos através de sua música. Entre tais bandas podemos destacar o WIGRID (Alemanha), o DRUDKH (Ucrânia) e também o catarinense DRAUGURZ. Formado em 1999 e contando com um único membro em sua formação, o DRAUGURZ evoca o espírito torturado pelo seu isolamento em um mundo em ruínas, impelido a seguir as vozes de um orgulhoso passado pagão há muito perdido nas brumas do tempo.

INMITTEN DES WALDES

Das profundezas das florestas paranaenses, duas almas torturadas, J. e N., se unem para criar um black metal cadenciado e atmosférico, influenciado por bandas como BURZUM e DRUDKH, não muito distante da sonoridade de seu conterrâneo sulista DRAUGURZ. O INMITTEN DES WALDES lançou no anos de 2009 um split com o finlandês MORTUALIA, projeto paralelo de Shatrag, membro fundador e guitarrista da lendária banda HORNA, do qual foi retirado a música a seguir.

GEHEINMIS

De Minas Gerais, temos o único representante desta cena para além do trópico de Capricórnio: trata-se da "one-man-band" GEHEINMIS. Entoando cânticos lúgubres de adoração à natureza em sua língua nativa, o português, a banda surge em 2005 com a demo "Das Negras Montanhas", editada pelo selo Gungnir Productions (finado selo responsável pelo lançamento de uma série de bandas do underground brasileiro como DRAUGURZ, INMITTEN DES WALDES, GHASH e WOODSMARCH).

WOODSMARCH

De São Paulo temos mais uma one-man-band praticando um black metal crú e minimalista, com ótimos riffs e, em geral, andamentos menos cadenciados que de seus companheiros de cena, criando uma atmosfera diferenciada para seus hinos de isolamento e orgulho pagão.

GHASH

De todas as bandas aqui apresentadas, o GHASH, de Santa Catarina, pode ser considerado como a mais bizarra e odiosa. A atmosfera extramamente sombria é composta por riffs simples repetitivos à exaustão através de uma parede de ecos e reverberações, acompanhados por uma hipnótica bateria eletrônica e lamentações desesperadas do espírito torturado de seu único membro, Oghor. Angústia, depressão e suicídio encontram sua mais hedionda tradução na forma da música do GHASH.

O período em que as bandas acima citadas (entre outras) constituíram o que podemos reconhecer como uma "cena" tem seu início no final dos anos 90 e se estende ao final da primeira década do novo milênio. O ano de 2008 marcou os últimos lançamentos de THALLIUM, GEHEINMIS, DRAUGURZ e WOODSMARCH (as duas últimas dividindo um split album). O ano seguinte traria o último lançamento do INMITTEN DES WALDES, cujo membro N. viria a abandonar o black metal para dedicar-se à música clássica. MASEREGOTH e GHASH lançaram apenas uma demo cada, em 1998 e 2004 respectivamente, desaparecendo logo a seguir. Dessa forma, entre todas as banda aqui mencionadas, apenas o EVIL segue ativo, com diversos splits EPs lançados anualmente.

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