Leonard Cohen: uma obsessão com a nudez
Por João Affonso
Postado em 28 de abril de 2024
Não é preciso ser um grande observador para notar a similitude entre as obras de Leonard Cohen e Auguste Rodin. Tenho a nítida impressão de que os dois mestres encontrariam assunto suficiente para muitas horas de conversa em algum bistrô da Champs-Élysées.
Porque existem portadores de neurose obsessiva, monomania, idée fixe, e existe o entusiasmo desses dois com o erotismo e, especialmente, com o corpo nu.
Eventual desavença, se houvesse, seria somente sobre a especificidade do objeto de cobiça. Rodin parecia ser inspirado por corpos nus, masculino ou feminino, embora as crônicas das muitas modelos que passaram por seu estúdio sejam famosas. Cohen direciona sua libido para o corpo feminino, e o tema é tão recorrente em suas canções que não tem como passar despercebido.
Já há alguns anos eu faço a seguinte associação mental: Leonard Cohen e a sensualidade de uma mulher se despindo. É inevitável. Tem a ver com a minha obsessão: letras de música escritas por grandes poetas da segunda metade do século XX. Artistas que, em outra época, ficariam restritos à publicação de livros de poesia, e que encontraram na música popular — especialmente com o advento de Bob Dylan, o libertador de todos aqueles que gostariam de cantar, independentemente da qualidade de suas vozes — um veículo muito mais grandioso de divulgação de seus textos.
Bob Dylan tem, em sua obra, a recorrência de sonhos e a aparição de uma garota francesa; Roger Waters volta sempre ao pai que não conheceu, morto na segunda guerra; Joni Mitchell canta o amor e a perda; e Leonard Cohen é o poeta que quer desnudar todas as mulheres do planeta. Todas. É impressionante!
Se não, vejamos:
"For he’s touched your perfect body with his mind"
("Suzanne")
Achou essa muito suave? Lembre-se que ele está, nessa estrofe de "Suzanne", se referindo a Jesus Cristo… rs
"You met him at some temple
Where they take your clothes at the door"
("Master Song")
E estamos ainda na segunda música do primeiro álbum de Leonard!
"I suppose that he froze when the wind took your clothes
And I guess he just never got warm
But you stand there so nice, in your blizzard of ice
Oh please let me come into the storm"
("One of Us Cannot Be Wrong")
Uma das inúmeras canções de amor que ele escreveu para Nico (sim, a musa do "Velvet Underground"), com quem ele, apesar de muito insistir, nunca conseguiu nada, porque ela só gostava de homens mais jovens.
"Sometimes I need you naked
Sometimes I need you wild"
("You Know Who I Am")
Sometimes, huh?
"Oh sometimes I see her undressing for me
She’s the soft naked lady love meant her to be
And she’s moving her body so brave and so free
If I’ve got to remember that’s a fine memory"
("Tonight We’ll Be Fine")
Sometimes, indeed!
"Great Babylon was naked, oh she stood there trembling for me
And Bethlehem inflamed us both
Like the shy one at some orgy"
("Last Years’ Man")
Freud provavelmente faria de Leonard Cohen um banquete…
"Then fire, make your body cold
I’m going to give you mine to hold"
Saying this she climbed inside
To be his one, to be his only bride"
("Joan of Arc")
A consumação de um amor quase carnal entre Joana D’Arc e o fogo é um dos momentos mais sublimes da poesia de Cohen…
"Well, I sing this for the Jews and the Gypsies and the smoke that they made
And I sing this for the children of England, their faces so grave
And I sing this for a saviour with no one to save
Hey, won’t you be naked for me?
Hey, won’t you be naked for me?"
("Don’t Pass Me By")
Na obra do canadense, até o apelo para que as pessoas tirem o disfarce e mostrem seu verdadeiro interior é feita através de uma metáfora envolvendo a nudez…

"New Skin for the Old Ceremony", essa capa diz muito sobre L. Cohen
"You said you could never love me
I undid your gown"
("Is This What You Wanted?")
Leonard escrevia muito bem sobre amores platônicos, mas, como Neruda, creio que é no erotismo que reside sua verdadeira força…
"I stand in ruins behind you
With your winter clothes, your broken sandal straps
I love to see you naked over there
Especially from the back"
("Take This Longing")
Tirem as crianças da sala…
"I sang my songs, I told my lies
To lie between your matchless thighs
And ain’t it fine, ain’t it wild
To finally end our exercise
Then I saw you naked in the early dawn
Oh, I hoped you would be someone new
I reached for you but you were gone
So Lady I’m going too"
("Leaving Green Sleeves")
O hómi tem classe, isso é inegável!
"And I can’t wait to tell you to your face
And I can’t wait for you to take my place
You are The Naked Angel In My Heart
You are The Woman With Her Legs Apart"
("Paper Thin Hotel")
Mano!!! 😮
"I said, "Look, you don’t know me now but very soon you will
So won’t you let me see"
I said "won’t you let me see"
I said "won’t you let me see
Your naked body?"
("Memories")
Essa é tão direta que não tem como não ser uma das minhas favoritas. É quase uma cantada de pedreiro, versão carteirada de rock star.
Vou parando por aqui. Os exemplos não param, ainda nem chegamos ao final da discografia nos anos 70 e, veja, eu confesso que nem conheço a fundo toda a discografia de Leonard Cohen… Alguns álbuns eu não saberia sequer dizer de que temas tratam, embora eu possa supor, pelos exemplos acima, ao menos uma parte… rs
Quem quiser procure mais. É um exercício delicioso. Tudo que de alguma forma esteja relacionado ao amor deveria ser exaltado.
E não estou aqui dizendo que Leonard só falava de nudez, não é o caso! Como Rodin não foi apenas um escultor do erotismo. Cohen foi um poeta complexo, que escreveu muito e muito bem sobre guerra, judaísmo, religiosidade, crises conjugais, sobre a sociedade, enfim… Mas o erotismo e a nudez são um tema marcante em sua obra e, após essa análise superficial ma non troppo, arvoro-me o direito de dar o troco e dizer, por mais infame que seja:
O rei está nu!
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