Harem Scarem : Cinco discos essenciais para conhecer a banda canadense
Por Flavio Gasperini
Postado em 12 de outubro de 2023
O Harem Scarem é uma daquelas bandas que, quando você se aprofunda em sua discografia, se rende ao talento de seus integrantes, composições riquíssimas em melodia e as transformações musicais que enriquecem todo seu trabalho.
Formada em Toronto, Canadá no final dos anos 80 por Harry Hess (vocal, guitarra), Pete Lesperance (guitarra), Mike Gionet (baixo) e Darren James Smith (bateria, vocais), o Harem Scarem fundia elementos do Hard Rock oitentista com texturas mais melódicas, em outras palavras, o AOR que trazia um apelo mais radiofônico.
Fazendo um sucesso inicial em seu país natal, e também no Japão, os canadenses passaram por muitas transformações - flertando com o som de Seattle, Power Pop, elementos progressivos e até mudando de nome para se realocar no mercado no fim dos anos 90.
Toda essa experiência trouxe uma discografia extensa e cheia de ótimos momentos que até o mais recente lançamento, Change The World (2020), impressiona o ouvinte mais atento. Decidi aqui então recomendar cinco discos que representam bem a qualidade da banda liderada por Hess e Lesperance.
1. "Mood Swings" (1993)

Sem sombra de dúvidas, o segundo disco da banda é o mais exaltado, tanto pela crítica quanto pelos fãs. E por razões óbvias. Aqui a banda adota um certo peso nas guitarras (em certos momentos uma mistura de Extreme com Alice In Chains) de Lesperance, que aliado ao seu incomparável virtuosismo, torna "Mood Swings" um álbum imprescindível para qualquer guitarrista que se preze.
Abrindo com a potente "Saviors Never Cry", já sacamos todos os elementos citados acima. "No Justice", o single do disco (que foi acompanhado com um ótimo videoclipe, dark e mais sério do que se esperava de uma banda de Hard Rock), é talvez o maior clássico do quarteto, com backing vocals "multi-track" e um certo que de Queensryche da fase Empire. Preste atenção no solo. Lesperance deve ser muito mais exaltado por suas habilidades.
Momentos mais melódicos como "Stranger Than Love" (que figuraria fácil em "Adrenalize" do Def Leppard) e a balada "If There Was A Time" se intercalam com momentos experimentais como "Just Like I Planned", uma música totalmente Acapella que pasmem, funciona!. Se tiver que escolher um álbum para conhecer a banda… devore esse!
2. "Weight Of The World" (2002)

Após se aventurarem pelo Power Pop moderno no final dos anos 90, sobre a alcunha de "Rubber", a banda decide aqui voltar as raízes, mesmo com alguns resquícios (muito bem vindos) dessa fase.
Com o batera Creighton Doane e o baixista Barry Donaghy (na banda desde metade dos anos 90) á bordo, "Weight Of The World" mostra uma banda madura, com canções coesas, acessíveis e dinâmicas, fazendo dele um disco fácil de se ouvir.
"Killing Me" é o carro chefe do disco. Grudenta, melódica e com Lesperance mostrando para que veio. "This Ain’t Over", uma balada mais típica da época, traz todo potencial vocal de Hess, uma das melhores vozes do gênero.
Os momentos mais Power Pop aparecem em "If You" e "You Ruined Anything" que dão um balanço legal para o disco. Já "See Saw", assim como "Mandy" de Mood Swings, traz o tom instrumental onde Pete Lesperance mostra toda sua tristeza. Ah, e como bonus track japonesa, temos "End Of Time", uma balada mid-tempo que com certeza deveria estar no tracklist oficial.
3. Karma Cleansing/Believe (1997)

Karma Cleansing ("Believe" no mercado japonês, com tracklist diferente) é um elo entre o Hard Rock clássico do Harem Scarem e o que se tornaria mais tarde o projeto Rubber, mais pop e acessível. O disco anterior, "Voice Of Reason", foi considerado dark demais para os fãs (mas com o tempo foi ganhando status de cult) e por isso a banda quis apostar no oposto, ou seja, em canções mais melódicas e conforme o mercado radiofônico da época.
"Die Off Hard" é a música mais lembrada do disco, pelo seu videoclipe mostrando um visual mais comtemporâneo do quarteto (cabelos curtos e aquelas camisas de fazer inveja so Sugar Ray). Ela é uma releitura de uma música embrionária da banda chamada "Lost In Yesterday", mas com um refrão diferente, mas mesmo assim soa atual em termos de produção.
"Staying Away", também da fase inicial, aqui é cantada pelo baterista Darren, que tem um ótimo timbre a lá Paul Stanley (inclusive ele foi vocalista do Red Dragon Cartel de Jake E.Lee) e crucial para os backing vocals da banda, tanto que até fora dela ele contribuiu em estúdio com seus vocais.
Outros destaques incluem o single "Rain", a épica "Hail, Hail" e a noventista faixa-título. Infelizmente "Karma Cleansing" se encontra fora dos serviços de streaming atualmente, contribuindo para que ele se torne um pouco mais desconhecido pelos novos fãs. Mas vá atrás, vale a pena!
4. Harem Scarem (1991)

O álbum de estreia dos caras não podia faltar aqui. É o típico caso de disco que, se fosse lançado alguns aninhos antes, teria bombado. Mesmo assim, a meu ver, o disco peca somente por não ter faixas de mais peso, algo que seria compensado no lançamento posterior.
Mesmo assim, o disco é recheado de faixas marcantes. "Hard To Love", faixa de abertura, é um dos maiores clássicos do chamado "Melodic Rock". O refrão dela é uma das coisas mais lindas que eu já ouvi na minha vida, os vocais em harmonia, a entrega de Hess, enfim, se não conhece, já sabe. Vá conferir.
Os dois hits maiores talvez sejam "Slowly Slipping Away" (que chegou ao 25.º lugar das paradas canadenses) e "Honestly", uma balada que consegue ser brega e maneira ao mesmo tempo. Tanto que com a, na minha opinião, superior "Something To Say", fez muito sucesso nas Filipinas, lugar em que a banda chegou a tocar na década passada.
O sucesso do disco também se deve ao fato de oito músicas dele terem feito parte da série "Degrassi Junior High", uma espécie de Barrados No Baile canadense, que fez sucesso por lá. Se tivesse sido divulgado pela Warner dos EUA, talvez a banda conseguisse emplacar ao menos um hit por lá. Uma pena não ter sido o caso.
5. Change The World (2020)

Cara, como é bom ter o Scarem ainda em atividade. Foi difícil deixar ótimos álbuns como "Voice Of Reason" de 1995, e "Hope", de 2008 fora desta lista. Mas eu tive que trazer o último trabalho, e tenho certeza que após ouvir os outros quatro álbuns, experimentar "Change The World" trará um sabor mais que satisfatório.
Com Creighton Doane gravando as bateras e Darren Smith trazendo seus backing vocals, é um deleite para todos os fãs da banda.
A faixa de abertura é um show a parte. Melódica, sofisticada e com a participação do competente Tony Harnell do TNT em algumas partes, abre espaço para "Aftershock", que ganhou videoclipe e traz todos os elementos característicos deles, assim como "Searching For Meaning e o outro single, "The Death Of Me" .
"Mother of Invention", intensa e acompanhada de um belo piano, denota um tom mais intimista, enquanto "No Man’s Land" tem uma pegada quase funky, que na ponte mantém as melodias marcantes até um belo refrão, típico da dupla Hess/Lesperance.
O álbum se encerra com "Swallowed By The Machine". Moderna, com um bom riff e uma cadência diferente que mostra que a banda ainda consegue surpreender mesmo com mais de 35 anos de carreira. E sim, mais solos épicos do Petezinho maroto.
Enfim, espero que com esses cinco álbuns vocês possam se interessar por uma banda com uma discografia quase impecável, que transitou bem por diversos estilos sem perder a identidade e com uma dupla que merece nada além de respeito e admiração.
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