The Feelies: entre o silêncio e o ruído, os nerds contidos
Por Heberton Barreira
Postado em 04 de maio de 2025
Em um universo onde o rock dos anos 80 explodia em extravagância e rebeldia, os Feelies seguiram na direção oposta: discretos, de roupas simples, comportamento reservado — e uma música que parecia nascer de um estado de atenção intensa, quase obsessiva. De Nova Jersey, Glenn Mercer e Bill Million, os líderes da banda, criaram um som tão inovador que, sem alarde, deixaram marcas profundas em todo o cenário alternativo que surgiria depois.

Enquanto o mundo celebrava solos grandiosos e poses teatrais, os Feelies apostaram em um trabalho minucioso de guitarras entrelaçadas, batidas hipnóticas e uma vibração nervosa, mas contida. Nos momentos mais atmosféricos e experimentais, usavam e abusavam de efeitos de guitarras sobrepostas, drones - camadas repetitivas de acordes e riffs, com poucas variações,, que formavam um fundo contínuo para gerar uma certa tensão ou textura (quer entender melhor o que é drone no contexto musical? Ouça "Forces at Work", "Raised Eyebrows" do album Crazy Rythms. Velvet Underground e Brian Eno, duas grandes referências dos Feelies, já tinham usado bastante esse recurso) Sem estardalhaço, inspiraram bandas como R.E.M., Sonic Youth e até mesmo outros nomes do indie e do pós-punk, que trouxeram a importância daquela mistura única de urgência e sutileza.
Esse equilíbrio entre o soturno e o jubiloso define o que os Feelies são: uma banda em que o silêncio tem tanto peso quanto o ruído, e onde a contenção vale mais do que o excesso. Seus discos parecem pensar enquanto tocam — como se cada acorde fosse o resultado de um raciocínio minucioso, não de um impulso.
Influenciaram, silenciosamente, uma enorme leva de bandas nas décadas seguintes. Pavement e Yo La Tengo, por exemplo, herdaram diretamente esse espírito meio tímido, meio elétrico. Mais tarde, grupos como Real Estate, The Shins, Galaxie 500, Luna, Parquet Courts — e até mesmo partes do som mais introspectivo do Radiohead e da estética "geek" do Weezer — devem muito à linguagem que os Feelies construíram com firmeza e sem alarde. Essa influência se estende ainda a nomes como Stereolab, Deerhunter e Interpol, que souberam incorporar a combinação de tensão e delicadeza que marca a sonoridade dos Feelies.
Apesar de nunca se separarem oficialmente, os Feelies passaram anos trabalhando em projetos paralelos como Trypes, Willies e Yung Wu, explorando outras formas de música — ora mais psicodélica, ora mais acústica — mas sempre mantendo a assinatura de camadas sonoras e inquietação criativa.
No final desse artigo você pode conferir algumas faixas dos álbuns citados aqui, em versão ao vivo (propositalmente para sua percepção de performance da banda no palco). Se quiser ouvir as versões originais, por favor, ouça na íntegra com atenção o álbum na plataforma de streaming de sua escolha. Você deve achar no Youtube também.
O disco de estreia, Crazy Rhythms (1980), já deixou claro quem eles eram: uma banda que colocava o ritmo e as texturas à frente das melodias convencionais. Com fortes inspirações em Velvet Underground, Television e Byrds, os Feelies criaram uma identidade própria, fria na superfície, mas cheia de tensão e beleza para quem soubesse escutar com atenção. O manifesto inaugural define sua identidade com precisão quase matemática. As guitarras parecem conversar entre si, os ritmos são nervosos e contidos, e o som geral parece feito para quem prefere pensar antes de dançar.
Nos anos 80, voltaram ao cenário de forma mais estruturada com The Good Earth (1986), um álbum que trouxe uma sonoridade mais folk e acústica, mas ainda carregada de uma tensão sutil. O disco foi co-produzido por Peter Buck, do R.E.M., uma clara conexão entre gerações de músicos atentos ao valor da sutileza, do trabalho preciso e minucioso, descartando a grandiosidade e o espetáculo. A força propulsora está na simplicidade, na contenção, na escolha de cada timbre, cada pausa, cada repetição com propósito. É um álbum que respira e tem uma beleza quase pastoral.
Depois veio Only Life (1988), onde a eletricidade tomou conta de vez. Talvez o álbum mais completo e acessível da banda. Tem energia, textura, melodias envolventes e até uma cover explosiva de Lou Reed. Equilibra o lado mais solar com a intensidade elétrica.
Na sequência, lançaram o Time for a Witness (1991), um álbum que mostra os Feelies mais relaxados, abraçando estruturas clássicas de folk-rock e psicodelia dos anos 60, mas sem perder a identidade meticulosa que sempre os definiu. Tem groove, tem alma e fecha bem o ciclo da primeira fase da banda.
Mesmo fora dos grandes palcos, os Feelies deixaram sua marca também no cinema, aparecendo no filme Totalmente Selvagem (1986), de Jonathan Demme, tocando faixas como "I'm a Believer" - uma versão ligeira dos Monkees, "Fame" - um cover minimalista de David Bowie e "Crazy Rhythms" em uma memorável cena de reunião escolar.
Em 2023, o primeiro álbum ao vivo da banda, Some Kinda Love, trouxe 18 interpretações cuidadosas de músicas do Velvet Underground, renovando para uma nova geração a ligação essencial entre os Feelies e o VU.
Os Feelies nunca foram a banda mais barulhenta nem a mais chamativa — e é exatamente isso que torna a experiência de ouvi-los tão especial. Eles provaram que intensidade pode ser construída em silêncio, que nervosismo pode soar bonito, e que uma música feita com atenção aos mínimos detalhes pode ecoar por décadas.
Influenciaram de forma silenciosa e profunda. Abriram espaço para um tipo de rock mais sensível, inteligente e duradouro. Se você se interessa por música que pensa, que vibra em camadas, que valoriza tanto os vazios quanto os preenchimentos, faça esse favor a você mesmo. Ouça a discografia. Descobrir essa banda é como encontrar um segredo bem guardado da história do rock — e poucos segredos são tão recompensadores quanto esse.
The Feelies - Crazy Rhythms (1980)
No CBGB por volta de 1978. Uma versão inicial de "Crazy Rhythms".
The Feelies - Away
No programa Mouth to Mouth da MTV, 1988.
The Feelies - Sooner Or Later
Abril de 1990. No Bottom Line, NYC.
The Feelies - It's Only Life
No City Gardens, Trenton, NJ. Janeiro de 1989.
The Feelies - Let’s Go
Março de 2025 (Sim, os nerds mais legais do mundo seguem na ativa ainda). No White Eagle Hall, New Jersey.
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