As bizarras histórias de "Born Again", disco do Black Sabbath gravado por Ian Gillan
Por Mateus Ribeiro
Postado em 03 de março de 2024
A lendária banda Black Sabbath contou com muitos vocalistas ao longo de sua história. Entre todos os cantores que passaram pelo grupo fundado por Tony Iommi, há um que também fez história em outro titã da música pesada. O rapaz em questão é Ian Gillan, que gravou apenas um álbum com o Black Sabbath e fez história como vocalista do Deep Purple.
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O rolê que terminou em uma das uniões mais inusitadas da história do Metal
O álbum acima mencionado é "Born Again", décimo primeiro disco de estúdio do Sabbath. Lançado em 1983, "Born Again" é cercado de histórias curiosas, a começar pela forma como Ian Gillan se juntou ao Sabbath.
Gillan foi tomar umas com Tony Iommi e Geezer Butler, respectivamente, guitarrista e baixista do Black Sabbath. Na época, o Sabbath procurava por um vocalista, já que Ronnie James Dio havia puxado o carro em 1982. O rolê entre os rockstars aparentemente foi insano, de acordo com entrevista que o frontman concedeu ao jornal The Guardian.
"Eu estava bebendo com Tony Iommi e Geezer Butler. Ficamos completamente bêbados, meu empresário me ligou na manhã seguinte e disse: ‘Se você vai tomar decisões sobre sua carreira, não acha que deveríamos conversar sobre isso primeiro?’. Eu perguntei: ‘Do que você está falando?’. Ele disse: ‘Aparentemente, você concordou em entrar para o Black Sabbath na noite passada’. Eu não conseguia me lembrar de nada disso", relatou Gillan, que aceitou o desafio e decidiu gravar "Born Again".
A "magnífica" capa de "Born Again"
A capa de "Born Again", que está longe de ser uma obra de arte, mostra uma espécie de "bebê Diabo". A arte foi criada por Steve ‘Krusher’ Joule, que trabalhava com Ozzy Osbourne, o vocalista original do Black Sabbath. Steve estava em uma sinuca de bico, afinal de contas, o empresário do Sabbath era Don Arden, pai de Sharon (esposa de Ozzy). Sendo assim, ele tentou fazer um desenho contestável.
"Sharon e Ozzy Osbourne haviam se separado de forma muito amarga da gravadora e da gerência de seu pai, Don Arden. Don se vingou roubando o máximo possível da equipe de Sharon e Ozzy para o Sabbath, que ele gerenciava. Como eu estava desenhando as capas dos álbuns de Ozzy na época, também fui abordado.
A [imagem] do bebê era, na verdade, a capa de uma revista de 1968 chamada Mind Alive. Peguei algumas fotocópias em preto e branco da imagem que superexpus, coloquei os chifres, as unhas e as presas na equação, usei a combinação de cores mais ultrajante que o ácido podia comprar", relatou Steve, em entrevista concedida à Classic Rock.
Como não queria desagradar ao casal Osbourne, Steve tentou fazer um trampo de segunda categoria, porém, sua estratégia foi para o espaço quando Tony Iommi e Geezer Butler gostaram do que viram.
"De repente, tive que fazer a maldita coisa. Também me ofereceram uma quantia ridícula de dinheiro para entregar a arte finalizada em uma determinada data. Continuei adiando, até a véspera, quando entrei em ação com a ajuda de um vizinho, Steve 'Fingers' Barrett, uma garrafa de Jack Daniel's e a velocidade mais imunda que o dinheiro poderia comprar. Fizemos o trabalho em uma noite, mas, estranhamente, Max Cavalera [Sepultura, Soulfly] e Glen Benton [Deicide] disseram desde então que essa é a capa de álbum favorita deles!", complementou o artista responsável pela curiosa capa que fez Ian Gillan vomitar.
"Quando voltei das férias, descobri que eles haviam me enviado um pacote com 20 álbuns do 'Born Again'. Olhei para a capa e vomitei", afirmou o frontman, quando foi entrevistado em 1984 por Geoff Barton.
Ian Gillan também não gostou do que ouviu
"Born Again" apresenta uma sonoridade curiosa e músicas interessantes, como "Digital Bitch", "Zero The Hero", "Thrashed" e a faixa-título. No entanto, Gillan não gostou do que ouviu. Ele inclusive chegou a jogar uma cópia do disco pela janela do seu carro, como ele mesmo contou à rádio espanhola RockFM.
"Eu não quebrei [o disco]. Joguei pela janela do meu carro. Olha, fiquei desapontado. Eu não tinha a mentalidade de todos os caras do Sabbath. Eu adorei [ser membro da banda]. Tive um ano fantástico; foi insano. Mas quando terminamos as mixagens, tudo soa fantástico. Foi a última coisa que ouvi no estúdio de gravação. Quando ouvi o álbum, pensei, ‘O que é isso?’ O estrondo do baixo foi um pouco demais para mim. Fiquei desapontado com a mixagem final. Não sei o que aconteceu entre o estúdio e a fábrica, mas algo aconteceu", disse Gilan, que também encarou a turnê de divulgação do disco.
Fumaça, Stonehenge e a queda de um anão
A turnê de "Born Again" ficou marcada por momentos pitorescos. Logo no primeiro show, por exemplo, Ian Gillan passou por um perrengue que poderia ter sido evitado.
"Com todo o dinheiro que estava sendo gasto, eles nunca tinham usado gelo seco nos ensaios, mas então apareceu uma parede de gelo seco na altura dos ombros. E quando me abaixei para ler a primeira linha, as luzes do chão se acenderam, me cegando. Eu estava batendo no ar para afastar a fumaça. Foi puro Spinal Tap, um momento de pânico", relembrou Gillan, que tinha um caderno com as letras das músicas.
Como era de se imaginar, o público achou o primeiro show da turnê de "Born Again" engraçado. "Eu olhei para fora e todo o público estava rindo. Foi inacreditável", acrescentou o cantor e compositor.
Outro episódio marcante da tour de "Born Again" aconteceu por um erro de comunicação. Como uma das faixas do disco se chama "Stonehenge", Don Arden achou uma boa ideia customizar uma réplica da famosa e colossal estrutura de pedras localizada na Inglaterra. Geezer Butler, por sua vez, não ficou muito feliz.
"Presumivelmente porque tínhamos um instrumental chamado ‘Stonehenge’ no álbum, Don queria um cenário de Stonehenge, com um sol enorme surgindo atrás das pedras à medida que o show avançava. Achei que era uma ideia totalmente ridícula", afirmou Butler, em trecho do seu livro "Into The Void" publicado no site da Classic Rock.
Pois bem, os designers responsáveis pela obra confundiram os sistemas de medidas e trocaram pés por metros. Sendo assim, o Stonehenge do Sabbath ficou três vezes maior que o planejado.
"Quando ensaiamos no National Exhibition Centre, em Birmingham, as pedras foram colocadas no chão e realmente pareciam muito expressivas. Mas quando fizemos nosso primeiro show da turnê na Noruega e colocamos as pedras no palco, elas estavam quase tocando o teto", complementou Butler, que comentou outra ideia bizarra de Arden.
"Foi quando Don teve outra ideia: [Ele disse] 'Vamos colocar um anão rastejando em cima das pedras, vestido como o bebê diabo da capa do álbum'. Em nosso show no Canadá, esse pequeno sujeito, que estava vestido com um collant vermelho, com longas unhas amarelas e chifres presos na cabeça, estava se arrastando pelo topo da pedra mais alta e caiu. Na verdade, isso deveria ter acontecido, mas alguém havia removido os colchões, e o pobre coitado se machucou gravemente. Esse foi o fim do bebê demônio."
No fim das contas, Gillan saiu do Sabbath e retornou ao Purple em 1984. Quanto ao Sabbath, o grupo começou uma troca frenética de integrantes, que se arrastou até a década seguinte. Mas isso é assunto para outra matéria.
Agora que você sabe um pouco mais sobre "Born Again", é hora de curtir esse disco do Black Sabbath. Aperte o play e boa diversão.
Álbum: "Born Again"
Banda: Black Sabbath
Gravado por: Ian Gillan (vocal), Tony Iommi (guitarra), Geezer Butler (baixo), Bill Ward (bateria) e Geoff Nicholls (teclado)
Tracklist
"Thrashed"
"Stonehenge"
"Disturbing The Priest"
"The Dark"
"Zero The Hero"
"Digital Bitch"
"Born Again"
"Hot Line"
"Keep It Warm"
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