Hellhammer: eu realmente esperava reações negativas ao gravar com o Antestor

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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Arcturus, um dos maiores expoentes do estilo chamado Avant-Garde Metal, apresenta-se em São Paulo em 4 de março, no Hangar 110, promovendo o seu mais novo álbum, 'Arcturian'. Além de Steinar Sverd Johnsen e Knut Magne Valle (guitarras), Hugh 'Skoll' Mingay (baixo), ICS Vortex (Borknagar, ex-Dimmu Borgir) nos vocais, Sebastian Grouchot (violino) e, ninguém menos que, Jan Axel 'Hellhammer' Blomberg, na bateria. Hellhammer é também baterista do MAYHEM e participou de algumas dezenas de outras bandas, inclusive da banda de Unblack Metal ANTESTOR. Conversei com Jan Axel sobre vários assuntos, principalmente sobre o show do dia 4, mas também sobre o black metal norueguês, sobre queimar igrejas e gravar para uma banda cristã. Confira logo abaixo uma das entrevistas mais interessantes, mas também das mais difíceis, que já fizemos.

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Daniel Tavares: Quais são suas expectativas sobre o show no Brasil em 4 de março?

Hellhammer: Bem, eu lembro do Brasil como um grande país, então, para mim será um grande prazer voltar para o Brasil. Absolutamente.

Daniel Tavares: Como você tem visto a recepção ao novo álbum, 'The Arcturian'?

Hellhammer: Tem sido muito boa. Estamos contentes com tudo, sabe. Parece que os antigos fãs apreciaram, sabe, termos voltado a sabe, como dizer?, termos voltado a um estilo mais pesado, talvez mais obscuro e, também há outras canções que eu acho que vai ter mais apelo junto aos fãs mais novos. É um álbum muito misturado. Pra mim, pessoalmente, é acho que é uma mistura. O método de produção é meio tipo old school. Eu acho que é muito bom. Não é comercial, de forma nenhuma. Mas, sabe, eu gosto dele.

Daniel Tavares: A melhor coisa no Avant-Garde Metal, em minha opinião, e também no Rock e no Metal Progressivo, é o efeito surpresa. Nós nunca sabemos o que vem em seguida, no próximo minuto de uma canção. Você compartilha este sentimento?

Hellhammer: Isto é correto. Sabe, isto tem sido bem típico no ARCTURUS, esta diversidade nas canções e nos álbuns. É isso que pra mim também faz com que seja interessante.

Daniel Tavares: O que você acha que o Dead e o Euronymous, seus amigos falecidos do MAYHEM, diriam sobre a música do ARCTURUS, com todos os sintetizadores e vocais limpos, etc.

Hellhammer: Eles amariam, claro. Sobre os sintetizadores, existe um desentendimento comum de que o Euronymous odiava os sintetizadores porque eu me lembro claramente de uma banda que incorporava sintetizadores e o Euronymous decidiu contratar essa banda. Eu acho que ambos achariam nossa música muito boa. Absolutamente.

Daniel Tavares: Por que você acha que o Black Metal é tão popular na Noruega. Aqui no Brasil a gente até brinca dizendo que existe algo na água da Noruega que faz com que todas essas bandas boas de Death Metal e Black Metal venham do seu país?

Hellhammer: O Black Metal não é tão popular aqui na Noruega, na verdade. Existem muitas bandas de Black Metal vindo daqui, mas no geral não somos tão populares. E por quê? Eu não sei. Eu acho que é uma coisa nortista. Nós não seguimos nenhuma regra. Não seguimos nenhuma regra pra vender música. Não seguimos nenhuma regra das gravadoras dizendo, tipo, 'ok, você tem que ter essa canção, não esta canção, isto ou aquilo'. Nós não seguimos isso, sabe. O Black Metal é assim tão típico. O que eu chamo de Black Metal, pelo menos.

Daniel Tavares: Deixe-me refazer a frase. Conhecemos muitas bandas de Black Metal, Death Metal daí. Eu sinto muito que isso seja tudo o que ouvimos vindo da Noruega, Suécia e todos os países do Norte da Europa. Eu dificilmente consigo me lembrar de algum outro estilo de música que não seja Heavy, Black ou Death Metal, mas, ok. Eu gostaria de falar agora sobre o ANTESTOR. Você foi baterista de estúdio em 'The Forsaken'. Você esperava alguma reação negativa dos fãs do MAYHEM ou dos membros do MAYHEM? Você teve algum momento negativo por ter feito esse disco com o ANTESTOR?

Hellhammer: Absolutamente não. Pelo menos ninguém me disse nada na minha cara. Então, eu ouvi algumas pessoas com mimimi, blablablá, fazendo comentários estúpidos, mas ninguém me disse nada negativo por participar ou por tocar nessa banda. E sobre reações, se eu estava esperando alguma negatividade? Sim. Absolutamente. [risos] Eu estava realmente esperando por isso.

Daniel Tavares: Você queria a reação e ela não veio, então você ficou um pouco chateado com isso, foi o que entendi?

Hellhammer: Bem, eu estava esperando, mas, sabe, sabe, não veio, então, eu... pra mim foi como... ok, eles podem escrever merda na Internet, mas isso não significa nada. Se eles realmente querem dizer isso então, foda-se, tem que dizer na minha cara.

Daniel Tavares: Você tem estado em cerca de vinte bandas ou mais em sua carreira, ARCTURUS, MAYHEM, GORGOROTH... Existe alguma banda que você tenha deixado que você gostaria de voltar?

Hellhammer: Bem, sim, absolutamente. Provavelmente todas elas, mas isso tem a ver com tempo e paciência. Antes que eu tivesse todos os compromissos que eu tenho agora, com crianças pequenas, trabalho e coisas assim como... então, e além disso foi interessante participar de todas essas bandas porque eu cresci em experiência e eu só queria tocar. Era a minha vida. É a minha vida. Enquanto você fica mais velho você deixa de ter tempo porque tem outros compromissos. Mas, claro, sabe, eu amaria tocar em todas essas bandas outra vez. As limitações tornam isto impossível. Infelizmente.

Daniel Tavares: E qual a sua posição em relação a religião? Você acredita em alguma coisa?

Hellhammer: Oh, sim, eu acredito em algo. Se você não acredita em nada é... [Hellhammer faz uma pausa, dá uma longa respirada e uma risada antes de continuar respondendo] é... bem, você pode dizer que acredita em si mesmo, claro, sabe, se você vê a si mesmo como um deus o que resta para se esforçar? Como você pode se desenvolver? Como pode progredir? Então, absolutamente, relacionando a hoje é uma coisa fudida. Então, é muito importantante não deixar subir à cabeça. [Hellhammer ainda disse uma última frase, mas,muito introspectivamente. Infelizmente, não conseguimos traduzir]

Daniel Tavares: Ok, durante os eventos relacionados ao Inner Circle, muitos edifícios históricos, igrejas cristãs, foram queimados. Olhando pelo aspecto artístico e histórico, não exatamente apenas pelo aspecto religioso, você poderia dizer hoje que queimar algumas das quelas igrejas, que as pessoas que queimaram aquelas igrejas podem ser comparadas ao que os talibãs fizeram às estátuas de Buda no Afeganistão, por exemplo?

Hellhammer: [Uma longa pausa]. Não. [Mais uma pausa] Eu não diria isso. É... É... [Hellhammer respira profundamente]. As coisas de queimar igrejas foram... bem, em primeiro lugar, o Inner Circle ou as pessoas que fizeram isso não eram uma organização militar, como o Talibã. Eles não tinham uma crença comum, como os islâmicos. Então, sabe, isso tudo aconteceu em uma escala menor. Então, eu, não, eu não consigo ver nenhuma similaridade. Absolutamente não.

Daniel Tavares: Ok. Constrastando e comparando o nosso tempo presente, com pessoas sendo assassinadas pelo Estado Islâmico na Síria e pelo Boko Haram na África, tudo por causa de religião, você acha que, em certo sentido, nós estamos vivendo na idade das trevas novamente, como quando a Igreja Católica torturava e queimava pessoas?

Hellhammer: [Hellhammer respira muito profundamente mais uma vez. É possível sentir que ele pode estar perdendo a paciência. Obviamente estamos desviando muito do assunto principal da entrevista, o show com o ARCTURUS, mas, diante de uma figura como ele não podíamos deixar de abordar assuntos como esses. E abordaríamos ainda mais, caso o tempo e a paciência do entrevista assim permitissem. Bem, também pode ter sido apenas impressão minha]. Bem, é... De certa forma, hoje nós temos mais escolhas do que teríamos naqueles dias. Então, eu não diria que nós vivemos na idade das trevas. Nós hoje somos mais espertos, quero dizer, a humanidade tem progredido e se desenvolvido. E você tem escolhas. O que é bem diferente de como era naquela época. Bem, esta é uma guerra religiosa, eu diria, em diferentes termos, que você não tem que fazer isto ou aquilo. Pelo menos não neste ponto. Bem, pelo menos ainda há tempo para evitar todo este tipo de cáos, sabe. Pelo menos, eu espero isso.

Daniel Tavares: Ok. Vamos voltar para a música. Além de Heavy Metal, CELTIC FROST, por exemplo, de quem você tirou o seu nome, quais são as suas principais influências.

Hellhammer: Bem, claro, é apenas um nome, HELLHAMMER, CELTIC FROST... sabe as duas das minhas bandas favoritas que me inspiraram são CELTIC FROST e MERCIFUL FATE, essas duas bandas especialmente, neste tipo de música que chamamos de metal extremo. I sempre busquei a escuridão, as melodias obscuras, e claro que eu também gostava de IRON MAIDEN e outras coisas do Heavy Metal, mas eu sempre procurei por algo mais negro. E eu encontrei isso nestas duas bandas e também no VENOM. O VENON nunca existiria se não fosse o MAYHEM [agora Hellhammer já está bem mais descontraído, ri e percebe que trocara o que ia falar] Opa, desculpe. O MAYHEM nunca existiria se não fosse o VENOM. Existem muitas inspirações. Eu ainda encontro novas inspirações. Quando você fala em metal, pelo menos pra mim, estas bandas tocavam a música que eu queria, que eu estava buscando, que tinham este tipo de obscuridade.

Daniel Tavares: Existe alguma banda brasileira nessas influências?

Hellhammer: Absolutamente, tem todas essas coisas do SEPULTURA, da parte mais antiga. Absolutamente, a cena brasileira foi importante para o MAYHEM. Naqueles dias, era muito importante. Ainda hoje eu me inspiro no Iggor Cavalera. Ele tem esse estilo fantástico de tocar bateria, de fazer algumas coisas ao mesmo tempo, de tocar [aqui, Hellhammer descreve mais algumas características de como Iggor toca, de como faz com cada uma das partes do kit], eu realmente amo isso, é ótimo. Eu amo isso.

Daniel Tavares: Eu acho que estamos estourando o tempo. Eu gostaria de pedir pra você pra deixar uma mensagem para todos os seus fãs brasileiros, especialmente para os que vão no show do ARCTURUS, ou que vão ler isto no Whiplash ou ouvir na Metal Militia Web Radio.

Hellhammer: Sim, bem, como eu disse eu amo estar aí. Eu sempre tive uma boa experiência todas as vezes que estive aí. Então, eu espero ver todos vocês na turnê e depois, quando o MAYHEM voltar, eu espero vê-los de novo. Saúde.

Daniel Tavares: Obrigado, foi um prazer conversar com você.

Hellhammer: Absolutamente o mesmo. Muito obrigado e eu te vejo no Brasil.



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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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