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Gangrena Gasosa: "Que porra é essa de headbanger conservador?"

Por Mateus Ribeiro
Em 18/10/18

Angelo Arede é vocalista da Gangrena Gasosa. Caso você tenha passado os últimos anos na Lua, e não conheça a banda, estamos falando da primeira e única banda de SARAVÁ METAL do Planeta Terra.

A mistura de metal e hardcore com pontos de umbanda, além das letras bem-humoradas (e em alguns casos, um tanto quanto ácidas), transformaram a Gangrena em uma das bandas mais originais da música pesada brasileira e mundial.

A Gangrena, que dispensa maiores apresentações, está divulgando seu mais novo álbum, "Gente Ruim Só Manda Lembrança Pra Quem Não Presta", e no dia 20/10 (sábado) se apresentará no SESC Pompéia (São Paulo/SP). O show será o lançamento oficial da versão em vinil do mais recente disco da banda.


Talentoso, autêntico, verdadeiro. Esse é Angelo. O porta voz de uma das bandas mais legais da música brasileira gentilmente respondeu algumas perguntas, e falou sobre a banda, o cenário musical como um todo, e muitas outras coisas. Acenda sua vela, aperte o play e confira!

Mateus Ribeiro: Não precisa ser muito esperto para saber que o Gangrena tem letras controversas, além de um visual peculiar. Algum desses fatores gera, ou gerou problemas para a banda?

Angelo Arede: Sempre gera, mas a arte tem que provocar mesmo. No nosso caso provocamos mais desconforto que agrado, principalmente nos mais conservadores.

MR - Você acha que essa onda conservadora que vivemos atualmente permitiria o surgimento de uma banda com proposta parecida com a do Gangrena?

AA: Nesses tempos é que se faz mais necessário ainda. Ter como tema religião de matriz africana, humor, desbunde e colocar percussão no Metal por si só já é uma afronta aos padrões estabelecidos. Eu acharia do caralho que existissem outras bandas de Saravá Metal ou
Macumbacore. Seria bom pra que a galera que ouve som pesado perdesse ainda mais seu preconceito com o Candomblé e Umbanda, e que relaxassem mais a musculatura, fossem mais doidos. Que porra é essa de headbanger conservador? Tá foda.

MR: Podemos notar que o último disco do Gangrena Gasosa (Gente Ruim Só Manda Lembrança Pra Quem não Presta) está um pouco mais pesado e bem produzido que os anteriores. A que se deve essa mudança?

AA: Evolução natural mesmo. Temos a formação mais estável e unida de 28 anos de banda e isso se reflete no "Gente Ruim". Sobre estar bem produzido, também é culpa do Iuri Freiberger e do Estúdio Dissenso.

MR: A grande maioria das letras da banda fala sobre Umbanda e Candomblé. Você pensa em abordar algum outro tema nas composições futuras do Gangrena?

AA: Já temos feito isso há um tempo. Nossa abordagem não é necessariamente religiosa. Não recebemos santo pra tocar nem fazemos rituais nos shows. O Orixá e os Exus são representados no palco como arquétipos do nosso imaginário popular. Tem muito mais a ver com fazer um paralelo brasileiro do ocultismo comum no Metal através da visão de quem cresceu na periferia com pitadas de filhadaputice e notas de toscaria. Felizmente esse universo é bem maior que só a religião.

MR: Falando um pouco sobre outro assunto, todos nós vimos que Roger Waters fez protestos políticos em seus shows no Brasil. A repercussão foi grande, e muita gente reclamou, "argumentando" que artista não deve se posicionar. Enquanto artista e cidadão, o que você pensa sobre o protesto de Roger Waters, e sobre as reclamações de parte do público?

AA: Eu não esperava outra coisa do Roger Waters. Antes de ser um protesto político é uma verdadeira sinceridade humanitária. Como diria Nina Simone, os artistas devem refletir o seu tempo. Muitos optam por ficar em cima do muro, mas eu encaro ficar indiferente à onda desumana que vem acontecendo no mundo inteiro como covardia.

AA: Quanto ao público, é muito ridículo a pessoa que escuta Pink Floyd ainda se espantar com o seu posicionamento antifascista. Só perde pra vergonha de abrir Boletim de Ocorrência contra ele.

AA: Imagina quando souberem que o rock psicodélico do Pink Floyd também fazia apologia às drogas psicodélicas? Haja panela e dancinha do impeachment.

AA: Aqui em Pindorama nossa geração só começou agora a flertar com força com o fantasma do fascismo. O desmonte do acesso à cultura nos anos de chumbo acabou levando os artistas, principalmente os mais jovens, a baixarem a guarda frente a essa ameaça nas últimas décadas. Era muito diferente há 15, 20 anos atrás, quando ainda experimentávamos nossa jovem democracia e não podemos mais nos dar ao luxo de deixar tudo passar batido. Nossos próprios cus estão na mira da seringa. E essa agulha tem a ponta rombuda pra cacete.

MR: Já aconteceu de algum fã ir até o show do Gangrena Gasosa e se assustar com o que encontrou no palco, ou os seguidores da banda sabem o que irão encontrar em uma apresentação?

AA: Só em festivais. O bom é que apesar da porradaria desgracenta nas músicas, quem fica conhecendo a banda no show acaba curtindo o clima de maluquice e normalmente se converte ao Macumbacore.

MR: Você imaginou que a banda pudesse chegar tão longe?
AA: Imaginei. Trabalho todos os dias pra isso há catorze anos sem parar.

MR: Existe alguma banda que você gostaria de dividir o palco?

AA: Slayer

MR: Em algum momento, mais precisamente, em algum momento ruim que você passou, você já cogitou pensar que era por influência da banda na sua vida? Aliás, como você lida com letras tão delicadas?

AA: Já aconteceu uns anos atrás, não vou mentir. Quando a gente toma aquela bordoada da vida e fica meio embeiçado, com a etiqueta pra fora, é claro que um monte de merda vem à cabeça. Agora além de estar com todas as minhas obrigações em dia, me consulto e peço licença ao meu Exu pra não tomar um coió brabo de bobeira.

MR: Qual a letra da banda que você mais gosta?

AA: O Saci. Eu estudei obsessivamente o folclore desse moleque. Desde Monteiro Lobato e Câmara Cascudo até dias mais recentes. A letra é baseada nos registros históricos de suas supostas aparições e a melodia do começo é inspirada no canto da Matinta Pereira, pássaro que
segundo o folclore é uma das formas que o Saci pode assumir pra ficar dichavadinho azucrinando e agourando uzôto.

MR: E existe alguma que você não é tão fã?

AA: Não curto a música "Emboiolada". Me inspirei em algumas batalhas de embolada onde os combatentes usam de sarcasmo e provocações com a possível sexualidade do outro e acabei fazendo uma letra de tiração de sarro sobre algumas androginias utilizadas no Metal. Essa abordagem é muito comum principalmente para os artistas mais antigos de embolada, mas não cabe mais na sociedade atual. E nem deve!

AA: Ela foi composta uns 13 anos atrás, antes da grande popularização da internet. Como as redes sociais ampliam o círculo de amizades pra além da sua bolha, acabei percebendo como isso atingia de forma irresponsável as pessoas. Ainda acho que o humor não pode ter censura, desde que reflita as coisas em que você acredita. E eu não acredito que reforçar estereótipos negativos de grupos que já são massacrados diariamente seja mais importante que a minha liberdade de expressão. Ser politicamente incorreto não quer dizer que você tenha que ser babaca.

MR: O que você costuma ouvir, Angelo? E quais são as principais influências no som da Gangrena?

AA: Normalmente transito entre Metal Extremo, Psicodelia, Soul Music e Ritmos Brasileiros. Já o som da Gangrena tem como base principal a nossa própria vivência de música pesada seguida da riqueza da percussão brasileira. É um puta desafio e ao mesmo tempo é a parte mais gostosa de se compor na banda.

MR: Quais as suas expectativas para o futuro do Gangrena, e para o futuro do cenário da música pesada brasileira?

AA: Minhas expectativas na Gangrena Gasosa são tornar a música percussiva brasileira tão pesada e agressiva quanto qualquer Metal Extremo e levar o nosso som a todas as partes do mundo cantando em português. Não é fácil, mas eu sou maluco legal e finalmente encontrei mais 5 pessoas que dão ideia pra minha doideira por serem tão porraloca quanto eu.

MR: Você acha que a classe dos músicos brasileiros é unida?

AA: Poderia ser mais. Pra mim os artistas e bandas de música pesada daqui, principalmente no Metal, deveriam tomar como exemplo a cena de Carimbó do Pará, onde todos os artistas se ajudam, participam dos projetos dos outros e se unem inclusive organizando festivais. Os resultados de se remar na mesma direção são o crescimento e profissionalização inevitáveis da cena. Espero ansiosamente o dia que isso comece a acontecer de forma mais ampla.

MR: Gostaria que você deixasse uma mensagem para os fãs.

AA: Já começamos a compor músicas novas e até começarmos a lançar esse material chocrível queremos ver todo mundo chegando junto pra curtir nossa gira, no mínimo você vai ver um monte de gente esquisita tocando música estranha. Não sejam metaleiros só nas redes sociais, compareçam também aos shows das bandas da sua cidade. Sem público não tem banda e sem banda não tem cena de música pesada. Também não se esqueçam que quem dorme com morcego acorda de cabeça pra baixo e gente ruim só manda lembrança pra quem não presta.

MR: Para encerrar, uma dúvida: você já conseguiu entender Matrix?

AA: Mó mentira aquela porra. Já viu alguém sumir no telefone por acaso?

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Sobre Mateus Ribeiro

Fã de Ramones, In Flames e Soilwork. Ouve (quase) tudo, desde rock clássico até black metal.

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