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O mercado gospel está inchado. Há pouco mais de 20 anos, além do preconceito, sofria com a falta de estrutura, porque público sempre teve, mas o mercado tinha seu reduto nos templos, retiros e eventos eclesiásticos, com publicidade muito particular. Ao final da década de 90, com a explosão do campo midiático cristão, até quem não queria ver, passou a perceber o potencial de músicos cada dia mais experientes e talentosos. Quem diria, mas muitos não sabem que até o início dos anos 80, existiam igrejas que proibiam a presença de bateria em seus cultos. Muita coisa mudou.
Se ainda existe um resquício de rejeição, hoje ele se dá mais por conceitos que permaneceram com o tempo, do que propriamente por qualquer outra razão. A música gospel em sua maioria, é influenciada principalmente no campo do soul. Mesmo assim, já se tem conhecimeto de bandas de metal, grupos de pagode, forró e toda a variedade musical, coisa absolutamente impensável há anos atrás.
Dentro deste caldeirão está o Oficina G3. A banda paulista que teve seu primeiro disco de estúdio lançado em 1993, há 16 anos, é uma percussora do movimento gospel rock. Persistente e com um grupo de fãs fervorosos, o Oficina, já passou por várias fases, caracterizado por seus vocalistas. Na primeira fase, com o vocalista Luciano Manga (1990-1997), a banda apostava num som mais rock n’roll, lembrando muito a primeira fase do rock nacional secular, como por exemplo o Barão Vermelho. Com a entrada de PG, a partir do disco Acústico (1998), o som da banda, se não ficou pasteurizado, tinha uma pegada mais pop, sem descartar o rock, estilo visceral das origens da banda. O som da banda melhorou. Nesta época Juninho Afram começa a desfilar sua variedade estilística, com muito punch na guitarra e muita sensibilidade no violão. A banda torna-se popular, sem perder a identidade. Não importava se a banda tocava com mais peso ou com um o som mais clean, ali se percebia o dna do G3 (como a banda era conhecida, até lançar o primeiro disco).
No disco Humanos, ainda com PG nos vocais (ele sairia no disco posterior, Além do que os olhos podem ver), os timbres de guitarra estão “gordos” e “graves”. Ali estava a semente do som que a banda estaria executando em 2005, no pesadíssimo Além dos Que Os Olhos Podem Ver, agora com o guitarrista Juninho Afram, assumindo também os vocais. Esse disco trouxe para o ouvido dos fãs de prog metal, algumas semelhanças do som do Oficina com (talvez) a maior banda de prog metal atual, Dream Theater. Nesta época a banda já colecionava algumas indicações, como a que a recebeu para o Grammy Latino, para melhor album de música cristã em lingua portuguesa. A banda passa a entrar em outro patamar, especialmente Juninho Afram, que passa a ser capa de várias revistas especiliazadas, sendo apontado como um dos melhores guitarristas do Brasil, em seu estilo.
2008. Juninho deixa os vocais e os entrega ao excelente Mauro Henrique, um grande acerto e é este vocalista que grava um dos grandes discos de 2008. Depois da Guerra é um disco que faz o que parecia impossível: eleva o status da banda, tirando-os definitivamente dos muros eclesiásticos, para os colocar em pleno destaque na música brasileira. Não se pode deixar de destacar a produção impecável do disco, que, conseguiu fazer um disco pesado, repleto de arranjos híbridos, sem fazer com que ele soasse confuso, pretensioso (no mal sentido da palavra) e sem direção.
Há um entrosamento audível, em todo o disco. Mauro parece o primeiro vocalista da banda, como se jamais tivesse integrado outro grupo. Empresta vivacidade e técnica a todas as letras cantadas no DDG. O mais impressionante da sua performance é que o vocalista demonstra autenticidade, não parecendo com este ou aquele, o que poderia ser absolutamente normal, quando se fala de influências. Depois da Guerra é o décimo terceiro disco da banda (incluindo os ao vivo e as coletâneas), mas o folêgo é de principiante. Som encorpado, bases pesadas, alternando com teclados limpos e agudos, dando o contraste necessário a uma condição melódica, Depois da Guerra é sofisticado nas canções. Nas letras, a banda é simples, quase didática. A proposta parece se basear num contexto cristalino, para que não fique dúvidas acerca do objetivo da banda: um discurso panfletário, não xiita e do bem. Sem que panfletário possa ter uma conotação negativa. A estrutura melódica é intricada, desde os tempos de Luciano Manga. A banda não recorre a refrões adocicados, quase sempre característica deste mercado. As melodias são tonais, mas não muito fáceis; a banda tem um jeito muito próprio de se expressar melodicamente.
Destaque para Continuar, uma canção forte, direta e com seus teclados lounge e sua música sombreada por um baixo marcante, preciso e a bateria que por horas lembra um relógio (no contratempo e na caixa). Voz realçada, emoção no refrão, guitarra grave sublinhando com as notas da cabeça do acorde, dão um jeitão de canção radiofônica. Lembra (muito) Dream Theater á época do Image & Words. Depois da Guerra, a canção, é uma porrada na orelha nas brigas eclesiásticas que só enfraquecem o movimento cristão, em nome das diferenças. O tema, tem uma guitarra suja e outra bastante grave, sublinhando o bumbo matador. Lógico que a música também tem aquelas convenções (frases feitas em comum, baixo, guitarra, bateria e teclado) que deixam fãs de música boa, de boca aberta, mediante tanta sincronia. Haja metrônomo!
Incondicional é uma grande canção. Lembra aquelas baladas do Nickelback. Sem que isso possa ser entendido como uma crítica negativa. Lá estão mais uma vez a guitarra grave, o baixo “gordo”, desta vez, acompanhados do violão e do teclado, desta vez um orgão discreto.
Obediência tem uma das mais belas melodias do disco. Mauro é agressivo, sem que pareça gutural, tal qual qualquer banda de doom/gótico. Atenção ás frases de guitarra (tanto as bases como as que emolduram cada trecho), cavalares. Penso que Juninho Afram escutou muito Hetfield e companhia.
Encerra o disco, uma trinca de canções cantadas em inglês, Better (do repertório da antiga banda do vocalista, Mauro Henrique), People Get Ready (cover de Curtis Mayfield) e Unconditional, uma reprise de Incondicional, em inglês. Aí fica impressionante a qualidade da banda, lembrando muita banda gringa que a gente pagaria pau, por serem de fora.
Esse disco não é um disco comum e vem celebrar e coroar, uma das mais dignas e confiáveis bandas de rock do universo gospel, mas que preferiu não se vender ás fórmulas chapadas e ludibriantes dos “adoradores de plantão”. Ouça no volume máximo.
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