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Hateful Agony - "Almas Queimadas" é uma densa e taciturna epopeia sensorial

Resenha - Almas Queimadas - Hateful Agony

Por
Postado em 07 de março de 2026

Perturbador. Um adjetivo autossuficiente, que esgota, em sua própria definição, a complexa dimensão musical de Almas Queimadas, da banda Hateful Agony.

A refinada tapeçaria musical sobre a qual se soergue esse escultural trabalho impele-me, porém, ao aprofundamento mais detalhado na análise, para além do emprego de isolada locução.

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Partindo, porém, do princípio: Hateful Agony é um conjunto nacional, radicado na cidade de Artur Nogueira, que desenvolve uma proposta que transita entre o black metal depressivo e o doom metal, amalgamando-os.

O núcleo da musicalidade do conjunto, portanto, seiva-se das fontes melancólicas do heavy metal, às quais se incorporam camadas frio-taciturnas de horror e de suspense (inclusive em razão das inquietantes ambientações primorosamente inseridas, oportunamente detalhadas ao longo desta resenha).

Como paralelos estilísticos, citam-se conjuntos como Thy Light, Evoken e Esoteric, referências que emprestam ao leitor, já de partida, alguma compreensão da proposta idealizada por Hateful Agony (preservada a identidade que torna singular o conjunto).

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Almas Queimadas, lançado em 2014, é o segundo álbum full-length do Hateful Agony. Trata-se de trabalho conceitual, com letras inteiramente em português, que aborda o trágico incêndio ocorrido no Edifício Joelma, em 1974, no centro da cidade de São Paulo. A temática lírica de Almas Queimadas volta-se, porém, a uma abordagem sobrenatural desse triste e fatídico evento.

Para delinear um panorama geral da musicalidade encontrada em Almas Queimadas, a trevosa ambiência que dita o seu tom ritma-se ao compasso de andamentos cadenciados, envoltos por camadas de uma aura triste-aterradora, acompanhadas por angustiosos vocais rasgados. O ouvinte é, assim, exposto a, e confrontado por, sentimentos de medo, de apreensão e de melancolia, tudo sob a regência de uma moldura densa, gélida e elevadamente perturbadora.

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Essa síntese talvez já satisfaça, nos aspectos principais e aos propósitos de uma resenha, à construção da ideia sobre a qual se funda, musical e tematicamente, a proposta de Almas Queimadas. Quanto ao mais, o alerta de praxe: a experiência, a degustação e as percepções competirão ao ouvinte, em sua íntima apreciação.

De todo modo, há alguns detalhes que merecem destaque. E, nesse ponto, uma advertência: em linhas gerais, evito a elaboração de resenhas que explorem cada faixa, individualmente. Faço-o tanto para não tornar cansativa a leitura quanto para preservar um espaço de surpresa ao ouvinte (o que seria frustrado, ou ao menos limitado, caso saturada a análise de todas as composições, em seus completos detalhes).

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Priorizo, em regra, abordagens focadas nos aspectos estruturais principais do trabalho artístico-musical, ainda que citadas, pontualmente, algumas canções.

Aqui, porém, fugirei ao protocolo. Isso porque cada canção de Almas Queimadas possui marcas identitárias que não podem ser despercebidas e, assim, omitidas, sob pena de indesculpável negligência. Focarei, de todo modo, nas respectivas especificidades.

Do poço às cinzas..., faixa de abertura, é uma composição instrumental moldada sob requintado arranjo de piano. Com uma moldura estética atmosférica, a audição inaugura-se com elevado tom fantasmagórico e com verniz de suspense.

Após, então, aclimatar o espírito em clima soturno, o ouvinte é exposto à cadenciada explosão sonora que se irrompe em A tragédia, após breve introdução climática.

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Os contornos de A tragédia deitam raízes na sensorialidade do horror. A canção é longa, densa e arrastada. Ao avanço de seu percurso, o ouvinte, magnetizado, é conduzido, em estado hipnótico, quase catatônico, por meandros tétricos de comoção, de medo e, em certa proporção, de enigma.

A tragédia conecta-se imediatamente com a faixa subsequente, Os 13 Espinhos, por meio de uma ambientação instrumental flamejante, que interliga, sem interrupções, ambas as composições.

Aliás, um parêntese: diversas ambientações são revisitadas, com distintos vernizes, ao longo da audição. Essas inserções enriqueceram o resultado de Almas Queimadas, com a incorporação de matizes e multicamadas que potencializaram a sensorialidade da angústia, do medo e da melancolia, satisfatoriamente alcançada nesse trabalho.

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Regressando.

Se, em A tragédia, o colorido que triunfa é o do horror, em Os 13 espinhos o protagonismo pertence à desolação e à tristeza. A faixa é conduzida sob criativo e cativante arranjo de guitarra, composto num molde que lhe confere ambiência soturna e glacial de desconsolada melancolia.

A faixa Os 13 espinhos conta, ainda, com a participação de Paolo Bruno, vocalista, multi-instrumentista e mente criativa por trás do escultural Thy Light.

A inserção de vocais adicionais de Paolo elevou Os 13 espinhos a um patamar de distinta qualidade, amalgamando-se, a um trabalho já com alta carga sentimental, a tão conhecida marca identitária do vocalista. Afinal, seus inconfundíveis timbres, indefiníveis a contento no léxico, são providos de intensa carga de desespero, de agonia e de angústia.

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Num trabalho nivelado por cima, é tarefa árdua, e talvez desnecessária, a eleição da faixa favorita. Contudo, Os 13 espinhos provavelmente ocupe, em acirrada disputa, posição de preferência pessoal.

O cemitério uivante, que se sucede, mantém a lógica e a qualidade das faixas anteriores, apresentando-se ao ouvinte, porém, com uma abertura cuja sepulcral ambientação é de gelar a espinha.

Finalmente, então, O Tormento das Almas, faixa de encerramento. Não me arreceio de exagerar nas tintas para assim defini-la: essa é a canção mais perturbadora a que já fui exposto. A composição mais aterradora cujas notas gotejaram em meus tímpanos, fragilizando-me as bases da coragem.

O Tormento das Almas é uma longa composição instrumental, de 37min18s. Fugindo aos moldes típicos de metal, a canção desenvolve-se exclusivamente em uma ambientação perturbadora (perdão, aqui, pela incessante repetição do adjetivo, mas não há melhor e mais fidedigna caracterização no vernáculo). Representa, músico-artisticamente, o horror do lastimável sofrimento experimentado pelas vítimas da triste catástrofe que tematiza o álbum: o já referido incêndio do Edifício Joelma.

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O Tormento das Almas rege-se, em seu primeiro eixo, sob sonoros estalares e combustões flamejantes, aos quais se incorporam gritos desesperados. Adiante, porém, e amainando em certo aspecto o seu espírito angustioso, a faixa se converte para matizes mais atmosféricos e introspectivos, desdobrando-se, musicalmente, num verniz que simboliza, desse ponto em diante, um aspecto mais sobrenatural da tragédia.

E assim cerram-se as cortinas dessa epopeia sonora.

Com gravação e produção condizentes com a emoção que se pretende transmitir, Hateful Agony alcançou resultado completo. Almas Queimadas é um trabalho maduro, com conceito temático bem definido e explorado e com elementos musicais multiformes, completamente eficazes em sua proposta.

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A audição expõe o ouvinte no limite de suas sensorialidades, sobretudo em seus núcleos mais obscuros, interligando criativamente peso, agressividade e atmosferas de melancolia, de horror e de angústia.

As diversas ambientações, elogiosamente acrescidas, elevaram exponencialmente o patamar de Almas Queimadas. Funcionaram como diferencial fundamental ao clima alcançado e às sensações eficazmente transmitidas ao longo da audição.

Musical e liricamente, Almas Queimadas é trabalho fértil em virtudes, revalidando a afirmação, que insistentemente defendo, de que o celeiro das bandas de metal nacional concorre pela posição entre as melhores do mundo. Hateful Agony é mais um páreo nessa disputa. Um nome que fortalece e vitamina a tão rica, embora lamentavelmente tão negligenciada, cena brasileira.

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Boa audição, a que convido enfaticamente.

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Faixas:
1. Do Poço às Cinzas...
2. A Tragédia
3. Os 13 Espinhos
4. Cemitério Uivante
5. O Tormento das Almas

Formação do álbum:
D. Tenebris Lupus – Guitarra e piano.
Lord Doryan Wolf – Vocal e letras.
Beleren – Baixo.

Participações especiais:
Rafael Leal – Bateria.
Paolo Bruno – Vocal (adicional) na faixa 3.

Formação atual da banda:
Doryan Wolf – Vocal.
G. Stein – Guitarra e backing vocals.
Hugo Bromel – Baixo.
Lucas Libório – Guitarra.
Nictadorius – Bateria.

Resenha originalmente publicada na página Rock Show.

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Sobre Marcelo R.

"Marcelo R. é natural de Itu. Da fama de sua cidade, herdou alguns exageros, como o gosto pela música e pela literatura. Ávido leitor e aficionado por uma imensa gama de subgêneros do rock, possui especial paixão pelo metal nacional, do qual é incansável apoiador. É colecionador de discos, já tendo completado algumas discografias, como a do Katatonia e a do Bruce Dickinson. Nas horas vagas, é um despretensioso escritor, aventurando-se especialmente em resenhas de livros e de música. Colabora com a página Rock Show, sediada no site Medium. É formado em Direito."
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