"Ritual" e o espetáculo sensorial que marcou a história do metal nacional
Resenha - Ritual - Shaman
Por Gleiner Ambrosio
Postado em 07 de fevereiro de 2026
Explicar o enorme sucesso do álbum "Ritual" (2002), do Shaman, pode parecer algo fácil passados tantos anos desde seu lançamento. No entanto, sua consagração se deu de forma muito menos convencional do que pode parecer à primeira vista.
A partir da ruptura da formação clássica do Angra em 1999, durante a turnê do Fireworks (1998), Luis Mariutti, Ricardo Confessori e Andre Matos seguiram, cada qual, seus respectivos caminhos, deixando para trás uma história que, mesmo que continuada pelos membros remanescentes da banda a partir da formação "Nova Era" (Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro), permanece, ainda assim, um monumento musicalmente inalcançável no séc. XXI quando o assunto é metal nacional.

Andre Matos, vocalista da banda, havia se reunido com Sacha Paeth (antigo produtor dos álbuns Angels Cry (1993) e Holy Land (1996) juntamente com temido Charlie Bauerfeind) para dar início ao curto, mas curioso projeto Virgo, que rapidamente se mostrou inviável financeiramente ao maestro. Aqui, temos a primeira abertura àquilo que viria a ser a formação clássica do Shaman.
Ricardo Confessori – um dos raros casos de baterista compositor no rock e no heavy metal – já estava desde a época do Fireworks compondo algumas ideias que, ao que tudo indica, seriam dedicadas ao Angra nos anos seguintes, mas que, pela mudança de rota, começaram a ser trabalhadas e desenvolvidas para algo novo. Essas músicas eram nada mais, nada menos do que Blind Spell, Be Free (versão demo que ficou de fora do álbum, mas foi incluída em um relançamento na década seguinte – além de ser retrabalhada em uma versão mais pesada anos depois para o álbum Immortal (2007), chamada Freedom) e aquele que seria um dos maiores hinos do metal nacional, For Tomorrow.
Depois disso, Ricardo convida Luis para se juntar à banda, que trouxe consigo duas grandes contribuições: a faixa Over Your Head e, claro, o nome da banda: Shaman, com inspiração direta na atmosférica, mas criminosamente subestimada, faixa The Shaman, do álbum Holy Land.
Precisando de um guitarrista, Luís convida seu irmão, Hugo Mariutti, para alguns ensaios que, dado o talento e a performance do então desconhecido guitarrista, seriam definitivos à banda. Logo de cara, mais uma composição é adicionada: Time Will Come, uma das mais aclamadas do álbum.
Com exceção de Be Free, a banda já havia garantido cinco faixas, metade das convencionadas dez faixas necessárias ao fechamento de um álbum de heavy metal. No entanto, ainda faltava um elemento importante: o vocalista. O caminho estava aberto para, mais uma vez, Andre Matos se reunir aos consagrados músicos.
Apesar de aceitar o convite para emprestar os vocais às faixas existentes, perfeccionista e exigente como sempre, André ficou inicialmente reticente em relação às músicas dos outros integrantes. Ele, como todos sabem, foi parceiro de composição de Rafael Bittencourt, seu colega de faculdade e de composições à época do Angra, compartilhando do mesmo racional criativo. De acordo com Ricardo Confessori, a desconfiança só desapareceu quando o baterista enviou uma demo com as faixas para uma gravadora internacional (JVC) e, como resposta, recebeu aprovação e um financiamento na casa dos setenta mil dólares para produção do disco.
Passada a desconfiança, Matos trouxe suas tradicionais faixas ao álbum (notavelmente a faixa de abertura, Here I Am, e Fairy Tale, um capítulo à parte), além de outras que seriam adicionadas e compostas num processo criativo mais conjunto, já com a banda formada. Aqui, já estava se desenhando o sucesso vindouro da banda. Porém, mais do que as composições sob o limiar técnico, a grande forja constituída pela banda foi em relação à construção do conceito do disco.
Ritual, como o próprio nome já indica, funciona como um álbum conceitual antológico, ou seja, cada faixa conta uma história cuja costura reside no elemento comum dos rituais: sejam eles pagãos, profanos, sagrados ou eminentemente culturais, há um especial interesse pelos elementos atmosférico-sensoriais que cada um deles tem a "oferecer" enquanto atos procedimentais religiosos. E o maior mérito do álbum é justamente permear suas letras e composições com uma sonoridade que esteja a serviço da construção dessa atmosfera – sem que isso torne o álbum em uma obra religiosa, obviamente.
Com isso, temos um álbum que, ainda que imbuído de uma técnica inerente ao próprio gênero power-progressivo, se lastreia muito menos no virtuosismo em comparação ao caminho traçado pelo Angra no álbum Rebirth (2001). Para alcançar tal atmosfera, foram empregados diversos instrumentos atípicos ao heavy-metal, como gaitas de fole, violino elétrico, flautas e violões - boa parte deles voltada à ambientação das culturas indígena, andina e xamanística.
Logo no início, após a construção climática de Ancient Winds, chega Here I Am, uma faixa de abertura bem ao estilo de Carry On, Nothing to Say e Wings of Reality, porém muito mais agressiva e, desde já, surpreendendo pelo vocal rasgado de Andre Matos. Tematicamente, introduz o surgimento do xamanismo, reforçado por uma sonoridade, mesmo que frenética, erudita, com um interlúdio orquestral baseado em Tchaikovsky.
Em seguida, entra outra faixa igualmente pesada e rápida, mas com ares mais climáticos: Distant Thunder. Com inspiração nas trilhas épicas de faroeste de Ennio Morricone, a faixa traça um paralelo entre uma vindoura tempestade e os sentimentos conflituosos de um antigo indígena.
Em seguida, entra aquela que, para muitos, definiu a sonoridade do Shaman. Composta por Ricardo Confessori, For Tomorrow é um espetáculo à parte, desde a introdução andina alternando entre flautas e o violão brilhantemente tocando por Hugo Mariutti até o andamento simples na bateria (andamento em três no chimbal), mas com um senso melódico brilhante de Ricardo. Aqui, a faixa nos conta a respeito da Teoria da Conquista e da População nas Américas, surgida a partir da locomoção de habitantes oriundos da Ásia até a América através da Ponte de Bering, teoria essa que explica – ou melhor, que tenta explicar – a origem dos povos indígenas em nosso continente.
Depois, temos a faixa mais sombria, pesada e progressiva de todo o álbum: Time Will Come. Galgada em um andamento direto entre guitarra e bateria, tal música se inspira no poema sobre Henrique Faust, do poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe, que conta a história de Henrique Fausto, que faz um pacto com o diabo em troca de poder e conquistas ilimitadas, mas que, em determinado momento, é obrigado a cumprir sua parte do acordo. Atmosfericamente falando, os interlúdios desta faixa soam como se as faixas setentistas do Pink Floyd tivessem sido feitas sob influência do metal progressivo e de Opeth, mais precisamente. Algo único!
Logo após, temos a Over Your Head, composição de Luis Mariutti que nos apresenta imagens e planos da cultura árabe. A região do Oriente Médio, cujos elementos culturais e religiosos sempre são fruto de debates acalorados, são aqui evocados, em especial quando está à mesa a questão da jihah – ou seja, a Guerra Santa do Islã. Em termos de ambientação, a faixa traz uma curiosa influência flamenca, que em muito enriquece a atmosfera da música.
Depois, temos outra das faixas-destaque do álbum: Fairy Tale. Inteiramente composta por Andre Matos, temos aqui um recorte do período medieval, em que os conflitos religiosos e sacros definiram uma era de nossa História. Ao som do piano e da construção de elementos épicos e sinfônicos, Andre dá um show à parte. O crescendo melódico aqui construído por ele é algo impossível de se passa sem genuínos arrepios– não à toa, virou trilha sonora de novela da Globo (Beijo do Vampiro), um feito inacreditável por se tratar de uma banda de metal pesado.
Originalmente rejeitada pelo produtor Chris Tsangarides no processo de gravação do Fireworks, Fairy Tale, que antes tinha uma temática curiosamente Celta, foi retrabalhada por Matos e incluída no presente álbum, se tornando outro hino histórico do metal nacional.
Depois de toda a catarse das faixas anteriores, ao contrário de boa parte dos álbuns do Angra e do próprio Shaman, temos, ao final do disco, uma trinca de faixas menos contemplativas: Blind Spell, Ritual e Pride. Enquanto Blind Spell – composta por Confessori – traz um ar mais solto e espontâneo, construído através da condução de bateria e de percussões afro/brasileiras que evocam temáticas de feitiçaria e encantamento, Ritual, faixa título do álbum, apresenta uma faixa com ares quase psicodélicos, bem divisiva entre os fãs da banda. E, por fim, temos Pride, que surgiu quase de que de última hora nas gravações e foi responsável por terminar o disco em um tom mais "pra cima" do que usualmente esperado.
Individualmente, cada músico envolvido teve performances por muitos tratadas como sendo o ápice de suas vidas. Para além dos critérios de composição, André surpreendeu por cantar de forma mais rasgada e impactante, Luis por trazer ainda mais peso às suas linhas de baixo, Hugo por sustentar um som tão exigente sem um segundo guitarrista e Confessori por aderir sua tradicional sensibilidade melódica combinada a um peso que somente ele poderia atingir na bateria.
Conforme falado no começo, toda a concepção não apenas do álbum, mas também da banda, foi feita de forma não planejada, ao contrário do que muitos acreditam. Cada integrante, após a separação do Angra, trilhou seu próprio caminho. Ocorre que, seja o destino ou uma força "mística", todos haviam de se juntar novamente. Tal como em um ritual, há peças e ritos que são fundamentais ao seu funcionamento. Ricardo, Luis, André e o então desconhecido Hugo certamente estavam predestinados a forjar uma obra de tamanha dimensão como a presente, carregada de significados e simbolismos que em muito marcaram a obra e a vida de cada um dos integrantes.
Ainda que a banda tenha passado por diversos problemas pessoais e de formação – o que culminou, inclusive, em seu fim aparentemente definitivo em 2022 –, temos aqui uma obra que é perene a todo tipo de intempérie humana. Em muito me entristece que o legado da banda e, em especial, deste álbum, esteja sendo relegado a bandas "tributo" e comemorativa$ (!!!), sem que haja uma preocupação no relançamento dos álbuns, na remasterização dos discos (em especial no show ao vivo Ritualive), no lançamento de shows "perdidos", no lançamento do álbum em vinil... enfim. Seja como for, acredito que a história da banda seja capaz de sobreviver a tudo isso. Claro, de forma quase "sobrenatural": tal como escreveu John Petrucci na belíssima canção do álbum Metropolis Part II, do Dream Theater: "If I die tomorrow, I'd be all right because I believe that, after we're gone, the spirit carries on".
Que o "espírito" do Shaman viva para todo o sempre!
Ritual (2002)
(Shaman)
Tracklist:
01. Ancient Winds
02. Here I Am
03. Distant Thunder
04. For Tomorrow
05. Time Will Come
06. Over Your Head
07. Fairy Tale
08. Blind Spell
09. Ritual
10. Pride
Faixas bônus - relançamento 2016:
11. Time Will Come (Demo)
12. Here We Go (Demo de "For Tomorrow")
13. Blind Shell (Demo de "Blind Spell")
14. Be Free (Demo de "Freedom", lançada posteriormente no álbum Immortal)
Selos: Universal Music / Substancial Music (relançamento)
Banda:
André Matos: voz, piano
Hugo Mariutti: guitarra
Luis Mariutti: baixo
Ricardo Confessori: bateria
Músicos convidados:
Tobias Sammet: voz (10)
Marcus Viana: violino (06)
Derek Sherinian: teclado (06)
Ademar Farinha: instrumentação de sopro (04)
Sascha Paeth: guitarra (10)
Outras resenhas de Ritual - Shaman
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A música do Rainbow que Ritchie Blackmore chama de "a definitiva" da banda
A melhor música de cada álbum do Iron Maiden, segundo ranking feito pela Loudwire
"I Don't Care", do Megadeth, fala sobre alguém que Dave Mustaine admite ter implicância
O disco "odiado por 99,999% dos roquistas do metal" que Regis Tadeu adora
Uma cantora brasileira no Arch Enemy? Post enigmático levanta indícios...
Metal Church anuncia seu décimo terceiro disco, o primeiro gravado com David Ellefson
A música épica do Rush que mexeu com a cabeça de Dave Mustaine
Ao lidar com problemas de saúde, Dee Snider admitiu fazer algo que rejeitou a vida inteira
35 grandes músicas que o Megadeth lançou no século XXI
Com dois ex-integrantes do Exciter, Powerrage anuncia primeiro álbum, "Beast"
"Não tenho mágoa nenhuma": Luis Mariutti abre jogo sobre Ricardo Confessori e surpreende
O disco que define o metal, na opinião de Ice-T
"Tool virou música de velho", admite vocalista Maynard James Keenan
Summer Breeze anuncia mais 33 atrações para a edição 2026


"Ritual" e o espetáculo sensorial que marcou a história do metal nacional
O melhor álbum de metal nacional lançado em cada ano entre 1990 e 2025
O clássico do heavy metal que motivou Luis Mariutti a ser baixista
As 10 bandas favoritas do metal brasileiro no Metal Storm
Helloween: Weikath fez as pazes com Andre Matos, que os achava "escrotos e arrogantes"
Capas Gêmeas: as infelizes coincidências nas artes dos álbuns


