Ànv (Eluveitie) - Entre a tradição celta e o metal moderno
Resenha - Ànv - Eluveitie
Por André Luiz Paiz
Postado em 02 de novembro de 2025
Após seis anos de silêncio em estúdio, o Eluveitie ressurge com Ànv, seu nono álbum, lançado em abril de 2025 pela Nuclear Blast Records e distribuído no Brasil pela Shinigami Records. O disco marca o início de uma nova fase criativa, resultado de um processo de gestação que se estendeu de 2022 a 2024 - período em que a banda suíça lançou singles isolados como "Aidus" e "Exile of the Gods", explorando caminhos sonoros distintos enquanto reconfigurava sua formação.
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A saída das instrumentistas Annie Riediger e Nicole Ansperger, seguida da entrada da multi-instrumentista Lea-Sophie Fischer, impôs à banda uma inevitável reorganização estética. A sonoridade de Ànv reflete esse movimento: ainda fiel ao DNA celta e à fusão com o death melódico de Gotemburgo, mas agora com uma abordagem mais direta, moderna e, em certos momentos, menos orgânica. O virtuosismo dos arranjos folclóricos dá lugar a texturas mais sintéticas e controladas, privilegiando peso, clareza e precisão rítmica. É um Eluveitie que preserva sua identidade, mas a submete a uma nova lógica de produção contemporânea. Se a mudança resultou em um acerto, vai muito da opinião do fã.
A coesão entre o metal e o folk, que em álbuns como Slania (2008) e Origins (2014) se apresentava como um entrelaçamento natural, aqui assume um caráter mais calculado. Os instrumentos tradicionais - gaitas, whistles, mandolas e o próprio hurdy-gurdy - ocupam posições mais complementares que protagonistas. Isso se deve basicamente à opção de Glanzmann por consolidar uma base rítmica mais técnica e moderna, sustentada pela bateria impecavelmente articulada de Alain Ackermann e pelo baixo de Kay Brem, quase sempre pouco evidente, mas essencial para a densidade do som.
Do ponto de vista técnico, Ànv é uma obra de refinamento. A produção é cristalina, com ótima mixagem, mas que fere os puritas da era analógica - um aceno às tendências do metal moderno. O resultado, embora impressionante em termos de execução, por vezes sacrifica a rusticidade e a espontaneidade que sempre distinguiram o Eluveitie das demais bandas do gênero. Ainda assim, faixas como "Premonition" e "Taranoías" resgatam a força melódica e o equilíbrio entre agressividade e lirismo que tornaram a banda referência no folk metal europeu.
O álbum também revela um amadurecimento na interação vocal entre Chrigel Glanzmann e Fabienne Erni. A combinação das vozes - uma áspera e ancestral, outra etérea e de registro quase teatral - permanece o eixo emocional da obra. Erni, em especial, se sobressai e ganha protagonismo em composições mais acessíveis e melódicas, consolidando-se como uma das vozes femininas mais expressivas do metal contemporâneo.
Entretanto, Ànv não é isento de problemas. A redução do protagonismo dos instrumentos folclóricos e a inclinação para estruturas previsíveis, com refrões extensos e pontes instrumentais previsíveis, tornam parte do repertório excessivamente polido. Há momentos em que o Eluveitie soa mais como uma banda de metal melódico com elementos celtas do que o inverso. A releitura elétrica de "Epona", incluída como bônus, exemplifica bem isso: poderosa, mas destituída do encanto acústico original.
Ainda assim, o disco funciona como um ponto de inflexão necessário. Ele não apenas encerra um ciclo de transição, mas também define o terreno sobre o qual o grupo pode reconstruir sua linguagem nos próximos anos. Ànv é o registro de uma banda que, após duas décadas de reinvenções, busca o equilíbrio entre tradição e modernidade. Nem sempre com perfeição, mas com autenticidade e visão.
Veredito
Ànv é um trabalho sólido, tecnicamente impecável e emocionalmente contido. Se não alcança a inventividade de Helvetios ou o magnetismo de Everything Remains (As It Never Was), ao menos reafirma a longevidade criativa de um grupo que segue buscando novos significados para a ancestralidade celta dentro do metal moderno - um gesto de coragem em tempos de fórmulas seguras.
Ficha Técnica:
Lançamento: 25 de abril de 2025
Gravadora: Nuclear Blast Records
Distribuição no Brasil: Shinigami Records
Formação:
Chrigel Glanzmann – vocais principais, violão, mandolim, gaita irlandesa, bodhrán, flautas, harpa
Fabienne Erni – vocais principais, mandola, harpa celta
Rafael Salzmann – guitarra solo
Jonas Wolf – guitarra base
Lea-Sophie Fischer – violino, vielle à roue (hurdy-gurdy)
Matteo Sisti – gaitas de fole, flautas, violão, mandolim, bodhrán
Kay Brem – baixo
Alain Ackermann – bateria e percussão
Faixas:
Emerge – 1:11
Taranoías – 3:26
The Prodigal Ones – 3:44
Ànv – 2:33
Premonition – 5:13
Awen – 4:22
Anamcara – 1:37
The Harvest – 3:38
Memories of Innocence – 2:25
All Is One – 3:42
Aeon of the Crescent Moon – 4:22
The Prophecy – 5:11
Bônus (edição deluxe):
Aidus – 5:32
Exile of the Gods – 4:08
Epona (Metal Version) – 3:57
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