HellLight - Reafirmando seu espaço entre os melhores da safra do gênero.
Resenha - We, The Dead - HellLight
Por Marcelo R.
Postado em 15 de junho de 2026
Nota: 10 ![]()
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A longevidade dos doomers paulistas do HellLight pareia-se com a qualidade de sua discografia. Em atividade desde 1996 (e com o primeiro lançamento full-length gestado no já longínquo ano de 2005), o conjunto coleciona, desde então, um consistente catálogo, formado por oito álbuns completos e um material ao vivo (Live at Haunting the Castle Festival), registrado na Bélgica.
Essa breve introdução é evidência não apenas da consistência com que o grupo se calcou nas acabrunhadas profundezas do doom metal. É, sobretudo, um realce do prestígio internacional ao qual o trio paulista se lançou e se dimensionou.
Referência nos domínios do espaço que ocupa, o HellLight impressiona a cada lançamento, nivelando por cima sua pródiga discografia, jamais agastada por saturações.
E é nesse contexto que, precisamente em 2025, as luzes do inferno alumiaram novamente o espírito taciturno dos congregados na música melancólica, brindando-os com novo material de inéditas: We, The Dead. E que deleite...
We, The Dead soma aproximadamente 77 minutos. Aos ouvintes que se precipitarem desprecavidos à audição, antecipo que não há motivo para sobressaltos ou espanto. Afinal, apesar da extensão, We, The Dead espelha material com enorme coesão e incomparável elevação sentimental. Assim, essa longa jornada está ornamentada com rara virtude: um infatigável deleite que, sem exaurir o ouvinte, movimenta e instiga as camadas mais profundas do núcleo belo-melancólico da expressão musical.

Portanto, sem extenuar, a trajetória sonora é tão profunda quanto aprazível, encerrando-se com aquela a impressão de brevidade semelhante ao faiscar de um raio.
Como provavelmente já anteviu o leitor, We, The Dead não é material para consumo instantâneo ou para apreciação fugaz. Edificado sobre estruturas pesadas e progressões lentas, e com a alternância de diversas camadas e arranjos, a música do HellLight concebe-se para ser sorvida. Ouvida com o coração e com o espírito. Assimilada paulatinamente, numa fusão entre seus acordes e os correspondentes sentimentos estimulados.
Essa é, aliás, uma síntese da própria essência inata do doom metal. O gênero não se afeiçoa com o mero entretenimento (im)passivo. Sente-se. Contempla-se. Amalgama-se, em simbiose entre música e ouvinte.
We, The Dead conta com produção limpa e cristalina, colocando em evidência todos os recursos, instrumentais e vocais, que lhe materializam o espírito, ciclicamente denso, melancólico, fúnebre e, por vezes, romântico.
Se os álbuns mais antigos do conjunto soerguiam as paredes sonoras de sua tessitura com o predomínio de fantasmagóricos arranjos de teclados, em We, The Dead percebe-se o protagonismo mais acentuado das linhas de guitarra.
Os riffs e os solos, desenvolvidos com elevado sentimentalismo, conservaram firmes as vigas da estrutura musical do conjunto, marcantemente fincadas em notas de desolação e de desconsolo. Contudo, o realce, aqui, dos trabalhos de guitarra – em concorrência, claro, com as climáticas passagens de teclados, evidentemente presentes – parecem ter agregado um componente acentuadamente mais gélido-melancólico ao núcleo obscuro-aterrador da musicalidade do HellLight. Essa foi, ao menos, a sensação que sorvi, numa interpretação puramente pessoal.
Ponto positivo. Afinal, essa condensação, coesa e excelentemente explorada, imprimiu aspecto multifacetário à audição, que, repita-se, não agasta.
Nesse caldeirão de criativa inspiração, e seguindo os padrões do funeral doom metal no melhor de seus moldes, a audição inaugura-se com Echoes of Eons. Densa e superpesada ao longo de seus mais de 11 minutos de duração, a canção de abertura combina todos os elementos nuançados nesse sobrevoo panorâmico (e que sintetizam o próprio espírito geral de We, The Dead).
Ao funesto estilo de desesperança que lhe dita o tom concorrem os já citados elementos melancólicos, espargidos a partir dos introspectivos e aformoseados arranjos e solos de guitarras. O ouvinte é conduzido, assim, a um meditativo estado catártico, experienciando uma viagem, figurativamente, extrassensorial e extracorpórea. E é precisamente essa epifânica dimensão magnética que captura o ouvinte logo à entrada, enredando-lhe, sem concessões, até os derradeiros acordes.
Echoes of Eons também estampa os predicados de outra virtude, ainda não citada: os aflitivos vocais limpos de Fábio de Paula, que se pulverizam ao longo de diversas outras faixas.
Se, no geral, é relativamente incomum a identificação de vocalistas que dominem simultaneamente habilidades de canto gutural e limpo – a exemplo de Jonas Renkse (Katatonia) e Mikko Kotamäki (Swallow The Sun), apenas para citar dois magistrais exemplos –, Fábio, também seguindo tendência contramajoritária, domina, com segurança, esse raro talento.
Salpicando as composições, assim, com linhas de canto tão cristalinas quanto angustiosas, Fábio imprimiu ao DNA de We, The Dead nuances de aflitivo desespero, que fazem par com o estilo ora fúnebre, ora melancólico, desse trabalho artístico. O tom e o timbre adotados nesses arranjos remeteram-me ao singular estilo de Robert Lowe (ex-vocalista do Candlemass e do Solitude Aeturnus, entre outros).

O caldeirão criativo, como se nota, é bastante fértil.
E assim se desenvolve a audição de We, The Dead, ao sabor dos pródigos elementos e recursos citados, que percorrem faixas igualmente contemplativas como As a Fading Sun We Lie, Desperate Cry, Obsolete Dreams e The Last March.
We, the Dead (Interlude), belíssimo interlúdio, possui o envoltório de uma camada gélida, performada ao estilo teclado e voz (limpa). Suspendendo os contornos dramáticos e carregados que ditam, até então, a sua sufocante verve, We, the Dead (Interlude) representa um espaço de respiro. Um fôlego de delicada – tanto quanto triste – leveza estética em meio à, até então, densa e intrincada teia musical.
We, the Dead (Interlude) é, ainda, uma espécie de introdução àquela que, particularmente, considero o apogeu do álbum: As Daylight Fades. Contando com participação especialíssima de Heike Langhans, ex-vocalista feminina do Draconian, As Daylight Fades segue padrões mais afeiçoados ao estilo doom/gothic metal, nos exatos moldes do citado conjunto sueco.
Há, aqui, uma levada predominantemente melancólica e menos fúnebre, contrabalançada, porém, pelo bálsamo de uma sutil e refinada fragrância romântica. O estilo à la a bela e a fera – com o típico desfile entre os angelicais, doces e delicados vocais limpos de Heike Langhans e as linhas guturais de Fábio de Paula – elevou As Daylight Fades a um patamar de distinta formosura estética.
Até mesmo a forma de canto incorporada por Fábio em As Daylight Fades remeteu diretamente ao inconfundível estilo de Anders Jacobsson.
Essa é não apenas a mais diferenciada faixa do álbum, mas também um de seus maiores destaques. É, inclusive, a minha canção favorita em meio a árdua batalha, nivelada por cima. Um prato cheio particularmente aos fãs de Draconian.
Eis, em resumo, a atmosfera geral de We, the Dead, cujo valor somente se alcança pela íntima contemplação de sua própria experiência sonora, galgada em paulatina escalada.
E como sempre advirto: por mais detalhada que se pretenda a análise, as palavras rareiam no bordado da definição de um trabalho artístico-musical. Escasseiam sobretudo quando essa escultura se eleva, como em We, The Dead, a tamanha sensorialidade e complexidade.
Em arremate e sem mais verborragia: We, The Dead reafirma a imponência do HellLight nos domínios do doom metal, compondo, desde o seu nascedouro, o catálogo daquilo que há de melhor na safra do gênero. Se os meus argumentos não foram, até aqui, suficientemente persuasivos, sugiro, com especial ênfase, a atenta audição, incomparavelmente mais rica a qualquer síntese vernacular.
Se doom metal é o gênero de sua predileção, We, The Dead será fonte frondosa de degustação sonora. Ponto pacífico.
Dito isso, boa contemplação!
Set-list:
1. Echoes of Eons
2. As a Fading Sun We Lie
3. Desperate Cry
4. We, the Dead (Interlude)
5. As Daylight Fades
6. Obsolete Dreams
7. The Last March
Formação:
Fábio de Paula – guitarra, vocal e teclado
Alexandre Vida – baixo
Renan Bianchi – bateria e vocal (backing)
Matéria originalmente publicada no site Rock Show.
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