Aleah - Um doce velejo em um oceano de serena melancolia.
Resenha - Aleah - Aleah
Por Marcelo R.
Postado em 15 de março de 2026
A escrita me é atividade terapêutica. Nela, encontro refúgio seguro e reconfortante. Um espaço de reconexão íntima.
O nicho onde afinei-me com especial viço habita os campos das resenhas, usualmente musicais e literárias. Minha dileção pessoal conecta-se, intimamente, com o rock e seus subgêneros, mas o diâmetro que me seiva o gosto amplia-se para além desses limites.

Atualmente, encontro prazer em incalculáveis outras fontes musicais, notadamente naquelas cujas verves ambientam-se em núcleos atmosféricos de introspecção, meditação, contemplação e intimismo. Esses adjetivos, por sinal, já se tornaram lugares-comuns em minhas análises.
As citadas camadas encontram espaço fértil no heavy metal, apesar da ideia geral e, às vezes, estereotipada de um gênero moldado exclusivamente aos temperos do peso e da agressividade.
Citam-se, exemplificativamente, conjuntos como Katatonia – o meu favorito e do qual titulo toda a discografia, em discos de vinil –, Anathema e Alcest. Isso, apenas para referenciar um escasso número de nomes que pertencem a um universo incalculavelmente maior de grupos que primam pela atmosfera em detrimento da intensidade, da potência e da velocidade.
E, para além das raias do rock, a prodigalidade dessa verve não encontra autocontenção. Eis o fascínio da arte: sua ilimitação.
Ao me curvar, recentemente, ao universo dos streamings, uma imensidão de novas descobertas irrompeu aos meus olhos. Despejou-se, melhor definindo, aos meus tímpanos.
Não substituí o consumo de material físico pela enlatada massificação digital. Aquilo que conheço no mundo dos streamings e de que passo a gostar especialmente, adquiro, posteriormente, em mídias físicas (especialmente em discos de vinil). Para além do apoio ao artista, a degustação de material palpável e concreto permite otimização da experiência sonora – comprimida nas versões digitais –, bem como imersão mais completa e íntima nas artes de capa e de encarte (detalhes sumamente prejudicados nos campos virtuais).
Há, porém, uma vantagem indiscutível nos aplicativos de streamings: os algoritmos, que pulverizam os poros de toda a ambiência digital, permitem a apresentação e o acesso imediato do ouvinte a um oceano de artistas que performam mesmas afinidades musicais, aproximando-se criadores e apreciadores. Benefício irrecusável, que venho fartamente sorvendo nas minhas infatigáveis "perscrutações algorítmicas".
Foi nesse contexto que, para além das raias do rock, alcancei o material autointulado Aleah, postumamente lançado.
A navegação pelos mares de música etérea, do qual tanto me nutro, conduziu-me a um conjunto chamado Trees of Eternity (que, futuramente, também pretendo analisar). A banda era formada, entre outros integrantes, pelo casal Aleah Stanbridge e Juha Raivio (esse último, um dos fundadores do Swallow the Sun).
Trees of Eternity veste-se dos predicados musicais imersivos aos quais já me reportei em parágrafos anteriores. E, pela ponte dos streamings, acessei, subsequentemente, o material solo de Aleah Stanbridge, intitulados, o projeto e o álbum, de Aleah.
A camada sorumbática que envolve esse lançamento coincide com a sua própria história insólita. Aleah Stanbridge faleceu em 18 de abril de 2016, aos 39 anos, vítima de câncer. O material autointulado – composto por um conjunto de canções inéditas e esparsas legadas pela vocalista-compositora – foi organizado e lançado postumamente pelo seu ex-companheiro, Juha Raivio, em 17 de julho de 2020 (por sinal, véspera de aniversário deste resenhista).
As faixas, uma vez reunidas, resultaram num álbum verdadeiramente full-length. E digno de louvor.
A experiência sonora de Aleah retrata sensorialidade comparável a um doce velejo em um oceano de serena melancolia, dicotomias que, na arte, não se repelem, mas, ao contrário, se amalgamam.
Trata-se de álbum duplo, performado ao sabor de gêneros como dream pop, folk contemporâneo e música ambiente.
Na primeira parte, reuniram-se exclusivamente canções acústicas, moldadas ao estilo violão e voz. Nessa camada musical, que se apresenta nas nove primeiras faixas, o ouvinte é exposto a uma ambiência verdadeiramente onírica. Etérea.
Pedindo perdão ao leitor pelo excesso de repetições, mas resgatando os adjetivos já referenciados ao vestíbulo dessas notas, autoexplicativos em suas definições: a tapeçaria acústica é completamente desenvolvida ao paladar de introspecção, meditação, contemplação e intimismo. Quanto ao mais, as palavras rareiam e não alcançam o código musical que apenas a experiência auditiva permitirá acessar.
Para que não se despercebam, porém, alguns detalhes mais pontuais, Vapour inaugura num tom romântico-melancólico de sóbria luminosidade e doce reconforto. Esses traços e atributos são revisitados em faixas como as serenadas Open Sky, My Will, Water and Wine e Touch My Face.
Closing Under Pressure, ao seu turno, ostenta camadas incisivas e potentes, especialmente em seu impactante refrão, conferindo à composição uma verve imponente.
As canções homogeneízam-se não pelo marasmo ou pela unilateralidade – riscos sempre presentes numa empreitada mais minimalista –, mas pelo padrão (ouro) que norteia as suas qualidades musicais, já citadas. Um bálsamo a se sorver recluso e meditativo, a olhos cerrados.
O segundo álbum reservou-se às canções elétricas, com maior instrumentação (a exemplo da inclusão de bateria e teclados). Há, nesse eixo, ressonância parcial com as faixas da primeira parte. Afinal, algumas composições acústicas reverberaram, aqui, em versões retrabalhadas e mais completas. Citam-se, ilustrativamente, Vapour e My Will, entre outras.
Há, também, faixas inéditas à primeira parte, como a distinta Inverted Enlightenment.
Embora com intervenções de outros instrumentos, que lhe retiram o aspecto exclusivamente acústico, a segunda parte preservou os contornos doce-melancólicos do padrão da musicalidade de Aleah.
Não pretendo evocar aqui, uma vez mais, os adjetivos sobre os quais já me debrucei ao pincelar a paisagem que forma o quadro e a moldura desse trabalho, escultural em sentimentalismo. As alusões conservam-se aplicáveis, ao aditivo de alguns componentes instrumentais que potencializaram o impacto imersivo da audição (conferindo-lhe, em certo aspecto, um tom até mesmo fantasmagórico, a exemplo de Sacrifice).
Definir-se é limitar-se. O léxico jamais alcançará as profundezas insondáveis da experiência sonora propriamente dita. Funciona, o verbete, apenas como tímido parâmetro. E, com sorte, à instigação do ouvinte à degustação, jamais substituída pelo rabisco de um mero conjunto gráfico de palavras.
É dizer, conclusivamente: as anotações acima lançadas, sempre insuficientes, não se substituem à audição propriamente dita, indelegável experiência pessoal. Espera-se, ao menos, que os paralelos bordados permitam alguma perspectiva da musicalidade de Aleah. E, para além disso: que estimulem à degustação desse material, uma doce homenagem à melancolia.
Como já afirmado, Aleah é lançamento póstumo. Seu taciturno aspecto (con)funde-se com a própria história de sua concepção, potencializando a verve dramático-melancólica que impregna a sua inata musicalidade e o seu conceito.
Aleah é um louvor à introspecção. É, acima de tudo, um panegírico à memória de uma artista que cerrou as cortinas do palco da vida tão prematuramente, mas que legou patrimônio inapagável: a música, aquele componente imaterial místico que sempre encontra caminho ao coração.
Boa audição.
Disco 1:
Vapour
Sacrifice
Open Sky
My Will
Breathe
Closing Under Pressure
Water and Wine
Terrestrial Torrents
Touch My Face
Disco 2:
My Will
Sacrifice (feat. Anilah)
Inverted Enlightenment
Vapour
The Tower
Breathe
Texto originalmente publicado na página Rock Show
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