Tierramystica - Um panegírico a "Trinity"
Resenha - Trinity - Tierramystica
Por Marcelo R.
Postado em 05 de fevereiro de 2026
Nota: 10 ![]()
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Intervalando aproximadamente 12 anos desde o lançamento do álbum precedente – o excelente Heirs of the Sun –, os gaúchos do Tierramystica surpreenderam recentemente a comunidade do metal nacional, brindando-a com novo material.

Lançado em setembro de 2025, Trinity é um deleite aos tímpanos. Um regozijo àqueles que aguardavam longamente a concepção de um trabalho inédito pelo competente conjunto sulista.

Soube do nascimento de Trinity apenas no cerrar de cortinas de 2025, alguns meses após sua gestação. Logo à primeira degustação, o material ocupou, instantaneamente, a fileira dos meus álbuns favoritos do ano. Pelos seus múltiplos méritos, dedico-lhe, agora, espaço e atenção para uma resenha.
Antes, porém, de avançar, o alerta de praxe, aqui com especial ênfase: sempre advirto da dificuldade de transmitir fielmente as impressões da experiência sonora por meio da palavra escrita. A imersão, como é óbvio, pertence ao ouvinte, em sua íntima contemplação.
Nenhum texto, por mais completo que se pretenda, se substituirá ao saboreio do trabalho artístico propriamente dito. Uma obviedade, de registro dispensável, que, porém, me isenta do sentimento de insuficiência, caso despercebido algum detalhe ao longo da análise.
Em Trinity, esse desafio potencializou-se particularmente. Afinal, a profusão de sua fertilíssima instrumentação – com a inserção e exploração, inclusive, de elementos pouco usuais ao heavy metal, como zampoña, ocarina, charango, craviola e bombo – elevou a qualidade de sua estética a patamar de distinta e sublime apreciação.
Tierramystica alçou-se, nesse novo material, a uma estatura além do que as palavras alcançam. Eis, então, a dificuldade de descrever a tapeçaria musical sobre a qual se soergue Trinity, em sua intrincada complexidade. Arrisco-me, de todo modo, ao salpico de algumas palavras.
Trinity mantém-se fiel à proposta do Tierramystica, conjuntando, aos moldes do power metal e do folk metal, elementos de música andina.
Inaugurando com Awakening, Trinity abre as cortinas com uma faixa instrumental saborosamente climática, com forte veia folk/andina. O espírito do ouvinte é inserido, assim, logo ao nascedouro da audição, na atmosfera e na ambiência dessa teia musical, sobre a qual se desenvolve toda a epopeia vindoura.
Emendando, Chaski Way irrompe numa visceral explosão sonora, ao melhor estilo power metal. Após o pesado riff inicial, as linhas vocais apresentam-se sob o comando de Gui Antonioli, cujos potentes timbres transitam, com segurança e distinta beleza estética, por diversas entonações.
O vocalista domina impressionante capacidade de alcance. Desfila, com precisão e com timbres agradáveis, entre notas mais graves – inclusive com o uso comedido de drives – e elevações mais limpas, cristalinas e agudas, sem se perder em excessos ou estrepolias. Sem dúvidas, um dos maiores e mais completos cantores do gênero.
Apesar do verniz power metal pelo qual Chaski Way se apresenta e se impõe inicialmente, é justamente nessa faixa que Tierramystica, logo ao início da audição, já expõe suas múltiplas camadas, exibindo vasta riqueza musical e complexas experimentações.
Afinal, apesar da intensidade com que se irrompe, Chaski Way sofre caídas de tempo e alternâncias rítmicas, abrindo espaço para alongados trechos instrumentais que servem de fonte aos elementos folk/andinos. E são esses arranjos que identificam, precisamente, a verve musical do conjunto, tornando-a distinta e singular no seu universo artístico.
A maturidade musical de Chaski Way espelha e sintetiza as virtudes que se espraiam ao longo de toda a audição de Trinity.
Raindancer, que se sucede, mantém elevada a qualidade e a energia. Iniciada com breve abertura climática, a canção transcorre, porém, num estilo mais cadenciado, com um riff e com instrumentações que igualmente lhe conferem notável e forte veia folk, especialmente presente nessa composição.
Há, em Raindancer, um andamento e uma atmosfera quase ritualísticos, transportando a imaginação do ouvinte à evocativa ambiência da dança da chuva, que lhe tematiza. Essa é uma das minhas canções favoritas em Trinity.
Para evitar resenha excessivamente longa e, consequentemente, desinteressante, não pretendo analisar cada faixa individualmente, em detalhes. O intuito, como de praxe, é apresentar a estrutura musical em voo panorâmico, nos pontos principais, delegando ao ouvinte, quanto ao mais, a experiência de imersão nas múltiplas camadas musicais performadas.
De todo modo, há ainda espaço para acréscimos pontuais.
Eldritch War, na sequência, segue padrão tipicamente power metal, com ritmo predominantemente acelerado e um matiz vibrante e vivaz, embora marcantemente pesado. Há, aqui, um paralelo estilístico com Chaski Way, nas qualidades e nas características já citadas.
De todo modo, apesar de algumas faixas com andamentos mais velozes, o álbum rege-se, em seu aspecto geral, ao sabor de um compasso cadenciado e pesado, sem estrepolias, exageros ou frenesis.
Há, assim, espaço para o desenvolvimento de linhas vocais em diversas intensidades, tonalidades e modulações, bem como campo para o destaque alternado dos múltiplos recursos instrumentais explorados.
Ilustrando essa estrutura geral, que dita os contornos do álbum, citam-se faixas como Cosmovision, a primorosa Eye of the Tribe, Beyond the Cape of Storms e Death Whistle.
Há, ainda, momentos de desaceleração, propulsores de agradável sentimentalismo sob a regência de belos e doces arranjos introspectivos. Nesse aspecto, destacam-se as incensuráveis Bedtime Stories e Fly as One.
Bedtime Stories é uma melodiosa balada, dotada de elevada carga de ternura e refinada beleza estética. Emocionante! Sua suficiente definição em verbete único.
Fly as One, ao seu turno, desenvolve-se num palatável contorno acústico, transmitindo, em sua sensorialidade, uma espécie de agradável e ameno clima de pacificidade. Essa composição possui um matiz imersivo e contemplativo, quase hipnótico, predicados que, por dileção pessoal, valorizo em trabalhos artísticos-musicais. Justamente por isso, Fly as One também está entre as minhas faixas favoritas em Trinity.
Essa é, em síntese, a moldura e a tela sobre as quais brotam o colorido e a forma de Trinity, álbum que escapa a qualquer crítica. Competência, aqui, é a palavra regente.
Tierramystica não se resigna, porém, exclusivamente com exibição e precisão técnicas. Trinity possui corpo e possui alma. Ostenta vivacidade. Afinal, há amplo espaço para a exploração de férteis e arrojadas experimentações, ao sabor de complexa instrumentação, sob os moldes de plena liberdade artística. E tudo isso num caldeirão coeso, sem desvios de direcionamento.
Há, em síntese, perfeito equilíbrio no encaixe das peças, resultando, dessa conexão, um trabalho artístico escultural e harmônico, que une, competentemente, suas múltiplas facetas e multicamadas. O resultado é um álbum maduro e com alta carga sensorial e melodiosa. Há perfeito contrabalanço entre técnica e feeling, unidos em ajustada simbiose.
As canções são moldadas ao estilo power metal, mas pluralizam-se, em sua dimensão artística, com a inserção de lapidados trechos instrumentais, enriquecidos por vasta instrumentação folk/andina. Isso tudo, sob o compasso de variações rítmicas e quebras de tempo que tornam dinâmica, complexa e pluridimensional a paisagem musical do conjunto.
Não há pedantismo, lugares-comuns ou repetições de fórmulas em Trinity. Tudo é agradavelmente desenvolvido com o respiro do ar fresco da inventividade, do bom gosto e até mesmo da surpresa.
Tierramystica prova, em Trinity, que a criatividade artística, no metal e em seus subgêneros, está abissalmente distante da saturação.
Prova ainda mais: revalida a afirmação, que sustento com repetido vigor e com firme convicção, de que as bandas de metal nacional, tão lamentavelmente negligenciadas, ocupam espaço no catálogo das melhores do mundo. Inquestionavelmente. Trinity assim o confirma.
Como paralelos estilísticos que também entesouram as terras tupiniquins – apenas para situar o leitor em toda essa ambiência musical –, Trinity certamente agradará aos fãs de conjuntos como Tuatha de Danann e Rage in my Eyes (esse último, com interessantíssimos elementos de milonga, também inusuais ao heavy metal).
Em arremate: eu poderia percorrer todo um dicionário de adjetivos e, ainda assim, não conseguiria esgotar os elogios dedicáveis a Trinity. Ouça-o, como enfático convite pessoal.
Altamente recomendável.
Nota 10 com louvor.
Faixas:
1. Awakening
2. Chaski Way
3. Raindancer
4. Eldritch War
5. Fly as One
6. Cosmovision
7. Bedtime Stories
8. Eye of the Tribe
9. Beyond the Cape of Storms
10. Death Whistle
Formação:
Alexandre Tellini – Guitarras, violão, zampoña
Luciano Thumé – Teclados
Ricardo Chileno – Vocais, violão, ocarina, charango, craviola, bombo
Gui Antonioli – Vocais, percussão
Marcelo Caminha Filho – Baixo
Convidados / músicos de estúdio:
Thiago Caurio – Bateria
Giovani Facchini – Flauta
Lucas Vidal – Vocais (adicionais)
Matéria originalmente publicada na página Rock Show.
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