Anguish Project mergulha no abismo do inconsciente com o técnico e visceral "Mischance Control"
Resenha - Mischance Control - Anguish Project
Por André Luiz Paiz
Postado em 09 de janeiro de 2026
O ano de 2025 consolida-se como um marco histórico para a Anguish Project. Poucos meses após presentear o público com o aclamado "What's Believing?", a banda entrega seu sucessor direto: "Mischance Control".

Para compreender a magnitude deste lançamento, é necessário entender o contexto de sua gestação. Enquanto a finalização do primeiro álbum (produzido por Roy Z) enfrentava os trâmites naturais de agenda do produtor, a mente criativa da banda não parou. O resultado é que este segundo capítulo foi trabalhado quase simultaneamente ao primeiro, permitindo que os fãs recebessem dois discos de nível mundial no mesmo ano. Longe de ser uma compilação de sobras, "Mischance Control" é uma obra robusta, que soa não apenas como continuação, mas como uma evolução temática necessária.
O Conceito: A Estrutura da Dor
Se o álbum anterior explorava o Ego, "Mischance Control" desce aos porões da psique humana, abordando o Id. O arcabouço lírico construído por Kaô fundamenta-se na angústia como algo estrutural da existência. Bebendo de fontes como Schopenhauer e Freud, o disco retrata a vida como um embate constante com a dor e a frustração, onde a busca por sentido esbarra no vazio. O álbum é o som desse conflito interno permanente entre desejo, repressão e consciência, onde o controle sobre a própria vida é precário e os momentos de prazer são apenas breves intervalos antes que a angústia retome seu posto.
Produção Cristalina e Camadas Vocais Complexas
Assumindo a produção, Kaô, ao lado da engenharia, mixagem e masterização de Átila Ardanuy e Tito Falaschi, entrega uma sonoridade moderna e cristalina. O álbum se distancia respeitosamente da sombra do Iron Maiden e da carreira solo de Bruce Dickinson - fortes no debute - para abraçar uma identidade mais direta, técnica e pesada.
Um destaque técnico indiscutível é o trabalho de vozes. A produção permitiu que Sergio Faga construísse texturas impressionantes. O disco é repleto de múltiplas camadas, harmonias e dobras que enriquecem os refrãos e dão dramaticidade às estrofes, apoiado em momentos chave pelos backing vocals de Eduardo Tibira e do próprio Sergio. É um trabalho de arranjo vocal minucioso que eleva a qualidade das composições.
Faixa a Faixa: A Jornada pelo Inconsciente
A abertura com "The Curse" estabelece o cenário de desesperança. Um riff de guitarra marcante introduz o tema de um destino inevitável, onde não há refúgio ("no place to fall"). O refrão, de assimilação imediata, contrasta com a letra que sugere que a queda é certa.
O terceiro single, "Someone Beloved", acelera o andamento e empolga o ouvinte. A música traduz a insanidade e a mania descritas na letra ("You're going insane"), criando uma tensão palpável que é cortada pelo solo virtuoso do convidado Roberto Barros. É a trilha sonora da mente flertando com o abismo.
Já "Only God Will Know", escolhida acertadamente como primeiro single, resgata o peso com uma cadência doom. Aqui, Faga caminha por linhas vocais mais estáveis e sem explorar os agudos, criando uma atmosfera de perturbação que casa perfeitamente com o conflito espiritual da letra. O solo de violão de Luiz Marcio Canto adiciona uma textura orgânica e melancólica no meio do peso.
Em "When The Angels Fall", a banda demonstra sua técnica apurada. É uma balada complexa, repleta de passagens intrincadas comandadas pela cozinha de Edu Cominato e Tito Falaschi. A letra narra a perda da inocência e a consequência de ceder aos impulsos, o momento exato em que a graça se perde.
O segundo single, "Bullet", é talvez a faixa mais "pegajosa" do disco, com um apelo comercial direto, mas que esconde uma das letras mais cruas do álbum: o instinto de morte (Thanatos) e o desejo de silenciar a dor existencial. A conexão entre a melodia acessível e o tema sombrio é brilhante. Aqui vale também destacar a ótima produção de Thiago Marx e Gus Scremin no vídeo registrado no Partisans Pub (SP).
"Reaching The Sky" funciona como uma ponte sonora com o primeiro álbum. Eufórica e empolgante, a música retrata o lado maníaco da oscilação de humor - a ilusão de grandeza e poder de voar acima dos problemas, impulsionada por um refrão grandioso.
A diversidade sonora explode na reta final. "Runnin' Out O' Time" traz uma vibração Hard Rock oitentista, remetendo à fase solo do início da carreira de Bruce Dickinson. A ansiedade lírica sobre o tempo se esgotando ganha cores com o duelo de guitarras entre Roger Benet e André Caccia Bava.
A faixa-título, "Mischance Control", é a obra-prima conceitual. Iniciando com o flamenco dos violões de Danilo Goto e trazendo novamente o saxofone de Cabrera, ela cria uma atmosfera noir e progressiva. É a representação sonora da derrota do controle emocional, onde o sujeito reconhece que o caos interno venceu.
Em seguida temos "Luci", uma das peças mais intrigantes do álbum. Sob uma roupagem de balada melancólica com guitarras belíssimas, a faixa sugere um diálogo sombrio, possivelmente com a figura do "portador da luz" (Lúcifer). É o momento de sedução pela própria sombra, onde o eu-lírico parece aceitar sua natureza falha ("A life just begun to know my heart and spread my name") e abraçar a queda não como punição, mas como identidade.
O álbum encerra com "Gotta Get Outta Here". Carregada de drama, a faixa traz uma interpretação visceral de Sergio Faga. A letra resume o conceito do disco ("There's a war inside my mind") e o grito repetitivo por fuga prepara o ouvinte para o próximo passo.
Veredito
Tive acesso antecipado à arte gráfica desenvolvida por Gustavo Sazes e o material é visualmente impressionante, capturando a essência claustrofóbica e densa do álbum. É um projeto que clama pelo apoio de uma gravadora para um lançamento físico (CD/Vinil), pois a experiência visual complementa a auditiva de forma essencial.
Se "What's Believing?" chegou com força total para brigar de igual para igual com os gigantes do metal em 2025, "Mischance Control" é uma continuação madura, necessária e que coloca o Anguish Project em um patamar artístico ainda maior.
Fica agora a expectativa para o encerramento da trilogia (o Superego?). Torcemos para que o terceiro ato, programado para o segundo semestre de 2026, seja uma amálgama: a acessibilidade do primeiro unida à profundidade técnica, lírica e vocal deste segundo, encerrando a história com chave de ouro - mas, esperamos, dando longa vida ao projeto.
Ficha Técnica e Tracklist
Anguish Project - Mischance Control (2025)
Tracklist:
The Curse
Someone Beloved
Only God Will Know
When The Angels Fall
Bullet
Reaching The Sky
Runnin' Out O' Time
Mischance Control
Luci
Gotta Get Outta Here
Formação (Gravação):
Kaô: Produção, Composição e Letras
Sergio Faga: Vocais e Produção Vocal
Tito Falaschi: Baixo, Guitarras e Engenharia de Som
Edu Cominato: Bateria
Nei Medeiros: Teclados e Arranjos
Alexandre Grooves: Percussão
Formação Atual da Banda:
Kaô: Baixo
Sergio Faga: Vocal
Denis Okuma: Guitarra
Fred Barion: Bateria
Participações Especiais:
Roberto Barros: Solo de guitarra em "Someone Beloved"
Roger Benet: Solo de guitarra em "Runnin' Out O' Time"
Luiz Marcio Canto: Solo de violão em "Only God Will Know"
Danilo Goto: Violões (Flamenco) em "Mischance Control"
André Caccia Bava: Guitarras adicionais em "Runnin' Out O' Time"
Luis Cabrera: Saxofone em "Mischance Control" e "Runnin' Out O' Time"
Eduardo Tibira: Backing vocals em "Gotta Get Outta Here" e "Only God Will Know"
Produção Técnica:
Engenharia Adicional, Mixagem e Masterização: Átila Ardanuy (High View Studio)
Arte de Capa e Logo: Gustavo Sazes
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