Soulfly: a chama ainda queima
Resenha - Chama - Soulfly
Por Marcelo Santos
Postado em 02 de novembro de 2025
Recebido muito bem pela crítica especializada, o último disco do Soulfly, "Chama", é uma prova de que nem tudo o que aparece por aí corre no ritmo frenético do consumo imediato e descartável.
Primeiro: é um álbum.
Parece irreverente que esta afirmação óbvia possa "representar" alguma coisa, mas o fato é que o mercado musical tem engolido os álbuns e, cada vez mais, tenta impulsionar o consumo da música como uma "unidade" a ser deglutida e vomitada nos primeiros 15 segundos em alguma playlist.
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Uma das pistas para se reverenciar o lançamento de um álbum hoje em dia é que o que se trabalha, "comercialmente" falando, é o conceito, a ideia que norteia toda a intenção da obra – o oposto da música como unidade, que busca o consumo imediato e efêmero sem espaço para a catarse.
Max é craque nisso. Ele sintetiza muito bem a intenção – espremendo sempre a fórmula do "menos é mais". Por outro lado, mescla toda a intensidade do conceito com a energia do gênero e produz uma obra, digamos, consistente e completa.
"Chama" parece arder nessa fórmula.
Fora isso, não parece se preocupar com a escravização-voluntária-contemporânea ao algoritmo. Max faz o que está dentro dos seus limites e entrega o que tem convicção. O algoritmo que corra atrás...
Aliás, este é um outro ponto. A espontaneidade e a forma visceral de composição provam que o processo criativo ainda está acima do mercado (ao que parece, ele ainda compõe riffs e os faz ganhar vida com a banda, na base do bom e velho "acerto e erro", de forma orgânica e coletiva) .
"Chama", soa coeso a partir de uma mescla de influências e sonoridades. Se por um lado a atmosfera tribal permeia todo o conceito do álbum e as levadas das músicas, por outro, timbres graves e obscuros remetem (e expõem) às raizes black metal de Max. A mistura ainda conta com sons industriais criando uma textura autêntica e nada forçada.
Ponto para Mr. Cavalera.
Ponto para a família Cavalera, melhor dizendo. Já faz tempo que os filhos Zyon e Igor acompanham o pai. Em "Chama" Zyon fica a cargo da produção, junto com Arthur Rizk, além de tocar bateria e seu irmão participa como baixista e letrista em algumas faixas.
Outras participações especiais também dão consistência ao álbum, como o parceiro de longa data de Max, Dino Cazares (Fear Factory), o também guitarrista Michael Amott (Arch Enemy) e o vocalista Todd Jones (Nails).
Vale ressaltar uma coisa: A fórmula Max é imbatível.
Em suma: menos notas, menos palavras.
O minimalismo, no entanto, é compensado, por assim dizer, pela exacerbação do groove e do ritmo. Max é um dos poucos guitarristas que se pode chamar, literalmente, de "ritmista". O "efeito" da guitarra busca sempre uma cadência agressiva que empurra a música para frente. No final, o riff entrega tanto a cozinha quanto o prato principal. Tente não pular ou balançar sua cabeça ouvindo qualquer disco em que o Mr. Cavalera assina as composições.
A crítica negativa que se ouve é a de que a fórmula é repetitiva e simples demais. O "mais do mesmo"... Pode ser que seja, em certa medida. Para isso, existe sempre a possibilidade de ouvir outra coisa...
Uma obsessão que ocorre aos mais variados músicos é encontrar uma linguagem, uma identidade e, em última análise, uma fórmula que o faça ser reconhecido ao som da primeira nota soada.
Diga o que quiserem, mas o Max conseguiu achar essa "voz" desde o Sepultura, principalmente depois do álbum Chaos A.D. -- e muitos que vieram depois, de alguma forma, copiaram a receita.
Tanto é que não se pode diferenciar seus projetos com exatidão.
Quando começa o Soulfly e termina o Cavalera Conspiracy?
No final, é tudo Max.
O álbum "Chama" não escapa da fórmula Max. Riffs simples, bordões cadenciados. Senti falta apenas de um refrão, daqueles que fica cutucando o seu córtex pré-frontal vez que outra.
Talvez a intenção não seja essa. O conceito talvez venha na frente, batendo contra a locomotiva do algoritmo – afinal, o refrão é sempre comercial, queira ou não queira.
Max parece nadar contra a maré. Produz álbuns, trabalha com a família. Numa época em que tudo parece efêmero, desde o ato de ouvir música até às relações humanas mais íntimas, "Chama" parece representar mais do que um "produto cultural", mas uma forma de resistência a este zeitgeist que produz o descartável como condição de existir.
Ouça as faixas:
Indigenous Inquisition
Storm The Gates
Nihilist
No Pain = No Power
Ghenna
Black Hole Scum
Favela / Dystopia
Always Was, Always Will Be…
Soulfly XIII
Chama
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