"MI'RAJ" - quando Edu Falaschi troca a velocidade pela emoção e encerra trilogia com maturidade
Resenha - MI'RAJ - Edu Falaschi
Por Marlon Aires
Postado em 17 de junho de 2026
Há discos que encerram uma história. E há discos que encerram uma fase da vida de um artista. MI'RAJ, lançado em 12 de junho de 2026 por Edu Falaschi, consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo. O álbum fecha a trilogia iniciada com Vera Cruz (2021) e continuada em Eldorado (2023), concluindo a jornada de Jorge, personagem que atravessou continentes, guerras, perdas e conflitos espirituais até encontrar sua verdadeira essência.
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Ambientado no Oriente Médio do século XVI, MI'RAJ mergulha em temas como transcendência, identidade, fé, intuição, superação e redenção. Mas, diferentemente de muitos álbuns conceituais que se perdem na própria grandiosidade, aqui tudo parece servir à narrativa. Não há excesso pelo excesso. Não há técnica pela técnica. Há propósito.
Musicalmente, o disco mantém a identidade construída nos dois trabalhos anteriores, ampliando a presença de elementos orientais, orquestrações cinematográficas, passagens progressivas e o tradicional power metal melódico que transformou Edu em um dos maiores nomes do gênero.
Mas a grande diferença de MI'RAJ talvez esteja justamente onde muitos fãs menos esperavam: na guitarra.
Durante anos, a banda de Edu contou com a presença de Roberto Barros, músico tecnicamente impecável e dono de uma velocidade impressionante. Porém, em muitos momentos, a impressão era de que havia notas demais. Frases demais. Informação demais. O virtuosismo acabava disputando espaço com a própria música.
Com a chegada de Victor Franco ao processo criativo, algo mudou.
E mudou para melhor.
Victor participa oficialmente da composição de partes instrumentais de faixas importantes do álbum, como "Watchers of the Light", "Wrath Into the War", "Circle of Dust" e a própria "Mi'raj". Sua contribuição não está na quantidade de notas tocadas, mas na escolha das notas certas.
Existe uma máxima na música que diz que "menos é mais". E Victor parece compreender isso de maneira intuitiva. Seus solos respiram. Seus riffs têm identidade. Suas melodias permanecem na memória após o fim da audição.
É curioso perceber que, mesmo sendo mais jovem, Victor demonstra uma maturidade melódica impressionante. Enquanto muitos guitarristas modernos parecem competir por quem toca mais rápido, ele parece preocupado em algo muito mais difícil: emocionar. E consegue.
Seu trabalho em MI'RAJ é um dos grandes responsáveis por dar alma ao álbum.
Outro destaque absoluto é "Intuição". Não apenas porque é uma excelente música, mas pelo que ela representa.
Após aproximadamente 24 anos cantando músicas inéditas exclusivamente em inglês, Edu finalmente grava uma composição original em português. O resultado é emocionante. A língua portuguesa aproxima o ouvinte da mensagem de uma forma quase imediata, tornando a experiência mais íntima e pessoal.
Mas existe outro elemento que torna "Intuição" histórica: a participação de Rafael Bittencourt. Para quem acompanhou a trajetória do metal brasileiro nas últimas décadas, é impossível ouvir a faixa sem perceber o simbolismo desse encontro. Depois de anos marcados por divergências públicas, mudanças de formação e especulações dos fãs, ver Edu e Rafael novamente dividindo uma música transmite uma sensação rara de maturidade.
Mais do que nostalgia, "Intuição" representa reconciliação. Representa a compreensão de que a música é maior do que qualquer conflito. O solo de Rafael surge com elegância e sentimento, servindo à canção em vez de tentar dominá-la. É um momento que emociona não apenas pela qualidade musical, mas por tudo o que existe por trás dele.
As participações especiais do álbum também ajudam a enriquecer a narrativa. A vocalista Veronica Bordacchini brilha na faixa-título, trazendo dramaticidade e peso sinfônico, enquanto Roy Khan empresta sua voz marcante a "Circle of Dust", em um dos momentos mais inspirados do disco.
Além disso, vale destacar a estreia oficial do baterista Jean Gardinalli em um álbum de Edu. Sua performance alia técnica, precisão e agressividade sem jamais perder musicalidade, contribuindo para uma sonoridade mais moderna e dinâmica.
Ao final da audição, fica a sensação de que MI'RAJ não é necessariamente o álbum mais pesado da trilogia. Talvez também não seja o mais grandioso.
Mas certamente é o mais humano. É o disco de um artista que não precisa mais provar nada para ninguém. De um compositor que entendeu que emoção vale mais do que exibição.E de uma banda que encontrou o equilíbrio entre técnica e sentimento. Se Vera Cruz foi a descoberta e Eldorado foi a aventura, MI'RAJ é a iluminação.
Um encerramento digno para uma das trilogias mais ambiciosas já produzidas no heavy metal brasileiro. E, quem sabe, o trabalho mais maduro da carreira solo de Edu Falaschi.
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