Quando o Megadeth deixou o thrash metal de lado e assumiu um risco muito alto
Resenha - Risk - Megadeth
Por Mateus Ribeiro
Postado em 08 de outubro de 2025
O início turbulento e a caminhada rumo ao topo do thrash
A história do Megadeth começou a ser escrita em 11 de abril de 1983, quando o guitarrista Dave Mustaine foi demitido do Metallica. Na época, o grupo estava em Nova York, preparando-se para gravar seu primeiro disco, "Kill 'Em All". O músico encarou uma viagem de quatro dias de ônibus até seu estado natal, a Califórnia, e, no meio do caminho, decidiu montar sua própria banda.
Não demorou muito tempo para o Megadeth se tornar um dos grandes expoentes do thrash metal. Seus primeiros álbuns, especialmente o segundo, "Peace Sells… But Who's Buying?" (1986), colocaram o quarteto liderado por Mustaine entre os grandes nomes do gênero.

O Megadeth chegou ao topo do thrash em setembro de 1990, com o lançamento de seu quarto disco de estúdio, "Rust in Peace". Pautado por riffs agressivos, batidas explosivas e músicas com estruturas intrincadas, o álbum tem como destaques as icônicas "Holy Wars… The Punishment Due", "Hangar 18" e "Tornado of Souls".
A mudança na sonoridade
Com o sucesso alcançado por "Rust in Peace", seria natural que o Megadeth mantivesse a agressividade e a velocidade nos trabalhos seguintes. Porém, Mustaine e seus colegas de banda (o guitarrista Marty Friedman, o baixista David Ellefson e o baterista Nick Menza) optaram por outro caminho.
A partir do quinto disco de estúdio do Megadeth, o excelente "Countdown to Extinction" (1992), a sonoridade ganhou contornos mais melódicos e as músicas passaram a ter andamentos menos acelerados. Essa abordagem foi mantida nos ótimos "Youthanasia" (1994) e "Cryptic Writings" (1997), sendo que este último apresenta a radiofônica "Trust".
O fim da formação clássica e a aposta de alto risco
Em 1998, Nick Menza foi dispensado por Mustaine. Essa não foi a única mudança promovida pelo chefão do grupo: o som, mais uma vez, passou por uma alteração significativa, representando a aposta mais arriscada que o Megadeth assumiu em sua carreira.

Apropriadamente intitulado "Risk" (1999), o oitavo disco do Megadeth rompeu definitivamente os laços com o thrash metal. O peso ainda se fazia presente em algumas faixas, porém, a tentativa de fazer um som comercial não rendeu os melhores resultados e Mustaine reconhece o erro. Em 2017, ele relatou ao uDiscover Music que o álbum deveria ter sido lançado como um trabalho solo:
"Se aquele disco se chamasse The Dave Mustaine Project, as pessoas teriam adorado. Mas, como dizia Megadeth, esperavam Megadeth. E esse foi o meu erro; eu deveria ter chamado de disco solo. Mas eu tinha os caras da banda lá, o que seria totalmente desrespeitoso."
O disco que tem a música mais idiota e uma das melhores do Megadeth
Uma das principais faixas de Risk é "Crush' Em", que também aparece na trilha sonora do filme "Universal Soldier: The Return" ("Soldado Universal - O Retorno"). Durante entrevista concedida ao Noisecreep em 2013, Mustaine deixou claro que não morre de amores pela canção.
"Lembro-me do dia em que nosso empresário na época [Bud Prager, falecido] foi à minha casa e disse: 'Tive uma ideia. Duas palavras: esmague-os [crush' em]'. O silêncio foi ensurdecedor (...).
Provavelmente a música mais idiota que o Megadeth já fez foi 'Crush 'Em'. Não que eu a odeie, porque nunca lançamos algo de que eu não gostasse musicalmente, mas não gosto muito dela."
Por outro lado, "Risk" traz "Wanderlust", que Mustaine considera uma das suas melhores criações. Em entrevista ao Songfacts, o frontman declarou:
"Acho que uma das melhores músicas que já escrevi - no que diz respeito ao drama, como uma imagem dentro de uma música - é 'Wanderlust'. Sempre achei 'Wanderlust' uma das melhores músicas que gravamos, com a letra, o canto, o clímax da música. Foi lançada em um momento em que a população musical estava gostando de um tipo diferente de música."
A canção triste que ajudou a tirar Marty Friedman do Megadeth
A quinta faixa de Risk, "Breadline" narra a história de alguém que vive nas ruas. O guitarrista Marty Friedman gostava da canção, mas um de seus trechos - mais especificamente o solo de guitarra - traz más lembranças. Em artigo publicado no seu site oficial, ele relembrou a situação:
ssa era minha música favorita do álbum na época. Também fiz meu solo favorito do álbum nessa música, mas ele foi substituído por Dave sem meu conhecimento (...). Fiquei furioso porque ninguém tinha me contado nada até a música já estar mixada. Acontece que nossos empresários não gostaram do solo que fiz, disseram que era 'muito feliz e melódico'."
Friedman conclui que o episódio o impactou: "Se eles precisassem refazer, poderiam ter me dito que eu ficaria feliz em voltar para Nashville e refazer. Essa falta de consideração certamente plantou a semente para eu querer sair da banda".
Por fim, Marty deixou o Megadeth de forma turbulenta no início do ano 2000. Ele foi substituído por Al Pitrelli.
O saldo final
Mais de vinte e cinco anos após seu lançamento, "Risk" continua sendo um dos pontos baixos da discografia do Megadeth. A tentativa de fazer um som mais palatável, definitivamente, não caiu nas graças nem da crítica, tampouco do público.
Mustaine até tentou retornar às raízes com o sucessor de "Risk", "The World Needs a Hero" (2001), porém, não obteve êxito. As vendas do disco foram baixas, e em abril de 2002, ele encerrou as atividades da banda - e reverteu a decisão dois anos depois.
Apesar dos pesares, "Risk" tem seus bons momentos. Para aproveitá-los, é indicado seguir uma dica importante: ouça o disco como se fosse o trabalho de uma banda que nunca tocou thrash metal. Boa audição!
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