Eliton Tomasi: A coleção do editor da RockHard/Valhalla

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Por Ricardo Seelig
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Esta matéria foi publicada muitos anos atrás, está datada, e a coleção mostrada hoje deve ser bem diferente. Mas a matéria continua sendo uma curiosa cobertura sobre uma invejável coleção, e por isso a destacamos.

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O editor da RockHard/Valhalla, é, antes de tudo, um apaixonado por música. Seja a frente da sua enorme coleção ou traçando os destinos da mais nova revista dedicada ao heavy metal no Brasil, deixa bem claro o quanto a música é importante na sua vida. Eliton nos recebeu e, além de apresentar e dar detalhes da sua coleção, revelou quais são os planos da RockHard/Valhalla para 2007. Confira.


Fotos: Everton Tomasi - MMCard

Eliton, antes de tudo muito obrigado por participar da Collector's Room. Para começar o nosso bate-papo, gostaria que você se apresentasse aos nossos leitores.

Eu que agradeço a oportunidade. Bom, me chamo Eliton Tomasi, tenho 29 anos e sou fundador e editor da revista Rock Hard/Valhalla, que há dez anos é publicada no mercado. E, mais do que tudo, sou um grande fã de música, principalmente daquele segmento chamado rock n roll.

Você lembra como foi o seu primeiro contato com a música, e como se apaixonou pelo rock?

O primeiro contato eu não me lembro, mas meu interesse por rock surgiu a partir do final da década de oitenta e começo dos anos noventa, com a segunda edição do Rock In Rio. Bandas em ascensão na época, como o Guns'N Roses e o Faith No More, fizeram a minha cabeça.

Quando você percebeu que estava se transformado de um simples fã em um colecionador?

Acho que quando comprei os meus primeiros discos, que foram o "Lies" e o "Appetite For Destruction" do Guns. O "Lies" eu comprei em LP e o "Appetite" em cassete. Semanas depois comprei o "Appetite" em vinil também, e tenho ambos até hoje. Desde então virei um colecionador compulsivo.

Qual o tamanho da sua coleção?

Devo ter mais de seis mil discos, entre LPs e CDs, incluindo os discos que recebemos aqui na redação da revista.

De quais artistas você possui mais material?

Acho que do Black Sabbath. Por ser uma de minhas bandas prediletas, eu fiz questão de ter a coleção inteira (só com o Ozzy) em vinil e em CD.

A maioria dos adolescentes que viveram a década de oitenta e o início doss anos noventa começaram ouvindo heavy metal e hard rock através de grupos como Iron Maiden, AC/DC, Guns'N Roses e outros. Como isso aconteceu com você: o seu início foi com o rock mais pesado e depois você descobriu outras vertentes, ou foi o contrário?

Como disse, a princípio eu era fanático pelo Guns'N Roses. Depois fui conhecendo outras bandas mais pesadas como o Iron, Sabbath, Metallica, Megadeth, até chegar no black metal anos mais tarde.

Além dos CDs e vinis, que outros formatos você possui na sua coleção?

Tenho alguns vinis, já tive mais, porém troquei ou vendi muitos no decorrer dos anos. Não tenho muitos VHS ou DVDs, não sou muito apegado a "imagem", prefiro ouvir e "sentir" a música. Se é pra ter a imagem do artista eu prefiro que seja num show ao vivo.

Vamos voltar um pouco no tempo então: qual foi o primeiro álbum que você comprou, e porque?

Como disse, foram o "Lies" e o "Appetite For Destruction" do Guns. Era a banda que eu mais curtia na época e o meu primeiro contato com o rock pesado.

Qual o item que você considera o mais raro da sua coleção?

Acho que o meu LP do primeiro disco do Black Sabbath, que é original de 1969. Pode não ser a coisa mais rara do mundo perto dos bootlegs, pictures e boxes que se encontra no mercado hoje, mas pra mim tem um significado especial.

Qual foi o maior número de álbuns que você comprou de uma única vez?

Teve uma época de minha vida que me tornei extremamente obsessivo por discos. Era um vício. Comprava de dez a vinte itens de uma só vez. Toda semana eu comprava discos, de um a três por semana, pelo menos. Eu trabalhava para comprar discos. Não me orgulho disso não...

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Você é editor da RockHard/Valhalla, e isso faz com que você receba muitos itens promocionais das gravadoras todos os meses. Este material sacia a sua necessidade de consumidor de música, ou você ainda compra vários CDs todos os meses?

Pra ser sincero, é difícil eu comprar um disco hoje em dia. Recebo todas as novidades aqui na redação. Todavia, minha preferência musical é por coisas dos anos 60 e 70. Esses intens nós não recebemos, mas com o advento da internet ficou fácil conseguir esses álbuns. Se não é pela internet eu consigo através de amigos que me gravam. Dois em especial: o Amyr Cantusio e o Marcos Pingüim, ambos colaboradores da revista.

Existe algum item da sua coleção que você tem um carinho especial, sente ciúmes e não deixa ninguém chegar perto?

Pra ser sincero, não. Procuro não ter apego por nada material, mesmo meus CDs. Um dia vou morrer e esses discos vão ficar. Pra que então me preocupar tanto com eles?

Entre todos os itens que você possui, quais foram os que deram mais trabalho para conseguir?

Hoje em dia o acesso está muito mais fácil. Na minha época era preciso se fazer pesquisa e isso tornava a coisa mais excitante. Hoje em dia não existe mais o aspecto cultural de se colecionar música. Conseguir esse primeiro LP do Sabbath que mencionei foi um parto, assim como um bootleg do Venom que tenho e o primeiro do Kreator, que era raríssimo na época. Me lembro que quando consegui esses discos eu ficava ouvindo-os o dia inteiro.

Toda coleção possui itens curiosos. Neste sentido eu gostaria de saber qual é o CD mais estranho da sua coleção.

Sou muito eclético pra música. Não ouço só rock. Gosto também de jazz, blues, música indiana, new age e música clássica. Não há nada que eu considere "estranho" na minha coleção.

Que álbuns as pessoas ficariam surpresas em saber que você possui?

Acho que nenhum, pois as pessoas sempre souberam que sou eclético. Mesmo na revista eu sempre deixei claro minha aversão ao radicalismo. Me lembro até de ter sido atacado algumas vezes por indicar discos que não fossem de metal em listas de melhores do ano que publicávamos. Hoje o povo está com a cabeça mais aberta. Sou eclético, mas desde que seja música feita com alma. Se não tem alma, eu passo, seja o estilo que for.

Quais álbuns você está há anos atrás mas ainda assim faltam na sua coleção?

Como disse, hoje em dia está fácil conseguir o que se quer. Durante a década de 80 e 90 era diferente. Como sou do interior de SP, reuníamos galeras grandes de amigos para irmos pelos menos uma vez por mês para a Galeria do Rock para garimpar as lojas atrás das coisas que eram mais difíceis de achar aqui do interior. Hoje você pode conseguir tudo sem levantar a bunda do lugar.

Como você guarda e conserva a sua coleção?

Como disse, procuro não criar apego a nada material. Isso não significa que eu seja desleixado, pelo contrário, toda minha coleção é arquivada e organizada, mas sem exageros.

Eu queria que você fizesse agora um top#5 com os itens do seu acervo que você mais curte.

É difícil, são tantos itens e tantas coisas que gosto... Ademais, hoje já não existe mais tantas "raridades" assim. O volume de coisas lançadas e relançadas foi muito grande nos últimos anos, som contar a Internet. Eu também gosto de muitas coisas diferentes e minha preferência sempre depende do meu estado de espírito. Porém, eu sei como é chato você fazer uma pergunta pra um entrevistado e ele dar uma resposta incompleta. Vou citar então cinco discos que mais tenho ouvido no momento pra não passar em branco. Ok?

- Genesis - A Thick Of The Tail
- PFM - Jet Lag
- Camel - The Snow Gooze
- IQ - The Wake
- Triumvirat - Pompeii

E os dez melhores álbuns de todos os tempos, quais seriam na sua opinião?

Vixe, agora complicou mais ainda. Bom, em minha concepção existem duas bandas fundamentais pro rock em geral: os Beatles e o Black Sabbath. Pra mim, em termos de rock, tudo foi feito antes pelos Beatles. Tudo! Assim, o que veio depois foi somente transformação de uma mesma coisa já feita antes pelo Fab Four. Todavia, vejo o Black Sabbath como uma banda fundamental para o rock pesado em geral. Foi a banda que mais transformou e somou o que os Beatles fizeram, chegando a inaugurar um novo segmento mais pesado do rock que é o heavy metal. Dessa forma, cito cinco discos de cada como os melhores de todos os tempos.

- The Beatles - Revolver
- The Beatles - Rubber Soul
- The Beatles - Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band
- The Beatles - White Album
- The Beatles - Abbey Road
- Black Sabbath - Sabbath Bloody Sabbath
- Black Sabbath - Sabotage
- Black Sabbath - Vol. 4
- Black Sabbath - Master Of Reality
- Black Sabbath - Paranoid

Ah, em tempo, digo que o Black Sabbath só é o Black Sabbath com Iommi, Butler, Ward e Osbourne (risos).

A troca de itens é normal entre os colecionadores. Ao mesmo tempo que nos dá acesso a discos que estamos procurando há tempos, às vezes acabamos nos desfazendo de álbuns que, com o passar dos anos, fazem falta. Que item você vendeu e acabou se arrependendo depois?

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Eu tinha uma coleção muito grande de LPs de death e black metal. Coisas raríssimas, incluindo importados e piratas. Isso no meio da década de 90, no auge do movimento na Flórida. Como disse, meu gosto sempre depende do meu estado de espírito, e houve uma época que meu interesse pelo som extremo foi dando lugar a uma preferência pelo metal tradicional. Fiz muitos rolos com esses discos de metal extremo por outros de metal clássico e hard rock. Hoje muitos desses discos de metal clássico e hard rock também não estão mais em minha coleção (risos). Mas não é uma coisa assim que eu me arrependa... É até legal, pois ouvi muitos esses discos na época e sei que eles devem estar hoje com alguém que está curtindo muito também. Não podemos ser egoístas com a música (risos).

Eliton, você é editor da Valhalla, uma publicação que vem se destacando cada vez mais no cenário brasileiro. Conta pra gente como surgiu a revista.

Ela surgiu há dez anos atrás, através de mim e de mais três amigos chamados Marcos Gurgel, Gustavo Ferrari e Bruno Massoli. A principio tínhamos formado uma banda, mas não sabíamos tocar nada e desistimos. Ai formamos um fã-clube de metal que era na minha casa, e como todo fã-clube tem o seu zine, nós fizemos o nosso. Com o tempo fomos melhorando o zine e a equipe se renovando, até que chegou ao ponto da revista se profissionalizar.

Recentemente o mercado editorial nacional foi sacudido pela notícia da fusão da Valhalla com a RockHard alemã, gerando uma nova publicação chamada RockHard/Valhalla. Como se deu todo este processo?

A Rock Hard, que é a maior publicação européia de rock e metal de todos os tempos, queria chegar até o Brasil. Como já haviam três revistas no mercado, eles optaram por fazer uma parceria com uma dessas três, ao invés de lançar uma quarta revista num mercado limitado e problemático como esse. Para eles a Valhalla era a melhor revista brasileira e tínhamos já uma certa amizade com eles. Assim, a parceria acabou surgindo.

Os nossos leitores têm a curiosidade de saber como é o dia-a-dia de uma revista de música, o que cada profissional faz, enfim, como é trabalhar em um veículo especializado em heavy metal. Eu gostaria que você saciasse esta curiosidade.

As pessoas têm a ilusão de que trabalhar com música é algo mágico e "glamoroso". Pura ilusão. Nosso trabalho é um trabalho como outro qualquer. Chegamos na redação as 9 da manhã e saímos as seis da tardes todos os dias, de segunda a sexta.

A parte "especial" pode ser o contato que você tem com os artistas. Afinal, não é todo dia que você recebe uma ligação dizendo: "Oi, o Eliton está? Aqui é o Gene Simmons, estou ligando para fazermos a entrevista". Mas mesmo isso acaba se tornando normal depois de um tempo, e você se acostuma.

As festas e eventos que rolam também são legais no inicio, mas depois você conhece quem são realmente as pessoas que participam dessas festas e acaba se deparando com muita falsidade e mediocridade. Ai tudo perde a graça.

O verdadeiro "especial" desse trabalho está em se trabalhar com amor. Mas ai, tudo o que você faça com amor, seja o trabalho que for, acaba se tornando "especial".

Espero que esse seja um toque pros jovens de hoje que "sonham" em ser músicos ou trabalhar no meio musical. Pessoal, é tudo uma grande ilusão, a felicidade está dentro de nós e não em coisas externas...

Imagino que esta nova fase da RockHard/Valhalla esteja repleta de planos e surpresas para os leitores. O que você pode nos adiantar a respeito disso?

Já estamos com a edição 46 nas bancas, que é a quinta desde a parceria com a Rock Hard. Acho que as pessoas já puderam conhecer bem nosso diferencial a partir de agora. A Rock Hard-Valhalla sempre sai na frente ao trazer as mais quentes reportagens, pois elas são produzidas diretamente na Europa e EUA. Antes tínhamos que esperar as bandas e artistas disponibilizarem tempo para atender a imprensa brasileira que, infelizmente, é uma das últimas a ser lembrada. Agora nós somos prioridade para os artistas e gravadoras, pois somos uma revista de nível mundial. Ademais, temos seções e matérias que nenhuma outra publicação oferece. Algumas como a Mesa Redonda são seções únicas até a nível mundial!

Eliton, o que você tem ouvido ultimamente, e o que destacaria para os leitores do Whiplash!?

Eu já listei numa das perguntas anteriores. O que eu destacaria hoje são os clássicos. Espero que os jovens possam ter mais interesse em mergulhar no passado para conhecer os medalhões e ai comparar com as coisas atuais. Não sou contra o novo, absolutamente, mas é preciso reconhecer que tudo já foi criado. Idolatram muito os pupilos enquanto os grandes mestres estão esquecidos.

Qual você acha que foi, e ainda é, o papel, a importância e a influência do heavy metal para a música, o comportamento e a cultura pop como um todo?

Vejo o metal como um segmento que criou seu próprio mundo paralelo ao rock. Os músicos e fãs de metal têm uma identidade e identificação mais profunda e, assim, se tornam mais fiéis. Isso fez com que o metal se mantivesse sempre forte, enquanto que outros segmentos declinaram. Hoje o metal ajudou a ressuscitar outros segmentos que estavam um pouco esquecidos, como o movimento gótico, o punk, o hardcore, o progressivo e outros que acabaram se fundindo ao heavy metal ao longo dos anos. A sobrevivência do rock em geral deve muito ao heavy metal.

O rock já está aí há mais de cinquenta anos, e passou por diversas fases neste tempo todo. Sendo assim, eu gostaria que você indicasse aos nossos leitores os álbuns que você recomenda das décadas de sessenta até hoje.

Nos anos sessenta e setenta haveria tantas coisas que eu recomendaria que eu poderia escrever nomes de bandas e discos por uns três dias seguidos. Assim, prefiro me limitar às duas bandas que citei acima como as fundamentais, os Beatles e o Sabbath. Já com as demais décadas eu consigo ser mais seleto.

Anos 60:
- The Beatles - Revolver
- The Beatles - Rubber Soul
- The Beatles - Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band
- The Beatles - White Album
- The Beatles - Abbey Road

Anos70:
- Black Sabbath - Sabbath Bloody Sabbath
- Black Sabbath - Sabotage
- Black Sabbath - Vol. 4
- Black Sabbath - Master Of Reality
- Black Sabbath - Paranoid

Anos 80:
- Iron Maiden - Seventh Son Of A Seventh Son
- Metallica - Kill Em All
- Venom - Black Metal
- The Smiths - Meat is Murder
- Marillion - Misplaced Childhood

Anos 90:
- Alice In Chains - Dirt
- Queensryche - Empire
- Paradise Lost - One Second
- Morbid Angel - Covenant
- Faith No More - King For a Day, Fool For a LIfetime

Anos 2000:
- Coldplay - X&Y
- Foo Fighters - In Your Honor
- Katatonia - Last Fair Deal Gone Down
- Oasis - Familiar To Millions
- Him - Love Metal

Nestes anos todos esta paixão pela música certamente propiciou a você diversas experiências interessantes e curiosas, como contato com os seus ídolos, etc. Conta aí alguma história interessante que você viveu por causa da sua paixão pela música.

Realmente rolaram várias situações bacanas ao longo de dez anos trabalhando como jornalista de rock. Conheci e falei com muitos ídolos. Todavia, a criação desses ídolos sempre foi o que me fascinou, e não os próprios ídolos. Para mim, a música, quando tem conteúdo, reflete a alma do artista. E quando se está em contato com a música, você está em contato com a alma do artista. E a alma é a verdadeira essência de uma pessoa, não o seu falso ego criado a partir de ilusões da vida. Por isso que digo que as melhores experiências que vivi foram os discos que ouvi e os shows que assisti... Estabelecer contato profundo com a música de um artista é conhecer mais sobre o artista do que ele próprio se conhece

Eliton, mais uma vez muito obrigado por ter participado da Collector's Room. Este espaço é seu.

Eu que agradeço, mais uma vez. Paz e amor pra todos.


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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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