Airton Diniz: A coleção do editor chefe da Roadie Crew

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Por Ricardo Seelig
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Joey Molland, do Badfinger, autografando o álbum Straight Up
Joey Molland, do Badfinger, autografando o álbum Straight Up
Album autografado, tendo ao fundo a faixa de campeão paulista de 2006 do Santos F.C.
Album autografado, tendo ao fundo a faixa de campeão paulista de 2006 do Santos F.C.
Primeiro álbum da coleção, “Beatles Again”
Primeiro álbum da coleção, “Beatles Again”
Box do Dimmu Borgir
Box do Dimmu Borgir
Visão da estante onde é guardada a coleção
Visão da estante onde é guardada a coleção
Credenciais de eventos
Credenciais de eventos

Esta matéria foi publicada muitos anos atrás, está datada, e a coleção mostrada hoje deve ser bem diferente. Mas a matéria continua sendo uma curiosa cobertura sobre uma invejável coleção, e por isso a destacamos.

Para esta edição da Collector´s Room tivemos uma longa conversa com Airton Diniz, editor-chefe da revista Roadie Crew. Música, fãs, o mercado fonográfico e editorial de Heavy Metal fizeram parte do papo, onde um dos mais respeitados jornalistas musicias brasileiros abriu as portas da sua casa e apresentou a sua coleção pra gente.

Você lembra como foi o seu primeiro contato com a música, e como descobriu e se apaixonou pelo rock e pelo metal?

O fato mais marcante para que a música se tornasse algo importante em minha vida foi o aparecimento dos Beatles. Eu já me interessava pelo rock, que havia surgido alguns anos antes (Buddy Holly, Elvis Presley e outros), mas eu ainda era muito criança. Acompanhei a revolução cultural e comportamental que teve início no final da década de 50 e se consolidou nos anos 60. A evolução disso teve como conseqüência o rock pesado, o nosso heavy metal, que a partir dos anos 70 se estabeleceu como o gênero musical mais globalizado que existe.

Toda grande coleção tem o que eu chamo de o seu “ponto zero”, o seu marco inicial. Aquela hora em que nós, colecionadores, percebemos que somos diferentes dos nossos amigos, que apenas “consomem” música. A dedicação é maior, o investimento é maior, o cuidado com tudo é maior. Quando você percebeu que estava se transformado de um simples fã em um colecionador dedicado de seu estilo favorito?

A coleção de discos começou mesmo foi com os Beatles e o primeiro disco foi o LP “Beatles Again” (segundo álbum deles no Brasil, e exclusividade da discografia brasileira, lançado pela Odeon com alguns singles e com algumas das músicas do primeiro disco, que havia saído na Inglaterra com o nome de “Please, Please Me”). Mas a fase que já pode ser considerada como do Heavy Metal não teve um momento específico que possa ser definido como o início. Atravessei todas as fases da evolução do metal e fui acrescentando discos à minha coleção na medida em que descobria a existência de bandas “garimpando” prateleiras de lojas. Lembro de alguns lançamentos marcantes como “Are You Experienced?” do Jimi Hendrix (ainda anterior à existência do termo “Heavy Metal”), mas talvez os primeiros LPs do Led Zeppelin, do Black Sabbath e do Deep Purple possam ser considerados como o ponto de partida.

Airton, quantos álbuns no geral você possui?

Em números aproximados são uns 800 LPs e 3000 CDs, e tenho até compactos em vinil também, uns 150.

Você sabe dizer de quais bandas você possui mais material?

Basicamente dos clássicos (Sabbath, Purple, Zeppelin, Iron Maiden), até pela quantidade de trabalhos que foram lançados por esses grupos, e naturalmente, dos Beatles e do Badfinger.

A sua coleção é focada na música pesada, e todos nós sabemos que o metal é, sem dúvida o estilo mais apaixonante que existe. Conta pra gente como foi a sua trajetória dentro do heavy metal.

Ouço de tudo, e tenho uma forte preferência por música pesada que, como eu disse antes, acredito que tenha sido atraído inicialmente pelos trabalhos de Jimi Hendrix, Grand Funk Railroad, até mesmo Steppenwolf, Status Quo, ainda nos anos 60. Depois vieram The Who, o pessoal do Progressivo com Pink Floyd, Emerson Lake & Palmer, Yes; o AC/DC, o trio de ferro entre os pioneiros do metal: Zeppelin, Sabbath e Purple e todas suas variações (Whitesnake, Rainbow, Ozzy solo, etc) - tenho certeza de que vou esquecer algum nome muito importante em cada fase dessas, mas... Continuando: nos anos 80, infalivelmente o Iron Maiden, Dio; os representantes do Hard Rock - que não tinha essa denominação, era Heavy Metal mesmo – (Poison, Motley Crue, Ratt...) e todos da praia Thrash, com destaque para Testamet, Metallica, Anthrax, Slayer. Em seguida curti muito os bons tempos do Sepultura, gosto demais do Benediction, e as muitas coisas boas que apareceram na Europa, especialmente King Diamond. Nos anos mais recentes duas das bandas que mais me chamaram a atenção foram o Dimmu Borgir e o Tuatha de Danann.

Além dos CDs e vinis, você coleciona outros materiais?

Guardo as credenciais dos eventos que cobrimos pela Roadie Crew. Fora da área musical tenho talvez uma das maiores coleções de jogos de botão (futebol de mesa), que guardo desde os tempos de garoto, quando se podia colocar as fotos dos jogadores nos botões e as partidas eram jogadas com as escalações oficiais dos times na época.

Vamos voltar um pouco no tempo então: qual foi o primeiro álbum que você comprou, e porque?

Meu primeiro álbum foi o “Beatles Again”, que não comprei, pedi e ganhei de presente de aniversário.

Qual o item que você considera o mais raro da sua coleção?

Tenho um álbum chamado “Straight Up”, do Badfinger (banda ligada aos Beatles no final dos anos 60, início dos 70), que já era especial para mim, mas recentemente quando o Joey Molland (membro da formação original do Badfinger) esteve no Brasil ele escreveu uma dedicatória na capa deste vinil – ficou impossível calcular um valor para esse disco.

Qual foi o maior número de álbuns que você comprou de uma única vez?

Acho que foi numa viagem em que eu trouxe uns 90 discos.

Quantos álbuns em média você compra por mês?

Atualmente praticamente nem compro mais CDs, só quando encontro raridades, normalmente coisas antigas. De material atual recebo tudo das gravadoras nas épocas dos lançamentos.

Qual o item que você tem mais ciúmes, aquele CD que você tem um carinho especial e não venderia de jeito nenhum?

São vários. Na verdade se preciso usar em viagem procuro pegar só os que tenho repetidos. Vender nem pensar. Aliás tenho um CD do Metallica que tem o “Creeping Death” e o EP “Jump In The Fire” juntos, que é muito cobiçado pelo Claudio Vicentin da Roadie Crew... Ah, e tenho um vinil, e o respectivo CD, do álbum “Fire In The Brain” de uma banda chamada Oz, que todo headbanger deveria conhecer - essa é uma das preferidas do Ricardo Batalha...

Entre todos os itens da sua coleção, quais foram os que deram mais trabalho para conseguir?

Poucas vezes fiquei à procura de um item específico, mas para mim é inesquecível o momento em que vi pela primeira vez o “Magic Christian Music” do Badfinger em CD. A Apple demorou muitos anos para lançar esse álbum em CD e eu já tinha três vinis do mesmo disco. Comprei o CD e uma semana depois recebi outro igual enviado por um amigo que mora na Europa e sabia que eu curtia muito o som da banda. Tenho cinco vezes o mesmo disco. Outro que curti demais quando achei foi um do Status Quo (com a música “Pictures Of Matchstick Men” – que eles não tocaram quando fizeram show no Brasil ! ).

Com certeza ainda existem alguns álbuns que você procura, procura, mas mesmo assim faltam na sua coleção, certo? Que discos são estes?

Tem sim, mas só coisa antiga mesmo, reedições em CD de álbuns que já tenho em vinil, como alguns do Judas Priest. E tem uma música, “Georgia On My Mind”, cuja dificuldade está sendo encontrar uma versão específica, pois não lembro o nome da banda, é coisa muito antiga, muita gente gravou essa música, mas a versão que procuro só vou identificar ouvindo, não é com artista famoso.

Você possui algum lugar específico para guardar a sua coleção? E, além disso, tem alguma dica de como conservar todos estes itens?

Adaptei minha antiga estante de LPs e desenvolvi um sistema de gavetas com um primo meu que trabalha com móveis sob medida. Sugeri até que ele registre a patente destas gavetas pois ficou bem funcional e dá excelente aproveitamento de espaço. A conservação de CDs é muito mais simples que dos LPs. Eu não tenho nenhum trabalho para manter a coleção, pois atualmente os LPs são raramente manuseados e os CDs não dão problema de manutenção.

Eu queria que você fizesse agora um top#5 com os itens do seu acervo que você mais curte.

Bom, já aviso que não concorrem nesse ranking quaisquer itens dos Beatles nem do Badfinger, pois todos os trabalhos dessas duas bandas, e respectivos componentes em carreira solo, são impossíveis de serem comparados com o mundo normal. Estão até arquivados em separado.

Sei que vou cometer injustiças mas, vamos lá (pode ser que eu mude os ítens a cada momento que tente fazer essa lista):

- Ozzy Osbourne – Prince Of Darkness (Box) ;

- Dimmu Borgir – Death Cult Armageddon (Box com livro com as páginas em metal) ;

- Metallica – Live Shit: Binge & Purge (Box - tempos maravilhosos que não voltam mais...) ;

- Metallica – Garage Days Re-revisited (EP em vinil) ;

- Motörhead – No Remorse (álbum duplo em vinil com capa de couro).

Airton, quais são, para você, os dez melhores álbuns de todos os tempos?

- White Álbum - simbolizando toda a obra dos Beatles

- Magic Christian Music - simbolizando toda a obra do Badfinger

- Turn Turn Turn – Byrds

- Vol.4 – Black Sabbath

- Back in Black – AC/DC

- Who Do We Think We Are? – Deep Purple

- The Number Of The Beast – Iron Maiden

- Led Zeppelin I – Led Zeppelin

- Abigail – King Diamond

- Master Of Puppets – Metallica

Que grupos você tem ouvido ultimamente, e quais tem chamado a sua atenção?

Tenho ouvido novamente os álbuns do Pink Floyd, inspirado pela seção background publicada na Roadie Crew. Curti muito o CD “Strength, Power, Will, Passion” do Holy Moses (é uma pena que ainda não foi lançado no Brasil). Tenho ouvido várias bandas nacionais e acompanho muito de perto o Tuatha de Danann.

Certamente, no meio de todo este acervo, deve existir alguns itens que você olha e pensa “nossa, porque eu comprei este disco?”. Então, vamos lá: qual é o item mais estranho da sua coleção, e também que álbuns as pessoas ficariam surpresas em saber que você possui?

Tenho certeza que posso enquadrar mais de um CD nessa categoria de causar estranheza. Um dos destaques é um duplo do cantor Tom Jones que comprei por causa de algumas músicas que me lembro que tocavam no rádio quando eu ainda era criança. É que na minha fase mais “radical” eu nunca teria coragem de comprar um disco daqueles. Pois bem, costumo só arquivar meus discos depois de catalogar no banco de dados com as informações técnicas e ouvir detalhadamente cada uma das faixas, lendo o encarte, curtindo o som... Não foi fácil ouvir “curtindo” todas aquelas músicas... Mas isso é só uma questão de gosto. Da mesma forma que muitos não conseguirão entender, e devem ficar muito surpresos, ao saber que eu posso gostar dos meus discos do Cannibal Corpse tanto quanto ter prazer em ouvir meus álbuns do Elton John.

O rock já está aí há mais de cinqüenta anos, e passou por diversas fases neste tempo todo. Sendo assim, eu gostaria que você indicasse aos nossos leitores os álbuns que você recomenda das décadas de sessenta até hoje.

Tem muita coisa boa pra ser indicada, então vou tentar citar cinco bandas em cada década que têm material digno de se ouvir para o resto da vida (sem listar Beatles e Badfinger cujas obras são obrigatórias para quem gosta de música):

60 – Byrds (“Turn Turn Turn”), Troggs (“Wild Thing”), Tommy James & The Shondells (“Crimson & Clover”), Grand Funk Railroad (“E Pluribus Funk”) e Jimi Hendrix (“Are You Experienced?”)

70 – Led Zeppelin (“Led Zeppelin I”), Black Sabbath (“Vol. 4”), Deep Purple (“Who Do We Think We Are?”), Pink Floyd (“The Dark Side of The Moon”) e AC/DC (“Back in Black”)

80 – Dio (“The Last in Line”), King Diamond (“Abigail”), Metallica (“Master Of Puppets”), Slayer (“Reign in Blood”), Iron Maiden (“The Number of The Beast”)

90 – Sepultura (“Arise”), Cathedral (“The Ethereal Mirror”), Judas Priest (“Painkiller”), Testament (“The Gathering”), Dream Theater (“Images And Words”)

2000 – Tuatha de Danann (“Trova di Danú”), Dimmu Borgir (“Death Cult Armageddon”), Mastodon (“Leviathan”), Candlemass (“Candlemass”)

Você, ao lado de toda a equipe da Roadie Crew, tem realizado um excelente trabalho com a revista, levando o metal a um número cada vez maior de fãs em todo o Brasil. Conta pra gente um pouco da história da Roadie Crew, como ela surgiu e como ela é feita hoje em dia.

Eu, o Cláudio Vicentin e o Anselmo Teles começamos a produzir o fanzine em julho de 1994, já com o nome de Roadie Crew – nome sugerido pela Cíntia Diniz – e lançamos a edição experimental (de nº 0) às vésperas do primeiro festival “Philips Monsters Of Rock” em São Paulo. Até o final de 1997 publicamos mais sete edições ainda como fanzine, quando então decidimos constituir a editora. No inicio de 1998 publicamos a edição de nº 8, já com características profissionais e com o código de barras com o registro do ISSN e, com base naquela edição, montamos um projeto para apresentar à Fernando Chinaglia Distribuidora. A proposta foi aprovada e a partir da edição nº 9 a Roadie Crew passou a ter circulação em todo o país, e se manteve com freqüência bimestral até novembro de 2000, quando passou a ser mensal. Desde o início só utilizamos material editorial exclusivo e produzido especificamente para a revista, por nossos redatores ou colaboradores.

A partir de 1999 optamos por investir em matérias com coberturas de grandes festivais no exterior com nossa própria equipe, e tivemos ótimas experiências e um resultado altamente positivo, pois isso trouxe significativa visibilidade e uma grande credibilidade para nossa revista junto ao público leitor, e também junto às empresas no exterior, principalmente empresas européias que atuam no mercado musical, seja promotores de eventos, gravadoras e agências de bandas, além dos próprios músicos.

Em 1999 fizemos o “Dynamo Open Air” na Holanda, em 2000 cobrimos novamente o “Dynamo” e também fizemos o “Gods Of Metal”. De 2001 em diante estabelecemos parceria com a produção do “Wacken” e, desde então fazemos um trabalho conjunto com a ICS, o que nos proporcionou condições de ser o órgão de imprensa responsável pela indicação anual de uma banda para participar “Wacken Open Air”, que é o maior festival de Heavy Metal do mundo. Além do “Wacken” sempre temos pessoal da Roadie Crew produzindo matérias exclusivas em outros eventos de impacto, seja na Europa ou nos Estados Unidos, como tem acontecido no “Sweden Rock Fest”, “Ozzfest”, etc.

Mantemos uma equipe que forma o núcleo da revista no escritório da redação em São Paulo, onde concentramos todo o controle do material de arte, conteúdo editorial e material de ilustração (fotos, desenhos, etc). A maior parte das entrevistas, principalmente com bandas internacionais, é feita por telefone, que tem um gravador acoplado, e quem faz a entrevista já cuida da tradução e edição do texto a ser publicado. O mapa que define o conteúdo de cada edição é preparado em reunião que ocorre sempre na última semana de cada mês. Com base neste mapa são preparadas todas as pautas de matérias que serão desenvolvidas para a edição do mês seguinte.

Dentro da redação da revista todos possuem o mesmo gosto musical ou cada um curte um estilo mais específico?

O gosto musical da equipe da redação, e mesmo entre os colaboradores regulares, é bastante variado. É com base nisso que o Ricardo Batalha, chefe da redação, distribui as matérias e resenhas a serem feitas, pois cada colaborador ou redator só mexe com material relacionado com um estilo do qual tenha conhecimento e goste, o que dá condições para que as críticas sejam fundamentadas. Não adianta atribuir uma resenha de uma banda de Black Metal para alguém que não goste do estilo, pois a subjetividade natural na opinião de cada um vai distorcer uma avaliação. O mesmo raciocínio é válido para quem não goste de Metal Melódico e receba um CD deste estilo para criticar, a tendência seria uma análise negativa. Procuramos neutralizar essas possíveis distorções.

O Brasil é um dos únicos países onde o formato “single” não vingou, seja por uma decisão das gravadoras ou por um costume do mercado. Como você vê isso?

Essa opção como estratégia de mercado já existiu no Brasil também, na época do vinil. Existiam os compactos simples (duas músicas, uma de cada lado) e os compactos duplos, além dos LPs. A partir dos anos 60 ocorreu uma expansão muito grande do mercado fonográfico e um redirecionamento também na forma como a música popular passou a ser encarada, tanto pelo público como pelos artistas. A música popular passou a ser levada mais a sério. Os próprios compositores passaram a se encarregar de construir suas carreiras como intérpretes, criando obras mais sofisticadas e com conteúdo mais complexo, a ponto de se produzir álbuns conceituais, muito comuns nos dias de hoje. Isso consolidou o conceito de álbum com uma média de doze músicas, que acabou se tornando uma espécie de padrão mundial, com tamanho suficiente para o músico mostrar sua arte. E o CD manteve a mesma característica, só diminuindo o tamanho físico da mídia, mas ampliando o espaço para registro de músicas.

Vejo a necessidade da existência do “single” apenas como um instrumento para divulgação em grande escala, como uma amostra de um trabalho, que não deveria ter a conotação de um produto comercial.

Na minha opinião a existência do “single” como produto de mercado só atende aos interesses dos que produzem música descartável, dessas “fabricadas” para fazer sucesso instantâneo no mundo “pop”, bombardeadas pela mídia à custa de “jabá”, sem qualquer valor artístico. E se o “single” só for atender os interesses de quem comete as atrocidades musicais que assolam nossas emissoras de rádio e TV, então não precisa nem existir.

Mas o formato CD, seja álbum ou “single”, já está esgotado e prestes a ser substituído por novo padrão de registro e forma de comercialização de obras musicais.

Na sua opinião, quais são os pontos fortes e fracos do mercado musical brasileiro de música pesada, tanto fonográfico quanto editorial. O que está bom e o que preciso melhorar, na sua opinião?

O ponto forte da música pesada no Brasil é a paixão que o público tem por esse estilo e o envolvimento, até emocional, em relação à música. Isso reflete também no mercado editorial, pois é um público muito fiel. O ponto fraco não se restringe à situação de mercado da música pesada, mas é uma realidade da condição econômica e social do país, pois a prioridade na sociedade brasileira ainda é, na maioria dos casos, a luta pela sobrevivência, a batalha para conseguir uma condição digna para se alimentar e, eventualmente, estudar. O entretenimento é algo muito distante da rotina da maioria da população brasileira. Assim, grande parte das pessoas que se interessam pela música ainda têm dificuldade para satisfazer todos os seus anseios. Muitos são os casos dos fãs que se compram o CD do seu ídolo, não sobra dinheiro para ir a um show, ou se optam por assistir ao show pode não sobrar dinheiro para uma camiseta da banda preferida. É muito diferente do europeu, que vai a um festival e consome uma infinidade de produtos e curte plenamente sua condição de fã.

Para melhorar só agindo conscientemente, para que o país possa progredir a ponto de permitir a condição adequada de vida ao povo. E isso só se conseguirá através do voto, e cobrando decência dos políticos.

Estes anos todos à frente da Roadie Crew certamente propiciaram a você contato com diversas pessoas interessantes, incluindo muitos ídolos seus. Conta aí pra gente alguma história interessante que você viveu por causa da sua paixão pela música.

Vou relatar uma história que aconteceu recentemente, no período de 19 a 25 de abril. Como pôde ser notado nesta entrevista, os Beatles e o Badfinger tiveram um papel muito importante na minha vida, pois comecei a ter contato com o trabalho artístico dos dois grupos na fase de pré-adolescência e adolescência, um período crucial na formação de qualquer pessoa, onde algumas marcas deixadas no subconsciente vão permanecer por toda a vida. A qualidade da arte das duas bandas sempre foi algo muito especial para mim. Sempre acompanhei tudo o que aconteceu em relação aos dois grupos, que aliás também viveram grandes momentos juntos, com o Badfinger gravando na Apple, tendo música composta por Paul McCartney especialmente para eles, enfim, conviveram num ambiente de amizade e parceria muito estreita. O Badfinger sempre foi como uma extensão dos Beatles. Mas, se tiveram a sorte de estarem ligados intimamente ao maior fenômeno musical e cultural de todos os tempos, tiveram azar no âmbito dos negócios e das finanças, pois a banda foi vítima da desonestidade do empresário, o que provocou tragédias impossíveis de serem assimiladas com naturalidade: duas mortes por suicídio, ambas por enforcamento - Pete Ham (guitara/teclado/vocais) em 1975 e Tom Evans (baixo/vocais) em 1983. Mike Gibbins (baterista) também faleceu, em outubro de 2005, portanto Joey Molland (guitarra/vocais) é o único membro remanescente da formação original e continua em plena atividade, tanto com sua carreira solo como se apresentando com o repertório do Badfinger, acompanhado de um grupo de músicos extremamente competente, mantendo viva a saga do Badfinger.

Intermediei a vinda da banda ao Brasil para uma apresentação única no dia 22 de abril último, em Campinas, e fui responsável por dar suporte ao grupo durante toda a permanência deles no Brasil. Eu já tinha conversado com Joey Molland por telefone durante as negociações ao para a viagem, mas confesso que sentia uma certa apreensão quanto estado de humor de uma pessoa que já havia vivenciado situações tão extremas: a felicidade de se tornar um ídolo em escala mundial, no período de ouro do estado da arte da música que se espalhava pelo planeta a partir da Inglaterra; também pelo fato de ter sido amigo de ninguém menos que John Lennon e George Harrison, e ter trabalhado lado a lado com Paul McCartney e Ringo Starr; e ainda por ter perdido dois grandes amigos de forma tão trágica (Pete e Tom) e, há apenas seis meses, ter visto seu último parceiro dos áureos tempos também falecer prematuramente aos 56 anos de idade.

Mas, grata surpresa, Joey é uma pessoa de admirável bom humor. Atencioso com os fãs, com a equipe, com os músicos que o acompanham, enfim, com todos com os quais tem contato. Uma pessoa que poderia ter motivos para ser amargurado, mas que transforma todo ambiente onde se apresenta numa celebração da alegria de viver. Ele é realmente uma pessoa especial.

E como músico? Maravilhoso ! Aos 58 anos de idade continua detonando com sua Les Paul como se fosse um garoto, com solos perfeitos, e cantando suas obras primas com o entusiasmo que tinha no início dos anos 70.

Eu havia tentado prever qual seria minha reação ao ver e ouvir a banda no palco durante o show, mas uma das maiores emoções da minha vida foi antecipada. Durante a tarde eu tinha acabado de falar com a produção sobre um problema com a bateria e subi ao palco para ver se já estava tudo resolvido. Foi nesse momento que começou a passagem de som. E eu estava ali, literalmente no meio da banda, entre Joey e o tecladista Steve, e o Badfinger tocando “Come and Get It” ! Juro que cheguei a pensar que aquilo não era verdade... Depois passaram “Day After Day” e me assustei com a possibilidade de ver o George Harrison do outro lado do palco tocando “slide guitar” como ele fez no álbum original, mas, felizmente (ou infelizmente) aquilo era realidade, não era um sonho, e George não poderia estar fisicamente em Campinas naquele momento (mas tenho certeza que em espírito ele estava dando uma força ao Joey Molland).

Durante o show me controlei e consegui curtir um dos melhores espetáculos musicais que já assisti. E olha que tenho visto muito show nesses anos de editor da Roadie Crew.

No dia seguinte deixamos Campinas, passamos por São Paulo e depois fomos para a casa da praia. Naquela noite vivi alguns momentos inesquecíveis também. Eu havia levado alguns dos meus DVDs, entre eles o “Concert For Bangladesh”, e estávamos todos assistindo ao concerto beneficente onde o Badfinger tomou parte tocando com George Harrison. Então eu e minha família estávamos vivenciando uma coisa que nunca teria imaginado que pudesse acontecer: estávamos ali tomando cerveja com Joey Molland, e com os músicos do Badfinger atual, e vendo-o tocar guitarra no DVD juntamente com George Harrison.

E mais, ele fazendo comentários sobre o que estava acontecendo naquela noite durante a gravação do espetáculo, falando do nervosismo de George, que estava muito preocupado que tudo funcionasse corretamente, pois era o responsável por um evento de repercussão mundial, dizendo do comportamento das pessoas que participavam como convidados, entre eles o Bob Dylan e muitos outros astros do rock na época.

Essa cena não se apagará nunca da minha memória. Passamos mais dois dias ensolarados no litoral paulista, e na terça-feira, dia 25 de abril, Joey embarcou de volta para casa, não sem antes visitar a Galeria do Rock, em São Paulo, lugar que fiz questão de levá-lo para conhecer.

Que novidades a Roadie Crew está preparando para os seus leitores em 2006?

Estamos implementando gradativamente algumas novas seções, e vamos continuar desenvolvendo coisas que possam agregar qualidade à revista e satisfazer o público leitor, que nos tem dado um grande apoio e nos colocou em situação de destaque no mercado editorial de publicações especializadas em música.

Bem Airton, muito obrigado pela entrevista, foi muito bom conversar com você. Este espaço é seu.

Eu agradeço a oportunidade de ocupar um espaço tão nobre da nossa mídia especializada, sem dúvida o principal portal de música da América Latina e um dos melhores do mundo. Desejo a você e a todos os amigos do Whiplash.Net que mantenham esse sucesso que é muito merecido.

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Post de 27 de março de 2016


Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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