On The Road: Jimmy Page, Led Zeppelin & The Black Crowes

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Por Cláudio Vigo
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O ano era 1976 e o sujeito da loja de disco perto de minha casa não agüentava mais comigo. Era um tal de "Chegou? Já saiu? Guarda um pra mim?" de enlouquecer o pobre coitado. O motivo de tanta sofreguidão era o lançamento do disco novo do Led Zeppelin, que ia se chamar Presence e era o primeiro com material totalmente novo em muito tempo (Physical Grafitti, meu preferido, era cheio de material antigo).

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Até que um dia, meio pra se ver livre de mim, o cara me chamou e entregou aquele vinil lacrado que tinha uma estranha foto na capa (um monólito preto) e umas outras mais estranhas ainda por dentro, cheias de figuras dos anos 50. Fiquei meio decepcionado com a embalagem, mas fui correndo pra casa detonar a bolacha no volume mais alto possível (tinha 14 anos) e quando Robert Plant começou a berrar em "Achilles last stand" eu me senti no umbigo do mundo, berrei junto e cá entre nós, me senti o próprio.

No ano seguinte saiu o filme (The song remains the same) assistido com devoção religiosa e várias pessoas diferentes. Sabia cada cacoete, cada solo, cada desmunhecada do Plant, uma coisa só comparável com fã de Emilinha Borba ou Cauby Peixoto.

Também acabou por aí, o que veio depois não vale a pena. Considero estes discos clássicos absolutos do rock e "Stairway to heaven" tão bela que resistiu ao massacre das mãos inábeis que tocavam violinhas em acampamento, quando o mala da turma sempre a puxava, entre "espanhola" e "melevamô"... naquela de hoje vou comer alguém.

Quando perguntado, Keith Moon, que não era nada bobo disse: "O que é pesado e voa? Um Zeppelin de chumbo, ora bolas". Sábias palavras do batera, sábias palavras.


Astros de primeira grandeza, cada um tinha sua esquisitice típica. Robert Plant era fazendeiro, John Bonhan bebia profissionalmente (foram 40 as derradeiras vodkas), John Paul Jones era tarado e Jimmy Page cultuava um bruxo inglês barra pesada chamado Aleister Crowley (1875/1947) que misturava magia negra, satanismo, drogas pesadas numa seita cheia de loucos que o seguiam pra cima e pra baixo. Para quem não sabe: Raul Seixas e Paulo Coelho também foram discípulos aplicados dos ensinamentos do mago. Os lemas da Sociedade Alternativa de Raulzito foram copiados do que Crowley escreveu com tinta vermelha (40 dias 40 noites) nos penhascos de Kingston : "Faz o que desejas, será a lei inteira".

Aleister Crowley comia sem parar por dias até explodir e depois jejuava indefinidamente. Fazia sexo mágico (uma espécie de orgia bravíssima) cheio de apetrechos, drogas e animais. Gostava de botar um bode para transar com uma de suas inúmeras amantes e ficava assistindo, invocando o "coisa ruim" ao mesmo tempo.

Pois era nisso que Jimmy Page era chegado, nestes ocultismos bravos, gastando uma grana preta numa fundação de divulgação das idéias do mago que existe até hoje. Eu hein? Afasta Zé Pelintra...

Não sei se foi urucubaca do bruxo, excesso de excessos, ou seja, lá o que for. Só sei que quando assisti aos tapes dos shows da dupla Page e Plant fiquei assustado com que vi e ouvi. Plant perdeu a voz definitivamente, só vai na boa, fica só nos graves e quando se aventura nas alturas que habitava, como em "Going to Califórnia" é no mínimo constrangedor. Quem se lembra do que o homem fazia chora. Jimmy Page idem, não toca nem perto do que tocava e segundo o relato de alguns amigos presentes ao show, babava terrivelmente. Uma baba grossa que escorria pelo peito enquanto solava.

Fiquei meio traumatizado com tudo isso e confesso que não ouvi estes discos novos dos dois. Vi uns clips aqui e acolá, inclusive Kashmir (ah Kashmir...) e não me pareceu tão ruim assim, mas aquela imagem de Robert Plant desafinando e Page babando não consigo esquecer.


Eu estava de bobeira em casa, totalmente distraído, lendo um jornalzinho, derretendo um gelo no uisquinho e com a tv ligada sem prestar a mínima atenção, quando num relance ouvi uma guitarra pesada que destoou da tecladeira new wave que estava rolando. Larguei o jornal e me perguntando o que era aquilo vi um sujeitinho magricela (cabeludo de costeletão) numa pose e atitude que pareciam saídos de 1974, com uma galera atrás no mesmo estilo. Uma mistura de Faces com Mott the Hopple e Led Zeppelin e um som retrô totalmente datado, mas muito bem feito. No clip seguinte, no mesmo estilo, já tinha largado de vez o jornal, botado mais uísque no meu gelo e já sabia que se tratava de uma banda nova chamada The Black Crowes e que o lambisgóia magricela se chamava Chris Robinson e que o outro cabeludo era seu irmão Rich.

Lá pelo terceiro clip eu já estava sorrindo de satisfação, quando adentrou no recinto minha mulher e uma amiga que vendo a cena logo pegaram no pé: "Coisa de época! Dinossauro!" Respondi indignado: "É Dinossauro, mas está vivo e fresco, parece antigo, mas foi feito agora. Respeito é bom e eu gosto".


Black Crowes
Black Crowes

O ano é 2001 e eu saí da loja com o cd sem muito entusiasmo. Comprei porque estava no saldão e pensei comigo que ia ser engraçado ouvir os Crowes com Jimmy Page tocando os clássicos do Led. Caramba, que cambada de dinos estes caras e lembrei da pose do magrelo no microfone e fiquei curioso se ele ia segurar mesmo a peteca. Entrei no carro rumo a mais um compromisso/roubada distante e conforme comecei a rodar pus a bolachinha prateada no cd Player. Levei uma pancada no pé do ouvido quando ouvi o inicio de "Celebration day". Cacetada, pensei é o Led. Page tocando bonito e o Robinson, sem ser Plant, mas doido pra ser, não fazendo feio de jeito nenhum. Quando "Custard Pie" estava no meio eu já cantava junto e em "Lemon Song" já estava me sentindo o próprio. Parece que os caras passaram a vida tocando estas músicas e tinham como sonho dourado faze-lo desta maneira. Não é por nada não. Não é Led Zeppelin, mas está vivo e fresco, parece antigo, mas foi feito agora. Respeito é bom e eles merecem.


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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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