On The Road - Menos é Mais
Por Cláudio Vigo
Postado em 15 de agosto de 2007
Eu sei que este papo de minimalismo já teve o seu auge. "Menos é mais" brandia o arquiteto Mies Van der Rohe em seu famoso apartamento vazio onde só existia uma cadeira, vidros e uma caixa de charutos. Philip Glass nos 80 já entorpeceu muitos corações e mentes com a repetição exaustiva de temas e começos que vão e vem desde o Bolero de Ravel.
Mas o papo aqui é outro apesar da base ser a mesma. O nosso caso é guitarra, sim, a velha guitarra elétrica que virou ícone da contracultura e do delírio. Quantos de nós se não todos nos pegamos em pleno vôo onírico a bordo de uma air guitar enquanto um hero subia e descia escalas ensandecidas rumo ao nirvana. Pois é, sem desprezar os reis do excesso e os virtuoses do instrumento, sem falar nas focas amestradas que abandonam a música e partem pro malabarismo circense, vamos falar daqueles que costumam viajar nas entrelinhas, nos ritmos diferenciados, nos climas, nas atmosferas, e abrem mão da pirotecnia em nome do bom gosto, do detalhe e da sutileza.
Eu particularmente adoro guitarristas econômicos. Gente que pára e pensa e retira ao invés de acrescentar aquela nota desnecessária que quase sempre acaba em clichê gorduroso. Existem inúmeros destes guitarristas baixos teores, alguns notórios e geniais como Pete Townshend por exemplo, mas vou tocar em quatro que me falam especialmente ao coração. Músicos que costumam necessitar de mais atenção e repetidas audições para se perceber a genialidade que muitas vezes fica embutida na estreiteza de efeitos mas se mostram na riqueza e fineza dos detalhes.
O primeiro é um dos famosos casos de ame ou odeie. Há quem adore (como eu) e há quem ache monótono. Se trata de Jean Jacques Cale, mais conhecido por JJ Cale, velho companheiro de Leon Russell na velha Tulsa (Oklahoma) e influenciador de gente como Eric Clapton e Mark Knopfler. Autor de dois hinos setentistas – "After Midnight" e "Cocaine". Cale é umas espécie de João Gilberto do folk e R&B, voz miúda, quase sussurrada, costuma ser o rei do low profile. Tem composições belíssimas e um jeito muito peculiar de tocar guitarra. Nunca ouvi um solo desnecessário dele, um riff inadequado. O cara é o anti clichê por definição.
Está em grande forma depois de um período de reclusão, o que pode ser constatado nos seus últimos trabalhos – "To Tulsa and Back" e "The Road to Escondido", em duo com Clapton. Recomendo com louvor, inicialmente pode não mostrar seus encantos mas é como a comida daquele pé sujo de beira de estrada. Simples e honesto.
O segundo é bem mais prolixo e eclético. Notório session man (gravou com os Stones na fase áurea), Ry Cooder conseguiu percorrer um caminho que o levou do Rocknroll ao Blues, Reggae, Tex Mex, Musica Havaiana, Balinesa, Cubana, Hindiana, Dixieland Jazz, Country Folk, Vaudeville e latinidades em geral (Ufa!!!) seja como musico, como produtor ou compositor de inúmeras trilhas sonoras. Até hoje sinto um arrepio ao lembrar do impacto daquela guitarra slide no deserto na sessão de estréia de "Paris Texas" de Win Wenders que assisti.
Sua história é muito rica de experiências e episódios e participou de alguns super grupos como o Rising Sons com Taj Mahal e Ed Cassady e o maravilhoso Little Village nos anos 90. Você percebe a genialidade de Cooder na riqueza de timbres e na facilidade de incorporar elementos tão dispares a uma identidade musical definida.
Gosto muito de inúmeros discos dele e com tanta diversidade é obvio que alguns experimentos foram mais bem sucedidos que outros. Especial recomendação pra quem não conhece é o álbum duplo "Music By Ry Cooder" que reúne suas trilhas sonoras e o antigo (72) "Boomer´s Story".
Terje Rypdal é um guitarrista de prog jazz norueguês que tem como maior característica não solar propriamente, mas gerar com sua guitarra uma sucessão de climas e paisagens que vão do etéreo viajante a cacofonia dissonante. Muitos pedais, volumes e acima de tudo muito bom gosto. Produto típico da produção setentista do selo alemão ECM, tem no álbum "Descendre" seu trabalho mais característico. Algumas passagens são de um onirismo viajante de rara beleza. Ideal pra quem curte Pink Floyd ou progressivos em geral. Fica a dica.
Por último deixei uma das minhas paixões mais intensas: O Rei da Telecaster, o homem que já participou de mais de 2.500 gravações: Cornell Dupree. Participante ativo das maiores bandas de Soul Music criadas (os Kingpins de Aretha Franklin e King Curtis) Cornell é um guitarrista rítmico genial que sola maravilhosamente bem normalmente de forma inesperada. Quando você imagina que ele vai para um lado ele vai para outro.
Participou de dois projetos fusion de Sucesso – as bandas Stuff e The Gadd Gang. Tem um estilo muito semelhante a outro que podia estar nesta lista - Steve Cropper (Booker T & The Mgs). Mostrei a um amigo uma gravação recente dele (um show na Birdland em 2005) e este (macaco velho de ouvir guitarristas variados) ficou em êxtase com a riqueza de timbres e variações rítmicas.
Na verdade, a questão é essa. Tem muito guitarrista virtuose que faz oitocentas escalas por segundo e malabarismos variados e você acaba de ouvir e vem a sensação de já ter escutado aquilo melhor ou pior em algum lugar. O difícil e raro é a surpresa. Não basta equilibrar a bola no focinho da foca, tem que tirar o coelho da cartola quando você espera que saia um pombo.
Propor novas texturas. Muitas vezes, nestes casos o velho Mies tem razão e o que é menos pode se transformar em mais.
On The Road
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