On The Road - Glam Rock; A vanguarda era ditada com muito cílio postiço
Por Cláudio Vigo
Postado em 24 de abril de 2001
No início dos anos 70, no fim do sonho que foi anunciado por Lennon e a excessiva glamourização do "Star Sistem", os ídolos do rock estavam cada vez mais próximos de um ideal hollywoodiano. O passo adiante foi ambíguo e numa afetação "dandi" muita gente "escorregou no quiabo" e a vanguarda era ditada com muito cílio postiço e salto carrapeta. Eram tempos andróginos, cheios de glamour. Eram tempos de Glam Rock.
O cineasta underground Todd Haynes filmou há pouco tempo um cultuado pop movie chamado Velvet Goldmine onde conta a saga do fictício ídolo setentista Brian Slade, um ícone Glam que traz uma mistura de Bowie (que odiou e renegou o filme), Marc Bolan e toda aquela turma chegada numa purpurina com cocaína, o que mais que uma rima era um estilo de vida.
Muito se pode especular sobre as origens desta tendência, e o filme faz isso o tempo todo. Mostra o início de tudo, desde as brigas de gangues mods (uma turma preocupada no saltinho das botas, no penteado das franjinhas que se entupia de bolinha com lambretas em velocidade e gerou maravilhas como The Who e Small Faces), a sofisticação musical de alguns e até um suposto apadrinhamento espiritual daquele que junto com Byron foi o primeiro superstar que se tem notícia: Oscar Wilde.
O filme, tirando um certo proselitismo gay, é ótimo e mostra todo o clima da época, sendo que é impossível não reconhecer David Bowie no personagem título e Iggy Pop no devasso e alucinado Curt Wild. Tem uma trilha sonora onde pontuam coisas como T.Rex, Roxy Music, etc, que obviamente é maravilhosa. Vale a dica pra pegar na videolocadora e viajar na maionese com todo o cuidado pra não pisar no tomate, já que o clima é propício.
Esta época, como todas as outras, tinha a essência e a diluição da proposta. Entre as coisas finas estavam sem dúvida David Bowie, que têm horror a ser lembrado como precursor do Glam e talvez um dos maiores gênios do pop de todos os tempos. O Roxy Music que de toda esta turma são meus preferidos (tenho todos os discos que ouço com devoção até hoje, inclusive agora com Brian Ferry explodindo nos fones), Marc Bolan que teve uma obra muito interessante, mas abusou de tudo um pouco, terminando bebendo desodorante com Valium pouco antes de morrer.
Das tralhas têm o inacreditável Sweet, o hilário Gary Glitter e mais uma meia dúzia que misturava um sonsinho vagabundo com boiolice e vendia uma montoeira de discos para uma garotada com os hormônios a flor da pele e os ouvidos meio atrofiados. Hoje temos o Suede que bebeu direto nestas fontes e poderia perfeitamente ter vivido naquela época sem destoar nem um pouquinho.
Na verdade se pegarmos os melhores exemplos e formos analisar o que era o Glam podemos dizer que era uma musica sofisticada, com alguma influência do rock progressivo , uma forte citação à cultura de massa Kitsch (muita oncinha, cabelo roxo, unha preta, etc...) e um apelo tecnológico que vinha junto com um clima tipo "Meu deus o mundo vai acabar...", que era dito por todos que viam Bowie de sobrancelhas raspadas e collant com botas prateadas.
Eu criança (entre onze e doze anos) me lembro que assistia estarrecido à performance de Glams tupiniquins como Eddy Star e Serguei no jurássico programa Flávio Cavalcanti, onde o canastrérrimo apresentador tirava e botava os óculos enquanto clamava o final dos tempos ao rebolar das frutas.
Eu tinha na minha rua na época um sujeito que sempre foi antenadíssimo com as coisas mais undergrounds. Hoje poderoso machão convicto (fala e cospe grosso entre uma coçada e outra) diz não lembrar, mas bem que eu me recordo da figura atravessando a rua com um visual pra lá de andrógino. Tinha um colega de escola (o nerd mais careta de todos) que amava Bowie e sonhava ser Ziggy Stardust. Vai entender. Coisas da época.
Pra quem conhece pouco este tipo de som recomendo a audição urgente dos três primeiros álbuns do Roxy Music ("Roxy Music", "For Your Pleasure" e "Stranded"), se possível acompanhado da leitura de "O Buda do Subúrbio" de Haniff Kureish, que narra as desventuras de um descendente de paquistaneses em Londres no início dos 70. Quando o livro foi filmado a trilha sonora foi feita por Bowie. Sintomático não?
Será que tudo isso tem algum sentido ainda hoje? Só sei que o melhor do feito por esta turma ainda está fresco e atual. No filme de Todd Haynes existe um camafeu que pertenceu a Oscar Wilde que anda pra lá e pra cá no peito dos principais personagens. Pra terminar, já que não têm camafeu, vamos ficar com mais uma pérola deste príncipe das profundidades superficiais, o soberbo Oscar Wilde:
"A moral moderna consiste na aceitação das normas da época. Eu acho que para um homem culto, aceitar as regras da sua época seja a mais grosseira das imoralidades".
On The Road
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