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On The Road: The Shadows, a sombra de Hank Marvin

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Postado em 08 de agosto de 2002

Neste domingo, no meio de uma jornalada danada, entre a subida do dólar, a síndrome de pânico Argentina e mais uma meia dúzia de catástrofes de bolso que costumam atormentar nosso dia a dia, estava uma tira do Angeli que mostrava a suprema delícia de contar urubu no céu quando menino.

Entrei numas na hora, não só lembrei dos bichos rodando, como do tempo sensacional gasto nisso, as tardes bestando na casa da minha avó onde num enorme toca disco de móvel ficava procurando o que ouvir entre os compactos do meu tio, que tinha um gosto pra lá de eclético. Entre Ritas Pavones, Pat Boones e coisas similares tinham até uns Beatles e um The Shadows que é a coisa mais indicada pra trilha sonora de contar urubu na infância. Se é que vocês me entendem.

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Parece que muita gente boa, de muito talento, gastou a infância e a mais tenra juventude na companhia e na sombra dos caras. Reza a lenda que Jeff Beck, Jimmy Page, Pete Townshend, Blackmore, Clapton e muitos mais passaram as tardes trancafiados imitando os solos de Hank Marvin em seus quartos. Copiavam nota a nota, numa verdadeira escola prática de guitarra. Tá vendo? Com aquele fog em Londres não dá pra contar urubu e os caras aproveitavam o tempo em algo bem mais produtivo.

Em 1958 Cliff Richards era uma espécie de Elvis inglês, o rei da cocada, e fazia um sucesso atrás do outro acompanhado pelos The Drifters que pra não confundir com o grupo de R&B americano mudaram o nome pra The Shadows, numa piada explícita com sua condição de sombras do gostosão. Em 1960 resolveram se aventurar em uma carreira instrumental e colocaram o chiclete sonoro delicioso chamado "Apache" em primeiríssimo lugar no hit parade.

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Formado pelas guitarras de Hank Marvin (solo) e Bruce Welch (ritmo) mais Terry "Jet" Harris no baixo e Tony Meham na bateria, The Shadows era uma aula de simplicidade com riffs pegajosos e os solos estupendamente cristalinos de Hank Marvin. Era água de cascata, pai e mãe da surf music e de tudo que veio depois.

Não tem distorção, não tem escalas estratosféricas, só um "uila ula" deslizante, onde os arpejos e solinhos deliciosos de Marvin fazem pensar que Haiti que nada, o Havaí é que é aqui com caipirinha do abacaxi e tudo. Tá cafona? Tá escapista? Então tá, o último não esqueça de ascender à luz.

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Em 97 comprei um disco que havia então sido lançado recentemente chamado "Twang! A tribute to Hank Marvin & The Shadows", onde inúmeros fãs (e que fãs) prestavam, cada um em seu estilo, suas sinceras homenagens à influencia do mestre. Sintam a galera e o repertório:

Ritchie Blackmore - "Apache"
Brian May - "FBI"
Tony Iommi - "Wonderful Land"
Steve Stevens - "The Savage"
Hank Marvin - "The Rise and Fall of Flingel Bunt"
Peter Green - "Midnight"
Neil Young & Randy Bachman - "Spring is Nearly Here"
Mark Knopfler - "Atlantis"
Peter Framptom - "The Frightened City"
Keith Urban & Stewart Copeland - "Dance On"
Andy Summers - "Stingray"
Bella Fleck & Fleck Tones - "The Strangler"

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Pelo time acima deu pra ver a qualidade dos influenciados. O interessante é que cada um trouxe o clima pra sua praia. Tem desde trovão e tempestade (Tony Iommi), um solão mediterrâneo (Steve Stevens), uns ventos atravessados (Neil Young) e até um solzinho morno de outono (Knopfler), mas a pegada de Hank Marvin é inconfundível e quando entra sua faixa parece que chegou o valentão colocando um monte de sombra e dizendo: "Dá licença que a praia é minha!".

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Assim como a de Chet Atkins, Scotty Moore, Cliff Gallup e de tantos outros, a guitarra de Marvin foi e ainda é uma bússola para muitos guitar heroes e a homenagem é muitas vezes comovente. Faltou o Brian Setzer que é um fã assumido, mas ao ouvir o solo do renascido das cinzas Peter Green, o coração enche de alegria.

Andei dando uma viajada pela Net e fiquei perplexo com a quantidade de sites em homenagem ao legado do homem. Tem até um site brasileiro especializado, com lista de bandas de Surf Music, fotos, etc... Impressionante.

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Pros tempos bicudos e pra tempestade que se aproxima vai um conselho sob forma de receita infalível (eu juro que vou tentar, pois estou precisando muito). Ou seja, segue aí o "kit Paradise:".

1 - Coletânea completa do The Shadows e Twang, tocando sem parar;

2 - Um livrinho não muito longo pode ser: "A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen" de Eugen Herrigel - "Oceanografia do Tédio" de Eugenio d'Ors ou quem sabe "Viagem à roda do meu Quarto" de Xavier De Maistre;

3 - Muito gelo e algo dentro, se possível com o sopro de um alísio dominante.

Depois é só esticar a vela e por pra deslizar. Às vezes encrenca e dá uma bobeira sob forma de calmaria. Aí é só contar urubu que passa, ou começa, depende do ponto de vista. Né por nada não, mas tem uns quatro rodando aqui perto, alto pra caramba. Já tinha até esquecido o gosto disso. Obrigado Hank, pelo céu de brigadeiro!

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