A banda que fez George Martin desistir do heavy metal; "um choque de culturas"
Por Bruce William
Postado em 07 de dezembro de 2025
Quando os Beatles encerraram a trajetória, no fim dos anos sessenta, George Martin já tinha lugar garantido na história. Produtor discreto, fala mansa, terno alinhado, ele parecia o oposto da imagem de "gênio excêntrico" que muita gente associa à produção musical. Em vez de pose, oferecia organização, ouvido atento e um jeito calmo de conduzir sessões que podiam durar horas.
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Essas características ficavam ainda mais evidentes quando se lembrava o tipo de material que ele ajudou a colocar de pé. Foi Martin quem traduziu em fita ideias como "Tomorrow Never Knows" e "Strawberry Fields Forever", misturando gravações, efeitos e orquestrações para dar forma às viagens sonoras da banda. Não por acaso, quando os Beatles acabaram, muita gente de outros estilos viu nele a chance de levar suas próprias músicas para outro patamar.
Nos anos seguintes, George Martin virou um nome cobiçado por artistas de perfis bem diferentes, justamente por essa flexibilidade. Mas havia um campo em que ele praticamente não tinha atuado: o heavy metal e derivados. No começo dos anos oitenta, surgiu a oportunidade de testar essa fronteira em condições bastante confortáveis, no AIR, estúdio que ele mantinha em Montserrat, no Caribe. A ideia era ver se aquele produtor associado a arranjos elaborados se entenderia com um grupo mais pesado.
Quem topou a aventura foi o UFO, que viajou até Montserrat para gravar o álbum No Place to Run, lançado em 1980. Anos depois, Martin seria bem direto ao avaliar a experiência: "Uma vez eu tive um flerte com o heavy metal, e me arrependi muito", contou. Sobre o estilo em si, resumiu: "Não parecia ter nenhum sentido". Ele não citou a banda pelo nome, mas o baixista Pete Way sempre considerou que o produtor estava se referindo a aquele período com o UFO.
Segundo Way, não se tratava de hostilidade aberta ou de um disco feito a contragosto do início ao fim. O problema era mais sutil: Martin vinha de uma década lidando com compositores obcecados por letra e melodia, e encontrou um grupo com uma relação bem mais solta com o texto das canções. Isso ficava claro na postura do vocalista Phil Mogg, que não tinha a menor pressa em finalizar os versos enquanto o resto do trabalho avançava.
Para Martin, letras inacabadas eram sinal de que algo essencial ainda estava faltando; para a banda, aquilo fazia parte do fluxo, então o baixista lembrou que o produtor estranhava aquela demora. "Às vezes ele perguntava: 'O Phil vem hoje?', porque estava acostumado a John Lennon e Paul McCartney com as letras prontas", contou Way, em fala resgatada pela Far Out. "George ficava ansioso com a falta de letras e a gente tinha que acalmá-lo: 'Ah, não se preocupe, elas estão prontas', mas sabíamos muito bem que Phil estava lá na praia praticando esqui aquático".
Phil Mogg também falou sobre esse desencontro de expectativas, lembrando de momentos em que o produtor pegava o papel com as letras e lia em voz alta, com o inglês impecável de quem vinha de outro universo musical: "'Joey rides the subway, fast from east to west, on the streets he's number one, some say that he's the best'", trecho da letra da faixa título, que em português significa "Joey pega o metrô, voando de leste a oeste; nas ruas ele é o número um, tem gente que diz que ele é o melhor." "E ele perguntava: 'Quem é esse Joey? E o que ele estava fazendo no metrô?'". De acordo com Phil, houve "um choque de culturas": de um lado, o rigor de quem esperava sentido claro em cada verso; do outro, a liberdade de uma banda de hard rock que não se preocupava tanto em explicar cada personagem.
"No Place to Run" chegou às lojas e registra esse encontro improvável entre o UFO e o produtor dos Beatles. Para George Martin, porém, aquela sessão em Montserrat foi suficiente para riscar o heavy metal da lista de gêneros com os quais gostaria de voltar a trabalhar. Depois daquele "flertar e se arrepender", como definiu, ele nunca mais retornou ao estilo, e reforçou a ideia de que, mesmo com toda a versatilidade, havia campos em que a distância entre a sua forma de trabalhar e a das bandas era grande demais para ser vencida em estúdio.
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