On The Road - Exile..., obra prima feita de arestas, atos falhos e balbucios
Por Cláudio Vigo
Postado em 21 de julho de 2007
Muitas vezes, quase sempre, a primeira vez do que vale a pena é decepcionante. Noutras a gente embarca de cabeça, adora e logo enjoa. O que tinha encanto e brilho fica gasto e fosco. Pra usar uma terminologia mais blasé, fica datado. Podemos usar este exemplo para quase tudo: bebida, comidas, drogas, sexo, pessoas e principalmente música. Quantos discos já não compramos, botamos pra tocar e ficamos embasbacados com a maravilha para tempos depois não agüentarmos mais uma mísera faixa e ao mesmo tempo quantos que nos decepcionaram de início e foram crescendo com as audições? Sempre digo que quem passa da pagina 70 de "Grandes Sertões Veredas" de Guimarães Rosa adentra o paraíso, mas é preciso força de vontade e foco no início, Isto vale pra autores como Joyce, Proust e Lezama Lima. Isto vale - porque não? - para músicos "difíceis" como John Zorn e Tom Waits e, acreditem, isto vale também para os Rolling Stones.
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Na eterna briga "Emilinha X Marlene" do Rock n Roll, mesmo respeitando bastante a Emilinha, sempre fui mais "Marlene", ou seja, sempre preferi os Stones aos Beatles. Coisa de gosto, sem nenhuma explicação palpável (normalmente desnecessárias e ridículas quando o assunto é Rock). "It’s only Rock & Roll but I like it" seria a descrição mais exata. Enquanto conheço com várias lacunas a obra dos Beatles, ouvi com atenção (algumas vezes devota) a obra de Suas Majestades Satânicas, os Toxic Twins-Jagger & Richards. Tinha vários Lps e meu cume sempre foi o "Sticky Fingers" que eu achava (ainda acho) o paradigma da perfeição. Se me perguntarem o que acho dos Stones hoje talvez eu responda que já deveriam estar desfrutando de uma honrosa aposentadoria há uns dez anos. Mas as pedras insistem em rolar mesmo que o verde já não seja mais do limo, mas de uma gigantesca máquina de entretenimento geriátrico. Como diria Salvador Dali – Ávida Dólar.
Assisti emocionadíssimo à primeira excursão brasileira mesmo passando mal de uma terrível infecção digestiva, chapado de química pesada que me mantivesse em pé e longe dos banheiros do Maracanã. Inesquecível o show e o esforço. Os dois seguintes declinei e o último assistido pela TV me pareceu misto de Orlando Orfei Com Madame Tussauds.
Mas voltando ao que interessa e passando por cima de uma eventual desconfiança de que o tempo corrói mesmo as mais sólidas pirâmides, o fato é que alguns riffs de Richards estão inseridos na história do século XX, quer se queira ou não.
O fato é que haviam quase trinta anos - não, haviam trinta anos exatos que me caiu na mão através de um amigo um álbum duplo com a seguinte recomendação: "Cara ouça mais de uma vez, é um clássico". Era o legendário "Exile On Main Street", considerado por muitos o melhor disco gravado pelos Stones e por outros talvez um tanto exagerados: O melhor álbum de Rock já gravado. Confesso que na época estava muito impressionado com o "Black And Blue" então recém lançado e o disco desceu meio quadrado. Gravei em K7 e se perdeu em uma gaveta do quarto e da mente.
Corte Brusco - ano 2007, e um quarentão faz compras distraído com sua mulher e enquanto vai acumulando no carrinho a tranqueira fundamental à subsistência, no meio do tédio de escolher um requeijão e a verificação se o dólar baixo se refletiu no preço do uísque, veio à lembrança que não havia nenhum CD pra ouvir no carro. Entre o desespero da abobrinha e do leite longa vida havia uma seção de CDs com miríades de opções que pareciam haver saído do próprio inferno. No meio do axébreganejo gospelhilariê estava perdido e baratíssímo um exemplar abandonado do "Exile On Main Street". Depois de um "porque não?" o bichinho veio se equilibrando entre a mortadela e a mineral gasosa.
Chegando ao carro imediatamente coloquei o dito cujo pra trocar. A voz de Jagger inicia com "Rocks Off", uma torrente mescla de um som sujo e encorpado que começou a vazar e chamar minha atenção. Enquanto Richards mais "tosco" do que nunca propunha riffs impagáveis, Mick Taylor (um artesão refinado) suavizava com sua fina ourivesaria. Um diamante bruto, a música não era direta nem redonda, mas cheia de arestas, atos falhos e balbucios. Fiquei over e botei o som no talo. O CD acabou e reiniciou imediatamente comigo descobrindo novas leituras e outros compartimentos não percebidos na audição anterior. Acho que é isso que costumam chamar de obra prima. Caramba! Como é que eu que escuto tanta coisa e deixei passar tanto tempo pra descobrir os encantos deste acepipe raro? Lembro-me a primeira vez que me serviram um copo de uísque. Coisa fina, talvez um Chivas, por aí... e eu detestei, achei que tinha gosto de verniz velho. Fazendo uma analogia é como se eu tivesse mantido esta opinião por não ter insistido. Simplesmente inconcebível!
A verdade é que tenho escutado o disco muitas vezes mesmo que não seja exatamente o tipo de música que freqüenta meu dia a dia ultimamente. Mas como disse, é uma pedra bruta e rara que as sucessivas audições vai lapidando. Cara, nem vou tocar na história do disco, detalhes da gravação, momento vivido pela banda etc. Eu até li sobre tudo isso, mas pra quem se interessar procure os textos do meu amigo Márcio Ribeiro (aka Creedance kiddo) onde tudo vai estar explicado muito melhor.
Se quiser mais, tem multidões de sites e até livros sobre este monumento do Rock. Eu seria didático, talvez enfadonho e superficial. Nem o disco nem o leitor, ninguém merece. Quer saber? Bota pra tocar e quando aquela tosqueira refinada te invadir a alma vai entender porque o limo era impossível a as pedras (brutas) continuavam rolando. Mesmo que exiladas da rua principal da sua atenção. Confere aí.
On The Road
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