On The Road - Para Joe Jackson como seria o Céu e o Inferno?
Por Cláudio Vigo
Postado em 14 de novembro de 2000
Existem varias definições para o céu e o inferno, tem para todo tipo e gosto. Dante já disse que o inferno era um local para quem havia perdido as esperanças, Sartre colocou um grupo em um quarto se auto indagando, torturando e chegando a conclusão que o inferno são os outros. Eu particularmente (parafraseando Kafka) acho que é um lugar cheio de advogados onde toca o mesmo hit sertanejo dia e noite sem parar. Do céu sabemos muito pouco, o místico Swedenborg, em suas visões, afirmou que são múltiplos os anjos e que para cada anjo deste existe um céu sob a forma de um homem. Schopenhauer assim como Buda dizia que era aqui e agora sem a tortura do desejo. Depois de tanta xaropada filosófica cabe a pergunta: E para Joe Jackson, como seria o Céu e o Inferno?
Depois de percorrer todos os caminhos que a música pôde oferecer neste fim de século XX, desde o soft punk do seminal Im the man, ao jazz (Jumping Jive, Body&Soul) Pop e ao rock sempre numa trilha pavimentada no talento e num insuperável bom gosto, Joe Jackson chegou no limite da paciência com o Star sistem e radicalizou partindo pro clássico. Em um desses recentes trabalhos resolveu dar sua visão pessoal desta história toda com o excelente Heaven& Hell aonde em meio a violinos demoníacos, coros angélicos e melodias de extrema beleza vai dos abismos aos cumes deixando um rastro no cd player ideal para se acompanhar deitado, lendo o encarte, pensando na vida enquanto se balança o pezinho. A musa cool Suzane Vega faz um anjo caído chiquérrimo em meio aos clamores de almas em tormento e o consolo do canto de inúmeros querubins. Tudo isto com Joe Jackson tocando todos os instrumentos e samplers que existem entre o céu e o inferno.
Meu entusiasmo beatífico pela obra de Joe Jackson é antigo e com a possível exceção de Night Music (mezzo mala) abrange todos os outros títulos. Acho a trilha sonora de Tucker de Coppola uma obra prima e as experiências com o jazz de não fazer feio a nenhum Cab Calloway e são precursoras de muita coisa posterior no clima (vide Brian Setzer orchestra) ‘.Sonho com o dia de velo ao vivo e a cores tocando por aqui, coisa prometida por inúmeras versões do Free Jazz, o que sempre me deixava naquele clima de "agora vai" sempre substituído pela cara de tacho plena de decepção com o cancelamento.
Não sei se foi por grana ou algum outro motivo, mas a recente promessa de abandono definitivo da música pop e do repertório anterior foi descumprida pelo lançamento de Summer in The City, o registro de uma apresentação em Nova York em agosto de 99 de formato bastante econômico (piano, baixo e bateria), mas altamente eficaz na defesa de um medley de hits de todos os tempos de sua produção entremeados de covers de alta octanagem como Eleanor Rigby (Beatles), For your Love (Yardbirds), Summer in the City (Lovin Spoonful), Mood Índigo (Duke Ellington) e King of the World (Steely Dan) numa simplicidade de encher os ouvidos nestes tempos que muita gente complica pra esconder a ausência de conteúdo.Surpreendentemente o encarte anuncia para este outono de 2000 o lançamento de um Night and day 2.
Ou Mr Jackson reviu seus conceitos mais recentes ou este papo de compositor exclusivamente clássico estava detonando com a conta bancária do nosso Cole Porter de plantão.Vai ver minha mente pervertida não deixa ninguém mudar de idéia e o homem resolveu fazer o que sempre fez: Música popular de altíssima qualidade e imitando um personagem tão nosso conhecido, lançou o pedido: esqueçam o que eu escrevi.
Desde Robert Johnson este papo de pacto demoníaco sempre esteve presente no mundo do blues e do rock e acho muito difícil estabelecer quais seriam os representantes do bem e do mal nesta história toda.Seriam Marylin Mason e Tia Alice Cooper realmente demoníacos?Qual seria a trilha sonora celeste? Desde que Wando disse que só transava com o Bolero de Ravel retirei esta pérola do minimalismo das minhas expectativas sonoras paradisíacas e a imagem do muso das calcinhas praticando o ato amoroso está mais para purgatório do que qualquer outra coisa.
Sempre imagino o céu como um lugar com uma ótima temperatura e eu sentado numa espreguiçadeira conversando com um anjo negro que me ensina a tirar no trompete os primeiros acordes de So What de Miles Davis.Está certo que vai ser difícil de aprender, mas tenho a eternidade toda para tentar.
On The Road
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