On The Road - Four de Ases
Por Cláudio Vigo
Postado em 01 de janeiro de 2000
Os anos 60 foram pródigos em um tipo de personagem que está cada vez mais raro. Com um teclado na mão e uma orquestra inteira na cabeça, eram chamados de "supersession mans", ou seja, produziam, tocavam e muitas vezes concebiam toda a proposta musical de muita gente boa daquela época. Naquele clima de "bater o córner e correr pra cabecear" esses caras fizeram de tudo um pouco em quase sempre brilhantes carreiras solo. Existiram outros, mas vamos falar por aqui de um four de ases que é bem representativo. Com vocês: Dr.John, Leon Russell, Billy Preston e Al Kooper.
DR JOHN - Nascido Malcolm John Rebennack em 1941, no caldeirão cultural de New Orleans; ainda adolescente gravou com gente como Fats Domino e Professor Long Hair, e mais tarde com Sam Cooke e Sonny & Cher. Seu primeiro álbum solo (Gris - 1968) trazia uma interessante mistura de cantos "creole", Jazz de New Orleans e psicodelismo. O de 71 (Sun, Moon & Herbs) conta com o auxílio luxuoso de Clapton e Jagger. No meio de tudo isso deu uma pirada e assumiu o personagem encosto DR John que promoveu o encontro do rock com o voodoo.
Dizer que gosto de Dr. John é pouco, me lembro ainda hoje a primeira vez que vi (ouvi) a peça, no filme despedida do The Band, o "Last Waltz", onde ele aparece e detona num pianinho biriteiro no clássico "Such a Night", simplesmente inesquecível. Daí em diante comprei uma montoeira de discos e adorei todos eles. Essa mistura de Jazz com música tradicional de New Orleans e rock'n'roll é muito estimulante. Não assisti o show do Free Jazz, mas um amigo me contou que foi ótimo e que o sujeito é estranhíssimo, cheio de patuás, caveirinhas e outros badulaques macumbeiros.
Pra quem não conhece, recomendo: "Gumbo", "Back to New Orleans" e "In a Sentimental Mood", que são meus preferidos, mas tem outros ótimos também. Se ficar com medo, é só cantar pra subir que o clima desanuvia. Salve Dr.João. Axé Baba'.
LEON RUSSEL - Talvez de todos os quatro este seja meu preferido. Sou fã de carteirinha de tudo que Leon Russell fez nos anos 70. Depois disso o caldo desandou e hoje parece um fantasma grisalho de si mesmo fazendo uns disquinhos fracos distribuídos precariamente pelos EUA. Mas nem sempre foi assim. Entre 68 e 73, nove entre dez estrelas do rock'n'roll utilizavam seu enorme talento de compositor, arranjador e produtor.
Nasceu também em 41 em Lawton Oklahoma e se criou na Goiânia de lá, Tulsa, se entupindo de Country Music até 58 quando passou a acompanhar ninguém menos que Jerry Lee Lewis, que influenciou seu piano de forma marcante pra todo sempre. Outra lenda viva dos estúdios, Phil Spector, o utilizou em várias gravações. É seu o piano de "Mr Tambourine Man" do The Byrds.
Depois disso os históricos encontros com Delaney & Bonnie, Marc Benno e as parcerias com Joe Coker (Mad Dog & Englishman), Clapton e mais uma montoeira de gente. São clássicas suas participações no "Concerto em Bangladesh" e da alucinada excursão com Joe Coker. Seu primeiro álbum solo é uma obra prima instantânea e traz standarts como "Song for You" e "Delta Lady" e as participações de Clapton, Steve Winwood e George Harrison.
Leon Russell escreveu muitos dos grandes hits dos anos 70 e foi um enorme sucesso na voz de outros interpretes: "Song For You" (Ray Charles), "This Masquarede" (George Benson, Carpenters), "Hummingbird" (B.B.King).
Ainda hoje é um enorme prazer escutar estes álbuns de Leon Russell, o que faço sempre que posso. Sua figura parecendo um urtigão hippie com cabelão e barba branca e cartola é um dos ícones da época.
Assisti o homem aqui no Rio em 88 com Edgar Winter e foi simplesmente genial. Apesar de estar estranhíssimo - não mexia um milímetro a cabeça (?) e usava uma hilária calça de tergal com uma camisa daquelas de turista havaiano, tocou e cantou muito dos seus sucessos me levando aos céus.
Não tem errada. Quer agradar num fim de noite? É só colocar um Leon Russell, de leve, que tudo acontece.
BILLY PRESTON - Outra fera dos estúdios, Billy Preston também começou com um roqueiro dos primórdios quando acompanhou a "santa" Ricardinho (Little Richard) e os geniais soulmans Sam Cooke e Ray Charles. Tocou com os Beatles (Let it Be), George Harrison e mais uma multidão de gente.
Sua pegada no piano e no hammond são inconfundíveis e sensacionais. Também tocou no histórico concerto de Bangladesh. Algumas de suas composições são clássicos da época como "You Are So Beatiful". Tocou também com os Stones, ou seja, o homem estava em todas.
Tenho alguns discos de Billy Preston que são ótimos. Tem um clima soul refrescante que permanece apesar de tanto tempo. Vale a pena dar uma conferida.
AL KOOPER - Esse é uma espécie de "Forrest Gump do Rock", esteve em todas as paradas. Se pegarmos qualquer foto importante da época e formos olhar lá no fundo certamente tem Al Kooper aparecendo. Foi o tecladista dos primeiros álbuns elétricos de Dylan, líder do Blues Project, inventor do Blood Sweat & Tears, produtor de Lynyrd Skynyrd e The Tubes e de mais um monte de gente, além de ter gravado dois álbuns clássicos com Mike Bloomfield (Supersession e Live Adventures). Tocou com os Stones (Let it Bleed) e Hendrix (Eletric Ladyland) e acumulou milhares de histórias pra contar (adoraria ouvir).
Adoro também seu trabalho solo (muito pouco conhecido por aqui, é uma dificuldade achar um disco pra comprar) com músicas brilhantes e arranjos primorosos de um dos grandes desconhecidos do rock. Seu site é muito interessante, cheio de casos e fotos da época onde sempre se fica no clima "onde está Wally (Al)?" No meio dos astros. Pra quem não conhece fica a recomendação da audição urgente.
Pois é, tirando o Dr.John que está sempre lançando novidade, este time anda meio parado e esquecido. Transbordaram criatividade nos anos 70 e agora muita gente nem sabe quem foram. Vale a pena dar uma conferida no que andou fazendo esta turma na época. Os relançamentos em cd estão aí pra facilitar a empreitada. E cá entre nós, não há quem possa com um four de ases não é mesmo?
On The Road
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