O cantor que Keith Richards admite ter talento, mas é "calculado demais" e "superdimensionado"
Por Bruce William
Postado em 31 de dezembro de 2025
Keith Richards nunca teve muito filtro para falar de outros artistas, e em 1988 sobrou até para Bruce Springsteen. Apesar de reconhecer qualidades no "Boss", o guitarrista dos Rolling Stones disse que a maneira como ele construiu a própria carreira e a própria apresentação artística não o convence. Primeiro, Richards fez questão de separar as coisas e deixar claro que não era birra pessoal: "Eu gosto do cara... Eu adoro a atitude dele. Eu adoro o que ele quer fazer. Eu só acho que ele fez isso do jeito errado."
A crítica, porém, veio logo em seguida - e foi no ponto que ele parece considerar decisivo. Na mesma conversa, Richards definiu Springsteen de um jeito que pega direto na proposta do artista: "Calculado demais para mim. Superdimensionado." Na cabeça dele, existe um componente de construção e de encenação que pesa mais do que deveria: algo planejado, "montado", com as peças no lugar, em vez de uma coisa mais solta, mais instintiva. E, para um cara que sempre vendeu rock como impulso e risco, isso soa como um defeito.
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O comentário chama atenção porque Springsteen costuma ser visto exatamente como o sujeito que entrega "verdade" em palco, com show longo, entrega física e narrativa muito amarrada. Richards não está discutindo se a banda toca bem ou se o cara escreve bem - ele está dizendo que o pacote, do jeito que é apresentado, não conversa com o que ele espera de rock. É quase uma diferença de escola: de um lado, a ideia de espontaneidade; do outro, a ideia de espetáculo bem roteirizado.
E ele ainda pesou mais a mão ao falar de sucesso e contexto. No livro de memórias Life, Richards registrou que, se existisse algo melhor por aí, Springsteen "ainda estaria tocando nos bares de New Jersey". A frase é dura e coloca a ascensão do "Boss" num lugar em que o tamanho do fenômeno dependeria tanto de timing e circunstância quanto de mérito musical - como se ele tivesse "dado sorte" de ser o cara certo na hora certa.
Curiosamente, mesmo com esse diagnóstico ácido, Richards já tocou com Springsteen algumas vezes e, pelo que se conta, os dois se dão bem. A implicância não impede o convívio nem o palco compartilhado. Mas a opinião ficou registrada do jeito que Richards gosta: elogio ao sujeito, e cutucada no "projeto".
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