On The Road: Soulive, usina groove em forma de power trio de jazz funky

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Por Cláudio Vigo
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Não foi por falta de aviso, tenho um grande amigo e mentor nas sendas vacilantes das artes marciais em que fui me meter depois de velho. Disciplina e método para a eterna tormenta interior. Mentor e discípulo, sempre me mostrava o caminho do Festival de Jazz & Blues de Rio das Ostras, um lugar que já foi caidinho e hoje se transformou na Meca do Groove.

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Tudo conspirava contra, apesar do feriadão (Corpus Christi) minha habilitação vencida, carro sem vistoria, comecei minha peregrinação telefônica em busca de uma alma caridosa que me levasse junto. Cheguei a cogitar o ônibus mas uma confusão generalizada me paralisava.


Só de pensar em assistir de graça Robben Ford, Ravi Coltrane e principalmente um dos meus xodós do momento - a usina groove em forma de power trio de jazz funky chamada Soulive - eu tremelicava por dentro e virei uma flor de obsessão. Meu mau humor ia às alturas e já estava me conformando com a idéia de ficar em casa, quando olhando pro meu filho de oito anos entrei numa e lembrando de Robert Pirsig resolvi pegar o pirralho e enfiar o carro na estrada assistir o show e voltar apesar do risco. O moleque delirou e antes que desse tempo de mudar de idéia estávamos voando baixo rumo ao Katmandu do funk enquanto eu explicava o que era um Hammond B3 pro garoto e suas conseqüências filosóficas e existenciais na vida de uma pessoa.

Chegamos ao cair da tarde de um dia belíssimo com um pôr do sol que se anunciava inesquecível e pudemos ver que o palco estava em uma pedra que avançava mar adentro. Um vento salino levava pra longe a fumaça do meu cachimbo, que acendi imediatamente. Tudo conspirava a favor. Sentamos em uma pedra na beira do palco e esperamos em silêncio com a ansiedade que precede todo acaso ou ocaso perfeito.


Pra quem não conhece, fiquem sabendo que o Soulive é um trio (agora quarteto) formado no final dos anos 90 por uma garotada que se entupiu de ouvir velhas bolachas de Souljazz dos anos 60. Doses nada homeopáticas de Grant Green, Lou Donaldson e muito Jimmy Smith, Hammond Groove misturado com a barra pesada do funk tipo JB Horns, Funkadelick, Kool & The Gang e Graham Central Station. Ou seja a nata da Blue Note com o peso da Stax Records. Os irmãos Alan (batera) e Neal (hammond, clavinets e demais tranqueiras santas de época) Evans se juntaram ao branquela com sangue e pegada de Grant Green oriundo de outra banda funky altamente recomendável - Lettuce - Eric Krasno e começaram a fazer nome abrindo e tocando com gente como John Scofield, Maceo Parker, Derek Trucks e Robben Ford.

Foram durante oito anos (a idade do moleque) uma banda eminentemente instrumental. Era o que eu esperava ouvir enquanto já via os preparativos de Alan e principalmente Neal que alucinava em linhas de baixo tiradas direto de sua tecladeira. A maré começou a subir e o povo a chegar. De tudo um pouco em muita quantidade. Famílias, senhores encanecidos que só faltavam trazer um exemplar de "Kind of Blue" debaixo do braço, neo hippies descalços e um ou outro que pareciam (tanto pela idade quanto pelo olhar) ter chegado de Woodstock a pé. A Maresia começou a dominar e me deparei com uma figuraça esguia que estava literalmente dentro dágua (em todos os sentidos) procurando com um cajado multicolorido possivelmente a direção da Jamaica. Dreads na cabeça, um colar que estampava a Mama áfrica no peito e óculos escuros que refletiam o brilho de um poente agora eminente.

Enquanto limpava as cinzas do cachimbo ouvi meu celular gritando. Meus amigos que estavam lá assistindo o Festival inteiro, convivendo com os músicos, tomando café junto, me encontraram no meio da muvuca heterogênea. Dois Bodhisattvas do Rock Carioca, um iluminado Chico Zé (o maior conhecedor de Johnny Winter da história) e meu mestre em Karatê e rei do Boogie Woogie vulgo Zema San.


Após os protocolares gritos de regozijo e inúmeros "Caray" gritados ao vento começou a pancadaria no palco e foi pra valer. Imediatamente olhei pros olhos do meu filho e me vi ali ouvindo aquilo pela primeira vez. Um som encorpado com uma bateria que parecia estar sendo tocada pelo próprio Bernard "Pretty" Purdie nos tempos dos Kingpins de Aretha Franklin, um hammond demolidor que fazia flutuar e uma guitarra cheia de wah wah e distorção... Caramba, fiquei perplexo... Os caras estavam pegando pesado, muito pesado e quando eu imaginava que ia surgir Sly Stone pra berrar algo, sobe ao palco o Maluco beleza rastaman que vasculhava a Jamaica momentos antes oceano adentro. Crazy Man. Vozeirão poderoso de quem ouviu muito Otis Reding entremeado das "hippienoises" viajantes que estavam na cara e no peito. Toussaint era o nome da figura.


A coisa foi num crescendo e se pode dizer que o Soulive é hoje uma banda de Soulfunk pesado, bastante pesado repleto de groove e solos faiscantes de Krasno que abandonou seu estilo limpo (a la Benson) e apareceu cheio de truques dignos de um Eddie Hazel ou mesmo um Wah Wah Watson. Doideira. O público já estava na mão dos caras e parecia que o Appolo Theatre estava boiando no meio do mar. Teve uma hora que me pareceu ver James Brown encostado na pedra fugindo da maré que teimava em subir.

Meu filho estava em êxtase nirvânico e perguntava literalmente o que era aquilo? Eu não precisei responder, pois eles resolveram tocar uma versão vitaminada de "The Ocean" (logo o que em que lugar) do Led. Aí foi demais e o público ensandecido gritava como um mantra profano: "Soulive, Soulive". Resolvi responder ao meu filho e disse que é dessas coisas que faz viver a alma.

Fim de show, hora de voltar pra casa. Um papo rápido com meus amigos, uma visita ao palco principal, um pouco longe dali pra imaginar os shows que eu não iria ver. De novo On The Road.

O carro ia rasgando a escuridão da estrada e íamos conversando sobre o que havíamos acabado de ver. Resolvemos parar pra comer num boteco na beira da estrada e pedi um sanduba que se anunciava light que consistia em ovo frito, lingüiça e queijo. Pensamos o que seria a versão heavy e seguimos em frente. Já quase chegando, percebi o quanto eu havia me enganado no som e no sanduíche. O que se prometia uma tarde jazzy baixos teores se transformou em um festim dionisíaco e funky. Pesado e flutuando no oceano como se fosse um Zeppelin de Chumbo, só que negro, apontando pra Jamaica, como queria Toussaint vasculhando o mar com seu cajado na hora que eu acendia meu cachimbo. Deve ser disso mesmo que a alma vive.


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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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