A música que Bruce Dickinson fez para tornar o Iron Maiden mais radiofônico
Por João Renato Alves
Postado em 20 de janeiro de 2026
Frequentemente nos deparamos com debates sobre bandas de metal que "se venderam", "viraram comerciais" e outras definições do tipo. No fim das contas, a discussão se mostra infrutífera, já que não há uma fórmula mágica que possa ser seguida – o Cannibal Corpse tem mais repercussão comercial que muita banda pop.
Bruce Dickinson já havia colaborado com as composições do Iron Maiden em seu disco de estreia, "The Number of the Beast" (1982). Porém, devido a questões contratuais, não pôde ser creditado. Sua inclusão definitiva no time criativo aconteceu no trabalho seguinte, "Piece of Mind" (1983).

E não dá para negar que a permissão do baixista e líder Steve Harris gerou um acréscimo e tanto à banda. O frontman ampliou o espectro de temas abordados nas letras, buscando elementos mitológicos e de ficção científica. Também criou uma dobradinha altamente eficiente com o guitarrista Adrian Smith, que se estenderia até mesmo para fora do grupo na década seguinte, com resultados tão bons quanto.
Porém, também é sabido que a relação do cantor com o patrão nem sempre foi a mais pacífica. Um dos atritos aconteceu justamente nesse período, como Bruce relembrou em sua biografia oficial, "Para que serve esse botão?" (2017).
Avesso a guinadas comerciais, Steve fazia de tudo para proteger a integridade musical da Donzela de Ferro. Dickinson resolveu ir para um arrisca tudo, contando com o aval de Smith e do empresário da banda, Rod Smallwood. O resultado foi "Flight of Icarus", primeira criação da história do Iron Maiden sem a participação de Harris.
A temática da letra é baseada de maneira livre no mito grego de Ícaro. Filho de Dédalo, foi preso com o pai após revelar os segredos do labirinto do Minotauro a Ariadne. Essa passou as informações a Teseu, que matou o ser.
Visando escapar da detenção, os dois projetaram asas feitas com penas de gaivotas e coladas com cera de abelha. Eles conseguiram sair voando da Ilha de Creta. Porém, tomado pela vaidade e o senso de poder, Ícaro foi mais longe, chegando próximo ao sol. Com o calor, a cera de abelha derreteu e as penas se desprenderam. Ícaro caiu no mar Egeu e morreu afogado. Seu pai nada pôde fazer e assistiu tudo agoniado.
Bruce Dickinson também resolveu desafiar o poder supostamente intransponível de Steve Harris. Mas se deu bem, como o próprio contou no livro:
"Rod decidira jogar tudo contra a banca nos Estados Unidos e apostara na nossa capacidade de nos estabelecermos como headliners. As redes sociais não existiam. Todo o poder era do rádio. Se conseguíssemos emplacar uma faixa na programação das emissoras, nos daríamos muito bem – trabalho duro e turnês dariam conta do resto. Eu disse a ele que 'Flight of Icarus' seria a música."
Ainda havia uma pessoa a convencer. Alguém que não estava disposto a ceder tão facilmente.
"Quando gravamos a faixa, tive um embate com Steve quanto ao andamento. Ele queria tocar tudo bem mais rápido, quase como um shuffle. Peitei-o e ele relutantemente cedeu, deixando que eu ditasse o timing."
Porém, Dickinson precisou cometer um pecado, quando interpelado:
"- Isso não tem nada a ver com querer tocar no rádio, tem? – cobrou Steve.
– Ah, não. Deus que me perdoe. Claro que não – menti."
No fim das contas, a aposta se pagou.
"Gravamos daquela forma e entramos no top 10 da parada radiofônica, fora de todos os padrões. Aliás, acho que o andamento certo era aquele mesmo, independentemente de qualquer coisa. Mas tenho certeza que Steve discorda porque já faz trinta anos que não a tocamos ao vivo."
De fato, Harris deixou claro por muitos anos que não gostava de "Flight of Icarus" – assim como de "Run to the Hills". Porém, nas turnês mais recentes, após a publicação do livro, ela voltou ao setlist.
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