On The Road: Tommy Bolin; sua morte prematura foi uma perda incalculável

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Por Cláudio Vigo
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Não sei como está no resto do País, mas o calor aqui no Rio está como dizia Nelson Rodrigues "derretendo Catedral". Um bafo insuportável. O ar do meu carro quebrou, só me restando aumentar o som e comprar mais uma garrafinha de água falsificada nos engarrafamentos que freqüento todo dia uma desgraça que venho amenizando com a audição freqüente e refrescante do cd do concerto tributo à memória de Tommy Bolin, com Glenn Hughes & Friends gravado em 97. Não é gelado, mas refresca e de vez em quando bate até um ventinho...

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Estava eu esta semana lendo as memórias de Truman Capote, em Tanger nos anos 50, onde ele contava toda a doideira, tipos bizarros e inesquecíveis que existiam naquela época e local. Devido a este paraíso mediterrâneo ter sido a Meca beat em todos os tempos, sempre quis passar um tempo por lá, convencendo inúmeros amigos a fazer o derradeiro reveillon do milênio no sagrado solo marroquino. Tive um filho um ano antes e passei o reveillon com uma mamadeira numa mão e uma taça de champagne na outra. Ou seja, Tanger azedou junto com o leite do garoto. Hoje refletindo nisso em mais um engarrafamento com água falsa (o gosto de cloro é inconfundível) tive um flash back e lembrei do verão de 82, quando totalmente On The Road fui pro Maranhão e vim vindo naquele clima de pra baixo todo santo ajuda. Meia dúzia de caraminguás no bolso, muita disposição e uma parada estratégica no que era o umbigo da contracultura na época: a praia de Canoa Quebrada no Ceará (hoje um aprazível balneário segundo me dizem).

Para quem não esteve naquele ambiente freak, fica difícil acreditar no clima que rolava. Passei lá uma semana, com a mesma e única bermuda, que era lavada no fim da tarde ficando pelado esperando secar pra sair à noite. Sapato e camisa? Pra que? Pois é... dias e dias bestando no sol abrasador tomando coragem e uma meia dúzia de muricis pra encarar a gororoba que a mulher do pescador que me hospedava fazia e eu tinha que comer.

No fim da tarde, perto de uma igrejinha, tinha reunião pra assistir pôr do sol. Enquanto o sol descia, a maré subia e tinha sempre uma flautinha, danças performáticas e um Zé mané cantando: Aquariôô.. Uma coisa de época que tinha gente que levava a sério. A noite num forró à bateria (o local não tinha eletricidade) onde aparecia simplesmente de tudo. Mas tudo mesmo. Uma vez estava eu distraído dançando com uma beldade nativa, quando adentrou no recinto um trio inacreditável que consistia em um sujeito absurdamente musculoso todo raspado (cabeça, peito etc...) e vestido só com uma calça tipo gênio da lâmpada acompanhado por duas mulheres absolutamente nuas. No dia seguinte apareceram de novo só que com as duas vestidas e o sujeito totalmente pelado. O pior (ou melhor) é que ninguém prestava atenção e agíamos como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Havia um personagem, que diziam ter exagerado na aditivação, que passava os dias convidando a todos para um hipotético encontro de capetas gargalhando e esbugalhando os olhos sem parar até a família vir de Minas, levar o exagerado pro conforto do Toddy com pão de queijo. Encontrei com uma amiga que tinha uma razoável situação financeira no Rio, mas havia viajado sem um tostão no bolso implorando por resto de comida e bebericando sobra de guaraná. Eu quis pagar um misto no boteco e a bicho grilo ficou ofendidíssima.

Uma noite chegando tardíssimo, fui deitar na minha rede alugada e vi que estava ocupada por Zé Tuinho, que era o filho do pescador que tinha uma terrível doença de pele que o fizera perder todos os cabelos. O moleque levantou as carreiras e eu fiquei naquele impasse: pra que lado estava deitado Zé Tuinho (já imaginando a avaria na minha então densa cabeleira)?. Bem se eu não sabia nem onde estava a minha quanto mais a de Zé Tuinho. Escolhi um lado e deitei rindo da sorte. Pela janela vi um céu todo estrelado. Mais um dia de solina, murici, gororoba, forró e a expectativa de ser um dos dias em que o sujeito ia pro forró de calça.


Voltando ao rocknroll (sem nunca ter saído) sem querer ser polêmico, e já esperando os protestos, digo sem nenhuma dúvida que as únicas coisas que ainda ouço com prazer referentes ao Deep Purple (já fui fã radical da banda) são os discos solo de Glenn Hughes e Tommy Bolin ou o único que tocaram juntos, o ainda hoje genial Come Taste The Band. Imaginem então um disco em que o intacto vozeirão de Hughes homenageia num fantástico concerto a obra de seu saudoso amigo (morto em 76) Tommy Bolin.

Glenn Hughes desde o Trapeze foi um excelente baixista e cantor melhor ainda.Muitas vezes me perguntava se ele não era melhor que o próprio Coverdale. Depois do fim da banda andou muito doido perdido por aqui e ali e hoje faz uma carreira solo de muito sucesso e qualidade. Ouvi alguns de seus discos recentes e gostei bastante.

Tommy Bolin sempre foi e ainda é um dos meus guitarristas preferidos. Sua morte prematura foi uma perda incalculável. Tudo que tocava virava ouro, seu trabalho com Billy Cobham (Spectrum) e discos com James Gang (Bang e Miami) são surpreendentes, virtuosos e seus solos (Teaser e Private eyes) são coisas que ouço ainda hoje no dia a dia com entusiasmo. A família Bolin (herdeira dos direitos) andou lançando uma montoeira de discos póstumos pela Tommy Bolin Archives (www.tbolin.com) muitos pura enganação mas alguns com gravações raras e com coisas muito boas, como este que estou falando. Os guitarristas não são como Bolin, é claro, mas Ralph Patlan e Rocky Athas não deixam a peteca cair. Completam a banda: Terry Brooks nos teclados, Robert Ware no baixo, o irmão Johnnie Bolin na bateria e Glenn Hughes no baixo e vocal.

Abaixo o set list para dar água na boca:

01 - Teaser
02 - Shake The Devil
03 - You Told me that you loved me
04 - Gypsy soul
05 - Alexis
06 - Coast to coast (Trapeze)
07 - Getting tighter (Deep Purple)
08 - You Keep on Moving (Deep Purple)
09 - Dreamer
10 - Your love is alright

Quem conhece Tommy Bolin e seus discos e ainda não ouviu ou comprou o petardo, deve estar correndo à importadora mais próxima com o dinheiro suado apertado entre os dedos. O que posso dizer é: vão mesmo, rápido e depois me escrevam contando. Confesso, sou fanzoca e inconsolável até hoje com a morte deste filho de índios Sioux em um quarto de hotel em Miami, vitima do abuso de todas as drogas possíveis e imagináveis.


Não lembro se o verão de 82 foi tão quente quanto esse de agora.Li no jornal que alguns recordes de calor estão sendo batidos. Só lembro que todo o dinheiro acabou em Maceió. Dava para um PF, a passagem até o Rio, um saco de Plus Vita e duas garrafas d'água que tinham que durar trinta e seis horas. De madrugada, no ônibus, eu via o sujeito do lado dormindo babando e ia economizando a água, pois o pão já tinha acabado. Olhava para o céu estrelado da estrada e em uma síndrome de mauricinho ia sonhando com um banho decente, comida, ar refrigerado e meus discos de Tommy Bolin. Venho lembrando disso no carro, Glenn Hughes berrando a introdução de Gettin Tighter, quando o trânsito engarrafa, dou um real pro cara, uma forçada no lacre e percebo: ai, mais uma falsificada, enquanto o gosto de cloro desce pela garganta.


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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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