Andy Warhol & Velvet Underground

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Por Cláudio Vigo
Enviar correções  |  Comentários  | 


Quando morreu em 1987 Andy Warhol deixou uma imensa coleção que entre quinquilharias Kitsch e genuínas obras primas de todas as épocas foi avaliada em mais de 25 milhões de Dólares. Os inventariantes que entraram em sua casa disseram que encontraram salas e salas repletas de embrulhos fechados contendo tapeçarias raras, telas impressionistas, arte indígena e muita tranqueira sem nenhum valor. Tudo embalado sem nunca ter sido aberto, da mesma maneira que havia sido arrematado em algum leilão, pelo homem da peruca prateada que fez a custa de muita auto promoção e uma dose inegável de talento, o mundo girar a seu redor por quase vinte anos.
5000 acessosJack Bruce: "Foda-se o Led Zeppelin, eles são um lixo!"5000 acessosSlayer: é melhor não mexer com a família do Tom Araya...

Andy Warhol, supremo príncipe do underground nova iorquino, colecionava pessoas da mesma maneira que estes objetos, seus projetos incluíam o uso de inúmeros personagens que eram descartados no seu devido tempo, passado o prazo de validade da proposta (os famosos quinze minutos), sem dó nem piedade. Normalmente andava com um séqüito interminável (que deixaria Caetano Veloso babando de inveja) que atendia a cada sussurro, a cada viajada desta bicha estranhíssima que usava uma inacreditável peruca prateada e se alimentava basicamente de sonho de padaria com anfetaminas.

Em 1965 um dos elementos de sua usina de conceitos, chamada muito apropriadamente de Factory, Paul Morrisey imaginou que Andy podia ganhar dinheiro não apenas com filmes underground, mas também colocando os filmes em algum tipo de contexto rock n roll e resolveram sair à cata de uma banda que pudesse ser o suporte sonoro deste projeto. Pouco depois, a cineasta Bárbara Rubin ouviu um grupo chamado Velvet Underground no Café Bizarre e levou toda a turminha pra assistir gerando o seguinte comentário do líder: “Céus, você acha que nós devemos ficar com eles?”. Mas eles tinham underground no nome, musicas que falavam sobre heroína e sadomasoquismo e eram uns tipos bem estranhos e no balanço geral foram aceitos e aprovados com louvor pela corte.

O grupo se compunha na época de Sterling Morrison na guitarra, Maureen Tucker na bateria, um musicólogo galês, discípulo do compositor de vanguarda La Monte Young chamado John Cale que tocava viola e guitarra base e o vocalista e principal compositor um tipo enfermiço e genial: Lou Reed.


Alguns dias depois apareceu na Factory uma cantora alemã belíssima, uma deusa gelada chamada simplesmente de Nico que tinha em seu currículo uma participação na Dolce Vita de Fellini, um filho com Alain Delon, um curso no Actors Studio e algumas circuladas com os Stones em Londres. Era o creme que faltava no sonho de Andy, que imediatamente imaginou a cena da loura linda e sorumbática cantando na frente daquela bandinha desleixada vestida de preto enquanto dançarinos de todos os sexos serpenteavam na frente da projeção de seus filmes e luzes estroboscópicas atormentavam o público presente. Ë lógico que Reed & Cale não concordaram com a proposta e convencer a turma foi uma parada duríssima, o que só ocorreu quando perceberam que era uma chance única de divulgar seu trabalho e após alguns acordos do tipo: “nesta e naquela música esta lambisgóia não mete o bedelho” fizeram negócio.

O primeiro show foi antológico: Com os filmes de Andy sendo projetados ao fundo, os tais dançarinos simulavam se chicotear em meio às luzes, agulhas hipodérmicas e cruzes de madeira enquanto o velvet underground dava o seu recado com seu som cru e áspero numa porra-louquice que assustou muita gente na época e pavimentou o caminho pra muita coisa que viria muito tempo depois e que foi classificado pela crítica na época como “O casamento entre Bob Dylan e o Marquês de Sade”. O horror e a estranheza que tudo isso gerou no meio hippie foi enorme e ficou famosa a troca de farpas e insultos entre Lou Reed e Frank Zappa durante uma excursão pela costa oeste em que foram bem maltratados tanto pela crítica quanto pelo público que não estavam preparados paro o conteúdo daquelas letras e para aquela sonoridade ferro no ferro sem nenhuma lubrificação.

O disco, gravado em março de 67, se chamava The Velvet Underground & Nico tinha a famosa banana de Warhol na capa e trazia clássicos instantâneos como I m Waiting for the man, Vênus in furs e Heroin e parece que foi gravado ontem tal a atualidade da proposta que foi copiada a exaustão nos anos 80 por um sem numero de bandas moderninhas que pareciam estar descobrindo a pólvora, mas nada mais faziam que emular a turminha de preto.

Após estes “quinze minutos de interesse”de Andy por eles, seguiram sozinhos adiante (sem Nico) se transformando numa das bandas mais influentes e cultuadas da história do rock.

Frente à obra e ao personagem de Andy Warhol é impossível manter indiferença, ou se ama ou se odeia (estou na categoria dos que amam) muitos não aceitam o caráter “picareta” de muitos de seus projetos, como em suas serigrafias em que mandava seus asseclas pintarem as dúzias que eram vendidas por uma grana preta para que ele pudesse comprar suas quinquilharias e seus sonhos de padaria dopados. Crítica maior ao mercado de arte e a especulação eu não conheço, é botar o dedo na ferida e deixar exposto de forma cínica o que já é cínico por definição. Esta retrospectiva que andou recentemente pelo Centro Cultural do Banco do Brasil (RJ) foi uma verdadeira aula de sensibilidade pop, saí de lá atônito, eu que já conhecia varias coisas dele espalhadas por aí ao entrar em contato com o conjunto da obra reunido num só lugar tive a dimensão do artista fantástico que era a figura.

Frasista emérito, numa suprema ironia do destino ficou prisioneiro de sua frase mais famosa. Qualquer Gugu Liberato vive citando a história do “famosos por quinze minutos”. O perigo é que sua obra se dissolva no universo Kitsch e careta que tão bem retratou. Pra ficar num autor que Andy adorava, vamos de Marquês de Sade: ”Se é impossível para a natureza a eternidade dos seres, a destruição deles torna-se uma de suas leis”.

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

On The Road

3524 acessosJimmy Page, Led Zeppelin & The Black Crowes3774 acessosJohn Paul Jones & Zooma1270 acessosOn The Road461 acessosJoe Jackson - Heaven & Hell4045 acessosJim Morrison - Ode a LA5000 acessosJerry Garcia - O Anti-Super-Star2150 acessosThe 70's - E um pouco sobre Gregg Allman5000 acessosAllman Brothers Band - ainda The 70s1737 acessosThe 80's - e um pouco sobre Ian Curtis902 acessosJorge Mautner2319 acessosTommy Bolin: sua morte prematura foi uma perda incalculável2668 acessosChuva de Guitarras1200 acessosJohn Mayall e o restaurante Indonésio1581 acessosUma noite das Arábias5000 acessosGlam Rock: A vanguarda era ditada com muito cílio postiço2755 acessosPapo Lynyrd671 acessosMemória do Futuro1026 acessosFour de Ases4141 acessosPancadão Hendrixniano3950 acessosNum muro dos anos 702711 acessosSteely Dan - Pop Perfeito1379 acessosOs quatro CDs do Apocalipse1862 acessosJoni Mitchell & Charlie Mingus5000 acessosGigantes do Soul Jazz1211 acessosMais gigantes do Soul Jazz1156 acessosQuem lembra dos Supergrupos?2564 acessosMick Jagger, Graham Bond e Geração Bendita2151 acessosColin Hodgkinson, biscoito fino no baixo4177 acessosAlguns atalhos para muitas viagens3048 acessosJohn Paul Jones - herói do Olimpo3813 acessosThe Shadows, a sombra de Hank Marvin1569 acessosColdplay e a franja do Fernando2439 acessosFunky Friends1054 acessosElogio do Ócio973 acessosConfissões Paulistas1308 acessosVelhas Novidades2980 acessosMahavishnu Orchestra e a Yoga2114 acessosAir - Moon Safari3864 acessosColecionadores de discos e de calcinhas4717 acessosHell's Angels, Punks, Verve2724 acessosPara onde vão Robert Fripp e os amestradores de focas?5000 acessosRimbaud e Morrison: A grande maioria passa pela vida imersa na multidão2260 acessosDr. John5000 acessosMais do Mesmo1156 acessosJorge Mautner e as Memórias do Filho do KAOS1569 acessosSoulive, usina groove em forma de power trio de jazz funky5000 acessosRolling Stones - "Exile On Main Street"3991 acessosOn The Road - Menos é Mais5000 acessosOs 1001 discos para se ouvir antes de morrer2801 acessosJeff Beck: Economia e bom gosto, eis a conseqüência3269 acessosOn The Road: O velho feiticeiro do piano e o Zappa do Funk1974 acessosOn The Road: Allman Brothers Band, um sonho de priscas eras5000 acessosOn The Road: "Jeff Beck é Jeff Beck"509 acessosOn The Road: "It's a long time gone, bicho!" - CSN no RJ567 acessosOn The Road: Água Brava, Bacamarte e Celso Blues Boy1405 acessosOn The Road: biografia de Ron Wood é bem humorada e informativa0 acessosTodas as matérias sobre "On The Road"

0 acessosTodas as matérias da seção Matérias0 acessosTodas as matérias sobre "On The Road"0 acessosTodas as matérias sobre "Velvet Underground"

Jack BruceJack Bruce
"Foda-se o Led Zeppelin! Eles são um lixo!"

SlayerSlayer
É melhor não mexer com a família do Tom Araya...

Iron MaidenIron Maiden
"Tenho inveja dos fogos do Slipknot", diz Bruce

5000 acessosSepultura: Andreas Kisser comenta os primórdios da banda5000 acessosGuitarristas: os 10 maiores de todos os tempos segundo a Time5000 acessosSlipknot: Corey Taylor explica porque o mundo pop não suporta o Heavy Metal5000 acessosUltimate Classic Rock: As 10 melhores músicas do Scorpions5000 acessosChorão: Médium teria psicografado poesia do vocalista?1518 acessosMetalSucks: Músicos grisalhos que continuam trues

Sobre Cláudio Vigo

Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

Mais matérias de Cláudio Vigo no Whiplash.Net.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em fevereiro: 1.218.643 visitantes, 2.740.135 visitas, 6.216.850 pageviews.

Usuários online