Rock In Rio 4: evento continua sendo o que sempre foi
Por Daniel Junior
Fonte: Aliterasom
Postado em 27 de janeiro de 2011
Ontem, logo após o anúncio que o Rock In Rio 4 teria como atrações em um dos dias do evento (23/09) Katy Perry, Rihanna, Cláudia Leite e Elton John, duas correntes surgiram automaticamente nas mídias sociais, principalmente no twitter. Aqueles que estavam alegres e empolgados com a presença dos gigantes da música pop no maior evento de ROCK do país. O outro grupo era formado pelos radicais xiitas que aguardavam a presença de outros monstros do rock, como Van Halen, Rush, Kiss, Aerosmith e etc.
Antes de mais nada, o espaço dedicado no Aliterasom (blog onde foi publicado originalmente este texto) é de 90% de rock. Gosto do estilo. Posso dizer que fui "criado" nele. Sei as tantas qualidades que todas as suas ramificações possuem e sei o quanto de preconceito que ele sofre, ora por culpa da mídia não interessada em divulgar algo que em suas entranhas gritam desde a década de 80 ("o rock morreu"), ora porque acredita nos grandes lemas atrelados a ele (sexo, drogas). Quando você carrega sua identidade de tabus, não fique esperando que você seja o mais querido da família. O rock sempre foi e sempre será ovelha negra.
Nem quero concluir este assunto, porque é vasto e cabe uma série de outras opiniões.
No entanto, fico encasquetado com aqueles que gostariam de um festival homogêneo, nos padrões dos grandes eventos na Europa. Parecem que, ou não conhecem o país que vivem ou não tem espelho em casa. Acreditar, que o Brasil varonil, conhecido pelo samba e pelo futebol, irá fazer um festival de música TODO voltado para o metal é utopia, bobagem. Há de se separar o sonho ou qualquer outra idealização, do que realmente atrairia a audiência do povo brasileiro para um evento deste porte.
De forma geral, gosto muito do bom senso que a rapaziada que gosta de rock tem. Não somos (me incluo) alienados. Desde sempre o rock também é de certa forma um condição política. A subversão não é uma tolice desvairada e sem motivos. Enquanto muitos apontavam como malucos aqueles que balançavam a cabeça ao som de Iron, Black Sabbath, Deep Purple, mal sabiam as tantas e tantas reflexões que tais composições trouxeram para estes mesmos loucos e o quanto de contribuição artística estes mesmos ícones trouxeram para história da arte mundial.
Por outro lado, alguns faniquitos e mimimis são injustificáveis. A geração consumidora de música no Brasil de hoje é heterogênea, "desrotulada", híbrida, levemente descompromissada com estilos e modernamente democrática. O famoso ecletismo sem critério é o maior mote dos atuais Ipodeiros da sociedade.
Festivais de música no Brasil são feitos para fãs nominais. São aqueles que dizem ser fãs de rock e não sabem nada sobre a história da banda que dizem gostar. Não pensem vocês que Roberto Medina ou qualquer outro integrante do evento está pensando em satisfazer plenamente você que esteve em 1985 e viu Ozzy e Iron no mesmo evento. Há uma diversidade de interesses e um deles é: trazer o maior número de pessoas e satisfazê-las, cumprindo desejos comerciais e atingindo um grande público. Porque um evento deste porte, no Brasil, que for reducionista de um estilo será deficitário e não atenderá exigências principalmente das mídias televisivas. Você já imaginou o Dimmu Borgir, com toda a sua maquiagem e "lindas mensagens" sendo explicado por Zeca Camargo no Fantástico?
Por favor, leiam! Não estou defendendo este ou aquele artista que não faz o que eu gostaria de ouvir. Estou dizendo que, mesmo na melhor edição do festival (1985) havia divergências musicais: Al Jarreau, Alceu Valença, James Taylor (em quase fim de carreira), Moraes Moreira, Ney Matogrosso e B´52 não são exemplos dos maiores desejos de uma alma roqueira. No entanto, foi esta edição que consagrou o evento e o tornou conhecido no mundo inteiro.
Um exemplo que eu considero clássico: se você acredita que as mais de 200 mil pessoas presentes no show do Kiss em 1983 eram de FÃS da banda, você ainda não entendeu a alma do povo brasileiro. Ele vai onde disserem que o negócio é "bom". "Tem muvuca, tô dentro". Aquele tipo de espetáculo era novidade, não só para aquela geração, como para a própria banda que raramente aparecia abaixo da linha do Equador. Muitos dos que irão aos RiR 4, querem ir por "onda". Não por considerarem o evento histórico ou, por incrível que pareça, suas atrações. É um carnaval fora de época para aqueles que "supostamente" não gostam de axé ou de samba. Para os organizadores, pouco importa se é por onda, ideologia, gosto ou curtição. Quanto maior for, melhor.
Portanto devemos nos conscientizar do seguinte: ou vamos "cegamente" atrás de atrações singulares e interessantes como Metallica, Sepultura e Motorhead e curtiremos como o "melhor festival dos últimos tempos" ou ficaremos sempre chorando pitangas de que o RiR IV deveria ser aquilo que nenhuma edição do evento jamais foi (aqui e lá fora): um festival SÓ de rock.
Twitter do Autor: @dcostajunior
Rock In Rio 2011
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