A banda que David Bowie via como o som do futuro, mas que agora faz parte do nosso passado
Por Bruce William
Postado em 12 de agosto de 2025
Ao longo de sua carreira, David Bowie cultivou a habilidade de moldar a música conforme sua vontade, buscando constantemente sons e ideias que ainda não haviam sido explorados. Não era apenas questão de estilo, mas de criar algo que soasse como um vislumbre do amanhã. Por isso, quando se deparava com outros artistas capazes de provocar a mesma sensação, ele não hesitava em reconhecer. Para Bowie, alguns músicos tinham o raro dom de transmitir ao público a impressão de que estavam testemunhando o futuro acontecer diante de seus ouvidos.
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Nos anos 1970, ao lado de Brian Eno, Bowie produziu a chamada trilogia de Berlim, fundindo krautrock, música eletrônica e atmosferas minimalistas. Obras como "Low" e "Heroes" ajudaram a pavimentar caminhos que mais tarde seriam associados ao pós-rock e à música experimental. Mas quando chegou a década de 1980, o cenário do rock havia mudado. O punk já tinha perdido seu impacto inicial e as tendências mais tradicionais pareciam desgastadas. Foi nesse contexto que um novo nome se destacou para Bowie: o U2.
A banda irlandesa já havia conquistado o topo das paradas com "The Joshua Tree", mas não se acomodou. Ao trabalhar com Eno, mergulhou em sonoridades mais ousadas, dando origem a álbuns como "Achtung Baby" e "Zooropa". Enquanto ele próprio experimentava elementos digitais em Earthling, Bowie observava com interesse o rumo que o U2 tomava. "Alguns podem achar que o U2 é apenas uma banda irlandesa que está enchendo os bolsos de dinheiro, mas sinto que são uma das poucas bandas de rock tentando sugerir um mundo que continuará após o próximo grande muro, o ano 2000", disse na época em fala resgatada pela Far Out, convencido de que aquele som tinha vocação para sobreviver por décadas.
Parte desse fascínio que cativou até Bowie vinha da forma como o U2 tratava a própria estética. As guitarras etéreas de "Where the Streets Have No Name" pareciam transportar o ouvinte para outra dimensão, enquanto o timbre quase industrial de "Mysterious Ways" soava como algo impossível de se produzir nos anos 1970. Bono, por sua vez, incorporava personas no palco, como no período de "The Fly", usando o artifício para fazer críticas sociais e políticas com um toque de teatralidade que lembrava o próprio Bowie em seus personagens clássicos.
Hoje, passadas mais de três décadas, aquela fase do U2 que Bowie enxergava como um vislumbre do futuro tornou-se parte de nosso passado. As inovações de então já foram assimiladas, revisitadas e, em alguns casos, superadas por novas gerações. Ainda assim, permanecem como registro de um momento em que dois artistas de universos distintos - um camaleão britânico e uma banda irlandesa no auge - acreditaram que a música podia abrir portais para um tempo que ainda não havia chegado. O futuro, naquele instante, parecia ter data marcada para começar.
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