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Raul, Patrulha, Lennon e WASP

Por Luiz Carlos Barata Cichetto | Em 04/03/02
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"A maioria das pessoas não reconheceria uma música boa se ela viesse e as mordesse na bunda." - Frank Zappa

::: CRÔNIC'AS BARATAS

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PANCREATITE, CACHAÇA E SOLIDÃO

Como ele mesmo diz no "Baú do Raul", seu nome começa com um grito (Ra) e termina com um uivo (ul)... Pois Raul Seixas é isso mesmo, um grito e um uivo. Um grito solto, "bailando no ar", um uivo de um lobo solitário, nesta estepe suja do Rock And Roll brasileiro. Um sujeito que foi até as últimas conseqüências da inconseqüência e pagou "brabo" por tal feito.

Raul Santos Seixas, deixou esta bola há exatos 13 (!) anos.... Pancreatite, cachaça e solidão. "Uma voz que canta, uma voz que dança, uma voz que gira... bailando no ar!".

Agora escuta, meu Mestre, pai da minha inspiração, madre superiora da minha inconseqüência, padrinho de meu filho Raul da Rocha Cichetto. Seu nome está escrito em fogo, á ferro-e-fogo, nas consciências desses malucos, beleza ou não, nos verdadeiros malucos de coração, de mente....

Cancerianos somos nós. Você, pai da minha liberdade e eu pai de um Raul, apenas mais um a muitas, mas único a mim. Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade. Sei que em algum lugar, com seu sorriso irônico pensas, "Mas isso eu te ensinei, maluco Barata"... Claro que foi, meu Mestre! Tu me ensinaste os valores corretos da liberdade e da expressão, juntas e separadas. O diabo não é o pai do Rock, mas foi ele quem te deu o toque? Deus continua sendo o que era a muito pra você, o que me falta para compreender o que eu não compreendo.

Porque você soube mais que ninguém, que Rock É Atitude! Porque você morreu com a idade que tenho hoje... E morro agora... Porque, você tirou do limbo da ignorância a minha alma de poeta-menino...

Que cada Rock nesse mundo seja em teu nome, que cada bêbado lhe dedique o penúltimo gole, que cada maluco lhe dedique a sua melhor maluquice, que cada pai lhe dedique, como eu, o seu primogênito, que cada mãe lhe dedique a primeira gota de leite. Porque, meu amigo, "quem te fez com ferro, fez com fogo" e " tudo acaba onde começou".

Agora, "Quando esqueço a hora de dormir/ E de repente chega o amanhecer/ Sinto uma culpa que eu não sei de que/ Pergunto o que eu fiz?/ Meu coração não diz/ Eu sinto medo." Medo de que? Medo da chuva, medo da morte que é tão forte? Medo da dor, a dor que sangra, mas não escorre, medo do medo? Medo de quê? Agora, que o dia surge, "vou aproveitar a solidão do amanhecer, pra ver tudo aquilo que eu tenho que saber"!!!

Sabe, irmão (ou seria pai?) acabei de cometer um terremoto, em lugar dos pequenos erros, mas sou apenas um moleque, não maravilhoso! A fonte da água viva secou, mas eu ainda tento outra vez, como nos velhos tempos. Da fonte agora corre urina de anjo e eu espeto meu dedo no rabo dele falo, "Isso é tudo que me resta, nessa festa". E os meus fantasmas também são extraordinários... Fantasiam-se de Raul Seixas, John Lennon, Janis Joplin, Jim Morrison, nas noites em que tenho medo da solidão e a transformam em meu vício. E ai eu bebo, e fumo e dou gargalhadas e penso que na morte "alguma coisa pode acontecer"... "Morte, morte, morte que talvez seja o segredo dessa vida".

Agora deixa eu dormir, irmão; vou rezar á Ave Maria da Rua, uma santa qualquer, daquelas vadias encharcadas de cerveja e vinho baratos que perambulam pelas ruas, fazendo sexo em troca de mais um gole que lhe arda a garganta e lhe queime o coração. E eu, igual uma barata, vou dormir em algum canto escuro atrás da pia da cozinha, porque minha mulher não acredita que a bebida trás a ilusão da paixão e fugindo da multidão de fantasmas que assolam minha alma.

Luiz "Barata" Cichetto
09/08/2002


::: POESI'A BARATA

HOMEM DE METAL

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Busco intensamente minha original na cadeia hereditária
Olhando mapas da origem do ser, do homem de nendertal
Percorro infinitos e paralelos mundos da escala planetária
Sou um ser quase humano ou apenas um homem de metal.

Sou homem, homem de metal
Forte e louco, poderoso e fatal.

Tenho nos olhos a frieza e a dureza das pedras rolando
Nas ruas busco um olhar, um olhar animal, brilho de aço
Sou homem, um homem de metal, estou vivo e ralando
Busco a minha essência, patrulhando o caos no espaço.

Sou homem, homem de metal
Forte e louco, poderoso e fatal.

Dias passaram em minha trajetória e nem tenho uma digital
Perdi minha identidade, sou menos que um homem sou metal
Onde é que está meu som, onde anda a minha história antiga?
Conta pra mim, canta pra mim, canta comigo, criança amiga.

Sou homem, homem de metal
Forte e louco, poderoso e fatal.

Mostre o caminho que eu o seguirei, mas não abaixo a cabeça
Apenas sigo o caminho das pedras, antes que a noite apareça
Quero ficar arrepiado, quero o brilho do sol, sonhar e brilhar
Porque ainda tenho um caminho, um caminho grande a trilhar.

Sou homem, homem de metal
Forte e louco, poderoso e fatal.

Luiz "Barata" Cichetto
23/12/2002


::: MÚSIC'A BARATA

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O SONHO ACABOU DE SER ASSASSINADO
Luiz Carlos Cichetto

"Confirmando a notícia dada durante toda a madrugada: John Lennon foi assassinado a tiros ontem à noite, na porta do edifício onde morava em Nova York."

Em 8 de dezembro de 1980 meu mundo e minhas necessidades eram restritas a pouco mais de 2 metros quadrados, onde existiam um colchão colocado diretamente sobre o chão e uma estante de madeira junto a ele onde permaneciam meus amassados e rabiscados livros e meus discos de vinil, centenas deles, que eram escutados num três-em-um. Os sonhos não precisavam de espaço maior e eram alimentados certamente por centenas de músicas de John Lennon.

Naquele dia, como todos, a primeira coisa que fiz ao acordar foi apertar o "power" do três-em-um que ficava sintonizado na Bandeirantes FM, que naquela época tinha uma programação totalmente alternativa. A voz de Antonio Celso leu a notícia acima, com uma carga de tristeza que jamais eu esquecerei. Justamente Antonio Celso, que fez história no Rádio brasileiro como apresentador de rádios musicais pré-FM-sucesso, e que tinha um visual muito parecido ao de John.

Senti aquela bala disparada por aquele maluco perfurando a minha cabeça e vi todos os meus sonhos caírem mortos ao chão misturados a poça de sangue que saia da cabeça daquele homem que, juntamente com Raul Seixas, me ensinara a sonhar e a pensar.

Fiquei ali, parado, pasmo... Sem saber ao certo que sentimento ter. Ódio, por aquele homem enlouquecido que ao querer ser igual seu ídolo, provavelmente chegou a conclusão que não existia espaço para os dois e que, já que em sua loucura acreditava ser ele o real, decidiu que o outro tinha que morrer.

John não era um grande músico, mas tinha sonhos e eu também era assim. Ele me ensinou a respeitar as mulheres, com "Woman", me mostrou que mesmo um cara "meio esquisito" tem direito a sensibilidade, em "Jealous Guy", a começar a imaginar um mundo melhor em "Imagine", a perguntar o porque das coisas em "How"... Tantas coisas e tantos sonhos que, naquele momento a frase que Antonio Celso poderia ter lido seria a seguinte:

"Confirmando a notícia dada durante toda a madrugada: O SONHO ACABOU DE SER assassinado a tiros ontem à noite, na porta do edifício onde morava em Nova York."
03/05/2001

O SONHO ACABOU DE SER ASSASSINADO

Estou certo que ele lutou por sua existência
Quando bruscamente lhe a atiraram a tiros
Porque ali acabaria seu sonho de resistência
Junto com seus últimos dolorosos suspiros
Quando arrombaram a porta de sua consciência

A poucos passos do grande portão de correr
Tiros alcançaram aquele homem que parado
Sem tempo de balbuciar a palavra morrer
Caiu dentro da bacia de sangue coagulado
Que de seu corpo agora começara a escorrer

Ele jamais teria tempo de perguntar
Ao seu assassino o porque daquele ato
Ou ao menos de dizer deixa estar
Que um da iremos acertar um pacto
Então poderei por isso lhe perdoar

Gritos femininos orientais ecoaram no ar
Tendo ao fundo um matador a discorrer
Que porque o ama poderia então lhe matar
Alguns disseram deixam o sangue correr
Enquanto com essas coisas pudermos ganhar

Uma das balas atingiu sua peluda cabeça
Que coisas belas e boas imaginou por nós
A morte lhe apanhou antes que aconteça
Uma coisa que o transformaria em algoz
Daqueles que esperam que o bem desapareça

Imagine apenas uma sociedade sem assassinatos
Que eu lhe direi que é apenas sua imaginação
Porque a morte dentro do ser humano é inato
Enquanto existir neste planeta qualquer nação
Que tenha um legislador chamado Poncio Pilatos

Aqueles bichos que lhe pareciam causar doenças
São aqueles mesmos que agora trajados de terno
Discorrem que por qualquer coisa que aconteça
Jamais poderão esquecer daquele poeta eterno
Que sempre procurou sonhar com nossa cabeça

Eu sonhei com ele galantemente montado
Sobre um animal pelos nossos doces mares
Quando acordei o sonho tinha acabado
Com pedaços de seu cérebro pelos ares
Pelas balas que ele tinha contra lutado

Retalharam seu corpo alugando os pedaços
Depois o embalsamaram colocando em um museu
Sem esquecer daquela parte de seu braço
Que lutou até a morte em um moderno Coliseu
Contra ursos que mandam apertados abraços

O que nos resta neste momento é chorar
A morte desse ser que nos deixou de bobeira
Sonhando com um mundo sem sangue a derramar
Suas roupas rasgadas serão a nossa bandeira
Com que conquistaremos a liberdade de sonhar.

9/dezembro/1980
Este poema faz parte do livro mimeografado "Arquiloco" de 1981.

Luiz "Barata" Cichetto


::: LETR'AS BARATAS

GOODBYE AMERICA
WASP

I'm politically incorrect and damn proud of it
I love my country but I'm scared to death of its government
Ya believe what you read cause it's all that they give ya
Cause all of history is written by winners
I'm engaged in a frenzy of mass self-destruction
I feed upon your famine to fuel my corruption
I'm wholeselling hatred and international incest
To carnivorous hyenas in a global theft fest
I've mastered the arts of death and foreign nations genocide
And those who turn on me commit national suicide

I'm the queen of the global dream
And I rule a declining nation
I sit and watch all the violent screams
From the throne of your desperation
I killed them all and stole their land
Enslaved the blacks and slaughtered the red man
In God we trusted and I gave birth
To would be kings to rule the earth

I have more pigs than I have tits to feed
I embrace the world's phoney leaders
And hold the sucklings to my breast
And I'd fool you all as I'd feed ya
I'll prop you up then strike you down
And lick your blood up form your ground
Humpty fuckin dumpty
My empire's falling down

Breakdown, goodbye America
So long the music's died
Freedom's last hero's wasted
I made you, I'll break you
Breakdown, goodbye America
It's all gone, kiss it goodbye
There on bloody bended knees where
My nation died.

ADEUS AMÉRICA
Tradução Livre: Ian Cichetto

Eu sou politicamente incorreto e, droga, orgulhoso disso
Eu amo meu país mas estou com medo da morte de seu governo
Você acredita no que lê porquê isso é tudo que eles te dão
Porque toda a história foi escrita pelos vencedores
Estou engajado num furor de autodestruição em massa
Eu o alimentei sua fome para abastecer minha corrupção
Estou vendendo ódio e incesto internacional
Para hienas carnívoras numa festa global de roubo
Eu aprendi as artes da morte e o genocídio contra países estrangeiros
E todos aqueles que me fizeram cometer o suicídio da nação

Sou a rainha do sonho global
E eu governo a nação decadente
Eu sento e observo todos os gritos violentos
Do trono de seu desespero
Eu os matei e roubei suas terras
Escravizei os negros e assassinei os homens vermelhos
Em Deus nós acreditamos e eu concedi o nascimento
Para que os reis reinassem a terra

Eu tenho mais porcos do que tetas para alimentar
Eu abraço os governantes falsos do mundo
E seguro os bebês em meu peito
E eu o enganaria vocês todos como eu os alimentei
Vou suportar à vocês todos e depois derrubá-los
E lamber seu sangue que se esparrama no seu solo
Meu império está caindo

Caia agora, adeus América
Até mais, a música está morta
Os últimos heróis da liberdade estão acabados
Eu o fiz, eu posso destruí-lo
Caia agora, adeus América
Tudo se foi, de um beijo de adeus
Nos joelhos sangrentos curvados onde
Minha nação morreu.

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Sobre Luiz Carlos Barata Cichetto

Sou Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal, do ano da Graça do nascimento de Madonna, Michael Jackson, Bruce Dickinson, Cazuza e Tim Burton. Sou poeta, escritor, produtor e apresentador de Webradio, produtor de eventos e procuro pagar as contas trabalhando com criação de sites. Crescí escutando Beatles, Black Sabbath, Pink Floyd e Led Zeppelin. Participei da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos, deixei de ser poeta e fui tentar ser homem, o que no entender de Bukowiski é bem mais difícil. Escrevo poemas desde que comecei a criar pêlos.... nas mãos. Trabalhei como office-boy, bancário, projetista de brinquedos e analista de qualidade. No final do século XX, acordei certo dia de sonhos intranquilos e, transformado em um ser kafkiano, criei um projeto cultural na Internet nos moldes dos antigos panfletos mimeográficos. Mesmo antes de meu processo de metamorfose, nunca deixei de cometer poemas, contos e crônicas. E embora tenha passado dos três dígitos o numero de textos escritos, nunca ganhei um prêmio literário. Fui apaixonado por Varda de Perdidos no Espaço, Janis Joplin, Grace Slick e Sonja Kristina; casei quatro vezes e tenho dois filhos, Raul e Ian. Atualmente sou também editor, costureiro e colador de livros, num projeto de editora artesanal.

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