A História Impopular dos Rolling Stones - Livro 2 - Mick Taylor

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Por Márcio Ribeiro
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Índice das partes desta matéria

0 acessosParte 25 - Mick Taylor0 acessosParte 26 - Hyde Park0 acessosParte 27 - O Inferno de Dulac0 acessosParte 28 - O Brilho Que é L.A.0 acessosParte 29 - The Midnight Rambler0 acessosParte 30 - Madison Square Garden0 acessosParte 31 - Altamont0 acessosParte 32 - Injetando Mudanças0 acessosParte 33 - A Excursão Européia0 acessosParte 34 - Boca Aberta e Dedos Gosmentos0 acessosParte 35 - O Casamento do Ano0 acessosParte 36 - Exílio em Nellcôte0 acessosParte 37 - Los Angeles e Vevey0 acessosParte 38 - STP0 acessosParte 39 - Baco e Pan0 acessosParte 40 - A Festa de Boston0 acessosParte 41 - Jamaica e os Rastafaris0 acessosParte 42 - A Heroína na História0 acessosParte 43 - A Macaca0 acessosParte 44 - A Última Excursão de Mick Taylor0 acessosParte 45 - Abandonar o Navio

Com seu novo guitarrista, Mick Taylor, os Rolling Stones começam toda uma nova trajetória. Esta é uma banda consideravelmente diferente daquela criada por Brian Jones em 1962. Liderados agora por Mick Jagger, passam a trilhar uma longa jornada. De uma banda que dava lucro para todos os que investiam nela, mas não para os seus integrantes, tornam-se um dínamo de rock que faz escola em organização de suas excursões e, mais importantemente, de suas finanças. Tudo isto sem perder a imagem de meninos maus que fora criado em torno deles e que tão bem souberam viver.

Pedras Rolantes Não Criam Limo
A História Impopular dos Rolling Stones

Leia no link abaixo a primeira parte desta biografia.
5000 acessosA História Impopular dos Rolling Stones - Livro 1 - Brian Jones

Parte 25 - Mick Taylor

Igualmente, este Livro 2 é consideravelmente diferente do Livro 1, uma vez que o primeiro se preocupou em mostrar paralelamente a crescente popularidade do blues e rhythm & blues na Europa e América apresentado pelos Rolling Stones, e o lento despertar da massa jovem para o fato de que, naquele tempo da nossa história, eram maioria e podiam, como deveriam, ter voz ativa na escolha de como viver suas vidas. É o que se convencionou chamar de ‘A Contra Cultura.’ Ou seja, os jovens renegam a estruturação social que herdariam em prol de uma nova criada à base de imaginação, onde tudo era possível desde que se desejasse.

Não muito depois do auge do ácido lisergico, também conhecido como LSD, criou-se uma ânsia por explorar mais e mais drogas químicas na esperança da auto descoberta ou algo parecido com o que imaginavam ser o nirvana. Infelizmente as realidades quanto a dependência química passam a tomar conta e dominar as aspirações políticas da massa supostamente engajada e ‘hip’. A trindade sexo, drogas e rock’n’roll se infiltra e fica então enraizada no consciente coletivo. O movimento jovem e toda a concepção de uma autêntica contra-cultura passam a fazer uma curva decrecente. Até 1975, o hippie passa a ser coisa do passado.

Assim, como não poderia deixar de ser, a história que contamos fala desta fase dos Rolling Stones onde drogas, sexo e rock ‘n’ roll será muito mais do que um slogan. Será de verdade praticada como um modo de vida. Este e os textos a seguir não tem nenhuma intenção de ser uma apologia pró narcóticos e nem devem ser vistos como tal. Muito pelo contrário. Será oferecida uma somatória de várias histórias, que geralmente são encontradas fracionadas em fontes diversas. Se há alguma moral a ser encontrada aqui, será a noção de que neste mundo, o dinheiro realmente compra tudo. Menos a redenção.

Parte 26 - Hyde Park

Convites Para Guitarristas

A máquina dos Stones se move sempre para frente, e Brian Jones está ficando cada vez mais para trás. Discussões se iniciam entre os membros para saber quem iria substituí-lo. Bill Wyman sugere Pete Frampton, um jovem virtuoso na guitarra com quem já trabalhara, e garante, é capaz de preencher bem o papel. Frampton, que havia encontrado relativo sucesso teen com a banda The Herd entre ‘67 e ‘68, montara recentemente com Steve Marriot, o Humble Pie, uma banda que ainda iria levar algum tempo antes de estourar.


A primeira opção que vem à mente de Mick e Keith seria convidar Eric Clapton. Porém no tempo entre dezembro e abril, Clapton, ex-guitarrista do Cream, está agora montando um outro grupo chamado Blind Faith. Este supergrupo encabeçado por Eric Clapton e Steve Winwood está gravando o seu primeiro álbum no Olympic Studio com o engenheiro Glyn Johns. Quando o convite lhe foi feito, Clapton confessou que não lhe agradava a idéia de entrar no lugar de Brian Jones. Além do mais, a perspectiva de viver com a constante gritaria e idolatria que acompanha os Rolling Stones também lhe desestimulava.

Lembraram então que o Small Faces estava ensaiando em seu estúdio e resolvem sondar Ron Wood, que entrara recentemente na banda após a saída de Steve Marriot. Quando o telefone tocou no estúdio, foi Ronnie Lane quem interceptou a ligação. Jagger explica a sua intenção de sondar o interesse de Wood de se juntar aos Rolling Stones. Lane lhe informa então que Ronnie não estaria interessado, encurtando logo a conversa e desligando em seguida. Levaria outros cinco anos para Ron Wood ficar sabendo desta história. É dado a Ian Stewart o crédito de sugerir trazer Mick Taylor, jovem guitarrista virtuoso atualmente no John Mayall & the Bluesbreakers. Embora Jagger não conhecesse o rapaz, contempla positivamente o argumento de que se Mick Taylor está tocando para John Mayall a dois anos, ele só pode ser bom de blues.


Mick Taylor

Nascido Michael Kevin Taylor em 17 de janeiro de 1949, na cidade de Welwyn Garden em Hertfordshire, Inglaterra. Vive a maior parte de sua infância e adolescência em Hatfield, subúrbio de Londres. Incentivado pelo seu tio, aos nove anos começa a aprender a tocar o violão. Seus país, vendo seu interesse e dedicação para com o instrumento, o levam para assistir o show de Bill Haley & the Comets quando estes excursionavam pela Inglaterra. Pronto; Mick Taylor estava viciado em rock 'n' roll.

The Juniors

Sua desenvoltura no instrumento logo mostrou aos seus pais que o menino poderia se tornar um instrumentista prodigioso. Em 1964, aos dezesseis anos de idade, formou sua primeira banda, chamada the Juniors. Tipica banda de bairro, the Juniors ensaiavam em casa sem platéia, mais do que tocavam para algum público. Porém o bom gosto e pureza de som que o jovem Taylor tirava, lhe conferia certo respeito entre os colegas da escola. Talvez ficasse só nisso se não fosse o destino a intervir.

A História da Descoberta

No verão de '65, Eric Clapton deixou o grupo John Mayall & the Bluesbreakers sem aviso prévio, seguindo com mais alguns músicos em um retiro repentino na Grécia. John Mayall somente ficou sabendo que Clapton não iria aparecer já estando no local da apresentação, situado num clube em Hatfield. Mick Taylor, presente nesta noite apenas como espectador, é convencido pela insistência dos amigos, a contar para Mayall que ele conhecia bem o seu repertório. Sem opções, tendo que começar um show sem guitarrista, Mayall deixa o jovem tocar com eles nesta noite, sem compromisso. Não demorou muito para Mayall ficar impressionado com a sua boa sorte. A lenda diz que Mick Taylor fez queixos caírem nesta noite. Não só do público mas dos demais músicos dos Bluesbreakers. Contudo, tímido e calado como era, Mick Taylor foi embora sem sequer deixar um telefone de contato, caso Mayall quisesse novamente chamá-lo.

John Mayall acabaria obrigado a passar o verão apresentando praticamente um guitarrista novo por noite. Destes, quem acabou ficando mais tempo foi Jeff Kribnett. Peter Green depois o substituiu dias antes de Clapton voltar e reassumir seu posto como guitarrista de Mayall. Diferente de Taylor, Green deixaria o seu telefone de contato e acabaria assumindo oficialmente como guitarrista dos Bluesbreakers depois da derradeira saída de Clapton em 1966.

Gods

Neste meio tempo, Mick Taylor deixaria a escola para se dedicar exclusivamente a música, muito embora a realidade o obrigasse a trabalhar alguns meses como entalhador. Montaria sua segunda banda, Gods, cuja formação incluía os irmãos John e Brian Glasscock, respectivamente baixo e bateria, mais Ken Hensley nos teclados e vocais. Extremamente introvertido e sem muita auto-confiança, apesar de já estar tocando muito bem, havia noites que Taylor não conseguia entrar com a banda para tocar, apavorado com o público, em clara exibição de medo de palco. The Gods em muitas ocasiões dividiram o palco com The Thunderbirds, primeira banda de Ron Wood, que depois seria rebatizado de The Birds. Os dois guitarristas acabariam formando uma boa amizade neste período, Wood maravilhado pelo virtuosismo demonstrado por Mick Taylor, aparentemente sem muito esforço. Curiosamente, em noites de medo de palco, Taylor pedia a Ron Wood para tocar em seu lugar.

Gods chegou a gravar um compacto pelo selo Pye, continuando juntos até 1967, quando Taylor deixou o grupo para se juntar definitivamente aos Bluesbreakers. Peter Green, que a esta altura era o guitarrista fixo de John Mayall, seguira com Mick Fleetwood para formarem “Peter Green’s Fleetwood Mac”, mais tarde simplificado para apenas “Fleetwood Mac”. John Mayall se lembrou do pequeno notável que o tirou do sufoco naquela primeira noite sem Clapton e conclui valer a pena o trabalho de achá-lo. Em junho de 1967, telefonou para Mick Taylor e sem muita cerimônia o convidou para assumir a guitarra dos Bluesbreakers que estavam se preparando para excursionar pela Europa.

Embora Gods acabe após a saída de Mick Taylor, Ken Hensley voltaria a montá-la três meses depois com uma formação que iria incluir Lee Kirkland, Paul Newton e depois Greg Lake. Por último, John Glasscock voltaria para assumir o baixo e a banda gravaria um álbum intitulado “Genesis” antes de finalmente encerrar atividades. Paul Newton se juntaria ao grupo Spice, que depois da vinda de Ken Hensley, passaria a se chamar Uriah Heep. Lee Kirkland mais tarde iria compor o que é considerado como a versão clássica desta banda. John Glasscock iria participar da banda Chicken Shack e depois Jethro Tull. Greg Lake iria ajudar a formar a lendária banda progressiva King Crimson. Depois, formaria um dos mais venerados trios do rock progressivo, conhecidos internacionalmente como Emerson, Lake & Palmer.


The Bluesbreakers

The Bluesbreakers seguiram então em excursão pela Europa. De volta em Londres gravam o album “Crusade”. Este é o primeiro disco que Mick Taylor, então com 19 anos de idade, grava, exceção feita ao seu compacto com o Gods. Esta é a primeira vez que John Mayall cria para os Bluesbreakers uma formação com mais de quatro músicos. Estão como membros oficiais desta banda, John Mayall nos teclados, gaita e vocais, acompanhado por Mick Taylor na guitarra, John McVie no baixo, e na bateria, Keef Hartley, que tocara em Liverpool com Rory Storm & the Hurricanes após a saída do Ringo Starr e também com The Artwoods, banda de Art Wood, irmão de Ron Wood; Chris Mercer e Rif Kant, tocando saxofone durante o primeiro mês, mais Terry Edmonds tocando uma guitarra rítmica.

Voltam à estrada, John Mayall fazendo agora sua primeira excursão americana, o que reforça as vendas do disco “Crusade”. Com a boa promoção trazida pelos shows, as vendas ficam excepcionalmente altas para os patamares da banda. Este é o primeiro disco dos Bluesbreakers a realmente vender na América. Com isto, inadvertidamente, John Mayall acaba contribuindo para reaquecer a cena de blues dentro dos Estados Unidos, especialmente na California. Ao final desta excursão Mick Taylor já era um astro, respeitado e admirado por critica e público dentro do circuito de blues.

John Mayall & the Bluesbreakers, 1967
John Mayall & the Bluesbreakers, 1967

Não demorou muito e a banda passou por modificações em sua formação. John McVie deixa o grupo para se juntar ao Fleetwood Mac, e é substituído por uma série de baixistas, o primeiro deles sendo Paul Williams, ex-Zoot Money. Rif Kant é substituído por Dick Hecstall-Smith, ex- Blues Incorporated e Graham Bond Organization. Entra também o trumpetista Henry Lowther.

No verão de 1968, começavam a gravar outro album, “Bare Wire”, já com Tony Reeves no baixo e Jon Hisman, outro ex- membro do Graham Bond Organization, na bateria. Com esta formação fizeram uma segunda excursão Americana ainda mais rentável que a primeira. Nela, em sua apresentação em San Francisco, tocam com Albert King em um show antológico. Depois desta excursão, como é de costume nos Bluesbreakers, a formação não permaneceria intacta por muito tempo. Uma pequena insurreição ocorreu e Hiseman, Reeves e Smith deixariam o grupo para formarem o Colosseum. John Mayall despede o resto e só mantém Mick Taylor. Retorna a uma formação de quarteto com o novato Colin Allen na bateria e Steve Thompson, ex- Georgie Fame & the Blue Flames, no baixo. Ele se muda em seguida para Los Angeles, onde grava o disco “John Mayall - Blues From Laurel Canyon”. Esta formação duraria outro ano quando em maio de 1969, Mick Jagger liga para John Mayall e fala de seu interesse em levar o guitarrista. Mayall desistiria de formar bandas, passando a contratar músicos de acordo com seus projetos. Em tempo ele também iria parar de usar o nome Bluesbreakers.

The Rolling Stones

Mick Taylor chegou no Olympic Studios naquela tarde de primeiro de junho, segundo ele, pensando que estava sendo contratado como sessionman. Enquanto os Bluesbreakers não estão gravando nem excursionando, Mick estava na Inglaterra fazendo diversas gravações para outros artistas. Ele havia a pouco feito algumas gravações com Donavan quando foi chamado para ajudar a concluir uma faixa para os Stones. O album, “Let it Bleed” estava quase pronto e Taylor começou a estranhar quando viu a banda inteira montada no estúdio. Afinal, ele não iria só gravar sua guitarra em uma ou outra faixa?

Os Stones fizeram um pequeno “jam session” onde improvisaram sobre um tema de blues, deixando Mick Taylor livre para solar a vontade e permitindo que os demais, principalmente Keith, analisar melhor ele como músico. Depois levaram “Live With Me” até que finalmente mandaram colocar a fita rolo na máquina e mostraram para Taylor a canção “Honky Tonk Woman”. A canção composta originalmente em Matão, é um country, mas Taylor coloca uma guitarra tão venenosa, que inspira uma levada mais roqueira. Todos se entreolharam e começaram a jogar idéias uns para os outros. Em minutos repensam o arranjo e regravam a canção do zero. A versão antiga passa a ser chamada de "Country Honk". Depois, empolgados que estavam, invadem a madrugada a dentro mixando. Ao final da sessão, convidam Mick Taylor a entrar na banda. Taylor zonzo de cansaço e pego totalmente desprevenido, agradece, mas pede um tempo para pensar. Depois de conversar com John Mayall, procura Jagger e confirma sua adesão.

Atividades Com Keith

Em abril, durante a primavera, Mick, Keith e Anita foram para Roma onde participaram do filme "Umono Non Umano!" dirigido pelo cineasta Mario Schifano, um italiano milionário, meio pintor, meio cineasta, que por ser podre de rico, na prática não precisa trabalhar para se sustentar. Ele e Anita eram namorados antes dela conhecer Brian Jones e se mudar para Inglaterra. Anita foi creditada como co-produtora da película e o filme oferece uma cena de Mick Jagger cantando e dançando para uma gravação de Street Fighting Man. Keith Richards participa da trilha sonora tocando moog durante um tema instrumental. O filme só seria lançado em 1971, porém em novembro de 1969, enquanto os Stones estão excursionando na América, dá-se a premiere do filme "Michael Kolhaas - der Rebell". Outro filme dirigido por Volker Schlondorff, tendo Anita Pallenberg como atriz principal. Desta vez, há uma cena com Keith Richards como um extra.

Keith e Anita em Roma
Keith e Anita em Roma

Voltando de Roma, Keith e Anita entram em uma discussão durante o vôo. Emputecido, Keith arrasta Anita para dentro do banheiro, em meio aos olhares dos demais passageiros da primeira classe. Longe de por fim à discussão, o atrito só aumentou dentro do pequeno cubículo que é um banheiro de avião. Keith e Anita trocam tapas, com a porta trancada, com as aeromoças e comandantes de bordo tendo que intervir e retirá-los de lá. O casal acabou na lista negra da Alitalia, banidos pela companhia de voar novamente em seus aeroplanos.

Mal Keith chega de Roma e é convidado por George Harrison a participar de uma seção de gravação que ele está produzindo para Billy Preston. Assim, Keith passa um final de tarde e noite gravando as canções "Do What You Want" e "That's The Way God Planned It". A banda montada para estas gravações tem como escrete, além de Billy Preston nos teclados e vocais, a dupla Eric Clapton e George Harrison nas guitarras, Keith Richards no baixo, Ginger Baker na bateria e a cantora Doris Troy ajudando nos backing vocals.

O Anúncio Oficial

Mick Taylor foi inicialmente contratado como guitarrista da banda, recebendo um caprichoso salário de £150 por semana. Dentro dos próximos meses ele seria confirmado como membro efetivo da banda, passando então a ter direito a um quinto do que a banda faturar com shows e vendas de discos. Dia 13 de junho, com presença da banda inteira, foi feito um anúncio oficial para a imprensa. Para muitos, foi a primeira vez que viram Mick Taylor que era conhecido apenas entre os aficionados em blues. Neste dia, foi também anunciado o show gratuito no Hyde Park no dia 5 de julho.


Para os reporters, Taylor falou de seu trabalho no Bluesbreakers e que acredita que, nos Rolling Stones, haveria espaço para solos tanto dele quanto de Keith. Mick Taylor também comenta que ele sempre compôs músicas, embora não encontrasse espaço para suas canções na banda de Mayall. Ele esperava que nos Rolling Stones, suas composições teriam mais sorte.

"Eu não estou nervoso quanto a tocar com os Rolling Stones. Só estou tentando me acostumar com toda a publicidade" diria. Entre as muitas perguntas pessoais feitas, Mick Taylor respondeu que não come carne, nem consome alcool. Ele bebe apenas chá. Keith espantando, precisou depois confirmar esta declaração. "Aquilo que você falou sobre carne e chá é mentira, não é?", perguntou com uma expressão entre incrédulo e nojo. "É verdade", respondeu Mick com um sorriso. "Se bem que eu não recusaria um baseado se você quiser me oferecer um."

Ensaiando Para o Show

Estando a banda sem apresentar um show completo ao vivo desde 1966, haveria necessidade de muito ensaio nestas três semanas que os separavam do show. Jagger organizou o evento para render à banda um filme, já vendo que o "Rock and Roll Circus" como um projeto caducado e extinto. Os Stones alugaram o Apple Studio em Savile Row como local para ensaios. Lá, testaram alguns números e lentamente moldaram um repertório para a apresentação no parque.

Com o anúncio da morte de Brian Jones, toda a alegria da volta aos palcos tomou contornos mais sombrios. A banda se reuniu no escritório no dia 3, ninguém querendo ficar sozinho em casa, todos instintivamente querendo ficar perto um do outro. Não tendo convívio com Brian, Mick Taylor estava lá porque a agenda do dia exigia. Eles tinham fotos de publicidade para tirar além de uma apresentação em um programa de televisão. Mas Taylor era sensível o suficiente para entender o lamento e tristeza das pessoas presentes. Charlie, Bill, e Stu ficaram juntos sentados tristes, ocasionalmente lembrando passagens pitorescas da vida ou do caráter de Brian. Shirley Arnaldo, chefe do fã clube e primeira a chegar no escritório no dia estava com eles. Mick e Keith estavam em outra sala, discutindo negócios com Allen Klein e Les Perrin.

No Escritório

Ann Wohlin, namorada de Brian e presente ao acidente, chegou mais tarde, trazida por Tom Keylock. Ela conversou com Les Perrin e depois saiu, não podendo mais voltar para Cotchford Farm onde morava com Brian. Mick e Keith já estavam reunidos com os demais e começaram a tentar decidir o que iriam fazer em relação ao show em Hyde Park a ser realizado em dois dias. "Naturalmente vamos ter que cancelar" decreta Mick Jagger. "Como fazê-lo"? É creditada a Charlie Watts a repentina sugestão, "Poderíamos fazer o show como uma homenagem ao Brian". A idéia é imediatamente aceita por todos.

Mick Jagger então dá inicio à máquina de publicidade anunciando aos quatro ventos que o show no Hyde Park seria realizado agora como um memorial a Brian Jones. "Entendo como algumas pessoas vão se sentir, porém pensamos muito a respeito e resolvemos fazer o show por causa dele." Um jovem jornalista achou Keith Richards no corredor e passou a tentar forçar uma declaração dele. Ao enfiar um microfone no rosto do guitarrista, o rapaz metralha uma seqüência de perguntas sensacionalistas, irritando Keith rapidamente. Quando ele finalmente perguntou se não era de mau gosto fazer um show póstumo ao Brian Jones antes mesmo dele ser enterrado, a expressão de Richards mudou. Keith parou imediatamente de andar, virou-se para o jornalista e deu lhe um soco no nariz. O rapaz saiu cambaleando, todo ensangüentado.

Véspera do Show

Na manhã do dia 5, Mick Jagger estava extremamente nervoso, com a expectativa de subir novamente num palco para tanta gente depois de tanto tempo. Havia um excesso de pólen no ar inglês e Mick Jagger começou a sofrer com febre, os olhos lacrimejando muito. Até a hora do show ele estaria com laringite. Marianne Faithfull havia tirado a manhã para assinar os papeis iniciando seu processo de divórcio com John Dunbar.

O parque totalmente tomado por gente, foi a maior freqüência em um show público na história da cidade, recorde mantido até hoje. As pessoas foram chegando no dia anterior, a maioria com sacos de dormir, pernoitando no parque em irmandade hippie. Às onze da noite, alguém pediu dois minutos de silêncio em homenagem a Brian. Foi prontamente atendido, um momento tocante onde calcula-se, cerca de 500 pessoas já estavam presentes no local. O parque normalmente fecha depois das dez porem a polícia observando o comportamento do público permitiu a vigília sem interferir.


Hyde Park

Por volta do meio dia, já haviam cerca de 25 mil pessoas no parque para ver o show. Mais gente continuava a chegar a cada momento. Para passar o tempo, alguns tocavam violão ou tocavam bongos, enquanto outros cantavam ou encontravam espaço para dançar. Para controlar o público, foram contratados os Hells Angels, cerca de cinqüenta, cercando e protegendo o palco. De aparência ameaçadora, foram bastante eficazes em desestimular bandalheira. O evento não se resumia ao show dos Rolling Stones. Os Stones eram o apogeu, o encerramento de uma tarde inteira dedicado a música e à memória de Brian Jones. Antes, outras bandas se apresentaram. Exatamente a uma da tarde, mostrando que a pontualidade britânica ainda era coisa séria, começou o primeiro entre uma série de shows. Uma banda experimental chamada The Third Ear Band.


Third Ear Band

A banda originou oriunda da cena "Free Jazz" Londrina da época. Montada pelo baterista Glen Sweeney, procuravam fazer minimalsmo crescente experimental, com composições que muitas vezes começavam com uma nota grave repetida até se desenvolver em algo. Contratados pelo selo Harvest, o mesmo que lançou outras bandas chamadas progressivas, a banda fazia o que chegou a ser chamado de "electric acid raga". Contudo, uma vez seus equipamentos sendo roubados, a banda optou por criar um repertório totalmente acústico. Na prática, substituíram as guitarras por instrumentos como viola, violino, oboé e violoncello.

O repertório incluiu basicamente os temas presentes no único disco da banda até então, chamado "Alchemy". The Third Ear Band contou com a presenças de Melvin Davis no cello e flauta; Richard Coff no violino e viola; Paul Minns no oboe; Colin Sweeney nas percussões e Glen Sweeney na bateria, chimes e tabla. Com uma apresentação competente e agradável, ao findar, foram seguidos por uma banda igualmente obscura; King Crimson.


King Crimson

A apresentação do King Crimson em sua primeira encarnação, rendeu grande promoção favorável, além de um filme. Subiu no palco nesta tarde, Robert Fripp na guitarra; Ian McDonald tocando vários instrumentos de sopro, teclados, mellotron, e vocais; Greg Lake no baixo, guitarra, e principal vocalista; e Michael Giles na bateria e percussões. O repertório consistia em material de seu primeiro álbum, intitulado apropriadamente, "The Court of the Crimson King". No repertório apresentado figuram as canções "21st Century Schizoid Man", “(Why Don’t You Just) Drop In”, “I Talk To The Wind”, "In The Court Of The Crimson King", "Get Thy Bearings", "Epitaph", "Mantra", "Travel Weary Capricorn", e “War.” Após uma improvisação livre, fecham a noite com "Mars". Este show foi seguramente um dos melhores da tarde, bem acima do que o prato principal iria oferecer.

Screw

A tarde continuou com a banda Screw, empresariada por Sam Cutler que trabalhava dentro da organização Rolling Stones. Um sexteto formado pelos irmãos Graham e Alistar Kinear nas guitarras, Stan Scrivener no baixo, Nick Brotherhood na bateria e um duo de vocalistas e gaita, Pete Hossell e Chris Turner. Embora fizeram uma apresentação com muita adrenalina, muita gente considerou a banda bem fraca e de fato, até o ano findar, seriam esquecidos e acabariam.

The New Church

The New Church é nada menos do que a nova banda de blues liderada por Alexis Korner. A mesma de que Brian Jones quis fazer parte antes de Korner convence-lo a montar uma banda própria. Nos vocais estão sua filha Sappho Gillett Korner, que também cuidou de percussões, e Peter Thorup, co-autor de vários dos números novos e ajudando na guitarra. Complementando o ensemble estão Ray Warleigh no sax e Colin Hodgkinson no baixo. Para algumas pessoas presentes, foi esta apresentação do New Church a coisa mais apta a poder ser chamada de uma homenagem para Brian Jones. Alexis ainda bastante emocionado pela perda, tocou com muito sentimento, que foi assimilado pela sua banda e compartilhado com o público. Outros que criticaram a apresentação, consideraram justamente a carga emocional do dia uma das razões que impediram Korner de dar o seu melhor.


Family

Depois foi a vez da banda Family tomar o palco. A ex-banda de Ric Gretch, agora tocando com Blind Faith, é possivelmente no verão de 69, a mais popular entre as que tocaram nesta tarde, excluindo os Stones, evidentemente. O show da banda foi considerado por muitos como espetacular, sendo outro conjunto que acabaram agradando bem mais do que o show principal.

Sua formação inclui Roger Chapman e Charlie Whitney, os lideres da banda, respectivamente vocalista e guitarrista; com mais John Weider substituindo Gretch no baixo, Jim King no sax e Rob Townsend na bateria. Antes dos Rolling Stones começarem, teria ainda uma última banda.


The Battered Ornaments

The Battered Ornaments é uma curiosa banda montada por Peter Brown depois que o Cream acabou. Nela Brown, além de compor as canções e interpretá-las, também toca trumpete. Todavia, para este show, Peter Brown não apareceu. Muita gente sentiu falta de suas extravagancias no repertório. No palco subiram Nisar Ahmned Khan no sax, Chris Spedding na guitarra, Charlie Hart no órgão e violino, Butch Potter no baixo, Rob Tait na bateria, e Pete Bailey cuidando das percussões.

Enquanto o público ouvia este set, iam chegando os convidados especiais para assistir à apresentação dos Rolling Stones. Entre o palco e o público geral, havia um espaço separado e garantido pelos Hells Angels, para os convidados. Entre estes estavam Donovan, Mama Cass, Ginger Baker e sua filha, Eric Clapton e sua namorada Alice Ormsby Gore, Paul e Linda McCartney e suas duas filhas Heather e Mary, David Gilmore, Chris Barber, Kenny Lynch, Miranda Hampton, Marsha Hunt, Doreen Samuels e Tony Hicks. Nas laterais do palco estavam Ian Stewart, Allen Klein, Tom Keylock, Michael Cooper, Marianne Faithfull, Astrid e Stephen Wyman.

Para os Rolling Stones poderem chegar até o palco, foram dentro de uma ambulância do exército. Hells Angels abriam uma trilha entre o povo da rua até o palco, enquanto a ambulância lentamente seguia entre a multidão. Dentro da ambulância, Keith, que já passara a usar uma corrente no pescoço com um pequeno canudo como ornamento, pegou o seu vidrinho e deu duas cafungadas. A garrafinha rodou um giro completo entre os ocupantes da ambulância. Mick estava feliz em poder dar umas cafungadas para inflar sua moral, um pouco baixa por causa da gripe. Havia nele um temor natural para alguém que ficara tanto tempo longe de uma plateia. O pó lhe devolveu a coragem extra, logo discursando na base de “vamos dar a esse povo o melhor show de rock da vida deles”. Bill e Charlie dispensaram como era de se esperar, assim como Allen Klein, também presente. Mick Taylor aceitou a cocaína, provavelmente motivado pela intenção de se tornar parte da turma. Dentro da ambulância, além dos Stones, estavam também Michael Cooper e Tony Sanchez, ambos como fotógrafos oficiais. Eles também tiveram acesso aos cristais brancos.

Ian Stewart atrás de Charlie Watts
Ian Stewart atrás de Charlie Watts

Os Rolling Stones

Os Stones se juntaram em uma área atrás do palco, tentando afinar os instrumentos com a ajuda de uma gaita, porem a zoeira e barulho geral não deixava condições de uma afinação apropriada. Ao subir no palco, a multidão mais lembrava a de um estádio de futebol após a entrada da seleção. O público os saudou com alegria contagiante. Mick pretendia se vestir para a ocasião com uma roupa que assemelhava-se a couro de cobra. Todavia com o calor do dia e Jagger ainda se sentindo bastante indisposto, acabou optando pela sua roupa branca que se assemelha a um vestido. Com a garganta ainda doendo, ele pediu um pouco de silêncio para poder ler um trecho de Shelly.


O trecho lido, retirado de “Adonis” escrito por Percy Bysshe Shelly segue assim:

Peace, peace! He is not dead, he doth not sleep
He has awakened from the dream of life
‘Tis we, who lost in stormy visions, keep
With phantoms an unprofitable strife,
And in mad trance, strike with our spirit’s knife
Invulnerable nothings. – We decay
Like corpses in a charnel; fear and grief
Convulse us and consume us day by day,
And cold hopes swarm like worms within our living day.


Em outra passagem, ele continua:

Heaven’s light forever shines,
Earth’s shadows fly;
Stains the white radiance of Eternity,
Until death tramples it to fragments. – Die,
If thou wouldst be that which thou dost seek!

Ao fim, o público encerra seu silêncio e a banda igualmente inquieta, deslancha com a primeira canção, “I’m Yours, She’s Mine”. Com ela, 3.500 borboletas brancas são soltas no ar, tentando simbolizar talvez, a alma de Brian Jones. Infelizmente com o calor de verão, estando presas por tanto tempo, as borboletas, em sua maioria, voaram poucos metros antes de caírem mortas sobre o público.


O volume do som estava excepcionalmente alto, com a banda sendo ouvida a quilômetros de distancia, mesmo contra o vento. Todavia, a banda não fez uma de suas melhores apresentações, com os instrumentos desafinados e o pique muito arrastado. Mick Jagger apesar de doente, deu tudo de si, pulando e dançando e flertando com o público. Apesar de seus esforços, ele também, ocasionalmente percebia que estava fora do tempo. Em uma hora de show, tocaram “Jumpin' Jack Flash”, “Mercy, Mercy”, “Down-Home Girl”, “Lovin' Cup”, “Honky Tonk Woman”, “Midnight Rambler”, “Satisfaction”, “Street Fighting Man”, “Sympathy For the Devil”, “Love in Vain”, “I’m Free”, “Stray Cat Blues” e encerraram com “No Expectations”.

A apresentação renderia três filmes. “The Rolling Stones In The Park”, produzido por Jo Durden Smith e Leslie Woodhead teve sua estréia na televisão britânica em setembro. “Under My Thumb” produzido por Peter Ungerleiden, é uma outra versão do mesmo concerto, desta vez muda, e teve no New Art Lab em Camden, Londres, sua estréia em março de 1970. Uma terceira equipe filmou o concerto, esta versão para o diretor Kenneth Anger, que utilizou partes da apresentação para compor o seu filme “Invocation of My Demon Brother”.


Muitas pessoas passaram mal com o calor, mas no final do dia, todos acharam que valeu a pena. No dia seguinte, Mick e Marianne estavam deixando o país em rota para a Austrália. Assim, o casal não freqüenta o enterro de Brian. Da banda, somente Bill Wyman, Ian Stewart e Charlie Watts estarão prestando as últimas homenagens.

Parte 27 - O Inferno de Dulac

A apresentação dos Rolling Stones no Hyde Park renderia três filmes. "The Rolling Stones In The Park", produzido por Jo Durden Smith e Leslie Woodhead teve sua estréia na televisão britânica em setembro. "Under My Thumb", produzido por Peter Ungerleiden, é uma outra versão do mesmo concerto, desta vez muda, e teve no New Art Lab em Camden, Londres, sua estréia em março de 1970. Uma terceira equipe filmou o concerto, esta versão para o diretor Kenneth Anger, que utilizou partes da apresentação para compor o seu filme "Invocation of My Demon Brother".

Cartaz original da peça
Cartaz original da peça 'Hair.'

Muitas pessoas passaram mal com o calor mas no final do dia, todos acharam que valeu a pena. Naquela noite, a banda, menos Mick Taylor e Charlie Watts, foram assistir um show do Chuck Berry. Marianne, embora estivesse em Hyde Park, não estava se sentindo bem e voltou para casa. Mick Jagger foi acompanhado da atriz e cantora Marsha Hunt, uma jovem e vistosa negra, que estava fazendo bastante sucesso com uma nova e audaz peça teatral chamado "Hair". No dia seguinte, Mick e Marianne estavam deixando o país em rota para Austrália.

A Abstinência de Marianne

O início das filmagens do longa metragem chamado "Ned Kelly" iria começar dentro dos próximos dias. A razão pela qual Marianne estava passando tão mal nos últimos dias era a abstinência. Ela havia praticamente parado com o uso de Heroína e estava pagando o preço com as cólicas, depressões, diarréias e febre que advém com sua falta. Ela queria que seu organismo ficasse limpo novamente e fez aquele esforço extra. Todavia, a morte de Brian havia lhe atacado psicologicamente de forma extremamente forte. No seu íntimo, ela culpava Mick. E na sua paranóia latente, ela começava a temer se ela não seria a próxima que ele mataria.


Seguindo um raciocínio lógico, embora deturpado, alimentado pelo convívio descompassado deste relacionamento sem entregas, Marianne concluíra que Mick Jagger teria o poder de sugar as pessoas até elas se descarregarem por completo. Estava claro para Marianne que a morte de Brian Jones residia neste poder de seu amante. Ele havia descarregado toda a energia criativa de Brian, destruído sua confiança e tomado controle sobre a alma do guitarrista, tirando dele todas as coisas que compõe a sua identidade. Marianne passou chorando a maior parte deste período entre a morte de Brian e a viagem de avião para Sidney. Ela perdeu o seu rumo, deslizando-se em uma avalanche de angústia. Durante o longo vôo, seu temor girava em torno do seu futuro. Afinal, Mick certamente teria o poder de fazer o mesmo com ela, conclui.

Esta insanidade alimenta sua insegurança, de forma que toda uma revelação instintiva passa a ser ao seus olhos, uma realidade tão óbvia quanto assustadora. Mick já estava tomando conta de sua identidade! Por que outra razão ele iria fazer tanta questão de fazer um filme ao seu lado? Certamente ele estaria indo filmar Ned Kelly, para poder mostrar para ela e ao mundo quem era o melhor ator. Ele queria despeitá-la, mostrando claramente dominar igualmente os anais do cinema, tal como domina os da música.

Aterrizando em Sydney

Evidentemente que toda teoria de conspiração contra ela é infundada. Porque Mick Jagger quer ir com ela para Austrália? Participando de um filme que ele acredita não será bom? A razão era simples: todas as informações que Mick Jagger tem sobre Sydney dizem que seria mais fácil Marianne encontrar ouro no deserto do que Heroína naquela cidade. Jagger é incapaz de tocar no assunto "vício" com Marianne, e a falta de controle que ela demonstra ter. O casal nunca conversa sobre problemas pessoais. Nunca. Ele finge que não repara, raciocinando pela pressuposição de que se é seu corpo, é seu reino. Jagger quer ver Marianne bem novamente e a maneira que ele encontrou de ajudá-la não foi de levar um bom papo de casal a dois. Foi de arrumar um trabalho, ou seja, este filme, que serve como um pretexto para trazê-la a um lugar onde não teria acesso à droga.

Parar de tomar Heroína não é uma coisa que basta você decidir parar e pronto. Não é como parar de fumar cigarro, que embora difícil para aqueles que possuem o hábito, bem no fundo basta um pouco de determinação e o auto controle de não fumar mais. O máximo de retaliação que se sentirá será ficar bastante irritado e rabugento para com as pessoas ao seu redor durante as primeiras semanas. Com Heroína, o seu corpo vai reivindicar a droga de volta no organismo e sua resolução intelectual de desobedecer este desejo vai provocar retaliações. Não apenas a cobrança psicológica como quando sob abstinência de Cocaína, onde você está convencido de que precisa do pó, e sem os cristais brancos você se deprime assustadoramente. Não. Com Heroína, além desta retaliação psicológica haverá também a retaliação orgânica. Seu estômago vai doer tanto que você não conseguirá comer e o que conseguir digerir não permanecerá no estômago. A pele entra em erupção com feridas por todo o corpo. A temperatura interna começa a flutuar com momentos de febre extrema. Enfim, você vai se coçar todo, vomitar, delirar em febre e se contorcer com cólicas horríveis por alguns dias.

Para conseguir suportar as crises de abstinência, Marianne foi ao seu médico pedindo calmantes para dormir. Sua desculpa foi medo de voar, estando se preparando para passar três meses na Austrália. O doutor lhe receita Tuinal em quantidade para durar os três meses. Durante a longa viagem, ela ficava de mal a pior e desesperada, acaba ingerindo cerca de quinze tabletes do calmante. No aeroporto de Sydney, encontram a eterna tirania de repórteres se acotovelando para conseguir fazer a pergunta mais sensacionalista e vazia possível. O casal força passagem para chegar até o transporte que os levarão até o hotel. Cansados pela longa viagem, quando finalmente chegam na suíte que lhes havia sido reservada no Hotel Chevron, Mick só quer saber de dormir.

Marianne esta pálida, tremendo e com feridas aparecendo por todo seu corpo, feito brotoejas. Sua pele está oleosa, seu olhar, como seu andar, mais parece o de alguém em transe e ela está novamente febril. Jagger mal entrou no quarto, tirou a camisa, deitou na cama e dormiu sem mostrar nenhum sinal de reparar ou reprovar o estado deplorável da namorada. Ela lentamente vai, em passos trôpegos, até o banheiro, onde senta em um banquinho defronte a um espelho. Marianne contaria esta passagem de sua história pessoal com muitos detalhes. Ela afirma que não se lembrava mais onde estava, nem tampouco se lembrava mais quem ela era. Ao olhar para o reflexo no espelho, ela via apenas uma menina assustada com um olhar vazio, olhando de volta.

Marianne Conta Sua Visão

De cabelo recém cortado bem curto, e sem conseguir segurar comida no organismo há dias, ela está portando agora um rosto quase cadavérico. A face que Marianne encontrava a sua frente estava tão diferente, que ela praticamente não reconhecia mais como sendo a sua. Olhando fixamente para aquela figura estranha, lentamente ela começava a reconhecer aquele rosto. No espelho, olhando fixamente de volta para ela, estava o rosto de Brian Jones. Então Brian se mexeu e no susto, ela também se mexe.


Ele começa a sussurrar algo, tentando se comunicar, contudo falando sem mexer muito com os lábios. Apesar de seu esforço, Marianne não consegue entender direito as palavras, que vindo do outro lado do espelho, chegam com um som abafado, como alguém tentando falar debaixo d'água. Brian estende a mão para ela e Marianne responde de acordo, as duas mãos estendidas, se tocando apenas pelas pontas dos dedos, cada um do seu lado do espelho.

Marianne conscientiza-se de que Brian havia falecido despreparado para a morte. Pensamentos voltam a recair sobre ela mesma e a forma com que nos últimos anos se tornara uma mera extensão da vida de Mick Jagger. Houve um tempo em que possuía uma carreira. Mas agora ela mesma não consegue mais se enxergar como uma pessoa à parte de seu famoso namorado. Era cada vez mais forte a impressão de que Mick estava sugando sua energia, suas forças, roubando sua identidade, suas idéias, enfim, a sua existência. Estava agora evidente que ela estava deixando de existir. Nervosa e assustada, Marianne começa a entender, agora com maior clareza, como Brian foi consumido por Mick Jagger, perdendo suas características pessoais e todas as demais coisas que compunham sua identidade, até não haver mais nada para mantê-lo vivo. Morreu tomando para si, a culpa de todos os abusos de todos os drogados sobre a face da terra, feito um Cristo moderno do rock 'n' roll.

Marianne começa agora a raciocinar sobre a imagem que ela via a sua frente. Se a sua imagem refletida era o de Brian, então isto quer dizer que ela é Brian. Ou isto, ou ela era a gêmea de Brian. Sendo assim, se Brian está morto, então ela precisa igualmente estar morta para poder acompanhá-lo. Com esta lógica relevante concluída, ela se levanta e toma as cápsulas de Tuinal restantes que haviam, 150 tabletes ao todo. Lembrando que ela também tinha trazido Mandrax, ela vai e consome todo o seu estoque.

O Chevron Hotel
O Chevron Hotel

Marianne então caminha para a outra extremidade do quarto, passando pela cama onde Mick dormia feito anjo. Vai até a janela que oferece um lindo panorama do porto da cidade, vista do alto do quadragésimo quinto andar. Tenta então abrir a janela, se esforça, mas não consegue. A medicação começa a fazer efeito e ela não tem mais força para insistir com a janela. Se pudesse, sem sombra de dúvida, ela teria pulado. Foi quando seus olhos passaram a enxergar o povo lá embaixo. Todos estão olhando para cima, olhando para ela. Marianne começa a reconhecer a maioria, vários são amigos e conhecidos. Ela acena para o povo alegremente e então repara que entre eles estava o Brian.

Ele começou novamente a lhe falar e enquanto as palavras lentamente chegavam ao seus ouvidos, a figura de Brian se distanciava dos demais, aumentando de tamanho e se aproximando. Quando ela deu conta, ele estava diante dela, do lado de fora, a poucos metros, suspenso no ar pelo próprio vento. Marianne então deu alguns passos para frente, atravessando o vidro da janela. Ela estava agora do lado de fora, no parapeito do edifício, a um passo de uma queda livre. Mas ao fixar sua atenção ao seu redor, ela logo percebeu que estava em outro lugar. Quem sabe, do outro lado? Não havia vento, nem brisa. Não havia luz ou trevas. Havia apenas uma imensidão sem forma reconhecível. Brian e Marianne então conversam calmamente, caminham lado a lado. Brian conta que quando acordou estava com uma enxaqueca e foi buscar um Valium. No entanto, seu vidro havia sumido. Ele inicialmente entrara em pânico, se sentindo só e confuso com o que estava lhe acontecendo. Aos poucos, Marianne começa a perceber que Brian também não sabe exatamente aonde estar nem para onde estão indo. Brian confessa então que precisava desesperadamente conversar com alguém, por isto resolveu buscá-la.

O Inferno de Dulac - Bem-vindo à Morte

Enquanto caminhavam, tudo estava calmo. Mas mal acabam de passar e a terra à direita e à esquerda deles parece ruir em um abismo negro. A conversa amena se estendeu para uma lista de encomendas que Brian queria. Alguns livros para ajudá-lo a passar o tempo. Ela observava que, em nenhum momento, Brian mostrou uma maior noção de que estava morto. Marianne concordou em ajudá-lo a conseguir sua encomenda, garantindo que iria procurar pelos livros assim que voltasse a Londres. Mas agora ela começava a se questionar, mesmo que lá no fundo de seus pensamentos, se ela também já não era um fantasma? Imediatamente Brian reagiu, como se pudesse ter ouvido os seus pensamentos secretos, retrucando, "A morte é a maior das aventuras."


Marianne concordou candidamente. Todavia, Brian agora parecia um pouco perturbado. Olhando para ela diz, "Bem-vindo à morte." "Então é este o lugar em que estamos?" Marianne pergunta, tentando tratar a afirmação como se fosse apenas uma brincadeira. Mas a conversa começava a lhe assustar como uma doce fantasia começando a azedar. Foi quando o caminho em que seguiam acaba e verificam que estão diante de um penhasco. Brian muito naturalmente se vira para ela e pergunta, "Vamos então?" Com isto ele pula no abismo e some na escuridão do infinito. Marianne apenas olha, agora sem nenhum desejo de segui-lo. Ela então passa a ouvir vozes atrás dela, chamando de longe o seu nome.

Virando-se, ela estava agora em outro lugar. Em uma cidade deserta onde todas as coisas portavam uma cor desbotada. Ela passa a andar solitariamente observando as ruas vazias por algum tempo. De repente, começam a passar pessoas, quase todas conhecidas, flutuando, pois os seus pés não estão tocando o chão. Ela chama pelo seus nomes mas ninguém para, como se não pudessem lhe ver ou ouvir. Então ela se dá conta que, mais uma vez, o cenário mudou e ela estava em um novo lugar. Um lugar que mais parecia um aeroporto, cheio de pessoas indo e vindo para todos os lados. Agora, quando as pessoas passavam, elas paravam para lhe perguntar, "Você está perdida, filha?", "Você sabe onde está?", "Você sabe o seu nome?", como que perguntando a uma criança perdida. E Marianne respondia placidamente a todas as perguntas com a mesma resposta, "Estou esperando Mick vir me pegar."

A última coisa que ela se lembra de sua aventura foi isto. Depois tudo se apagou e nenhuma outra imagem apareceu para substitui-la. Até que, lentamente, gotículas de luz salpicam sobre o breu que tomou o seu consciente. Da luz veio a cor, tons e sombras que por sua vez começavam a trazer formas concretas para as coisas. Lentamente os olhos de Marianne se abriram e ela pôde perceber que estava de volta. Ela estava em um hospital e já se passara seis dias desde que ela entrara em coma. Ao seu lado estava Mick Jagger, que ao perceber seu movimento, segurou sua mão com alívio. "Querida, você voltou!" ele saúda. "Você não vai conseguir se livrar de mim assim tão facilmente!" foi sua resposta. Mick então, com os olhos cheios de lágrimas lhe diz com ternura, "Não seja tola, meu amor. Deus sabe que pensei que eu tinha te perdido desta vez." Marianne encara Mick nos olhos com um olhar sereno e responde, "Cavalos selvagens não conseguiriam me arrastar embora."

Fama de Mau

Eva Faithfull, sua mãe, também estava no quarto. Ela havia sido chamada para vir à Austrália depois que Marianne fora internada. Aparentemente Mick, quando encontrou Marianne estirada no chão, não titubeou em pensar no que fazer. Chamou imediatamente uma ambulância e por isto, e graças somente a isto, que ela ainda estava viva. Se ele não tivesse acordado, provavelmente com o barulho, mesmo que abafado pelo carpete, do corpo da Marianne caindo no chão no momento que ela perdera a consciência, dificilmente ela teria sobrevivido para contar a todos sua visão tão curiosa.

Marianne foi informada depois que a ação imprudente que cometera poderia ter causado terríveis danos cerebrais. Ela também ficou sabendo que sua mãe havia mandado realizar uma cerimônia de extrema-unção. Mais tarde, tendo que dar satisfação para a polícia de seus atos, ela ficou pasma em perceber que os detetives de Sydney desconfiavam que Mick havia forçado-a a tomar as pílulas. Ou até, forçado ele mesmo as pílulas garganta abaixo da pobre indefesa namorada. A imagem de Mick ser diabólico, reforçado muito graças a canção "Sympathy For The Devil", aparentemente perdurava com bastante força, até mesmo nos cantos mais longínquos do planeta.

Ned Kelly

As filmagens começaram no dia marcado, com Marianne ainda em coma e Diane Craig contratada às pressas para substitui-la. Mick teve que dividir suas atenções entre o personagem que ele estrelava no set de filmagens em Melbourne, e seus sentimentos e preocupações com Marianne em Sydney. Com Eva sempre ao lado da filha, ele pôde trabalhar mais tranqüilo sabendo que em momento algum Marianne estaria só. Assim, caso ela acordasse, o faria com alguém bem quisto ao seu lado. Entre idas e vindas de Melbourne à Sydney, Mick acabou estando no quarto no momento em que ela acordou. Depois, ele partiria novamente para as filmagens, mas passaria a semana escrevendo cartas diárias.

Entendendo Porquê

Mick Jagger como Ned Kelly
Mick Jagger como Ned Kelly

Marianne foi então transferida para o Mount St. Michael Hospital em Ryde, nas cercanias de Sydney, onde ela passava as tardes contemplando o lindo jardim da casa. Lá ela medita sobre seu relacionamento com Mick Jagger e sobre a diferença entre a imagem de Marianne Faithfull a cantora, e ela mesma, a verdadeira pessoa que é Marianne Faithfull. Assim como também sobre a diferença entre a imagem de Mick Jagger o astro do rock, e o verdadeiro Mick Jagger, fora do palco. Conscientiza como as duas coisas, antes bem definidas, agora se misturam de tal forma que ficou quase impossível perceber quando ele está sendo real ou apenas vivendo um papel.

Marianne passa a entender assim o seu suicídio. Não como fruto de um desespero momentâneo, mas sim da completa falta de percepção de qual era sua real identidade. Depois de muito meditar a respeito ela começa a entender que não o ama mais. Que talvez ela nunca tivesse amado ninguém ainda, embora Mick tenha sido certamente quem chegara mais perto de ser um verdadeiro amor.

Depois de um longo período de recuperação, Eva e Marianne, mãe e filha, se mudaram para uma casa perto de onde estavam sendo as filmagens, nas cercanias de Melbourne. Aproveitando um feriado prolongado, Mick e Marianne fugiram para Indonésia, tentando recapturar um pouco daqueles momentos mágicos de paz e amor conseguidos no Brasil em '68. O fracasso da tentativa foi constrangedor. Os dois deixaram a região perfeitamente cientes que a relação já acabara, embora não admitissem abertamente um para o outro. Marianne então seguiu com sua mãe para a Suíça, onde entraria em tratamento psiquiátrico em uma clínica especializada - tudo pago por Mick, evidentemente.

O Fracasso de Ned Kelly


A realização do filme não estava acontecendo da mesma maneira criativa e desafiante como em "Performance". Os textos eram fracos, o diretor quase não dava instruções para o elenco e como resultado, os atores estavam encenando desanimados. Todo o projeto parecia estar sendo tocado sem um maior capricho nos detalhes. Em uma cena de briga, Mick ao disparar a sua arma contra o oponente, quase perde a mão quando o revólver velho explode. Jagger foi levado ao hospital, tendo levado dezesseis pontos em sua mão. Ele contou para Marianne que os esparadrapos eram de mentira e faziam parte do enredo, nada falando de seu acidente.

Arduamente, Mick aprendeu que no cinema o ator não tem controle sobre o projeto, embora seja ele quem o público irá ver e com quem associarão o trabalho. O filme iria fazer sua estréia no ano seguinte em Glenrowan, Melbourne, perto da casa onde o verdadeiro Ned Kelly antigamente morava. As críticas foram más, alguns críticos extremamente duros com o astro da música, agora debutando como ator dramático. Sim, estreando, pois embora seu primeiro filme, o "Performance", houvesse sido filmado no ano anterior, levaria outro ano até ser lançado para o público. Assim, para o mundo, Ned Kelly é tido como sendo seu primeiro filme.

Planos em Andamento

Enquanto Mick Jagger estava na Austrália cuidando de sua carreira cinematográfica, Keith Richards ficara em Londres "cuidando da loja". Nos últimos anos, era Mick o homem de frente dos Stones, porém as decisões normalmente eram feitas após consultar Keith e de vez em quando o resto da banda. Esta seria a primeira e única vez em que Keith se vê obrigado a realmente organizar alguma atividade para o grupo. E o plano era para preparar uma excursão pelos Estados Unidos durante o outono Americano. O trabalho do Keith seria apenas de angariar informações, receber e analisar as propostas.

Keith certa vez questiona Mick sobre sua necessidade de fazer cinema e até que ponto ele realmente precisava desta segunda atividade. Mick lhe explica que, por ser guitarrista, a música lhe consume e satisfaça totalmente. No entanto, ele como apenas cantor, sentia naquela altura de sua carreira, a necessidade de experimentar outros formas de expressão artística.

A Trilha

Como parte do acordo que Mick assinara em relação ao filme Ned Kelly, estava uma cláusula onde Jagger se comprometia em dar uma canção para a trilha sonora. Durante toda a filmagem, sempre que o diretor perguntava sobre a tal canção, Mick dava uma resposta evasiva, basicamente dizendo para não se preocupar e que a canção seria entregue. Acontece que o problema residia em Keith Richards, que andava irritado com o envolvimento de Jagger com este filme, atrapalhando o andamento dos planos para a excursão americana, assim como da mixagem para o álbum "Let It Bleed".

Com o filme pronto e todos de volta em Londres, Mick forçou sua vontade e armou uma sessão de estúdio em setembro onde os Rolling Stones gravariam algo para o filme. Até chegar a este ponto, Keith havia se recusado a cooperar em compor alguma coisa para o filme e Mick acabou fazendo tudo sozinho. A canção que surgiu foi "The Wild Colonial Boy", que os Rolling Stones tentaram gravar, porém Keith tocando propositadamente mal, não permitindo um take decente que pudesse ser aproveitado. Com a sabotagem, Mick marcou outra sessão, contratou músicos de estúdio e gravou o que acabou se tornando seu segundo compacto solo.

A Fase de Traumas

A morte de Brian atacou todos os principais personagens dentro dos Rolling Stones, cada um de uma maneira distinta e, cada um a seu tempo. Marianne mergulhou na Heroína até culminar com sua tentativa de suicídio em Australia. Mick foi se transformando em Turner na vida real. Este personagem vivido por Mick inicialmente no filme Performance, é em essência uma somatória das personalidades de Keith Richards e Brian Jones junto a dele mesmo.


Keith aos poucos vai se tornando um junkie, substituindo Brian neste papel. A diferença é que Keith é menos frágil psicologicamente e não enlouquece. Anita também sofreria alguns pesadelos após a morte de Brian. Ela passou a ter o hábito de recortar dos jornais e revistas todas as fotos de Brian Jones. Depois ela cola algumas destas fotos no teto e nas paredes do seu quarto. Na manhã seguinte, Anita arrancava as fotos das paredes e rasgava tudo. De noite, voltava a fazer tudo de novo, em uma espécie de loucura onde o artista cria e depois destrói sua criação. O ato lembra em muito o próprio Brian Jones, que gravava músicas lindas e depois destruía as gravações, ora gravando por cima, picando a fita com uma tesoura ou jogando o rolo na lareira como lenha.

Bill e Charlie

Charlie e Serafina
Charlie e Serafina

Enquanto isto, em Halland, a família Watts está cuidando da pequena Serafina que já começa a demonstrar interesse em querer andar. Na residência, onde setecentos anos antes o Arcebispo de Canterbury usara o local para caça, Charlie e Shirley usam o local para a procriação e para cuidar do bem estar de animais. São donos de dois gatos, dois cavalos e três cães de raça (Welsh Collies).

Bill Wyman está vivendo também uma vida menos noturna e mais sossegada com sua namorada sueca Astrid. Com seu filho Stephen sob seus cuidados, Bill, que dera encaminhamento para seu divórcio com Diane em abril, teria a moção legalmente definida no dia 10 de outubro 1969.

Mick Taylor

Enquanto sua nova banda não estava gravando, Mick Taylor estava fazendo o que gosta mais, ou seja gravando e namorando. Ele participara durante o mês de agosto das gravações do Keef Hartley Band, tocando sua guitarra na canção "Believe In You". Taylor também passa a morar com sua namorada Rose Miller e os dois contemplam a idéia de se casarem num futuro próximo.

Parte 28 - O Brilho Que é L.A.

Enquanto sua nova banda não estava gravando, Mick Taylor estava fazendo o que mais gostava, ou seja, gravando e namorando. Ele participaria durante o mês de agosto das gravações do Keef Hartley Band tocando sua guitarra na canção "Believe In You". Taylor também passa a morar com sua namorada Rose Miller e os dois contemplam a idéia de se casarem no futuro próximo.

Marlon

No dia 10 de agosto de 1969, nasce o primeiro filho do casal Keith e Anita. O menino ganharia o nome de Marlon, uma homenagem a Marlon Brando, quem tanto Keith quanto Anita admiravam. O casal se mudara para Redlands como era o costume no verão. Keith estava bobo com seu menino. Pegava o bebê no berço, colava seu rosto no dele e sussurrava planos futuros para os dois. "Você e eu baby, não precisamos de mais ninguém." Anita também estava feliz e radiante com a chegada da criança. Depois de vários abortos involuntários, ela começara a acreditar que não podia dar à luz a uma criança. Mas Keith passou a dar tanta atenção a Marlon que Anita começava a sentir ciúmes.

Klein vai perdendo o controle

Quando Mick retornou a Londres, ele se entregou imediatamente ao trabalho da preparação da excursão americana. Seria a primeira excursão dos Stones em três anos e na prática, todo o esquema de shows, aparelhagens e promoção havia mudado muito neste tempo. Os Stones teriam que reaprender muita coisa, mas levaria toda a excursão para as lições serem absorvidas. Com tudo que estava acontecendo, a overdose de Marianne e as filmagens recém encerradas na Austrália, é difícil imaginar quando Mick Jagger encontrou tempo para pensar em um plano para se livrar de Allen Klein, quanto mais calcular meticulosamente sua ordem de ações. Contudo, eis que Jagger consegue fazer exatamente isto.

Mick Jagger
Mick Jagger

Para diminuir o controle de Allen Klein sobre a banda, Jagger recorre aos conselhos profissionais de outra fonte. Assim, a primeira coisa que ele faz é apontar seu consultor financeiro Rupert Lowenstein como responsável pelas finanças da banda e da firma Rolling Stones.

Prince Rupert Ludwig Ferdinand zu Lowenstein-Wertheim-Fruedenberg, mais conhecido como Rupert Lownestein, é um descendente direto da família real da Bavária. Como credenciais, Lownestein ajudou Jonathan Guinness a montar o seu Banco Mercantil, Leopoldo Joseph. Com acesso total aos livros, Lowenstein conseguiria rastrear o dinheiro e garantir que a verba cheguesse aos cofres da banda e não ficassem retidas nos cofres da ABKCO.

Outra função de Lowenstein era ajudar Jagger a montar uma nova corporação para assumir o controle dos Rolling Stones quando o contrato entre a banda e Klein se expirasse. Porém, com a falta de experiência de Lowenstein no mundo da indústria fonográfica, muitas das decisões acabavam mesmo sendo feitas graças a intuição de Mick Jagger. Juntos, Jagger e Lowenstein formam os alicerces desta nova corporação, que ainda não existia oficialmente, mas que seria conhecida dentro de doze meses como "Rolling Stones Records". No prazo de um ano, com seus contatos, Lowenstein cria uma rede internacional de contadores e advogados trabalhando para proteger os Rolling Stones e seu dinheiro. Seria graças a proteção desta rede que os Stones viveriam suas peripécias, quase que sempre à margem da lei, enquanto pulam de país em país, cidade em cidade.

A primeira e principal missão de Lownestein era de encontrar uma solução para tirar os Stones da categoria de super taxação que o governo inglês os situaram. Depois de estudar os livros, a conclusão de Lowenstein era que tudo em relação às finanças da banda até então fora mal planejado. A firma Rolling Stones, como também o grupo, devia tanto dinheiro para a Coroa que a única maneira de garantir as rendas futuras seria o grupo morar em outro país, evitando assim o pesado imposto inglês. A sugestão de se tornarem exilados econômicos não encontrou adesão imediata e a idéia teve que ser digerida lentamente por todos.

Ron Schneider
Ron Schneider

O outro golpe de Jagger contra Klein seria tirá-lo totalmente da jogada da preparação da excursão americana. Sua tática foi tão curiosa quanto audaz. Mick Jagger convida Ronnie Schneider, sobrinho e assistente de Allen Klein, a deixar a ABKCO e trabalhar exclusivamente para os Rolling Stones. Schneider percebe logo que irá fazer basicamente o mesmo trabalho que já fazia de qualquer maneira como assistente de Klein, porém recebendo agora na íntegra e não apenas uma porcentagem da comissão. Ao aceitar o convite e romper com o tio, aleija a direção da ABKCO, fazendo com que Klein perca duplamente. Schneider sendo extremamente eficaz como seu tio, faria tudo com perfeição para agradar Mick Jagger e estabelecer seu nome no mercado. Sua primeira ação foi a de criar uma nova firma nos Estados Unidos, que ganha o nome de "Rolling Stones Promotions".

Nada disto faria Allen Klein deixar de ganhar dinheiro com os Rolling Stones, veja bem. Mas diminuia o controle, as embromações e a sensação de estarem presos em suas mãos. As negociações entre Allen Klein e Mick Jagger ainda continuaram e continuarão enquanto o contrato entre Klein e a banda estiver em vigor. Reuniões entre Jagger, Ronnie Schneider e Jo Bergman, secretária particular de Jagger, formam o tripé cerebral do grupo para levar esta excursão, com todos os seus detalhes à frente. Foi decidido que Los Angeles seria a cidade base para a banda, mesmo porquê Mick e Keith queriam ainda mixar e terminar o disco "Let It Bleed".

Marsha Hunt

Mick estava ainda preocupado com Marianne, que estava visivelmente nervosa com a expectativa dele ir para a América e ela ficar sozinha em Londres. Procurou ele então fazer com que se sentisse parte dos preparativos para a excursão, permitindo inclusive que ela escolhesse uma roupa de palco adequada para ele, coisa que nunca fizera antes. Sabendo como Mick era detalhista sobre tudo, mormente suas roupas, Marianne se espanta com a carta branca. Enquanto Jagger mergulhava em reuniões que viravam a madrugada, preparando a excursão, Marianne passava as noites em casa sozinha, uma vez que seu filho Nicholas estava com Eva, sua mãe. Ela ainda se sentia um pouco debilitada fisicamente para curtir as noitadas como em outros tempos.

Embora Marianne acreditasse que Mick estivesse trabalhando a noite toda como em outras épocas, os afazeres de Jagger geralmente se resumiam a parte da tarde. As noites ele passava nos clubes, sempre acompanhado pela vistosa atriz e cantora Marsha Hunt. O caso entre os dois esquentara depois de sua volta da Austrália e Jagger parecia estar realmente atiçado com a novidade.

Marsha Hunt
Marsha Hunt

Marsha é na verdade o nome artístico de Marcia Hunt, uma americana nascida em Philadelphia e que aos 19 anos, estudando em Berkley na Califórnia, resolve tentar a sorte em Londres. Estamos em 1967, era do amor livre, e apesar de ter menos de cinco dólares no bolso, não foi tão complicado assim para Marsha encontrar uma cama para dormir. Dentre as pessoas que ela conheceu houve o pintor David Hockney, que acabaria lhe apresentando a uma menina que depois a levou para conhecer Alexis Korner. Tendo abandonado o nome Blues Incorporated, Alexis chamava sua nova banda de Free At Last e ofereceu a Marsha £5 por semana para ela fazer backing vocals junto com outras duas meninas. Sendo uma negra americana, Marsha chamou muita atenção entre os bluseiros ingleses e por um período, ela passou a morar com John Mayall, recém separado de sua mulher Pamala.

Após uma excursão do Free At Last em um pacote que incluía outras bandas, Marsha conheceu John Baldry, um dos mais antigos cantores de blues inglês, então vocalista do Bluesology. Baldry passa a desejar para sua banda a voz de negra americana autêntica que Marsha pode oferecer. Apesar do Bluesology já contar com as vozes de Julie Driscoli e Rod Stewart, Baldry acaba oferecendo £30 por semana para que Marsha deixe Alexis Korner e passe a cantar para ele. O primeiro trabalho da cantora com Baldry foi a canção "Mexico" que em 1968, acaba sendo aproveitada como tema das Olympíadas, se tornando um hit e chegando a vigésimo lugar nas paradas britânicas. Supostamente teriam sido os ciúmes e insatisfação entre os demais membros do Bluesology que acelerariam o fim da banda.

O Bluesology era empresariado pela firma The Gunnell Agency, que ofereceu à cantora a opção de fazer backing em outra banda associada a agência. Entre Soft Machine e Ferris Wheel, as duas opções dadas a ela, Marsha preferiu a segunda, cujo repertório englobava muitas versões de sucessos da Motown. No entanto, com o passar do tempo, ela começava a se ver como uma imitação inglesa de Diana Ross & The Supremes. Felizmente, a esta altura, apareceu para ela a oportunidade de participar da peça Hair.

Estreando no final de 1968, Marsha tinha poucas linhas na peça, cantava apenas uma música e acabou ficando apenas por seis meses, apesar de Hair continuar em cartaz por sete anos consecutivos. No entanto, carismática com ela é, não é incomum Marsha ser referida pelos jornais como a estrela do espetáculo, coisa que está longe de ser verdade. Mas é seu relacionamento com Mick Jagger, que se firma no final do verão de 1969, que acaba atraindo-lhe todos os holofotes. Jagger porém passou meses na Austrália filmando Ned Kelly, enquanto Marsha, agora grande demais para a peça Hair, ganha as atenções do produtor Robert Stigwood. Acompanhando-o e conhecendo de maneira geral os produtores da indústria, Marsha acaba por assinar um contrato com Kit Lambert e seu novo selo Track Records, o mesmo do The Who, Jimi Hendrix e Arthur Brown & The Thunderclaps.

Marsha Hunt & White Trash
Marsha Hunt & White Trash

Uma das primeiras tentativas feitas para lhe promover a carreira de cantora solo foi de reunir alguns músicos tarimbados de estúdio e montar uma banda para ela. Assim nasce Marsha Hunt & White Trash. Na verdade, White Trash era originalmente uma banda escocesa contratada pela Apple Records. Gravaram e lançaram um disco pelo selo que pouco vendeu e com o tempo, acabaram alterando sua formação. A banda que serve para promover Marsha Hunt é composta por Ged Peck na guitarra, Nick Simper no baixo e Pete Phillips na bateria. Seu grande momento foi a participação no Isle of Wight Festival em agosto daquele ano. A banda e a associação com Marsha, porém, sequer permaneceriam juntos até o final do ano. Simper e Peck seguiriam depois para formar a banda Warhorse.

Como era típico deste casal, Marianne nunca perguntava aonde Mick esteve a noite toda, assim como Jagger nunca perguntou se ela havia voltado a tomar heroína. A rotina do casal seguiria assim por mais outro ano. Jagger pernoitava muitas vezes na casa de Marsha, fumando maconha e trepando até a exaustão. Depois de três semanas, ele e toda a banda seguiam para Los Angeles. Marianne neste ínterim acabaria descobrindo sobre Mick e Marsha, a quem Marianne se referia como 'fuzzy wuzzy' em uma alusão ao seu gigantesco cabelo afro. Nada foi realmente dito entre os dois, mas enquanto os Stones foram para os Estados Unidos, ela se mudou para a casa de sua mãe, onde Marianne não ficaria inteiramente só e poderia recuperar agora um pouco de seu psique.

Leon

Leon Russell
Leon Russell

Pouco antes de outubro, Charlie e Bill participariam ainda de três faixas do disco de Leon Russell - "I Put A Spell On You", "Hurtsome Body" e "Roll Away The Stone". Nestas sessões, os dois Micks, Jagger e Taylor, visitam e acabam gravando uma faixa que ficaria fora do disco. A canção, "Get A Line On You," que seria depois rebatizada de "Shine A Light" e registrada como uma composição Jagger-Richard. A gravação contem as colaborações de Mick Jagger no vocal, Leon Russell no piano, Mick Taylor na guitarra, Bill Wyman no baixo e Charlie Watts na bateria. Leon então seria convidado a participar das sessões contribuindo em algumas faixas para o novo álbum dos Stones.

Montando uma excursão

Mick Jagger, Ronnie Schneider e Jo Bergman montam então a equipe americana para a excursão. Enquanto Jagger filmava Ned Kelly na Austrália, Schneider fechava contratos na América com gente que promove espetáculos e patrocinadores. A lista de exigências por parte dos Stones era extensa, com artigos que determinavam os tamanhos mínimos para camarins e vestiários da banda. A necessidade de um bufê completo que necessariamente incluísse uma dúzia de tipos diferentes de pratos, queijos, frutas, e carnes. A lista de bebidas incluía quantidade e marcas favoritas dos integrantes da banda, geralmente importados. O contrato estendia aos Rolling Stones uma garantia de sessenta por cento do grosso da bilheteria como pagamento mínimo caso não houvesse lotação máxima. Todas essas cláusulas elevaram os ingressos para preços absurdos, considerando os tempos, o mais barato saindo por US$7.50. Ronnie Schneider queria provar o seu valor e tudo que Mick queria, ele de uma forma ou de outra conseguia espremer e arrancar daqueles interessados a promoverem uma apresentação dos Rolling Stones em suas cidades.

Esta excursão seria totalmente diferente de qualquer coisa que os Rolling Stones já fizeram antes. Nesses três anos que a banda ficou longe dos palcos, toda a cena musical em termos de apresentações ao vivo de rock havia mudado. Até 1966, a banda tinha que tocar o mais alto possível para tentar furar o volume de gritaria e histeria do público, em grande parte meninas pré-adolescentes em alegria orgásmica. Agora, as crianças cresceram e o público, mesmo que ainda jovens, querem ouvir a música. Como músicos, os Stones tem pela primeira vez desde 1962 quando eram desconhecidos, uma oportunidade de apresentar um show musical com o foco maior na música.

Outra mudança está no fato que antes eles tocavam em lugares que apresentavam uma variação muito grande de condições. Muitas vezes conhecendo o palco e o sistema de som horas, as vezes minutos, antes da apresentação. Para evitar surpresas desagradáveis quanto a som e palco, haveria uma equipe contratada para inspecionar cada local. Os Stones também se responsabilizam pelo som e luz trazendo consigo toda uma equipe para cuidar da luz e do som de cada local. E falando de local, esta será a primeira excursão em que todos os shows serão realizados em estádios. Será uma experiência nova para a banda, que apresentará suas músicas para um número aglomerado de pessoas nunca antes vistos por eles. As lições aprendidas nesta excursão formariam os alicerces de sua futura carreira.

A equipe

Esta equipe de palco seria liderada por Chip Monck, que recentemente ganhara bastante prestígio dentro do meio pelo seu trabalho em Woodstock. Neste lendário festival, que ainda viria a oferecer um ótimo documentário cinematográfico e trilha sonora, Monck foi o grande responsável pela montagem do palco, o sistema de luz e de som. Ele também recebeu muitos elogios pela calma e psicologia empregada em momentos difíceis daquele festival, conversando com a massa humana durante o início da tempestade de chuva, mantendo todos calmos e evitando assim histeria e tumultos. Trabalhando agora para os Stones, Monck seria responsável pela luz e som em todas os estádios. Ao se encontrar pessoalmente com a banda pela primeira vez em Laurel Canyon, Monck abraça Jagger e se diz extremamente feliz em estar envolvido com a volta dos Rolling Stones tocando ao vivo. Este sentimento seria também compartilhado pela maioria das equipes que trabalhariam nesta excursão.

Ian Stewart cuidaria do transporte dos equipamentos, recebendo e despachando todo o sistema de PA mais os instrumentos da banda. Sam Cutler era o gerente da excursão, pessoa responsável por cuidar dos pormenores e eventualidades que surgissem, cuidando para que os transportes estivessem à disposição na hora combinada, e mantendo o cronograma da equipe razoavelmente dentro do horário. Assim como Mick tem um assistente particular, que é a Jo Bergman, Keith tem seu assistente particular na figura de Tony Sanchez, cuja função principal seria a de carregar sua medicação.

A equipe de divulgação da excursão, promovendo a vinda dos Rolling Stones em cada cidade antes da efetiva chegada da banda, ficou por conta do inglês David Sandison, que trabalhava para Les Perrin e Al Steckler, um americano que trabalhava para Allen Klein. Phil Kaufman seria contratado para resolver qualquer problema e cuidar de todas as necessidades dos Rolling Stones enquanto eles estivessem em Los Angeles. Pete Bennett, contratado por Klein, teria como função de empurrar o disco lançado dois meses antes, "Through The Past Darkly (Big Hits Vol.2)", a ser tocado nas rádios de todas as cidades que tivessem show dos Stones, ainda mais durante a semana em que a banda estivesse na região. O novo álbum "Let it Bleed" também receberia atenção especial assim que fosse lançado. Infelizmente ele sofreria atrasos que o fariam ser lançado somente em dezembro, quando a excursão já findara.

A firma Solters and Sabinson seria contratada para cuidar de relações públicas. Assim, acompanhando a banda pelo país estaria David Horowitz, o relações públicas representando a firma. Outros acompanhantes incluem Michael Lyndon, um jornalista do New York Times, se tornando o colunista oficial e Stanely Booth, contratado para escrever um livro que conta sobre a excursão, ao mesmo tempo que se transforma numa biografia completa da banda. Mais uma vez Mick Jagger quer estar em pé de igualdade com os Beatles, que no ano anterior haviam lançado sua "Biografia Autorizada", escrita por Hunter Davies.

Terry Reid
Terry Reid

As atrações contratadas para esquentar o público antes dos Rolling Stones tomarem o palco foram Chuck Berry, BB King, Ike & Tina Turner com sua banda King of Rhythm e o trio vocal feminino The Ikettes. Abrindo para todas essas atrações a cada noite uma novidade inglesa, o cantor de blues Terry Reid e seu trio. Embora esta não fosse a primeira vez que ele se apresenta nos Estados Unidos, tendo ele excursionado parte do país no ano anterior abrindo os shows da turnê dos Moody Blues, ele continuava efetivamente sendo um desconhecido para a maior parte do público americano.

Cogitou-se alugar um Boeing para cuidar de todo o transporte da banda no país, porém os preços foram proibitivos. A opção foi usar vôos comerciais, sempre de primeira classe, e em casos de cidades relativamente próximas, contratava-se um pequeno jato particular.

Mick Jagger, Keith Richard, Bill Wyman, Mick Taylor e Charlie Watts
Mick Jagger, Keith Richard, Bill Wyman, Mick Taylor e Charlie Watts

Quando as cidade eram bem próximas, viajariam de carro em comboio. Um contrato com a Chrysler, fábrica americana de auto- móveis, foi assinado. O acordo garante à banda e a toda equipe envolvido com os concertos carros para transporte em todo o país em troca da fábrica poder usar o nome dos Rolling Stones para seus anúncios durante o próximo ano. Para proteger esse nome, Jon Jaymes, representante da Crysler, e seu assistente Gary Stark foram designados a acompanhar a banda e evitar através de "qualquer" artifício, que a banda tivesse problemas ou incidentes que poderiam gerar publicidade negativa.

Laurel Canyon

Aterrissando finalmente em Los Angeles no dia 17 de outubro, cada membro da banda se hospeda em um lugar diferente espalhado pela cidade. Bill e Astrid preferem as mordomias do Beverley Wilshire Hotel, enquanto a família Watts alugam uma linda casa em Oriole Drive, que pertence à família DuPont. A casa também serviu como escritório para Ronnie Schneider. Mick Jagger, Mick Taylor e Keith Richards acabam se hospedando em uma suntuosa residência em Laurel Canyon, no alto de um morro acima da casa de Frank Zappa. A casa pertencera a Carmem Miranda há algumas décadas. Mais recentemente pertencera a Peter Tork dos Monkees, que a vendera para Stephen Stills, que por sua vez a alugara aos Stones por três meses. Com piscina e quadra de tênis, além de vários cômodos, a casa serve também como estúdio de ensaio e escritório geral. Inevitavelmente é em Laurel Canyon que a banda se encontra sempre antes de seguirem para qualquer atividade. Todos os Stones trazem esposas, filhos e namoradas, a única que recusa o convite é Marianne Faithfull, debilitada e magoada. Passam os dia curtindo o sol da Califórnia durante as semanas antes do inicio da excursão.

Keith Richard e Gram Parsons
Keith Richard e Gram Parsons

Gravações de overdubs e mixagens também fazem parte do pacote de afazeres. Músicos contratados em L.A. incluem Ry Cooder, Al Kooper, Nanette Newman, Merry Clayton, Byron Berline, Leon Russell e Bobby Keys. Outro que visitou a banda, embora não tenha tocado com eles, foi Gram Parsons, que passou algumas tardes inteiras com Keith Richards, jogando tênis e conversando nos jardins da casa enquanto fumavam um charuto.

A amizade entre os dois se fortifica, Parsons influenciando Richards em querer se reaproximar do country, sua paixão original antes de descobrir o blues ou o rock. Parsons, que deixara recentemente os Byrds, montava sua nova banda, The Flying Burrito Brothers.

O brilho que é lei

É difícil quase quarenta anos depois passar a idéia de como Los Angeles recebeu Mick Jagger e os Rolling Stones. Todo mundo queria saber deles. O noticiário da TV não passava um dia sem mencionar alguma coisa em relação a Mick Jagger ou os Rolling Stones. Groupies estavam sempre à disposição para ajudar em "qualquer coisa" a qualquer hora. "Fornecedores" disputavam entre si pela oportunidade de dar presentes para a banda. Tão generosos eram seus presentes, que a banda não precisou comprar absolutamente nada durante os três meses que ficaram no país.

Tinham o que queriam, quando queriam, em mais quantidade do que poderiam querer. Tudo da maior pureza, vindo diretamente do outro lado da fronteira. Para se ter uma idéia, o pessoal não recebia maconha prensada, feitas de folhas que não se sabe quando foram colidas. Não. Tampouco seu estoque havia chegado em diversos sacos de folhas soltas. A maconha entregue em Laurel Canyon chegava na forma de seis arbustos, da altura de um menino cada. Seis potes cada um com um pé de Acapulco Gold, maconha mexicana da melhor qualidade, todos guardados na cozinha.


As groupies passavam os momentos de ócio catando folhas dos galhos e botando para secar durante o sol da manhã e tarde. Depois enrolavam os baseados e deixavam sobre a mesa para quem quisesse. Com um fumo de melhor qualidade, mesmo com o entra e sai de pessoas na casa, não havia consumo suficiente para tantos baseados, e a pilha foi crescendo. As meninas continuavam colhendo folhas de manhã e apertando baseados à noite.

Com tanta atenção dispensada sobre ele, é natural que Mick começasse a ficar muito mais seguro de si. Pode-se dizer que ele se deixou ser sugado pelo delírio e adoração. Com a chuva de xoxota, Mick voltou a brincar com suas fantasias sexuais, coisa que ele não fazia desde aqueles primeiros três anos de sucesso.

Uma de suas parceiras principais em Los Angeles seria Pamala Miller, que era conhecida como a Miss Pamela da banda GTO's - Girls Together Outrageously. Mas como tudo que vêm fácil e em excesso, a magia da novidade se desfez rapidamente. Logo ele estava entediado e passou a recorrer cada vez mais à tática de seu amigo e sócio Keith Richards, ou seja, a de se envolver com algo que o distrai sem o complicado envolvimento sentimental. Mick passou a preferir se distrair cheirando uma maior quantidade de cocaína.

Fazendo um uso cada vez mais freqüente de pó, egos inflaram rapidamente. Percebe-se entre aqueles que trabalham diretamente com Jagger no escritório dos Rolling Stones, que ele está mudando, agora dificilmente trata as coisas de modo casual. Se antes havia o Mick Jagger superstar para o grande público e o Mick Jagger companheiro brincalhão e um pouco mais desleixado no escritório, este segundo personagem deixou de exigir. Mick passou a acreditar no estrelismo que o grande público fazia questão de oferecer-lhe, e vai se transformando cada vez mais em uma variação do seu personagem Turner no filme "Performance".

Na noite

Chuck Berry
Chuck Berry

Certa noite depois do jantar, vão todos assistir um show do Chuck Berry no Whiskey A-Go-Go. Os donos da casa imediatamente abrem espaço e esvaziam as melhores mesas para Mick Jagger e seus amigos. A banda que acompanha Chuck não recebe maiores considerações, porém os membros dos Stones ficam sempre felizes em ouvir o velho mestre. Dali seguem para The Corral Club em Topanga Canyon, onde ficaram de ir prestigiar o show dos Flying Burrito Brothers. Musicalmente o show dos Flying Burritos agradou mais, particularmente para Keith, que está já algum tempo namorando novamente o country americano. Junto com a turma dos Stones na mesa estão Miss Christine e Miss Mercy, ambas da banda GTO, como também Bruce Johnston dos Beach Boys. Em outra noite foram assistir Taj Mahal em Ash Grove.

Mario

Marianne não iria ficar nessa de morar com mamãe e filhinho por muito tempo. Uma vez se sentindo novamente forte e refeita, ela ansiava por voltar a freqüentar lugares e conhecer gente. Ela já concluira que seu casamento com Mick acabara e que não o amava mais. Passou então a telefonar para os velhos amigos e marcar programas. Certa noite, em uma festa na casa de Robert Frazer, Anita apresenta Mario Schiffano, já pensando na propensão deles de fazerem travessuras juntos.

Mario Schifano
Mario Schifano

Anita diria na década de noventa, sobre o episódio, que Marianne estava mesmo precisando de um romance fora do matrimônio para se sentir viva novamente. Anita torce para que Marianne faça bom proveito das habilidades sexuais de Mario, a quem Anita já testara quando eram namorados em 1965, antes dela conhecer Brian Jones. Marianne ficou doida para transar com ele, e quando Mario a convidou, ela foi ao delírio. Foi a melhor transa que Marianne teve em muito tempo, contaria ela. Todavia, para a surpressa de Anita, Marianne se apaixona. Seduzida pelo charme intelectual deste Romano, adorou ser desejada novamente e entregou não só o sexo mas também o coração. Mario, por sua vez, também se apaixonou por esta mulher ainda muito bonita, além de extremamente inteligente e intelectualizada.

O casal foi então passar uma temporada em Roma, onde as noites de luar eram melhor apreciadas à base de demorados calistênicos sexuais, intercalados com papos inteligentes. A disposição é re-alimentada pelo uso de cocaína, a droga preferida do Mario.

Para infelicidade do casal, ainda no aeroporto de Londres, alguns jornalistas reconhecem Marianne e tentam entrevistá-la. Marianne falou provocativamente que estava à caminho da Itália porquê encontrara finalmente o amor de sua vida. Uma foto sua acabou aparecendo no jornal ao lado de uma nota comentando sua declaração. Ao ler isto em Los Angeles, Mick têm sua vaidade extremamente ferida. Se ele é o rei absoluto de L.A., esta notícia nos jornais fere sua imagem e o deixa à mercê do ridículo. Ele manda alguém em Londres procurar por ela em Roma e trazê-la para Los Angeles imediatamente.

O reencontro

Quando Marianne aterrisa em Los Angeles, ela está magérrima. Phil Kaufman, que lhe aguarda no aeroporto, opta por levá-la primeiro para um Spa. Bem à moda de Los Angeles, lhe é servida uma série de sucos de frutas, vitaminas, massagens e medicação que reativam seu sistema até ela ficar mais vistosa e portanto em condições para ser apresentada a Mick. O reencontro não ajuda em nada o relacionamento do casal. Jagger está ocupado demais tentando terminar as gravações e mixagem do disco novo e cuidando para que tudo em relação à excursão que iria começar em outubro estivesse em ordem. Além do mais, ele se sente traído por ela. O instante não lhe é propício para tentar arquitetar uma reconciliação.

Este é um momento marcante na vida de Mick Jagger. Ele realmente amava Marianne Faithfull, apesar do limitado diálogo sobre sentimentos próprios que sofria o relacionamento deste casal. Mick sempre procurou protegê-la e sempre a incentivou nas coisas artísticas que ela quisesse fazer. O ato de Marianne fugir com um outro homem, fazendo questão de contar para os jornais, é um sinal claro de que ela tentava feri-lo profissionalmente, denegrindo sua imagem. Mesmo se escondendo atrás de seu persona Mick Jagger o estrela, Mick é sensivelmente afetado pela traição de Marianne. De fato, nunca mais em sua vida ele iria amar alguém sem ter um pé atrás e certas reservas. Esta autodefesa se iniciaria dentro do próprio relacionamento como a Marianne. No fundo Mick a chamou apenas para poder ficar de olho nela, ou melhor, ter o seu pessoal a vigiando. Desta forma, Marianne não aparece nos jornais com outros homens e ele não fica com cara de tacho.

Passeios e festas

Não demorou muito para Marianne perceber a total disposição da cidade de se jogar aos pés de Mick Jagger. Certa noite, foram todos para um clube tomar vinho gelado e absorver a noite de Los Angeles. Chegaram no Roxy e encontraram a casa em um agito só, a banda tocando, pessoas dançando e todo mundo conversando ao mesmo tempo. Bastou reconhecer Jagger no grupo de pessoas que acabara de entrar que um silêncio passou a imperar sobre o lugar. O povo parara de conversar, de dançar - até a banda no palco interrompera seu número! Todos hipnotizados pela curiosidade e admiração. Por todo o recinto só havia uma coisa na mente de todos: "Mick Jagger acabara de chegar". Um silêncio gélido e nervoso tomou conta. Jagger então quebra o gelo ao agradecer fazendo um pequeno gesto de reverência tipicamente feminino, fingindo pegar as pontas de uma saia imaginária com os dedos, dobrando levemente os joelhos enquanto curva a cabeça para frente. Todos começam a rir, o ambiente relaxa novamente, e Jagger e seus acompanhantes foram logo levados à suas mesas.

The Joshua Tree

Enquanto Mick e os Stones trabalhavam, Marianne passava o seu tempo na companhia das amigas Pamela Mayall e Andee Cohen. Geralmente as manhãs eram na piscina cheirando cocaína. À tarde, quando Anita acordava, as duas saíam de carro com chofer particular para rodarem pela cidade sem destino certo. Anita invariavelmente arrumava um ácido e as duas mulheres voltavam aos velhos prazeres.

Marianne em Joshua Tree
Marianne em Joshua Tree

Phil Kaufman e Gram Parsons levaram a turma em um passeio para conhecer o deserto de Mojave. Um grupo composto pelos amigos Michael Cooper, Tony Sanchez, Mick Jagger, Keith Richards, Anita Pallenberg, Marianne Faithfull, e mais algumas pessoas foram levados à uma área do deserto chamada The Joshua Tree National Park. Uma vez lá, ouvindo estórias sobre índios e seus rituais, a turma toda começou a mastigar mescalina no sol quente. Cooper tirou várias fotos do local até o pôr do sol. Fizeram uma fogueira, beberam vinho e contaram mais estórias folclóricas sobre índios e aventureiros, até que começaram a ouvir os uivos dos coiotes. Foi o sinal para os ingleses resolveram que era hora de ir embora.

Não muito depois disso, Anita e Marianne voltariam para Londres, enquanto Rose, a namorada de Mick Taylor, Astrid, namorada de Bill Wyman e Shirley, esposa de Charlie Watts, ficariam e viajariam com a banda. Mick passaria a ter um caso mais fixo com Pamela Miller, groupie -mor. Keith também se engajou em um caso com uma jovem negra chamada Emmaretta Marks. A dupla Jagger e Richards mantém esses casos apenas enquanto estivessem estacionados na Califórnia. Marianne retornaria à Roma e aos braços de Mario enquanto Anita, entediada em casa com o recém nascido Marlon, passaria a ter um caso sério com heroína.

Aniversário do Bill

No dia 24 de outubro, exatos dez dias antes do primeiro show da excursão, comemorou-se o aniversário de Bill Wyman. A festa, realizada na casa em Laurel Canyon, foi bem ao estilo dos Rolling Stones, e pouco ao estilo do Bill. Em clima de festa surpresa, Bill e Astrid chegam na casa cheia de gente da comitiva Rolling Stones, além de amigos de Mick, Keith e groupies que normalmente freqüentam o lugar. Foram as groupies, aliás, que ficaram com a tarefa de fazer o bolo de aniversario, na verdade seis bolos de aproximadamente cinco quilos cada um.

Bill iria passar mal depois. Ninguém lhe avisou, mas os seis bolos eram basicamente de maconha. Apenas uma brincadeira entre os rapazes que queriam ver o caretão Wyman chapado. Bill, zonzo e sem total discernimento do que haviam aprontado, está constantemente indo ao banheiro para jogar água fria no rosto. Inevitavelmente ele se retira cedo de "sua" festa, sendo levado para casa por Ian Stewart, e sob os cuidados de Astrid. Na viagem de volta, Bill entra em pânico dentro do carro em crise de claustrofobia. Stewart corre desesperado pelas ruas americanas tentando chegar o mais rápido possível no hotel para que Bill possa se sentir novamente confortável. Este incidente seria significativo para aumentar ainda mais a relação de desconfiança e isolamento entre Bill Wyman e a dupla Jagger e Richards.

Os ensaios

Neste mês de outubro, entre banhos de sol e piscina, o album "Let it Bleed" estava gravado e mixado, todos os locais onde os Stones iriam se apresentar já devidamente conferidos por Chip Monck e Ian Stewart, e a banda já havia feito inúmeras entrevistas coletivas e sessões fotográficas visando promover tanto o disco como os shows.


Se todos os aspectos da excursão estavam sendo observados com rigor, são nos ensaios que a banda se mostra mais indisciplinada. Ensaios estes que eram marcados para iniciar às sete da noite, porém invariavelmente Keith é o último a ficar pronto. Quando sai para jantar, às vezes o guitarrista só retornaria por volta de uma da manhã, obrigando todos a esperar. E quando chega, não têm pressa. Acende primeiro um baseado enquanto afina sua guitarra e ninguém reclama, até porque, não adiantaria nada.

No meio do ensaio Keith vai até a cozinha, vasculhando onde ele havia malocado uma latinha de se guardar filme (hoje são de plástico), e com o canudinho que fica sempre pendurado ao redor de seu pescoço, dá uma rápida cafungada. Alimenta então a outra narina com sua farinha eletrizante, fecha a latinha, guarda, e volta para o ensaio que só vai terminar por volta de sete da manhã. O dia seguinte é folga porque todo mundo está "gasto" até o osso. Os ensaios passam a ser uma rotina noturna repetida a cada dois dias.


O visto de trabalho ainda não saiu e portanto não poderiam estar dentro de um estúdio, seja trabalhando no disco ou ensaiando ainda para o show. A situação de ilegalidade provoca a sensação de bandidagem e oposição à lei que tanto agrada Keith. Sentado num canto do estúdio, com a guitarra no colo, segura com uma mão o braço do seu instrumento, enquanto na outra prende entre os dedos um baseado da grossura de um charuto Havana. Vestido em uma camisa de seda rosa com um pequeno rasgo, um casaco de couro ultra surrado, calças pretas bem apertadas e para completar, cinto e botas feitas de couro de cobra. Sua corrente com um canudinho dourado assemelhando-se a um pau de bambu, pendurada ao redor do pescoço e um brinco com um dente canino como penduricalho na orelha esquerda. Esta é a imagem de Keith Richards que sorri mostrando rugas já visíveis e dentes escurecidos, enquanto no alto falante em um volume altíssimo toca "Midnight Rambler".

Acomodando as diferenças

Lentamente a banda foi montando um repertório dando atenção maior para as músicas do novo disco e do disco anterior, somando este material com alguns números que sempre agradam. Percebeu-se logo que tomaria muito tempo retrabalhar o material antigo. Quando os Stones contavam com Brian Jones, as duas guitarras complementavam-se uma com a outra. Brian tocava pensando no arranjo em sua totalidade, enquanto Keith podia sobressair em seus solos. Ian Stewart certa vez comparou as guitarras de Brian e Keith como sendo a mão direita e a esquerda de uma pessoa. Com Mick Taylor, todo o raciocínio teria que ser mudado. Quando Brian não estava mais produzindo como músico, e a banda não podia mais contar com ele, Keith assumiu a tarefa. No processo, ele cresceu como instrumentista, bolando e executando as partes da guitarra em praticamente todas as canções. Tornou-se mais fácil e prático executar este material mais recente do que mexer muito com as musicas mais antigas e memoráveis dos tempos de Brian.


Mick e Keith apostaram também que, pelo fato de terem gravados três álbuns nesses três anos, havia muita coisa que nunca fora tocado ao vivo antes. Portanto este material seria em si uma atração. Desta maneira, o repertório passou a ser predominantemente em torno dos álbuns "Beggar's Banquet" e "Let it Bleed", com quatro canções de cada. Os dois últimos compactos "Honky Tonk Woman" e "Jumpin' Jack Flash", a eterna "Satisfaction" e dois números de Chuck Berry, que é repertório obrigatório saber tocar para qualquer um que pretende ser roqueiro.

Após muito deliberarem, acabam optando por "Gimmie Shelter", "Carol", "Sympathy For The Devil", "Stray Cat Blues" e "Midnight Rambler" entre os números mais movimentados. Depois abaixam o volume e a adrenalina com uma seqüência que inclui "Love In Vain", "I'm Free" e "Let It Bleed".

Terminado o ensaio, Keith comenta que sente falta de algo como "Under My Thumb" e Mick concorda com a sugestão. Mick, vendo Bill de calças brancas distraído, aproveita para lhe dar um chute no traseiro propositadamente marcando suas calças com o preto da sola de seu sapato. Bill revida o chute mas Mick de calças pretas apenas retruca "Vai fundo querido. Pode colocar lá dentro quando quiser" deixando Bill um pouco desconcertado e sem saber exatamente o que responder de volta.

Parte 29 - The Midnight Rambler

Mick J e Keith apostaram também que pelo fato de terem gravado três álbuns nesses três anos, havia muita coisa que nunca fora tocado ao vivo antes. Portanto, este material seria em si uma atração. Desta maneira, o repertório passou a ser, predominantemente, em torno dos álbuns "Begger's Banquet" e "Let it Bleed", com quatro canções de cada. Os dois últimos compactos ("Honky Tonk Woman" e "Jumpin' Jack Flash"), o eterno "Satisfaction" e dois números de Chuck Berry - que é repertório obrigatório para qualquer um que pretende ser roqueiro.

Chip Monck, Keith Richard e Mick Jagger aguardando no aeroporto a hora do embarque
Chip Monck, Keith Richard e Mick Jagger aguardando no aeroporto a hora do embarque

Depois de virar a noite cheirando pó (após assistir um show de Bo Diddley), Keith chega em casa às seis da manhã, a tempo de trocar de roupa e seguir direto para o aeroporto com os demais. Para despertar, tomou uma dose de vodka seguido por um café extra doce.

Enquanto aguarda a chamada do vôo, uma senhora interrompe seu desjejum perguntando em voz alta se ele não era aquele Rolling Stone que teve dois filhos de duas mulheres diferentes, como conta um artigo da revista Cosmopolitan. Keith primeiro na defensiva, pergunta se ela está falando mal de seu filho. Depois, entendendo que se trata de uma velha que perde seu tempo lendo colunas de fofocas, ironiza perguntando se ela não quer experimentar dar uma volta com ele algum dia. A senhora ofendida sai de cena resmungando algo do tipo "porque que eles são tão agressivos?"

Aterrizaram em Denver antes do sol se pôr, sendo levados direto para o local do show, no Colorado State Collage. Com a silhueta das Montanhas Rochosas no horizonte, entram no ginásio de basquete onde havia sido erguido um palco. Enquanto os Rolling Stones fazem a passagem de som, Ronnie Schneider faz uma contagem das cadeiras no local, tentando ter uma estimativa aproximada do faturamento esperado. Depois, a banda deixa o local seguindo para o hotel, enquanto membros da comitiva comiam do bufê oferecido aos Stones conforme consta no contrato.

B.B. King
B.B. King

Enquanto a banda se apronta, o povo vai comparecendo ao local. Duas horas depois, a primeira atração da noite sobe ao palco. Trata-se do inglês Terry Reid e seu trio que era essencialmente um grande desconhecido no Colorado. O público (ainda chegando e mais excitado por estarem a horas do show dos Stones) arruma cervejas, paquera, namora, conversa e prontamente ignora Terry Reid durante todo o seu set - uma reação do público que irá se repetir durante quase toda a excursão. Depois de Terry entra BB King e sua banda. De muito mais renome e relevância, o público responde como se espera, dando atenção e curtindo entusiasticamente sua apresentação.

Após o seu set, entraram então os Rolling Stones para uma casa consideravelmente cheia, embora não lotada. Quanto ao primeiro show da excursão, pode-se afirmar que mesmo estando um pouco frios e enferrujados, ainda assim os Rolling Stones conseguiram levantar o público com um show empolgante. Mesmo depois de tanto tempo, os Stones comprovam que ainda são os Stones e que Jagger ainda consegue entreter e segurar a atenção de uma casa cheia. Depois do show, voltam para o Holiday Inn para o pernoite. Dia seguinte, estão novamente no aeroporto voltando para L.A. Começa a longa rotina.

Idolatria de L.A.

Ike & Tina Turner, 1969
Ike & Tina Turner, 1969

É claro que o show em Denver foi apenas para esquentar a banda. A primeira apresentação pra valer será em Los Angeles, pois a atenção que o show receberia da mídia será de extrema importância para o sucesso financeiro do restante da excursão. No Forum de Los Angeles, depois das apresentações de Terry Reid e BB King, tocariam ainda Ike & Tina Turner com sua banda The Kings of Rhythm e mais The Ikettes, seu coro feminino. Pouco depois deste set, entraram os Stones realizando um concerto perfeito. Haverá, nesta tarde, dois shows e os músicos aguardam enquanto não é hora para se apresentarem novamente. São entretidos pelo enxame de gente que apareceu nos bastidores, todos de alguma forma portando passes especiais que davam acesso às áreas reservadas.


Apesar dos atrasos gerais demonstrados pela organização do espetáculo, Mick e Keith fizeram o público esperar ainda mais enquanto ficavam batendo papo e carreiras, até se sentirem prontos e devidamente inspirados a tocar. A demora tomava proporções históricas com o passar das horas: a platéia vaiando agressivamente, ultrajada pelo insulto, especialmente considerando o alto custo dos ingressos. Somente às cinco da matina os Rolling Stones foram finalmente entrar no palco. Mick usava um chapéu com as cores americanas, típico dos cartazes do 'Tio Sam'. A presença da banda acorda o público e espanta o peso do cansaço em todos. Mick sorri e fala com o público: "Aqui estamos. Podem acordar. Esperaram tanto, portanto podemos ficar aqui tocando por bastante tempo." O público entra em delírio gritando e aparentemente tudo está perdoado. Keith ataca então com o riff inicial de "Jumpin' Jack Flash" e o concerto começa.

Os dois shows desta noite renderiam $275.000 de lucro para a banda, um recorde nunca imaginado como possível antes. Bill Graham, conhecido promoter da Califórnia, responsável pelos shows no Forum de LA e no Coliseu de Oakland, veio depois falar com Mick Jagger sobre o atraso abusivo do segundo show. Bill Graham pagou-lhe um esporro que Jagger não estava esperando receber. Jornais posteriormente citariam Graham dizendo: "Mick Jagger pode ser o melhor 'entertainer' do rock no momento, mas ele é um egocêntrico bastardo!"

Entrevistas e Shows em Oakland

No dia seguinte, nove de novembro, um domingo, seguiram à tarde para Oakland onde se apresentariam no Oakland Coliseum, hospedando-se no Edgewater Inn durante a tarde. No hotel, houve uma reunião com a imprensa onde pela primeira vez os Stones encontram jornalistas mais jovens com perguntas menos vazias. Perguntas começam a surgir sobre a possibilidade de um show de graça para os fãs que não puderam pagar o ingresso caro.

Na verdade, esta idéia de os Stones oferecerem um show gratuito vira e mexe surge desde que chegaram em Los Angeles. Nos Estados Unidos, o filme "In The Park," que documenta o show gratuito dos Stones em Londres realizado em junho no Hyde Park, foi ao ar em setembro como um programa especial do "Ed Sullivan Show". Desta maneira, a possiblidade de um Hyde Park americano estava no desejo coletivo. Caso a excursão se mostrasse lucrativa como as projeções afirmam, seria uma maneira agradável de agradecer ao país pela grande assistência no equilibrio das finanças da banda, pondera Jagger.


Em contraste à postura ativista que Jagger possuía alguns anos atrás, o outrora "voz da sua geração" esquivava agora de perguntas ligadas a discursos politicos em prol do Movimento Jovem, também chamado de Movimento Pacifista. Mick procura deixar claro que os shows não são para intelectualizar e encerra a entrevista coletiva daquela tarde afirmando que os Rolling Stones querem que o público relaxe e, se desejar, pode até dançar.


É interessante refletir sobre os comentários dos rapazes quando questionados sobre as diferenças que sentiam entre esta e a última excursão três anos antes. Keith prontamente respondeu que "antigamente as meninas tinham doze ou treze anos. Fico pensando, onde foram parar?" Mick, concordando, complementa que o público está bem mais sofisticado e disposto a ouvir a música e não só gritar em histeria. Isto, para eles, é uma surpresa positiva, pois incentiva a banda inteira a tocar melhor. De fato, a grande diferença desta excursão para qualquer outra que a banda tenha feito na primeira metade da década é a quantidade de gente jovem largada, sem hora pra voltar para casa. Groupies de dezessete anos que querem todo sexo, drogas e rock que esses roqueiros pudessem lhes oferecer. Até mesmo a equipe profissional ficou mais jovem, mais cabeça aberta, mais 'hip'. Antes, jornalistas eram geralmente calvos, invariavelmente usavam ternos e não entendiam nada desta "nova" música meio tribal que era o rock. Agora, via-se jornalistas cabeludos fazendo perguntas pertinentes ao trabalho individual de cada banda.

É claro que os Stones, sendo do tamanho que eram, atraíam todo tipo de imprensa, não só os jornalistas especializados. Outra pergunta que se destacou, fê-lo pelo equívoco contido nela. Alguém (provavelmente um jornalista calvo e de terno), olhando suas anotações, perguntou ao líder dos Rolling Stones quanto tempo ele levou para aprender a tocar a cítara. Mick educadamente respondeu apenas que ele não toca este instrumento, sem dar maiores explicações.

Okland Coliseum


O show de Oakland começou com apenas cinco minutos de atraso por parte dos Stones, mas quarenta minutos de atraso total segundo o cronograma divulgado. O público inquieto pela demora fica disposto a um comportamento menos que ideal. Porém, eventos conspiravam contra o show, tornando este um dos menos memoráveis da história do grupo. Afinal de contas, para uma banda que se diz "A Maior do Rock And Roll", o mínimo que se espera é que leve para o palco equipamento que funcione.

Contudo, foi logo durante a segunda música que o amplificador de Keith quebrou. Mick passa a brincar com o público enquanto Ian Stewart tenta concertar rapidamente a peça defeitosa. Os demais músicos apenas assistem e esperam para poderem continuar o show. Para quebrar a impressão vexaminosa que se instala, Keith e Mick pegam um banquinho cada um e iniciam o set acústico mais cedo, começando por "Prodigal Son". Depois de três números e o amplificador diagnosticado como já consertado, os banquinhos somem e Keith dá o primeiro acorde de "Carol", cheio de fome por volume. O amplificador explodiu e desta vez não houve concerto, deixando o guitarrista tão frustrado quanto furioso. Sua reação é de dar uma machadada no amplificador com sua guitarra, quebrando seu Les Paul Custom sem remorsos. Durante tudo isso, a banda continuou tocando feito trem lotado que não pode parar, enquanto Keith grita para o Ian ou Sam ou alguém para aparecer com outra guitarra. No final da canção, Mick novamente se desculpa ao público pelas dificuldades com os equipamentos. Ao tocar "Satisfaction", o público avançou sobre o palco e uma câmera que filmava o show foi quebrada. A banda teve que pagar o prejuízo.

Nos bastidores, Sam Cutler e Bill Graham, responsável pelo estabelecimento, estão à beira das vias de fato. Não concordam de como o controle do público está sendo feito, cada um acusando o outro de ser o responsável. No fim, Cutler exige pagamento adiantado imediatamente ou a banda não faz o segundo show. Furioso, Graham vai até o escritório e preenche um cheque. Não entrega para Cutler, mas encurrala Mick Jagger em um canto e desabafa toda sua fúria sobre ele. Graham, aos berros, indaga se o cantor tem alguma idéia do que as pessoas que trabalham para ele estão fazendo. Acusa então Jagger de estar vivendo ainda em 1966 (e as coisas mudaram). Novamente, a falta de profissionalismo dos Rolling Stones é criticada e, segundo Graham, "chega a ser perigosa." Graham encerra o assunto entregando a Jagger o cheque dizendo que ele pode voltar para Inglaterra e só retornar aos Estados Unidos quando estiver trabalhando mais profissionalmente.

Sugestões de Scully


Em outro ponto da área reservada, após o primeiro show, o empresário do Grateful Dead, Rock Scully, está conversando sobre detalhes necessários para um show de graça no parque. The Grateful Dead havia feito tais tipos de concertos, embora o poder de atração do Dead fosse reconhecidamente ínfimo se comparado ao dos Stones. Scully explicava que o "Be-In", ou seja, o local para "se estar", promovido pelo Grateful Dead foi freqüentado por uma massa humana que teve comportamento pacífico, como esperado. O evento fora realizado no Golden Gate Park e como segurança, no lugar da polícia, capaz de criar desconfianças mútuas e um astral ruim para o evento, optaram com sucesso por contratarem os Hells Angels de San Francisco. Os Angels, explicava Scully, tem um forte código de honra.

Para o segundo show da noite, Rock Scully havia providenciado o empréstimo de novos amplificadores, equipamentos do Grateful Dead, e o show transcorreu sem maiores incidentes técnicos.

O grande atraso desta vez foi causado por BB King, que chegou ao local do show bem depois da hora, fazendo com que o segundo show que começaria às 10:30 iniciasse às 1:15. Assim, os Rolling Stones só começariam a sua apresentação às 2:30 da manhã. Assistindo em algum lugar da platéia, havia um rapaz com um microfone direcional apontado para os alto falantes e conectado a um gravador de rolo portátil escondido em uma bolsa. Em questões de semanas, nasceria o primeiro disco pirata ao vivo em estéreo com qualidade de som perfeita. Nascia em 1969, a era da pirataria no rock.

The Midnight Rambler

Esta é a primeira vez que esses garotos estão ouvindo este tema tão peculiar chamado "Midnight Rambler." A canção oferece a temática mais estranha de todas as canções da banda, desde "Sympathy For The Devil". Conta a história fictícia de um assassino que mata em série (em inglês, "serial killer"). Jagger se inspira nos assassinatos realizados na cidade de Boston entre 1963 e 1964 por Alberto de Salvo, que passou a ser conhecido como "The Boston Strangler". Durante a canção, Jagger interpreta e encena o papel de um Midnight Rambler. Trata-se de uma variação de sua nova persona, agora melhor burilado, adquirida após sua experiência filmando "Performance". Jagger retira seu grosso cinto e de joelhos, chicoteia o chão, como quem castiga sua presa. No caso, cada um dos ouvintes, individualmente. À cada chicotada vem um grito, que vem acompanhado de uma nota aguda na guitarra e um "Oh yeah!" digno de um negão cantando o blues.


Fotos ao lado: Sharon Tate e Roman Polanski em 1969, e a luxuosa residência do casal, onde ocorreu o crime.

Com a estranha série de assassinatos recentemente acontecidos em Los Angeles, a canção está mais do que atual, falando ao coração de uma cidade intranqüila com as mortes de Sharon Tate e amigos. Mortes com visíveis demonstrações de crueldade, ainda sem solução ou suspeito por parte da policia. Levaria quase um ano até que as ocorrências fossem devidamente explicadas e um hippie insano chamado Charles Manson, e mais seu pequeno grupo de seguidores (que auto proclamam-se de "a família"), fossem presos.


Did you hear about the midnight rambler

Everybody got to go
Did you hear about the midnight rambler
The one that shut the kitchen door
He don't give you a hoot of warning
Wrapped up in a black cat cloak
He don't go in the light of the morning
He split the time the cock'rel crows

Talkin' about the midnight gambler
The one you never seen before
Talkin' about the midnight gambler
Did you see him jump the garden wall
Sighin' down the wind so sadly
Listen and you'll hear him moan
Well, talkin' about the midnight gambler
Everybody got to go

Did you hear about the midnight rambler
Well, honey, it's no rock 'n' roll show
Well, I'm talkin' about the midnight gambler
Yeah, the one you never seen before

Oh don't do that!

Well you heard about the Boston...
It's not one of those
Well, talkin' 'bout the midnight...sh...
The one that closed the bedroom door
I'm called the hit-and-run raper in anger
The knife-sharpened tippie-toe...
Or just the shoot 'em dead, brainbell jangler
You know, the one you never seen before

So if you ever meet the midnight rambler
Coming down your marble hall
Well he's pouncing like proud black panther
Well, you can say I, I told you so!
Well, don't you listen for the midnight rambler
Play it easy, as you go
I'm gonna smash down all your plate glass windows
Put a fist, put a fist through

Did you hear about the midnight rambler
He'll leave his footprints up and down your hall
And did you hear about the midnight gambler
And did you see me make my midnight call your steel-plated door!

And if you ever catch the midnight rambler
I'll steal your mistress from under your nose
I'll go easy with your cold fanged anger
I'll stick my knife right down your throat, baby
And it hurts!

Quando começam a executar "Sympathy For The Devil", a platéia entra em erupção e, perto do final, o empurra-empurra em direção ao palco aumenta assustadoramente. Um guarda toma um soco no rosto por um homem que queria muito subir no palco. Jagger, sentindo o inicio de uma invasão, pede que as luzes sejam acesas. Todavia, de pouco isto ajudou. Logo a polícia e seguranças estão por toda parte tentando conter o tumulto. Os ânimos serenam com o set mais acústico do show. "Prodigal Son" e "You Got To Move", agora inserido no repertório, em um palco com somente Keith tocando um Dobro (aquele violão com corpo metálico), enquanto Mick canta, Charlie e os demais reassumindo depois em "Love In Vain". O repertório segue com "Under My Thumb" ("Let It Bleed" ficando mesmo de fora) e os demais números do show, fechando com "Street Fighting Man." Em dado momento, perto do final, como passa a fazer todas as noites, Jagger joga um balde cheio de pétalas de rosas para a platéia à sua frente.


No jato particular alugado, todos conversavam amenamente durante a viagem de volta. Nele estão os cinco Rolling Stones, Shirley (a esposa de Charlie Watts), Rose e Astrid (as namoradas de Mick Taylor e Bill Wyman), Jon Jaymes (o contratado pela Crysler) e o seu assistente Michael Lydon, o fotógrafo Ethan Russell, o escritor Stanley Booth, Jo Bergman e mais algumas outras pessoas com funções variadas. Entre convidados sem função explícita, estão as duas groupies de plantão Kathy e Mary, mais uma loira que Jagger havia arrumado pelo caminho. Quando esta loira fosse finalmente dispensada, Mick se deliciaria com a companhia de uma das Ikettes.

Uma vez com altitude suficiente e as luzes de "proibido fumar" apagadas, vários baseados foram acesos. Dentro de um jato minúsculo, até quem não fumava, como por exemplo o piloto e co-piloto, deveriam estar pelo menos levemente intoxicados. Cansados, até Charlie deu uns tapinhas quando alguém ofereceu-lhe a vez.

Findando A Primeira Metade do Tour

Mick Jagger, Sam Cutler, Keith Richards e Stanley Booth em um cassino em Las Vegas
Mick Jagger, Sam Cutler, Keith Richards e Stanley Booth em um cassino em Las Vegas

A primeira parte da turnê continuava pelo oeste americano. Rose e Shirley retornam para Londres enquanto apenas Astrid seguira junto com Bill por toda a excursão. Os próximos shows seriam em San Diego e Phoenix, onde depois do show voaram para Las Vegas e curtiram cassinos até o amanhecer.

Sem dormir, retornam para Los Angeles com um dia de folga antes de seguirem para Dallas, Auburn e Chicago. Então, retornam pela última vez para Los Angeles. Durante estas apresentações, no lugar de Ike & Tina Turner e BB King, quem se apresentou após Terry Reid foi Chuck Berry. Outra mudança foi no show dos Rolling Stones, que ficara mais enxuto, a banda tirando a canção "I'm Free" do repertório.

Módulo Lunar do Apollo XII iniciando aterrissagem na face da Lua
Módulo Lunar do Apollo XII iniciando aterrissagem na face da Lua

Enquanto os Stones voavam em direção ao estado do Alabama, não muito longe dali, em Cabo Canavial, o foguete espacial Apollo 12 decolava levando seus três astronautas Charles Conrad Jr., Richard F. Gordon Jr. e Alan L. Bean em direção à lua, com a intenção de pisarem naquele satélite natural pela segunda vez na história da humanidade.

Em Auburn, cidade universitário no Alabama, houve dois shows no Auburn University, ambos com casa quase vazia. Souberam depois que haveria um grande jogo de futebol americano no dia seguinte e os alunos com pouco dinheiro tiveram que optar entre os dois programas. Não havia um rosto negro entre o público.


Durante o show do Chuck Berry, alguém pediu para ouvir "Wee Wee Hours", lado B de "Maybellene", seu primeiro hit. Berry se espantou com o pedido. "Vocês querem ouvir blues?". Um grupo de entusiasmados respondeu que sim e Chuck esqueceu seu repertório roqueiro e seguiu tocando blues. Depois voltou para o repertório normal, estendendo seu show muito acima do tempo combinando e deixando algumas pessoas dentro da comitiva dos Stones irritados.

Argumentou-se depois que poderiam ter feito mais dinheiro tocando em outro lugar. Mas a política dos Stones, afora a questão lucro, era em parte tocar em locais novos, e de preferência em universidades. Depois deste show, pegaram um avião em direção de Champagne, cidade situada no sul de Illinois, para se apresentarem em outra universidade.


Durante este dia, um protesto contra a Guerra do Vietnam se realizava pacificamente em Washington DC. A capital americana é agora detentora do maior registro de participantes em uma manifestação política na história da nação, quando fotos aéreas demonstram uma contagem de mais de 300 mil pessoas, na maioria jovens, marchando pelas ruas adjacentes à Casa Branca. O Movimento Jovem, sem nenhum líder absoluto, consegue uma aglomeração de pessoas em protesto ainda maior do que o Movimento dos Direitos Civis - recorde anterior, quando liderados pelo falecido pastor Martin Luther King Jr., em 1963.

Em Chicago, a banda se apresentou no mesmo local onde, no ano anterior, houve um grande confronto entre a polícia e jovens. Estes últimos protestavam contra o partido Democrático e o envolvimento do país na Guerra do Vietnam. Abbie Hoffman, líder jovem e membro do partido Yippie, contra a guerra e a política externa do Governo Nixon, estava sendo processado por incitar desordem.

Jerry Rubin, o advogado de defesa Dave Dillinger e Abbie Hoffman
Jerry Rubin, o advogado de defesa Dave Dillinger e Abbie Hoffman

Hoffman foi ao show dos Stones com a esposa e, antes da apresentação da banda, conversou com Mick Jagger, que demonstrou interesse em conhecê-lo. Hoffman não pensou duas vezes em pedir dinheiro para ajudar a pagar as despesas de seu processo. Jagger, com bom humor, apenas riu comentando que ele precisa pagar seus próprios processos. Hoffman sorriu e disse que estaria em Los Angeles para a próxima apresentação da banda lá, no dia 20.

Na viagem de volta, Charlie lamentava não poder ficar algumas noites em Chicago. Os Stones teriam, dentro dos próximos oito dias de folga, que gravar uma participação no "Ed Sullivan" e fazer outro show no Forum de Los Angeles. Durante a gravação para o "Ed Sullivan Show", enquanto os Stones se apresentavam para um playback de "Honky Tonk Woman", "Love In Vain" e "Gimmie Shelter", uma das groupies de plantão Kathy, cuja função oficial era de motorista, explicava como Mick Jagger era sincero e agradável quando sozinho com ela, mas como ele se tornava o persona - Mick Jagger "astro" - quando outra pessoa entrava no quarto. Sua exposição de fatos encerraria com a conclusão de que, embora aguardasse a oportunidade de voltar a se deitar com Keith Richards, desta turma toda, o melhor sexo, sem dúvida, era de Terry Reid.

Parte 30 - Madison Square Garden

Durante a gravação para o Ed Sullivan Show, enquanto os Stones se apresentavam para um playback de "Honky Tonk Woman", "Love In Vain" e "Gimmie Shelter", uma das groupies de plantão Kathy, cuja função oficial era de motorista, explicava como Mick Jagger era sincero e agradável quando sozinho com ela, mas como ele se tornava o persona - Mick Jagger "astro" - quando outra pessoa entrava no quarto. Sua exposição de fatos encerraria com a conclusão de que, embora aguardasse a oportunidade de voltar a se deitar com Keith Richards, desta turma toda, o melhor sexo sem dúvida era de Terry Reid.

De Bobeira em L.A.


Com a casa de Laurel Canyon tendo sido entregue, os dois Micks, J e T, mais Keith, se mudaram para a casa dos Du Ponts onde Charlie estava hospedado, este agora sem a mulher e filha. Na primeira tarde de folga da excursão Gram Parsons aparece trazendo consigo uma tora de haxixe cuja fragrância passou a se misturar no ar com o incenso patchouli. Em um momento de descontração, Charlie coloca alguns discos de jazz na vitrola, seguidos depois pelo primeiro EP dos Stones. Sem perceberem, o disco foi atraindo a atenção e companhia de Keith, Gram e Mick T, os rapazes gradualmente vindo se sentar ao redor da vitrola, todos ouvindo com atenção.

Charlie, sem a companhia de Shirley, estava visivelmente tristonho. Olha meio que para o vazio e pergunta em voz alta, "O que aconteceu com Brian?". Keith responde: "O cara se queimou". Após uma leve pausa, como que revivendo em segundos as loucuras dos primeiros anos, completa: "Você sabe como ele era. Ele precisava sempre fazer mais do que todo mundo. Se a galera toma mil tabletes de LSD, ele tomaria duas mil de STP. Só para ser o maiorial". Charlie sinalizou concordando. "É uma pena. Brian conseguia tocar isso tudo sem nem se esforçar."

Com o andamento da noite, Gram pulou na sua moto e saiu para buscar um disco do Lonnie Mack que ele queria mostrar para os amigos. Enquanto ele não voltava, o pessoal passou a ouvir discos de Furry Lewis, Johnny Woods e Fred McDowell. Não demorou muito e Rock Scully apareceu, trazendo com ele Emmett Grogan, para juntos conversarem com Mick Jagger sobre a melhor maneira de se montar um show de graça em San Francisco. A hipótese de fazer um grande show gratuito torna-se, a esta altura, uma opção concreta na cabeça de Mick J. Com o mundo maravilhando o recente mega-concerto realizado a poucas semanas em Woodstock, a idéia dos Rolling Stones realizarem algo da mesma grandeza se torna extremamente atrativa para todos.

Um Woodstock Para Frisco

Notícias sobre a intenção da Warner Brothers de fazer um grande documentário sobre o recente festival em Woodstock atingem a vaidade de Jagger. Mick ainda vê a Warner com desafeto pela forma com que censuraram e destruíram o filme "Performance", ainda inédito e sem data marcada para ser lançado. Jagger tentou com "Rock 'n' Roll Circus" e "In The Park" fazer um grande filme com os Rolling Stones, porém por um motivo ou outro, nunca obteve os resultados desejáveis. O show em Hyde Park mostrou que um concerto gratuito poderia atrair uma quantidade gigantesca de pessoas. Isto sendo realizado nos Estados Unidos poderia atrair o tipo de atenção que "In The Park" não conseguiu. E um filme registrando um evento destas proporções poderia ser um instrumento excelente para divulgar o novo Rolling Stones. Melhor seria ainda, se o filme do festival dos Stones pudesse ser lançado antes que o documentário da Warner sobre Woodstock.

Jerry Garcia também apareceria para entrar na conversa, logo reforçando a idéia de que não há melhor cidade para realizar um show de graça do que San Francisco. The Grateful Dead, Jefferson Airplane e várias outras bandas da cidade já haviam feito concertos gratuitos lá desde 1966. Na verdade, foi mesmo em San Francisco, nesses Be-In's iniciados em '66, que nascera a idéia do concerto gratuito ao ar livre, concepção que com Monterey Pop e o mais recente Woodstock, chegam a sua fase mais popular. Há um sentimento geral entre os hippies da cidade, e jovens da costa oeste em geral, que Woodstock deveria ter ocorrido em San Francisco, e que a comunidade artística da cidade estava enciumada com o êxito do festival realizado no estado de Nova York. Enfim, San Francisco anseia por oferecer à sua população um festival tão grande, tão representativo ou mais, do que Woodstock havia se transformado.

Além de todas as outras boas razões para os Rolling Stones fazerem este concerto gratuito, Jagger vê a realização deste evento especial como um excelente final para um novo filme. Solicita então que Jo Bergman e Ronnie Schneider encontrassem alguém que estivesse disponível para filmar os últimos shows da excursão e mais este concerto gratuito. Por causa do pouco tempo disponível, eles só retornariam ao assunto em Nova York, onde então os contatos deveriam estar prontos para serem assinados.

A Noite Continua no Du Pont

A reunião com Mick Jagger já havia encerrado quando Parsons retornou à residência dos DuPont com seus discos. A primeira coisa que ele procurou foi o haxixe, mas não estava mais no lugar onde ele havia deixado. Keith o ajudou a vasculhar a sala e os quartos, porém foram obrigados a concluirem que alguém, possivelmente Scully, havia levado consigo a tora. Para aliviar Gram do sentimento de perda, Keith espalhou algumas gramas de cocaína sobre a capa de um disco de Buck Owens e pronto, não se falou mais em haxixe.

Gram Parsons e Keith Richards
Gram Parsons e Keith Richards

Embora faltasse pouco para meia-noite, o movimento da casa estava intenso, quase em ritmo de festa. Estavam presentes Kathy e Mary, Jo e Ronnie, Sam e Tony, além dos Stones, exceto Wyman. Chegaram também algumas outras meninas, e entre estas estava Linda Lawrence. Bebidas rodavam a sala, como também ocasionais baseados. Gram e Keith sentaram ao piano e começaram a tocar e cantar uma série de canções country.

Linda em Los Angeles

Linda Lawrence e Julian Mark
Linda Lawrence e Julian Mark

Linda Lawrence atravessou um período difícil e tumultuado para conseguir conviver com o fato do amor de sua vida não mais lhe querer. Porém, através de um amigo em comum, Linda conheceu e passou a namorar Donovan durante parte do ano de 1967. Ainda apaixonado por Brian, se assustou com seus sentimentos por Donovan, o que levou Linda a fugir para a Califórnia em 1968, onde passou a trabalhar com uma amiga como sócia em uma loja de roupas. Donovan, por sua vez, triste pelo rompimento repentino, acabou optando por ir à Índia, em um retiro espiritual em Rishikesh com o Maharishi Mahesh Yogi.

Com Linda nesta noite, neste reencontro, estava seu filho, Julian Mark Jones, que brincava alegremente com um balão colorido que trouxera. Difícil olhar para Julian e não reparar o rosto, o cabelo, as mãos e os olhos de seu pai, Brian Jones.

Antes de Retornar ao Batente

Depois de passar quase três dias acordado cheirando cocaína, Keith passa o resto dos dias de sua folga dormindo. Ele havia composto uma canção com pedaços de uma letra ainda incompleta. Apresentando a canção para Mick, Keith fala da origem de sua inspiração nascendo de sua angústia por ter que deixar Anita e o recém nascido Marlon em Londres para vir fazer esta excursão nos Estados Unidos. Incumbido de compor uma letra para a canção, Mick leva muito tempo para conseguir inspiração. No entanto, foi durante algum momento desta folga que Mick acabou escrevendo a letra para a canção de Keith. Amargurado com o fato de Marianne ter ido morar com Mario, a letra acabou fugindo do romantismo inicialmente imaginado. Sem deixar de ser uma canção que celebra o amor de um homem e uma mulher, ela se mostra porém, claramente um amor amargurado. A canção que nasce desta união de forças e relacionamentos entre Mick e Keith com suas respectivas, é "Wild Horses."

A Segunda Metade do Tour

Dia 28 começa a segunda metade da excursão com dois shows em Detroit, que serviram para novamente esquentar a banda para os shows na costa leste. De Detroit seguiram direto para New York, onde o grupo e toda a equipe se hospedou no Plaza, ao lado do Central Park. Esta seria agora a nova base para a banda e comitiva. BB King e seus músicos voltaram a abrir para os Stones pelo restante da excursão americana. Em Detroit, alguém da equipe de Chip Monck encontrou em uma loja um disco pirata contendo a gravação de um show recente dos Stones realizado na Califórnia. O rapaz comprou o disco e o levou diretamente para as mãos de Mick Jagger.


Houve muita discussão sobre o fato de ser possível um disco ao vivo da turnê estar disponível nas lojas antes mesmo da excursão chegar em sua metade. Isto era uma situação totalmente nova e deixou todos perplexos. O disco, com o instigante título de "Live R Than You'll Ever Be", traz a apresentação dos Rolling Stones em Oakland, sendo historicamente o primeiro disco pirata ao vivo totalmente em estéreo. Para arrasar a moral ainda mais, o pirata oferece uma qualidade auditiva próxima da perfeição.

Mick, Ronnie, Jo e Keith contemplavam a possibilidade de alguém da equipe ter gravado secretamente da mesa de som e vendido a fita na Califórnia. Desconfianças recaíram sobre Glyn Johns e depois sobre Bill Graham, que estava filmando o concerto e poderia também ter seu pessoal gravando de alguma forma sem ser percebido pelos membros da equipe de som. O que mais perturbava era a qualidade sonora do disco. Sem chegar necessariamente a nenhuma conclusão especifica, passou-se a vigiar mais austeramente a entrada do público. É assim começou o que se tornaria padrão até hoje, ou seja, a observação do que as pessoas traziam com eles para dentro do auditório.

Assim, Ronnie Schneider confisca um gravador portátil de um rapaz na saída da arena, ficando com sua fita. Nas mãos de Jagger, a fita confirma a primeira impressão dada pelo disco pirata, isto é, que os shows desta excursão estão valendo o dinheiro do ingresso, a banda perfeitamente engrenada. Conclui-se que sem Brian Jones, os Rolling Stones se tornaram outra banda, com um poder de explosão ainda maior. Justiça seja feita, a qualidade sonora dos equipamentos modernos, e casas preparadas com maior ciência e infra estrutura, não são páreo para comparação com aqueles tempos das primeiras excursões dos Stones. Tempos estes vistos por alguns como mais românticos, porém infinitamente mais precários.

Marianne, Mario e Nicholas

Marianne e Nicholas em Roma
Marianne e Nicholas em Roma

Durante toda a excursão, apesar dos assuntos paralelos que exigiam as atenções de Mick, ele sempre conseguiu achar tempo para ocasionalmente ligar para Londres e conversar com Marianne. Existe ainda por parte dele muito amor pela Marianne, porém ela não está mais interessada. No fundo, ela já deseja um enredo diferente para sua vida. O relacionamento entre os dois está morto. Logo ela e Nicholas estariam se mudando de Cheyne Walk, onde residiam com Jagger, e passariam a morar em Roma, com Mario.

Documentando os Shows

Uma vez em Nova York, com a ajuda de Jo e Ron, Jagger coordena os detalhes finais para o filme a ser feito. Enquanto a excursão estava em andamento, contatos foram feitos com vários diretores de cinema. Inicialmente tentaram contratar Haskell Wexler, diretor do filme "Medium Cool", no entanto este declinou o convite. Outra opção tentada foi D.A. Pennebaker, responsável pelo filme "Monterey Pop Festival", todavia não conseguiram entrar em um acordo. Pressionado pela falta de tempo, uma vez que contam com apenas cinco dias para encerrar a excursão, não houve tempo de preparar todos os pormenores. Na reunião em Nova York, Jo e Ron apresentam a Jagger, para a vaga de cineasta, os irmãos Albert e David Maysles.

Contratados pela Rolling Stones Promotions, os irmãos Maysles vão assistir às apresentações que faltam antes das datas em Madison Square Garden, para conhecer os detalhes do show antes de começarem a filmar. As instruções recebidas foram de que o filme deveria registrar o melhor dos três shows no Madison Square Garden, sendo o grand finale da película imagens do show gratuito a ser realizado em San Francisco.

Começando Com Pé Esquerdo

Durante a mais importante entrevista coletiva desde Los Angeles, Mick Jagger anuncia a intenção da banda tocar de graça em San Francisco, no Golden Gate Park, provavelmente no dia 6 de dezembro. Jagger comenta durante o anúncio, como se fosse um mero detalhe, que a data e local ainda teriam que ser confirmados. Esta declaração se mostraria um erro tático absurdo, pois as autoridades de San Francisco sequer haviam sido contactadas para negociar a viabilidade do evento. Com a notícia de um concerto gratuito se espalhando rapidamente pelas rádios e TV's, uma grande horda de jovens passaram a viajar em direção à cidade. A prefeitura naturalmente ficou enfurecida pela arrogância de Jagger em decidir unilateralmente algo que necessariamente necessitava do seu envolvimento (e aprovação) para ser realizado. Iniciava-se então um pequena atrito entre as partes, cada vez mais alimentado pela imprensa que transformava tudo ligado aos Rolling Stones em sensacionalismo.

Madison Square Garden


Os cinco integrantes dos Stones e pessoas da cúpula interna foram de Lear Jet para Baltimore enquanto o resto da equipe viajou de ônibus. Em mais um show empolgante, Baltimore seria a primeira cidade em que o público negro era visivelmente maior em relação à população branca. "I'm Free" volta ao repertório e "You Got To Move" é agora adicionada. Os Stones continuam atrasando o início de todas as apresentações e a fama de arrogância de Mick Jagger e da banda é largamente unânime entre gente da imprensa e pessoas ligadas à promoção de espetáculos na América.

Mas seria em Nova York, no Madison Square Garden, que o ápice da excursão se desdobraria. O primeiro entre três shows realizados em dois dias se dá no dia de Ações de Graça, o chamado Thanksgiving Day, feriado nacional mais importante do país depois do Dia da Independência. Nas áreas reservadas dos bastidores circulam luzes e equipe de filmagem, andando livremente, local onde Mick têm sua primeira conversa com os irmãos Maysles, onde procura deixar claro que não quer ter de se preocupar em ser um ator neste filme, pois suas energias precisam se manter direcionadas exclusivamente para o show. O filme segue assim mais claramente em passo de documentário, registrando apenas o que acontece e nunca planejando o que vai acontecer para então ser filmado.

Amigos VIP

Mick Taylor e Jimi Hendrix nos bastidores antes dos Stones subirem ao palco
Mick Taylor e Jimi Hendrix nos bastidores antes dos Stones subirem ao palco

Ainda nos bastidores, as câmeras estão rodando, mostrando Mick Jagger, Mick Taylor e Jimi Hendrix juntos. Jagger sai de cena para se maquiar enquanto Taylor oferece uma guitarra para Hendrix, que primeiro comenta ser canhoto, sendo necessário mudar a posição das cordas do instrumento, tendo em seguida virado a guitarra e tocado-a de cabeça para baixo. Jagger aguardara para este dia a chegada de Marsha Hunt vinda de Londres. Ele se despediu de Bebe Buell, uma groupie ainda menor de idade com quem estivera dormindo as últimas noites e ainda no banheiro, enquanto se aprontava, Marsha Hunt aparece. Feliz por vê-la, não foi difícil perceber seu ar sério. Marsha veio para lhe contar que estava grávida e que Mick era o pai.

Tina Turner & Janis Joplin
Tina Turner & Janis Joplin

Mais tarde, enquanto Jagger e os demais Stones estavam nus e seminus, trocando de roupa, Janis Joplin invade o banheiro, dá um sorriso sacana e em seguida é retirada pela segurança. No palco, Terry Reid e BB King já haviam feito seus shows e Ike & Tina Turner estavam se apresentando. Janis foi para o canto do palco assisti-la dali. Em meio à canção "Land of 1000 Dances" Tina percebe a presença de Janis e a chama para o palco. Juntas, Tina e Janis cantam o restante da canção enquanto o público aplaude efusivamente. Tina e Janis continuaram dançando nos bastidores, divertindo-se mutuamente com a companhia uma da outra.

Enquanto Mick e Keith cheiravam cocaína trancados em algum quarto secreto, o público e o resto da banda aguardavam. A espera, em parte, era para que a poeira levantada pela impressionante apresentação de Tina Turner assentasse e para o público poder então descansar os ouvidos antes da entrada dos Stones. Tática normal e aceitável dentro desta indústria. No estacionamento interno do prédio, um caminhão com um estúdio móvel estava preparado com mesa e máquina de gravação, só esperando chegar o sinal para começarem a gravar. Pilotando a mesa de som estava Glyn Johns.

Nesta noite a demora foi mínima e desta forma, como ficou eternizado posteriormente em vinil, ouviu-se a voz de Sam Cutler perguntando "Everyone seems to be ready. Are you ready?" (Todo mundo aparenta estar pronto. Vocês estão prontos?) Com a resposta afirmativa da platéia ele então segue "Pela primeira vez em três anos, a melhor banda de rock 'n' roll do mundo, the Rolling Stones!" O público rompe em euforia e a banda rapidamente entra e toma seus lugares. Em segundos, Keith estava atacando com o riff inicial de "Jumpin' Jack Flash."

Nova Iorque é o estado onde havia sido realizado o festival de Woodstock menos de três meses antes. Havia então nesta cidade, neste período, a vivência e a conclusão de que música pode realmente ser a pedra base para uma sociedade pacífica e cooperativa. Esta mentalidade e este estado de espírito geral nunca mais se repetiriam depois do concerto em Altamont, que seria realizado dentro de uma semana.

Mick Taylor, Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Bill Wyman
Mick Taylor, Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Bill Wyman

O público que lota a gigantesca arena consegue enxergar o palco, apesar da fumaça espessa de fumo que cobria o local. Jagger mantinha sobre um dos amplificadores uma garrafa de Jack Daniels quase vazia, onde de vez em quando ia molhar a garganta. Jimi Hendrix, não muito longe, posicionado atrás do amplificador de Keith, assistia ao que chamaria posteriormente de "sopão de rock 'n' roll" que os Stones serviam. Quando Mick anuncia outra música nova, "Won't You Live With Me", Janis Joplin grita a plenos pulmões, "Você não tem culhão pra isso!" rindo de si mesmo em seguida. Perto do final do show, copinhos de Q-Suco com LSD estavam sendo distribuídos entre o público, não se sabe exatamente vindo de onde. Mick joga o balde com pétalas de rosas ao público e pouco depois toda banda está deixando o palco, indo direto para as limousines que já aguardavam. De lá foram direto para o hotel, atravessando as ruas de Manhattan à toda velocidade.

Programas

Depois do show e da chuveirada no hotel, Mick Jagger sai para uma festa na casa de Jimi Hendrix. Bill Wyman e a namorada Astrid fazem um programa muito particular, enquanto Mick Taylor, Charlie Watts, Keith Richards e mais alguns amigos vão ao bairro de Greenwitch Village assistir uma banda de jazz.

Tony Williams Lifetime
Tony Williams Lifetime

A indicação foi para ir a um clube chamado Slug's onde puderam assistir The Tony Williams Lifetime, trio de jazz fusion que compreende John McLaughlin na guitarra, Larry Young nos teclados e Tony Williams na bateria. Charlie e Keith ficam pasmos com o que ouviram deste trio, que experimentava sons bem diferentes e mudava o compasso e tema a cada dois minutos. Quando o sol ameaçava amanhecer os amigos resolvem ir embora.

Mick J já havia retornado da festa, trazendo consigo Devon Williams, namorada de Jimi Hendrix. Uma espécie de vingança particular de Jagger sobre Hendrix por este tentar levar Marianne alguns anos antes. Keith riu muito quando soube, sentindo-se igualmente vingado, uma vez que sua antiga namorada Linda Keith o largara para ficar com Jimi em 1966. Keith, ao chegar no seu quarto de hotel, está acompanhado de um amigo a quem quer apresentar uma novidade.

O rapaz o observa tirar de um saco cheio duas cápsulas que Keith abre e em seguida espalha o seu conteúdo sobre um espelho portátil. Keith vai explicando que este pó não era cocaína e não era para ser usado a qualquer hora, apenas de vez em quando. "Isto é heroína, cara. Muito legal!" Keith prepara as trilhas de pó, e com o seu bambuzinho dourado, dá a sua cafungada, passando o espelho em seguida para sua visita. Depois, Keith coloca uma fita de blues da década de trinta com vários artistas do quilate de Lucille Bogan, Memphis Minnie Douglas, Washington Phillips e Blind Curley Weaver, entre outros.

O Primeiro Namoro

No dia seguinte, o show da tarde seria outro sucesso e o da noite prometia. O sócio da Atlantic Records, Jerry Wexler, sua esposa e seus dois filhos foram assistir aos Rolling Stones. Sem nenhum contato oficial, recados entre Jerry e Mick estavam sendo trocados. Wexler deixa claro que ele adoraria ter os Stones na Atlantic Records, porém não gostaria de ter que trabalhar com Allen Klein. A resposta dos Stones foi de marcar uma sessão de gravação no Muscle Shoals Sounds Studio em Alabama, localizado na pequena cidade de Muscle Shoals, ao lado do Rio Tennessee. O estúdio havia sido recentemente formado pela seção rítmica do selo Fame, e vinha ganhando boa fama em produzir um som negro. A Atlantic Records estava adotando o estúdio para vários de seus artistas. O local serviria não só para os Stones gravarem alguns números já compostos por Mick e Keith mas também como um lugar onde Mick Jagger e o dono da Atlantic Records, Ahmet Ertegun, poderiam se encontrar sem muitas suspeitas.

BB King
BB King

BB King, ao final de seu set, dedica uma canção aos Rolling Stones antes de sair. Depois Mick foi conferir, das cadeiras reservadas, o show da Tina Turner. Assistiu do inicio até pouco mais da metade da apresentação quando precisou sair para se aprontar. Com um atraso que se tornou a regra, os Stones tomam o palco à meia noite. O show seguiu em ritmo de festa com o público dançando alegremente e sem maiores incidentes.

Boston

Igualmente festivas seriam as apresentações em Boston. No entanto, em Palm Beach, onde seria o encerramento oficial da excursão, salvo o show extra gratuito, aguardavam-se incidentes. Enquanto os Stones estavam em Boston, na cidade de Palm Beach estava havendo muita ação policial com vários prisões feitas à traficantes. A Guarda Nacional estava em estado de alerta e a cidade naturalmente estava tensa, com a polícia parando aleatoriamente qualquer um circulando pela rua, à procura de drogas. Com contatos telefônicos feitos, havia uma garantia por parte da prefeitura de Palm Beach, que se o festival fosse realizado na cidade, estaria transcorrendo livre e independente das demais atividades policiais nas vizinhanças.


No avião fretado de volta para Manhattan após o show de Boston, foram acesos cerca de doze baseados. Uma latinha com cocaína, acompanhada de uma pequena colher, circulou livremente para todos que estavam à bordo. Uma groupie de dezesseis anos, que sonhava em seguir os Stones desde os treze, estava comentando que ela se sentia como estando em um avião com Deus. Ela acabaria dormindo com um dos rapazes da equipe.

Contabilidade e Conversa

Em outra reunião de negócios, Mick Jagger e Ronnie Schneider conversam sobre dinheiro, contabilizando os lucros, e buscando uma estimativa com dados reais. Jagger comenta que, se pudesse, faria toda a excursão de graça. Pensa no que acabou de afirmar e contempla então a inexorável realidade de que bastaria conversar com o gerente de seu banco para perceber que não dá. "Eles sempre falam que está tudo bem até você querer comprar alguma coisa. Aí você vê que não tem o que pensava que tinha." Jagger então complementa seu raciocínio com duas frases de uma canção tirada do recente disco dos Beatles, "You never give me your money. You only give me your funny papers".

De fato, em todas as excursões dos Stones até então, a banda nunca ficara com o grosso do dinheiro. Mas Ronnie estava mostrando que desta vez, a julgar pelos números que ele tinha do início da excursão até o show de Chicago, a banda poderia esperar sair do país levando cerca de noventa a cem mil dólares líquidos. Se pudessem negociar tudo diretamente com as casas de espetáculo sem nenhum intermediário, poderiam ter conseguido ainda mais.

Enquanto os dois homens celebram a riqueza conquistada entre goles de whiskey, Jagger começa a projetar suas expectativas em relação às futuras possibilidades da banda. "Rock 'n' roll é coisa para adolescentes e os Stones como banda não poderão durar mais outros oito anos", ele deduz. Pensa um pouco e conclui em seguida que, se for possível, tentariam prosseguir com a banda, mas seria algo muito difícil de se conseguir.

Golden Gate Park Barrado

Jagger depois se retira para uma reunião particular com Jo Bergman. Nessa reunião, as notícias não são animadoras. A prefeitura de San Francisco negou a licença para permitir o uso do Golden Gate Park para o show gratuito. Alegam que não há tempo suficiente para garantirem as instalações necessárias para que o evento possa transcorrer com segurança. A lógica sugere que a história do show gratuito terminasse aí. Normalmente, teria que se desmarcar a data, possivelmente encontrar um novo local, acertar todos os pormenores legais e de segurança, para somente então tornar público o show. Mas tudo que interessa a Mick Jagger a esta altura é fazer e lançar um filme antes de Woodstock, e seu filme precisa deste festival gratuito para o seu encerramento. Desta maneira, a ordem é encontrar urgentemente outro lugar pois, "este presente para a cidade é fundamental".

Em um outro andar do hotel, enquanto a reunião se desenrola, duas meninas são levadas para conhecer os Rolling Stones. Ao chegar em um quarto, as meninas engrenam num papo com dois assistentes. Ouviu-se o seguinte diálogo, "Eu não sou uma groupie!" "Claro que não querida, mas se você quiser conhecer os Stones, você precisa mamar na minha." Depois não se ouviu mais palavras, apenas alguns leves gemidos.

Palm Beach


Foi fretado um Boeing para levar toda a equipe em um só transporte, todos à caminho de West Palm Beach. O avião teve problemas técnicos, obrigando todos a ficarem horas presos dentro da aeronave aguardando na pista a chegada de outro aeroplano. Os Stones estavam programados para subir ao palco junto com o pôr-do-sol, porém o céu já estava escuro quando o avião finalmente decolou de um aeroporto da Marinha. Em West Palm Beach, como se tratava de um festival, a versão de 1969 do Miami Pop Festival, o público esperava os Stones coroar a noite se entretendo com outras apresentações, entre as quais incluíam Jefferson Airplane, Johnny Winters e Janis Joplin.

Ao chegar em West Palm Beach, dois helicópteros vieram para levá-los até o local do festival, o Palm Beach Internacional Raceway, ao lado da praia. Por causa das recentes chuvas, o local, onde cerca de trinta mil adolescentes aguardavam o grupo, estava cheio de lama. Por causa do vento frio, os Stones subiram o palco usando jaquetas. O show tecnicamente foi o mais complicado, pois sendo ao ar livre e com um vento frio soprando constantemente sem direção fixa, o som não se espalhava uniformemente e as cordas das guitarras se recusavam a permanecer afinadas. Por outro lado, aquele oceano de garotos aturando todo o mal tempo, sem brigas, motivou a banda a vencer as circunstâncias e dar um show empolgante.

E conseguiram exatamente isto, o público se soltando, se esquentando e até dançando, seja na lama ou na areia molhada. Pularam o repertório acústico embora Mick tentou conversar com o público um pouco, parabenizando-os por estarem ali. Durante "Satisfaction" a corda Mi de Mick Taylor arrebentou mas a banda continuou tocando feito trem lotado. Antes de terminar, Mick Jagger fez questão de agradecer o que chamou de "a minoria étnica" presente ao show. "Todos os viados, todos os viciados, os caretas, os policiais..." Com isso dito, fecharam o set com "Street Fighting Man", deixando o palco às cinco da manhã, com a sensação de missão comprida. Planos imediatos eram de tomar um café da manhã, pegar um avião para Atlanta, entrar em um Holiday Inn e dormir.

Parte 31 - Altamont

Antes de terminar, Mick Jagger fez questão de agradecer à minoria étnica presente ao show. "Todos os viados, todos os viciados, os caretas, os policiais..." Com isso fecharam o set com "Street Fighting Man". Deixaram o palco as cinco da manhã, com a sensação de missão comprida. Planos imediatos era de tomar um café da manhã, pegar um avião para Atlanta, entrar em um Holiday Inn e dormir.

O Autódromo de Sears Point

Sears Point Raceway
Sears Point Raceway

Depois de lingüiça, ovos, chá e cocaína, Jo Bergman chega trazendo notícias sobre o novo local para o concerto gratuito. Seria no Sears Point Raceway que fica em Sonoma Valley, relativamente perto de San Francisco. O diretor e gerente do autódromo, vendo uma oportunidade de se promover entre o público jovem, ofereceu o local de graça. Ficou acertado então que Jo Bergman, Chip Monck e toda sua equipe iria para lá inspecionar o local e uma vez aprovado, começar a imediata construção do palco, torres de luz e etc para o show.

A excursão havia acabado e assim sendo, muita gente da equipe se despediu naquela tarde, cada um seguindo em direções diferentes. No dia seguinte, os Stones fazem baldeação em Atlanta e aterrisam na pequena cidade de Muscle Shoals. Com intenção de chocar os americanos de Alabama presentes no aeroporto, Mick dá um beijo na bochecha de Keith.

Muscle Shoals

A banda ficou hospedado no Holiday Inn da cidade vizinha de Sheffield e antes do Sol se pôr novamente, foram diretos para o estúdio. No hoje famoso Muscle Shoals Sounds Studio, localizado na Jackson Highway nº 3614, trabalharam diretamente com o dono da Atlantic Records, Ahmet Ertegun e o engenheiro de som Jimmy Jackson. Lá passaram a gravar "You Got To Move." Keith tinha uma idéia específica para o arranjo, que incluía a banda inteira e não só ele e Mick, como andaram fazendo durante a excursão. Com dificuldades para explicar para os demais exatamente como queria a canção, foram obrigados a passar horas tateando até tropeçarem na idéia mais próxima às aspirações iniciais de Keith. Ao fim do dia, a versão tinha Keith substituindo o Dobro pelo seu violão de 12 cordas, enquanto Bill Wyman encostara o baixo para tocar um piano elétrico.


Enquanto a banda ouvia o resultado final, Mick estava em um canto escrevendo a letra para outra canção que ele tinha em sua cabeça. A parte musical estava praticamente pronta e Mick estava prestes a ensiná-la no violão para Keith. A idéia para a letra estava desde o dia anterior dançando em sua cabeça, porém aparentemente só agora estava transformando-se efetivamente em palavras no papel. Quando pronto Mick, com um sorriso de satisfação, apresenta a canção para todos presentes, levando ela no violão e cantando a letra recém composta, "Brown sugar! How come you taste so good!"

Além de Ahmet Ertegun, estava presente seu sócio Jerry Wexler, que veio de Los Angeles para juntos conversarem com Mick sobre suas intenções de deixar a Decca no final de seu contrato no ano seguinte. Os irmãos Maysles, que estavam filmando as negociações para o concerto de graça, também apareceram para filmar os Stones no estúdio. Enquanto Ahmet, Jerry e Mick conversavam em uma sala sobre a migração dos Rolling Stones para Atlantic Records, Keith, que tinha várias composições prontas na cabeça, preparava em outra sala algumas idéias para arranjos com banda. Mais tarde, ainda neste dia, gravariam "Wild Horses".

Filmways

Enquanto isto, em San Francisco, a equipe de Chip Monck estava com as torres de luz montadas e a estrutura do palco a meio caminho. Mas nem todos os ventos estavam soprando à favor. O Sears Point Raceway pertencia a uma firma chamada Filmways, que por sua vez, tinha como donos outra companhia chamada Concert Associates. Depois de uma reunião entre a alta diretoria, a Filmways procurou Ronnie Schneider para informá-lo das novas condições para os Rolling Stones poderem usar o autódromo.

Acontece que a Concert Associates também era dona do Forum de Los Angeles e estavam envolvidos com o show dos Stones naquele local. Os executivos estavam todos aborrecidos com o tratamento arrogante de Mick Jagger e os Rolling Stones e viram esta como sendo uma oportunidade de tirarem uma forra. As condições passaram a incluir um aluguel de espaço no preço de $457.000, mais os direitos sobre o filme e a trilha sonora de todo o evento. Condições impossíveis de serem aceitas. A dois dias do show, estavam Ronnie Schneider, Jo Bergman, Sam Cutler, Rock Scully, Emmett Grogan e Chip Monck correndo por toda San Francisco e arredores a procura de um lugar para se realizar um concerto de graça. No mesmo dia, os jornais foram inundados pela notícia da captura do assassino responsável pelas recentes chacinas em Los Angeles, um hippie chamado Charles Manson.

Brown Sugar em Muscle Shoals

No dia seguinte, como sempre à noite, o grupo trabalha na canção nova "Brown Sugar." É Bill Wyman quem cuida da afinação de todos os instrumentos entre si, e indica aos demais quais são as mudanças de acordes e em que parte. Wyman novamente se mostra ser o integrante dos Rolling Stones com os ouvidos mais afinados.

A notícia das novas exigências da Freeway e a subseqüênte falta de local para dar o show gratuito chega aos ouvidos dos Stones em Alabama, interferindo no ambiente criativo que lá havia. Voltaram ao trabalho depois de uma parada onde ventilaram suas frustrações. Afinal concluem, em último caso, este concerto gratuito seria um presente para a cidade e para o país. Enquanto Keith misturava Jack Daniels com cerveja em um copo, Bill Wyman escrevia as cifras para as partes do piano. Mick Taylor aproveitou logo para lê-las e se orientar um pouco. Quatro da manhã e várias carreiras de cocaína depois, o Jack Daniels havia acabado e a turma estava abrindo o J&B.

Jim Dickenson dos Dixie Flyers, outro grupo que Wexler queria contratar, tocou piano na faixa. Optando por gravar a base com toda a banda, a "tomada" que foi considerada a boa e definitiva acabou sendo o take de número doze. O amanhecer é ignorado pela banda, trancados dentro do estúdio sem janelas. Mick e Keith estão engrenados e consideram gravar ainda os vocais de "Brown Sugar." Só então resolvem fazer cópias em K-7 para levar e ouvir. Deixam o estúdio pouco antes das oito da manhã, todos exaustos. Era o último dia de uma semana bastante rentável no estúdio de Muscle Shoals. Mick estava particularmente empolgado e comentava querer lançar um compacto "Brown Sugar/Wild Horses", de preferência na semana seguinte.

San Francisco

Enquanto a banda seguia de avião para San Francisco, a dúvida quanto ao local onde seria realizado o concerto ainda permanecia. O grupo se hospedou no Huntington Hotel e de seu quarto Mick Jagger conversou com uma estação de rádio, garantindo que a banda veio com intenções de tocar de graça como um presente para a cidade e para a América, agradecendo a recepção e a lucrativa excursão. Bastava que se encontre um lugar onde eles possam tocar. Keith então comenta no ar que a banda tocaria até num estacionamento se não houvesse outro lugar. Depois Keith sai para fumar um baseado no quarto de alguém da equipe. Durante todo este papo, as câmaras estão registrando todas as incertezas perante este show que seria o grã-finale do filme. A falta de informações precisas sobre o show havia causado bastante confusão na cidade desde que a prefeitura aboliu o festival no Golden Gate Park. Jovens de todo o país chegavam sem saber ao certo para onde ir, se acumulando pelas ruas e aguardando uma definição do local do evento.

O Socorro de Altamont

Altamont Raceway
Altamont Raceway

Com a cobertura da rádio, informando constantemente do andamento da situação, foi natural alguem procurá-la querendo oferecer uma solução para o problema. Foi o que fez Dick Carter, dono de um autódromo oval utilizado geralmente para competições de demolição.

Carter ligou para a rádio e ofereceu o seu autódromo, situado na região vizinha de Altamont. Rapidamente a rádio o colocou em contato com Ronnie Schneider e Jo Bergman, que foram imediatamente conhecer o local. Faltavam vinte horas para começar o concerto, quando os Rolling Stones declaram oficialmente que ele seria realizado em Altamont. Imediatamente a população de viajantes que invadira a cidade de San Francisco nos últimos dias prosseguiu em romaria para o novo local.

Chris Monck e sua equipe, que agora incluía o pessoal que trabalhava para o Grateful Dead, desmontaram tudo que eles fizeram na última semana. Uma vez este material fora colocado nos caminhões, seguiram para Altamont para reconstruir tudo de novo em menos de vinte e quatro horas. Dentro da equipe, muita gente se mostrava contra a realização do show no dia seguinte. Qualquer bom profissional sabe que não há tempo suficiente para preparar o local adequadamente. Este sentimento era compartilhado por várias pessoas dentro do ramo. A lógica exigia que os Stones ao menos adiassem o show para a semana seguinte. Ou isto ou simplesmente cancelá-lo. Mas Jagger queria o seu Woodstock, não enxergando o detalhe crucial que aquele festival realizado em agosto, teve seu planejamento iniciado em março. E mesmo assim, deu tudo errado em relação ao que fora planejado. Uma das razões pelo qual Woodstock fluiu em paz apesar dos transtornos foi justamente o planejamento e estruturação.

Vistoriando Altamont Raceway

Naquela noite uma Van com seis passageiros, incluindo Mick Jagger e Keith Richards, segue para Altamont sem criar muito alarde. O local compreende oitenta acres de terra localizado entre as pequenas cidades de Tracy e Livermore, junto aos morros de Altamont, que dá nome a região. O autódromo oferece uma pista oval de meia milha e uma arquibancada projetada para cinco mil pessoas. Espalhados junto ao portão de entrada do local estavam pessoas com sacos de dormir, algumas fogueiras, gente tocando violão, bebendo vinho, conversando. Apertaram um baseado e caminharam entre o povo sem ninguém se dar conta de quem eram. Keith comentaria que o lugar lhe lembrava Marrocos, perto da entrada de Marrakesh.

Quebrando o clima, os irmãos Maysles acendem seus refletores portáteis e começam a filmar. Mick manda desligar tudo para não perturbar aqueles que estão dormindo, mas a solicitação é ignorada. Mesmo porquê já era tarde, todo mundo imediatamente deduz quem está ali. Uma menina se aproxima e dá um beijo estalado na bochecha de Mick. Outra oferece seu cachecol para esquentar sua garganta nesta noite gelada de dezembro. Um rapaz com cabelo até a cintura oferece um baseado. O ar de irmandade hippie está em todo lugar, deixando Mick e Keith felizes e satisfeitos com o astral geral. Sentimentos de que tudo valeu a pena são compartilhados, reforçados pelo fato de que este será o último grande concerto do ano e da década. A sensação naquele momento era de que a Era de Aquarius estava mesmo acontecendo, e que este festival reforçaria o bom omen trazida pelo festival de Woodstock.

No camarim, na verdade um trailer, o grupo cheira umas carreiras e depois voltam para San Francisco. Todos menos Keith que, de tão cheirado, sabia que não ia dormir mesmo e preferiu ficar com o povão tomando ácido e fumando ópio. Michael Lyndon foi escalado para permanecer com ele. Durante toda a noite, a equipe de Chris Monck trabalhou para montar o palco à tempo. Quando o Sol da manhã seguinte nasceu, não havia quase nenhum banheiro público disponível, não havia pontos para comprar refrigerantes ou comida, não haviam linhas telefônicas ou praticamente nenhuma espécie de infra-estrutura, e a equipe ainda estava martelando tábuas de madeira para completar a montagem do palco.

Deixa Sangrar

Depois de atrasos com mixagens e pós produção, finalmente nesta data, dia do show em Altamont, o disco intitulado "Let It Bleed" chega às lojas nos Estados Unidos. Na Inglaterra, o disco aparecera nas lojas no dia anterior. Este seria o último álbum de estúdio gravado pelos Stones para a Decca Records. Nele, Keith Richards surge pela primeira vez como cantor principal em sua canção de amor escrito para Anita, "You Got The Silver".


A capa que ficou não foi a originalmente aprovada para o projeto. Jagger havia encomendado uma arte ao Andy Warhol, que acabou perdida dentro dos escritórios dos Rolling Stones. Warhol imaginou uma calça Levis tipo cocota em uma modelo, e o disco envolto em sua calcinha mais os dizeres "Let it Bleed" (Deixa Sangrar). A ideia seria uma espécie de embrião do que seria usado no próximo álbum de estúdio, "Sticky Fingers".

A capa utilizada foi feita às pressas, idealizada por Robert Brownjohn, e teve o bolo confeccionado por Delia Smith. Foi cogitado que o nome do álbum poderia ter sido "Automatic Changer".

Mudança no Astral

Para algumas pessoas, o dia começou com uma áurea bastante estranha. Cartomantes e astrólogos falavam que o dia e o local não eram propícios para a realização do show. "Um local de demolição é um local para destruição", analisam estes. Todos os sinais dos céus são negativos. A Lua estaria entre Libra e Escorpião, enquanto Mercúrio e Venus estariam em Sagitário. Péssima idéia marcar o show para esta data pois estes são fortes indícios que o dia terá confusão e violência. Mas quem realmente entende ou acredita em cartomantes?

Os portões do autódromo foram abertos precisamente às sete da manhã. Às dez já haviam mais de cem mil pessoas espalhadas pelos arredores. O povo, impossibilitado de trafegar em seus veículos, a estrada de acesso estando toda engarrafada, estava abandonando seus carros a dez milhas de distância e andando o resto do caminho a pé. Os Hell's Angels foram contratados extra oficialmente, Sam Cutler oferecendo $500 dólares em bebidas para cuidarem da segurança e não deixarem ninguém invadir o palco. Segundo consta, dezoito, no máximo vinte Hell's Angels apareceram para o evento.


Problemas surgem conforme o tempo vai passando. A começar com o local, que não foi projetado para receber sequer dez mil pessoas, quanto mais as trezentas mil que apareceram. Filas intermináveis para obter comida, bebidas ou banheiros começam a ser comuns. O calor intenso do deserto que cerca o local elevam a disposição daqueles presentes a beberem muito, a rapaziada preferindo álcool a refrigerantes.

Muita birita, muito fumo mexicano, anfetaminas e lembrem, estamos em San Francisco em plenos anos sessenta, ou seja, muito ácido! Porém já não é mais 1966 e a qualidade do ácido vendido nas ruas está longe de ser pura. Muito ácido ruim com misturas circulam por todo lado. O evento atraiu fornecedores interessados em levantar um dinheiro rápido. Até a primeira banda começar, os entorpecentes já estavam fazendo efeito. Apesar de um público relativamente homogêneo, o ponto em comum entre todos presentes ao festival parecia ser a disposição de ficarem completamente chapados. Já prevendo algo assim, a organização do festival contratara, além da Cruz Vermelha para cuidar dos feridos, psiquiatras para conversarem com pessoas perdidas em suas próprias viagens. Com estes últimos vieram grandes quantidades de Thorazine, droga capaz de trazer o alucinado de volta para o chão.

O povo não estava apenas alto, eles estavam é muito alucinados mesmo! Para agravar ainda mais a situação até os Hell's Angels, diante da monotonia e do calor, aderiram ao LSD. A medida em que o público essencialmente hippie foi chegando mais perto do palco, os Angels começaram a ficar tensos e agitados.


Importante realçar aqui o fato de que um autêntico Hell's Angel por definição não guarda maiores respeitos pelo movimento hippie, flower power, feminismo e etc. Então ver aquela cambada de viadinhos cabeludos se aproximando e encurralando o palco e os Angels deixou nestes a sensação de ameaça no ar, paranóia realçada pelo ácido e agressividade latente causada pela bebida e pronto, estava criado o clima de guerra! Tacos de sinucas passam a quebrar costelas, narizes e crânios.

Santana Band

Mesmo antes do sistema de som ficar pronto, o festival se inicia, com um grupo de monges da seita Hare Krishna cantando alguns mantras, mesmo sem microfones, e rezando por um bom e pacífico festival. O som ficou pronto depois do meio dia e às treze horas sobe ao palco a primeira banda da tarde.


Santana Band foi a banda que abriu o festival, o cronograma estando atrasado em duas horas, porque o sistema de som ainda não estava ligado. Não havia sequer a tradicional cerca que separa o público do palco, pois não houve tempo para tais detalhes. O show começou para o alívio de muitos que estavam há horas entediados ao sol. Mas com a música veio também o desejo natural do povo de chegar mais perto do palco. Um rapaz que passou entre um grupo de Hell's Angels em direção ao meio do palco foi agarrado e surrado. Logo outros Angels se juntaram ao primeiro e bateram tanto no rapaz que Santana parou de tocar, pedindo calma a todos antes de continuar a sua apresentação. Um fotógrafo pego tirando fotos dos Angels batendo em uns hippies nus com tacos de sinuca acabou apanhando também, acabando por deixar o festival com treze pontos na cabeça.

Tanta violência gratuita enojou Santana e seus companheiros, a ponto de encerrarem sua apresentação com apenas quatro músicas. Carlos Santana comentaria dias depois: "As brigas se iniciaram porque os Hell's Angels começaram a empurrar e bater em todo mundo. Tudo começou tão rápido e bem na nossa frente. Haviam muitos completamente aluncionados. Vi um cara no canto do palco com uma faca na mão. Ele só estava procurando alguém para esfaquear. Estou falando sério, ele realmente queria arrumar uma briga! Enquanto tocávamos a porrada comeu solta o tempo todo."

Em pontos diferentes do autódromo, incidentes continuavam a acontecer. Um sujeito viajando em ácido tenta pular de uma passarela existente dentro do autódromo. Possivelmente achava que podia voar. Ele se machucou todo, quebrando as duas pernas e o pélvis, mas continuou vivo. Outro sujeito não teve a mesma sorte, pois caiu em um canal de irrigação aberto. Embora tenha gritado por socorro, aparentemente as pessoas não conseguiram concluir se a cena desenrolada era real ou uma viagem do imaginário causado pelo ácido. Logo não importava mais, os gritos cessaram.

Jefferson Airplane


A apresentação seguinte foi do Jefferson Airplane. Jagger tinha medo deles fazerem um show mais empolgante que sua banda, por serem natural de San Francisco, e exigiu que houvesse pelo menos três bandas entre o show do Airplane e o dos Stones. Lá pelas tantas, quando Marty Balin iria anunciar o nome da música seguinte, um rapaz negro pulou no palco apavorado com uma legião de Angels atrás dele, acabando por ser linchado até estar praticamente sem sentidos na frente de algumas milhares de pessoas, chocadas pelo horror da cena. Ele foi jogado de volta para a platéia e saiu cambaleando cuspindo sangue e dentes, porém alguns Angels voltam a espancá-lo.

Foi aí que Marty desceu do palco para tentar tirar os Angels de cima do homem. O primeiro que ele tentou tirar só olhou e sorriu. Uma só porrada com o taco de sinuca e Marty caiu duro e apagado. Paul Kanter, que estava furioso no palco, grita até que a "segurança" tira seu microfone. Jack Casady também é ameaçado pelos Angels. Grace Slick e companhia demoraram a entender que não havia mais nada a ser feito. Alguém manda a banda parar de reclamar e recomeçar logo o show. Kanter responde que não pode recomeçar porque um dos palhaços acabou de nocautear seu vocalista. Vendo a iminência de Kanter também se dar mal numa briga com os Angels, Grace Slick começa a puxar a próxima canção, logo acompanhada pelos demais. Ao fim da canção, deixam o palco e vão embora: fim de show.

Antítese de Woodstock

Segue a programação com o set do Flying Burrito Brothers, onde o público e a "segurança" se acalmaram, não havendo maiores incidentes relatados. Depois foi a vez do quarteto Crosby, Stills, Nash & Young, onde novamente brigas e incidentes voltam a acontecer. Conforme o público tentava chegar perto do palco buscando ver melhor o artista, mais intimidados pela massa ficavam os Angels, retaliando com os tacos de sinuca. Houve um Angel que começou a acelerar sua moto em direção ao povo, atropelando todos que tivessem a audácia de ficar no seu caminho. Motivo? Ao que parece, foi uma aposta...

Em meio ao show dos Flying Burrito Brothers, os Stones chegam de helicóptero totalmente alheios ao que está acontecendo. Mal desembarcam e um garoto com pinta de ter uns catorze anos, com uma expressão totalmente alucinada, dá um soco em Mick Jagger gritando "I hate you! I hate you!" (Eu te odeio). Sem entender nada, o pessoal correu para dentro do trailer/camarim, onde são informados do incidente com Marty Balin e o clima caótico reinante por toda a tarde. Depois de dois meses na estrada, onde vira e mexe alguém conta lorotas alarmistas, a tendência natural é começar a duvidar de tudo que se conta. Assim fizeram alguns dos Stones, não acreditando no que lhes havia sido reportado. Portanto não houve nenhuma alteração para o plano original que ditava que os Stones tomassem o palco somente depois do pôr do sol, quando as luzes dos refletores realçariam a roupa avermelhada de Mick Jagger, detalhe importante para o filme.


Gram Parsons logo apareceu, conversando com Keith e Charlie. Mais tarde Michelle Phillips também deu as caras, como também Augustus Owsley Stanley III, famoso químico e fabricante de LSD, que estava distribuindo amostras grátis para quem quisesse, muitos consumidos pelos próprios Hell's Angels. Jagger tentou matar o tempo assistindo a apresentação do Crosby, Stills, Nash & Young, mas não conseguiu, havia gente demais e muito tumulto. O próximo show seria do Grateful Dead; no entanto, depois do incidente com Marty Balin, eles preferiram não tocar.

Aumentam as tensões enquanto o público é obrigado a esperar uma hora e meia até o sol se pôr e a noite cair, antes de começar o show dos Stones. O frio da noite no deserto é mais um agravante para o programa, o público na grande maioria sem nada no estômago o dia inteiro e vestido com roupas leves molhadas de suor. Contudo, mesmo se quisessem tocar antes não poderiam tê-lo feito, pois Bill Wyman ainda não havia chego, seu helicóptero só aterrisou com os últimos raios de luz. Os Hell's Angels começam a ameaçar Mick Jagger para ele começar logo o show e ficam furiosos quando Jagger responde a pressão com um "minha maquiagem fica melhor à noite" no tom mais aviadado possível.

O Grande Show da Noite


Quando finalmente tudo começa, atacam com o mesmo set básico de toda a excursão, com "Jumpin' Jack Flash" seguido por "Carol". Havia tanta gente no palco que Jagger não tinha espaço para dançar, foi preciso que ele pedisse espaço para a legião de seguranças. Jagger, com sua roupa e capa avermelhada, se assemelhava à imagem que alguém pudesse ter de Satã, depois de tanto ácido, pouca comida e água potável.

Durante a canção "Sympathy For The Devil" ouviu-se um estrondo vindo de algum ponto escuro no meio do público, seguido de uma fumaça. Jagger pede que a banda pare de tocar, deflagrando a primeira interrupção de sua apresentação da noite. Aparentemente foi o cano de descarga de alguma moto que fez o barulho, ninguém sabendo ao certo o que aconteceu. Jagger pede calma a todos, pergunta se alguém se feriu e sentindo que podia recomeçar, Charlie e Keith voltam a entrar no groove da canção.

Mick começa a cantar novamente mas não por muito tempo. Um garoto nu tentou subir no palco mas tomou um pontapé na cabeça. Devia estar totalmente alucinado, pois apesar da violência do chute, ele voltou novamente para mais. Tomou outra de uma botina com a ponta metálica que deve ter quebrado seu queixo. O garoto agora tenta fugir, mas meia dúzia de Angels corre atrás. Com a ponta do taco de sinuca acertando seu lado, ele perde o equilíbrio e cai. O primeiro a chegar encheu ele de porrada, mas os outros em seguida chegaram para fazerem um estrago maior. A violência transcende qualquer explicação, qualquer lógica. Quando cansaram de bater, a maioria foi embora, mas dois ficaram para chutá-lo mais um pouco. Tão selvagem a cena que Jagger parou a banda pela segunda vez para pedir calma a todos.

Jagger tentou amenizar os ânimos pedindo, quase implorando, para que todo mundo se acalmasse. "Irmãos e irmãs! Vamos ficar calmos! Todos podemos nos acalmar!" ele diz, mas o olhar de ameaça que recebe dos Hell's Angels não estimula jargões de paz e amor. Keith, que nunca fugiu de uma luta, não pensou bem nas conseqüências de suas palavras quando chegou até o microfone, apontou o dedo para um dos seguranças e comunicou ameaçadoramente: "Cara, se você não parar com isso, não vai haver mais música!" Como no show do Jefferson Airplane, alguém da segurança simplesmente chegou, tirou seu microfone e mandou ele se foder. Outro Angel chegou para tomar satisfação, perguntando o que ele queria que fosse feito. Keith foi específico: "Quero que aquele cara pare de empurrar todo mundo." Anos depois, comentando sobre as intimidações sofridas, Keith falou em curiosa metáfora: "É, eu não deixei a garrafa cair, mas tive que engolir."

Ian Stewart chegou no microfone e com uma voz firme pediu um médico rapidamente perto da frente do palco. Aos poucos, usando uma suéter verde, o médico consegue chegar até o menino que, embora em mal estado, ainda estava vivo. Depois foi a vez de Sam Cutler pedir calma por parte da segurança. Cutler avisa também que junto com ele estava uma menina de cinco anos que se perdera, e que os responsáveis viessem buscá-la.


Keith e Charlie estão tocando uma levada mais calma e Mick sugere algo das antigas. Os Stones levam então "The Sun Is Shining", de Jimmy Reed. Jagger pede que todos se sentem e os incidentes aparentemente se encerram. A banda segue então com o repertório normal, tocando "Stray Cat Blues" e depois "Love In Vain."

Mas é quando partem para "Under My Thumb" que o evento que marcaria definitivamente a história deste concerto acontece. Logo no início da canção, em um determinado momento, uma parte da platéia começa a abrir um círculo. Em seguida um dos seguranças pula no chão, como se não quisesse ser atingindo por uma bala endereçada para Jagger. Keith Richards e Mick Taylor param de tocar, ambos procurando enxergar o rapaz negro vestido de verde que apontara uma arma para o palco. Mick Jagger sabiamente caminha até o fundo do palco. Em seguida, o homem não podia ser mais visto, os Angels tomaram conta da cena.

Murdock

O negro em questão se chamava Meredith "Murdock" Hunter, e acabara de completar dezoito anos. Ele foi ao festival acompanhado de alguns amigos, dentre eles Patty Bredehoft, uma linda loira que como ele, estudava em Berkley. Meredith e Patty, embora estivessem à tarde toda no local, só agora haviam conseguido se aproximar do palco para assistir direito ao show. Uma versão sugere que Meredith, com ciúmes do interesse que Patty comentava ter por Mick Jagger, puxou sua arma para matá-lo. Os Hell's Angels então agiram naturalmente, fazendo o que se esperava deles, que seria proteger os artistas.

Relatos por testemunhas porém contam que um dos Angels situado na lateral do palco, que já tentara provocar uma briga com alguém antes, fez a primeira provocação. Esta detalhada versão, verdadeira ou não, pinta o seguinte quadro. Ao ver um rapaz negro acompanhado de uma loira vistosa, o Angel agarrara sua cabeça e puxa violentamente o seu cabelo enquanto ria. Meredith se desvencilhou, porém logo outros cinco Angels o cercaram. O rapaz tenta correr entre o público mas um Angel consegue pegá-lo pelo braço e crava uma faca nas suas costas. A lâmina não penetra muito mas o rapaz se conscientiza que está lutando pela vida. É quando então ele saca a sua pistola.


Talvez ele tenha hesitado em atirar, e tencionasse apenas amedrontá-los para que o deixassem em paz. Meredith está relativamente perto do palco. É possível que a última coisa que ele tenha visto fosse Mick Jagger lá do palco olhando para ele com sua arma na mão. Os Angels caíram em cima feito criaturas famintas por sangue e a arma sumiu. Chutaram e o esfaquearam incessantemente em uma fúria insana. Quando terminaram, um Angel ficou para garantir que ninguém desse assistência. "Ele vai morrer de qualquer modo, portanto deixem-no morrer em paz" disse claramente. Com o passar do tempo acabou ficou entediado com o serviço de sentinela e voltou para o palco. Só então puderem chamar um médico e a banda interrompe a apresentação para que a assistência seja encaminhada.

Foi tudo tão rápido mas alguém da equipe de filmagem conseguiu registrar parte da cena. Paul Cox, um rapaz que foi assistir o show e Robert Hiatt, um médico residente de San Francisco, pegaram o corpo e tentaram levá-lo até o palco, de onde poderiam chegar mais rapidamente até o caminhão da Cruz Vermelha. Os Hell's Angels não deixaram, bloqueando a passagem e mandando que eles dessem a volta. O médico calculou que Hunter teria mais uns quinze ou vinte minutos de vida se não o ajudassem imediatamente. Levaram quase isto para dar a volta necessária para chegar até o caminhão. Era óbvio que os Angels não queriam que ele sobrevivesse para contar a sua versão. No caminhão, o Dr. Richard Baldwin o examinou e deduziu que ele tinha tantas artérias furadas que mesmo se estivesse em frente a um hospital não teria como salvá-lo.

Os Stones no palco, a esta altura pararam de tocar. Michael Lang, um dos quatro que montaram Woodstock, pegou o microfone e pediu calma para o público e para que a segurança moderasse suas ações. Sam Cutler toma o microfone em seguida e sugere que todos tentem dar um passo para trás e sentar. Sabendo que não podem ir embora sem causar maiores problemas, Cutler faz questão de garantir que a banda irá continuar a tocar. Ele aproveita para lembrar que há um caminhão da Cruz Vermelha na área reservada e que crianças perdidas podiam ser encontradas lá.

Jagger agora toma o microfone e, sem espaço para se mexer, solicita que todo mundo, menos os músicos, se dirijam ao lado do palco. Depois pede para que uma ambulância e um médico sejam posicionados em um lugar visível para o público. A notícia que alguém havia sido esfaqueado finalmente chegara ao palco. Toda a banda estava assustada e com plena noção que poderiam acabar seriamente feridos se o confronto continuasse. Até Keith estava nervoso, gritando: "Chega! Se esses caras... não conseguem... vamos embora!" Um dos maiores líderes dos Hell's Angels, Sonny Barger, muito calmamente encostou em Keith, mostrou seu revólver e disse: "continue a tocar ou você está morto."

Me Dê Abrigo

Sabendo que não há saída para a loucura, eles recomeçam "Under My Thumb", mas algo está um pouco diferente. Instintivamente a banda, que até então estava tocando de forma burocrática, começa a dar tudo de si. Talvez fosse uma transmissão de pensamento, onde dado o andamento das coisas, ficara claro que apenas tocando o melhor que pudesse é que os Rolling Stones iriam conseguir sair dali intactos. Ao terminar "Under My Thumb", Mick Taylor pergunta se podem tocar "Brown Sugar." Eles se entreolham, Keith muda de guitarra e mandam ver em estréia exclusiva, especialmente para a ocasião.

Os Stones conseguiram tocar mais duas músicas inteiras sem problemas, até que no final de "Live With Me" uma menina negra, totalmente nua, tenta subir no palco. Cinco Angels juntam-na, prontos para enchê-la de porrada antes de jogá-la de volta. Mick imediatamente manda parar, dizendo: "certamente apenas um segurança consegue resolver o problema com essa menina, não acham? Não precisam de cinco para cuidar de uma menina". O sarcasmo de Jagger funcionou pela metade, pois quatro deixam a guria enquanto um mete-lhe um taco de sinuca na cabeça e a joga de volta para a platéia como quem arremessa um peixe de volta ao rio. Isto com os demais olhando para ela, loucos de vontade de pular até lá e enchê-la de porrada.

Enquanto os Stones se apresentavam, as demais atrações do dia estavam fugindo de Altamont de helicóptero antes de ocorrerem mais acidentes com morte. Num momento em que a banda pára de tocar para negociar mais calma por parte dos Angels, um homem se aproxima de Jagger e rapidamente se identifica como Jan Vison, piloto do helicóptero, que informa com extrema clareza que o dele se trata do último aparelho disponível e que pretende ir embora com ou sem os Stones. Um acordo foi travado rapidamente para que ele aguarde mais alguns minutos, Vison sumindo em seguida.

Jagger tenta muito gentilmente pedir que os seguranças se distanciem da frente do palco enquanto Keith, Charlie e os demais puxam "Gimmie Shelter." Bastava procurar um pouco e pelos cantos se viam sombras de violência. Um rapaz apanhava de outro Angel mas poucos viram. "Little Queenie" começava e até a voz de Jagger demonstrava o desânimo perante a carnificina que foi o dia. Mas Keith tocava com um furor de quem estava disposto a dançar sobre o próprio túmulo. Ele emendou com "Satisfaction", lançando uma corrente elétrica que aparentemente recarregara a todos. "Honky Tonk Woman" e "Street Fighting Man" completaram o set e a banda mais os membros do círculo interno saíram rapidamente para o helicóptero esperando na colina.

O aparelho que levaria a banda já estava a um palmo do chão, o piloto nervoso e preocupado pelas notícias que ouviu das outras bandas que ele transportou. Os Stones e comitiva corriam para pegar esta carona no que depois seria comparado à cenas vistas nos jornais televisivos, mostrando os soldados pulando em helicópteros no Vietnã. Todos se amontoaram no aparelho, ao todo vinte pessoas, número muito maior do que o normalmente permitido, tanto que levantaram vôo meio de lado, tamanho o peso extra. Na pressa Keith perde seu casaco Marroquino. O que era para ser uma festa e uma celebração da Era de Aquarius se tornou um pesadelo que voltaria a reforçar a imagem de que Mick Jagger é Lúcifer.

Enquanto os Stones e amigos fogem de helicóptero, Chip Monck têm que ficar para desmontar o palco. Ele é impedido pelos Hells Angels de desligar as luzes, pois eles querem beber o resto da cerveja que ganharam e dançar sobre o palco. O tapete do palco foi declarado oficialmente como sendo dos Angels e Monck também não pode reavê-lo. Lhe restou aguardar que acabasse o querosene que alimentava o gerador para a luz então fraquejar e apagar totalmente, só então ele pode começar o trabalho de desmontagem do palco. Para fechar a noite, Monck conta que um rapaz tropeçou em uma moto e foi perseguido até o topo da colina, onde finalmente foi alcançado. O rapaz apanhou até que os Angels se cansassem de bater, deixando-o todo ensangüentado, vivo porém aparentemente sem movimento.

Choque em Livermore

Do helicóptero em Altamont foram até um pequeno aeroporto em Livermore. O grupo, além dos cinco Stones, incluíam Astrid, Jo Bergman, Ronnie Schneider, Davis Horowitz, Sam Cutler, Jon Jaymes, Mike Scotty, Tony Sanchez, Stan Booth, Ethan Russell, Gram Parsons e Michelle Phillips. De lá aguardaram a chegada de um Lear Jet que iria levá-los até San Francisco. Durante a viagem, Keith parecia em choque, repetindo seguidamente a mesma frase: "algumas pessoas simplesmente ainda não estão prontas."

O comentário é em si uma análise extremamente honesta do que acabaram de viver. Os Rolling Stones montaram um concerto onde não havia adultos. Não havia polícia ou ninguém do sistema para impor suas regras de conduta. O paraíso que todos os jovens desejavam por tantos anos. Em Woodstock houve harmonia entre polícia e público jovem diante das dificuldades que surgiram. Em Altamont, a intenção sempre fora de se conseguir a mesma harmonia entre as pessoas, porém sem nenhuma autoridade supervisionando. San Francisco queria seu Woodstock também e a época era tal, onde tudo era possível, tudo era permissível, se tivessem coragem para imaginá-la. Mas de fato, sempre há aqueles que, uma vez entregue liberdade absoluta, não estão prontos para carregar o peso da responsabilidade que esta exige.

Jagger, sentado em um banco, também exibia claros sinais de choque, tentando entender o que ele acabara de assistir. "Por quê os Hell's Angels estavam atacando as pessoas tão gratuitamente?" Lembrando as palavras de Rock Scully, Jagger pergunta como alguém poderia confundir essa gangue por gente de bem. "Forte código de honra? Como é que Scully poderia comprar esta imagem?" emenda Keith. Alguém conclui: "Está óbvio que ele tem uma visão romântica ao estilo de vida." "Eu teria preferido a polícia" completa Mick. "Algumas pessoas simplesmente ainda não estão prontas" repete Keith novamente, semi hipnotizado. Em retrospecto, Charlie Watts resumiu bem o festival em uma frase: "Foi um evento aguardando para dar errado."

Despedindo de Frisco

Uma vez em San Francisco, todos foram para cama ouvir o jornal na televisão, ninguém saiu para fazer um programa. Gram Parsons e Michelle Phillips dormiram juntos naquela noite, Sam Cutler desmaiou de cansaço no chão do quarto de Keith e ninguém conseguiu acordá-lo mais. Mick havia telefonado para Pamela Miller que foi correndo ao seu encontro, passando a noite juntos. Na manhã seguinte, parte do grupo levantou cedo e saíram do país. Mick, Jo, Bill e Astrid foram juntos para Nova York. De lá, Bill e Astrid seguiram para Suécia, onde tirariam umas férias, enquanto Mick e Jo foram para Suíça, onde abriram uma conta bancária e depositaram $1.2 milhões de dólares, lucro da excursão. No aeroporto de Genebra, bastou Jagger ser reconhecido para a polícia revistá-lo integralmente. Jo Bergman, por estar acompanhando o astro, igualmente teve que se despir e ser revistada. Evidentemente nada foi encontrado.

Shirley e Serafina
Shirley e Serafina

Keith começou sua manhã com cocaína e uma garrafa de Old Charter, antes de se encontrar com Mick Taylor e Charlie Watts. Os três pegam então um avião para a Inglaterra. Antes de ir embora, Keith deixa com Gram Parsons uma cópia da gravação de "Wild Horses" como demo para que os Burritos Brothers possam gravá-la. Em troca, pede que Sneaky Pete, seu especialista em pedal steel guitar, grave sua parte na versão dos Stones. Um pedal steel guitar é um instrumento tipicamente de country music. Trata-se de uma guitarra, porém montada em uma armação que de longe mais parece um órgão. Seu som assemelha-se mais com um slide guitar.

Se separam no aeroporto, Charlie indo se encontrar com Shirley e Serafina, Mick Taylor buscando sua namorada Rose, e Keith morto de cansaço, encontrando o aeroporto inundado de jornalistas querendo um comentário. E de supetão recebe a notícia que Anita estava sendo ameaçada de expulsão do país.

Parte 32 - Injetando Mudanças

Keith começou sua manhã com cocaína e uma garrafa de Old Charter, antes de se encontrar com Mick Taylor e Charlie Watts, pegando com eles um avião mais tarde para Inglaterra. Antes de ir embora, deixa com Gram Parsons uma cópia da música "Wild Horses" para que os Flying Burrito Brothers possam gravá-la. Em troca, pedem que Sneaky Pete, seu especialista em pedal steel, grave sua parte na versão dos Stones.

Casamento Pagão

Ao chegar em casa, Keith liga para seus advogados para ficar sabendo que Anita teve seu passaporte italiano confiscado e que o governo inglês ameaça deportá-la caso ela não se case com algum cidadão inglês. A situação lhe pareceu absurda e ambos têm ojeriza à idéia de serem forçados pela lei a se casarem. Keith ao falar com a imprensa é categórico em dizer que casar ou não casar não lhe faz a mínima diferença. Todavia a intimidação para o matrimônio forçado por uma posição política tira todo o desejo pelo casamento.

Apesar deste discurso, havia aqueles dentro do círculo interno dos Rolling Stones suspeitando que Anita não queria casar por estar interessada em se amigar agora com Mick Jagger. Esta hipótese, embora sempre vaga, nunca convence como sendo totalmente absurda. Kenneth Anger estava morando com eles em Cheyne Walk e sugere então, como solução ao problema, um casamento pagão, segundo a seita de sua ordem. A idéia foi aceita, porém, ao assistir os preparativos feitos por Anger para a cerimônia, Keith desiste da idéia e o evento não se realizou. É pouco provável porém, caso fosse realizado, que o governo inglês reconhecesse tal cerimônia como legal para efeito de imigração.

Get Yer Ya-Ya's Out

Jagger chegou em Londres, vindo de Genebra no dia seguinte. À noite se reuniu com a banda no Olympic Studios para trabalharem nas fitas gravadas no Alabama. As sessões dos próximos dois dias foram dedicadas a overdub e mixagem das fitas ao vivo para o álbum "Get Yer Ya-Ya's Out." Com o disco pirata "LiveR Than You'll Ever Be" na memória, se tornou imperativo que os Rolling Stones lançassem um disco ao vivo oficial com toda a qualidade sonora possível. O filme "Gimmie Shelter" estava programado para ser lançado em maio, um mês antes de Woodstock. O álbum teria que estar pronto e nas lojas no mesmo tempo.

Críticas aos Stones

Passada uma semana desde o Festival de Altamont, as críticas estavam em seu auge. A revista Rolling Stone lançou uma edição praticamente toda dedicada ao festival e criticou os Stones de todas as maneiras e formas possíveis pela realização do evento de forma tão precária. Nela consta uma entrevista com David Crosby, que foi votada por muitos como a que melhor definiu o evento.


Diz Crosby: "Acho que os Rolling Stones ainda estão em 1965. Eles não sabem que uma força para segurança não é mais uma necessidade. Não eram necessários os Hell's Angels. Não estou falando mal deles, até mesmo porque não é saudável, e afinal, eles apenas fizeram o que se espera deles. Os Stones não conhecem os Hell's Angels. Para eles, os Angels é um meio caminho entre Peter Fonda e Denis Hooper e isto não é a realidade... Não considero os Angels o principal erro. Apenas o mais óbvio. Considero o principal erro sendo pegar o que essencialmente seria uma festa e transformá-la em uma ego trip. (...) Tenho certeza que eles não entenderam o que eles fizeram no último sábado. Acredito que eles tem uma visão exagerada de sua importância. Acho que eles estão numa ego trip grotesca. Uma trip essencialmente negativa, principalmente seus dois líderes. Conversei várias vezes com o pessoal dos Stones. Eu os considero esnobes."

Bill Graham também falou com a imprensa, acusando Mick Jagger de negligência profissional, dentre outras tantas coisas. Várias frentes falaram mal dos Stones e do evento. Ate hoje o nome Altamont é lembrado mais pelo concerto do que qualquer corrida de automóveis. Jagger processou a Sears Point Internacional Raceway em $10 milhões por quebra de contrato e os fazendeiros da região de Altamont processaram a Rolling Stones Promotions em $900 mil por perdas e danos. Dick Carter, o dono do Altamont Raceway, também processou os Stones. Ele emprestou o local gratuitamente imaginando que a divulgação do evento traria publicidade, rendendo assim, futuras promoções lucrativas. De fato, todo o mundo passou a conhecer o nome Altamont. Porém a idéia não funcionou exatamente como ele imaginara.

Houve dois nascimentos e quatro mortes, dois por atropelamento e um por esfaqueamento. Em relação ao último, o caso de Meredith Hunter, a polícia pediu as cenas filmadas do concerto para analisarem o incidente. As imagens do assassinato capturadas pelas lentes da equipe de filmagem foram utilizadas durante o julgamento de Alan David Passaro, o Hell's Angel identificado como quem esfaqueou Hunter. As imagens porém não foram o suficiente para derrubar a teoria de que Passaro agira em defesa própria. Em 14 de janeiro de 1971, a Alameda County Supreme Court declarou o rapaz inocente de sua acusação.

Gimmie Shelter - o Filme

Os Rolling Stones pagaram aos irmãos Albert e David Maysles $14.000 para filmar os três shows no Madison Square Garden. As cenas na Flórida ficaram por conta, uma vez que os Stones não solicitaram aquelas imagens. Os diretores sim, estavam empolgados com a excursão e foram juntos filmando muito do que acabou nunca sendo usado. Os Stones porém custearam despesas de transporte da equipe e comida na Flórida. Uma vez que o Festival de Altamont foi confirmado, foram pagos aos diretores outros $129.000 para filmá-lo. Isto possibilitou a contratação de uma equipe maior para registrar vários aspectos do festival, cobrindo toda a área, várias destas cenas ainda inéditas. A título de curiosidade, dentre as pessoas da equipe de filmagem estavam os ainda desconhecidos George Lucas, Stephen Lighthill e Walter Murch. Dentre os próximos dois anos, estes três estariam juntos trabalhando no filme "THX 1138", o primeiro longa-metragem dirigido por George Lucas.

A edição final do filme foi apropriadamente chamada de "Gimmie Shelter". Em sua conclusão, os Stones em um estúdio, assistem em câmara lenta as cenas captadas do assassinato e opinam. Com números finais apontando para 850 feridos e quatro mortos - dois por atropelamento, um afogado e outro esfaqueado - a conclusão geral é que o evento serviu como exemplo de organização apressada e extremamente falha. O filme porém chamou muita atenção. Inteligentemente editado por Charlotte Zwerin, que ganharia crédito de co-diretor, o filme chocou como documentário ao mesmo tempo em que evitou jogar culpas aleatoriamente. Sua cena final convida o público a julgar por si. Os Hell's Angels culparam Mick Jagger e ele passou a ser persona non grata dentro da organização. Isto não afetou muito a sua vida.

A Máquina Não Pode Parar

Aparentemente incansável, Jagger estava negociando shows para uma excursão completa na Europa. A idéia seria de gravar o próximo álbum em fevereiro e excursionar em maio. Na verdade, a banda só iria excursionar novamente em setembro. Mas Jagger quer tocar logo na Inglaterra, para não terminar o ano com Altamont sendo o último show da banda e na lembrança de todos. A excursão americana foi um sucesso financeiro e quebrou recordes de público em vários lugares. E mais importante ainda, a banda tocou muito bem, mostrando que os Rolling Stones conseguiram adaptar-se às exigências modernas de um show ao vivo, apesar dos atrasos. Todavia, justo ou não, aquela excursão acabaria sendo lembrada prioritariamente pelas infelicidades de Altamont.


A banda passa o dia 12 de dezembro na BBC, munida com um rolo de fita gravado sem as vozes. Apresentam três canções para as câmeras em play-back, sendo ao vivo apenas a voz de Jagger. "Gimme Shelter" seria apresentado no programa 'Pop Go The Sixties' no dia 19, "Honky Tonk Women" iria ao ar no dia de Natal no programa 'Top Of The Pops', e "Let It Bleed," faria parte do programa 'Ten Years Of What?', que vai ao ar no dia 28.

Dois dias depois destas gravações, os Rolling Stones deram seu primeiro show completo na Inglaterra desde 1966. Na verdade dois shows, um à tarde e outro à noite, ambos realizados no Saville Theatre em Londres. Essas duas apresentações foram filmadas e segmentos seriam usados em programas televisivos. "Satisfaction" tirado do segundo show foi o primeiro a ser usado, aparecendo no programa 'Supernight Of Rock n' Roll' no dia 31 do mês.

Outros dois shows no Lyceum seriam realizados no dia 21. O repertório era basicamente o mesmo, menos as canções "I'm Free", "You Gotta Move" e "Sympathy For The Devil," definitivamente abandonadas.

Roma e Nicholas

A vida em Roma estava perfeita para Marianne, que agora com Mario sempre ao seu lado, tinha um homem todo para ela. Chega de ter que dividir atenções com zilhões de fãs e a imprensa escrita e falada. Mario, que herdara sua fortuna da família, não sentia nenhuma necessidade de provar nada a ninguém. Ele estava feliz em passar os dias trepando com Marianne e cheirando cocaína.

Em Roma, Mario (no fundo ao volante), Marianne e Nicholas
Em Roma, Mario (no fundo ao volante), Marianne e Nicholas

No entanto Nicholas, filho de Marianne, não se adaptara tão bem a sua nova residência. Ele cresceu tendo Mick Jagger como padrasto e o amava como um pai. Nicholas pegou um casaco de peles da mãe presenteado por Mario e colocou-o na lareira. Assistiu o casaco queimar até ser pego pela babá. Marianne tomou isso como um sinal para passar a dar mais atenção ao seu filho. Percebendo a rejeição de Nicholas pela vida em Roma, Marianne resolve o problema passando o Natal na casa da avó Eva em Londres. Porém, para o desgosto do menino, trazendo Mario.

Um Presente Para Marianne

No dia 26 de dezembro, Mick liga para Marianne se propondo a uma visita. Desta forma, ele poderia dar seu presente de Natal em pessoa. Ao voltar da excursão, Mick andou telefonando e Marianne negou todo e qualquer tipo de condição para uma volta. Mick, com outras prioridades, parou de ligar e ela chegou a pensar que ele finalmente havia desistido. Portanto ao ligar novamente, Mick a pegou desprevenida e curiosa. Ao mesmo tempo, é normal entre os ingleses manter uma relação civilizada entre ex-casais. Marianne possivelmente viu o convite apenas como uma oportunidade para Mick discretamente conhecer Mario.


Ao chegar, encontra apenas Marianne e Mario na sala perto da lareira. Nicholas e Eva, a avó do menino já haviam se deitado. O presente é uma pequena caixa prateada para rapé do século passado, abarrotado com cocaína da maior pureza. O presente traz sorrisos e os três adultos começam a cheirar. Não demorou muito e as risadas entre Mick e Marianne atiçam o ciúme do italiano Mario. Os dois homens não demoram em começar uma discussão. Mick falando logicamente e friamente, como um inglês, acusando Mario de roubar sua mulher enquanto ele estava viajando a trabalho. Mario, todo esquentado, falando alto e gesticulando muito, acusa Mick de manter diversos casos paralelos e tratar Marianne mal. Marianne apenas assiste, se deleitando com o fato de ter dois homens brigando por ela.

Quando a briga esquentara a ponto de acordar Nicholas que reconhece a voz do padrasto, Mick então convida Mario a ir lá fora onde resolveriam a questão 'como homens'. No entanto acabaram ficando ali no bate boca mesmo. Em dado momento, os dois olharam para Marianne, como que dando a ela o poder de escolher e encerrar a discussão. Marianne apenas sorri, segue para sua cama e sugere que o vencedor poderá tê-la. Tomou uma pílula para dormir e ao acordar Mick Jagger estava dormindo ao seu lado. Mario havia dormido no sofá ao lado da lareira. Com os primeiros raios de sol deixou a casa voltando para Roma e nunca mais procurou Marianne. Nicholas e Marianne voltam com Mick para sua residência em Cheyne Walk. Nunca mais o nome de Mario será mencionado.

1970 - A Nova Década

O ano de 1969 termina com todo o positivismo inicial sobre a chegada da 'Era de Aquário' agora posto em cheque. Se em agosto os momentos vividos durante o Festival de Woodstock são tidos como o ápice da contra-cultura e do Movimento Jovem, já em dezembro, menos de quatro meses depois, o Festival de Altamont colocou todos a rever suas conclusões. O ano de 1970, se apresenta como um ano para por a prova a tese da mudança na ordem. Havia ainda os ideais pacifistas, onde a luta é contra a atual política externa de certos países do primeiro mundo, que são diretamente responsáveis pelas guerras na África e Indochina.

No entanto, o movimento hippie como um todo sofre tremendo prejuízo quando prendem Charles Manson pela chacina coletiva de sete pessoas. Se Altamont foi o primeiro sinal para quebrar o sonho de harmonia absoluta através da anarquia, a conscientização de que Charles Manson se parece com qualquer outro jovem hippie pedindo carona pelas ruas da América acaba se tornando a facada derradeira na imagem do 'beautiful people.'

Charles Manson
Charles Manson

Manson traz para as pessoas mais conservadoras, que temem hippies e sua filosofia liberal, um atestado de que todos os seus temores são verídicos. De que o hippie é mesmo um sinônimo de comunistas alucinados que denigrem os fundamentos básicos para uma vida decente e digna do amor de Deus. Mas o pior é que os próprios hippies e todo o 'povo lindo' também começam a olhar para os seus vizinhos com desconfiança. Se antes não se podia confiar em ninguém acima dos trinta, agora se percebeu que não se podia confiar mais em ninguém. Em 1970, começaria o julgamento de Charles Manson.

A psique geral, principalmente nos Estados Unidos, entre os jovens que até então eram ativos em suas posturas políticas, começa a cair em uma apatia horrenda. Durante o governo Nixon, além da Guerra do Vietnã acontecendo do outro lado do mundo, havia uma guerra civil em plena batalha por todo o país. Onde jovens antes contentes em protestar contra a guerra e cantar hinos pacíficos, agora estão aptos a apoiar táticas de guerrilha. O Movimento Panteras Negras se torna efetivamente uma milícia que o FBI está empenhado em desmontar. Bandas ativamente políticas como MC5 são caçadas até serem encontrados dispositivos legais para encarcerá-las. John Lennon passaria a ser espionado pelos mesmos motivos, com intuito de expulsão do país. O governo de Nixon é um espelho da neurose de seu líder. Sua maior falha é a de olhar para o direito constitucional do cidadão de discordar e protestar sobre o que lhe desagrada, e associa-lo à atividade antiamericana.

É quando o governo desconfia de seu povo que o povo encontra motivos de desconfiar de seu governo. O resultado são diversos conflitos entre polícia e exército contra o povo. Guerra civil não declarada. Soldados assassinam quatro estudantes em Kent, Ohio, eclodindo em ainda mais insatisfação e incertezas no país. A mentalidade do Nós Contra Eles passa a englobar armamento para fins de sobrevivência. É o começo do fim. Este fim será mais claramente sinalizado com a reeleição de Richard Nixon em 1972. Vários radicais continuariam a lutar contra a Guerra do Vietnã e contra o Governo Nixon, contudo, após o escândalo de Watergate, o impeachment de Nixon e o início do Governo Ford, aos poucos, a pressão é aliviada e até estes partirão para outras coisas. Acaba a era do hippie e o movimento jovem. Inicia-se a era das diferentes tribos, onde cada um veste um uniforme. Surge a antítese do hippie, o punk, de cabelo curto, e sem ideologia pacifista, nem tempo para algo que não dê lucro ou resultados.

Entre uma coisa e a outra, até na música o ano de 1970 é distintamente diferente de tudo da década de sessenta. A cultura das drogas que inicialmente impulsionara o movimento jovem, abrindo as cabeças para um mundo de possibilidades, tornara-se agora um fim e não um meio. As drogas substituíram a liberdade, substituíram o próprio movimento. Alguns músicos lutarão para se limparem e se afastarem de drogas pesadas como heroína. Outros mergulharão de cabeça na onda, sem conseguir se livrar do repuxo da corrente. Entre julho de 1969 a 1971 irão morrer por instâncias com algum nível de envolvimento com drogas, nada menos do que Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison. A música evidentemente sofre. Nasce a era de bandas como Bread, America, Chicago e The Carpenters. Como música alternativa, nasce o Glam Rock. Apatia musical, seu lar é a rádio AM. Rádios universitárias irão através do FM socorrer os ouvidos jovens da mesmice por volta de 1973.

Lownestein e Klein

A batalha para se livrar de Allen Klein iria começar pra valer. No dia 4 de fevereiro de 1970, Lowenstein se reuniu com os cinco integrantes do conjunto, cada um acompanhado por seu respectivo advogado, e expôs a realidade financeira da organização. Apesar de constar que levantaram aproximadamente $200.000.000 nestes sete anos de existência dos Rolling Stones, houve tantas despesas aleatórias sem registro, que muito do dinheiro sumiu sem vestígio contábil. Estavam em uma delicada situação onde não havia como os membros individuais da banda, nem tampouco a firma Rolling Stones, ter condições para pagar o imposto de renda devido ao governo. Simplesmente não havia dinheiro. Haviam traçado uma linha reta rumo à bancarrota, acumulando despesas bem acima de seus ganhos e devendo à Coroa uma soma alarmante em impostos atrasados. Para se ter uma idéia, fora o imposto na pessoa jurídica da firma Rolling Stones, só Mick e Keith acumularam juntos, cerca de £51.200 em impostos atrasados.

Para poder pagar suas dívidas, os Stones precisariam trabalhar para levantar o montante e economizar nas suas despesas. No entanto, o dinheiro que os Stones fizesse seria passível de novos impostos, impossibilitando qualquer real chance de quebrar o círculo vicioso. Aparentemente só havia uma saída. A solução seria a banda inteira se mudar da Inglaterra impreterivelmente antes do ano fiscal 1971-1972 começar. Os Rolling Stones terão que se tornar exilados por motivos de impostos de renda. Ainda neste ano de 1970, precisarão aguardar o final do contrato com a Decca em junho para encerrar relações com a gravadora, e ao mesmo tempo, não autorizar Klein a negociar outro contrato.

Quinze dias depois desta reunião, os quatro integrantes originais dos Rolling Stones descobrem que irão pagar um terrível preço por terem sido ingênuos quando fizeram seus contratos originais com Oldham, Easton e depois Klein. Além de toda a dificuldade que encontram para reaver o dinheiro que ganharam mas que permanece contratualmente retido com Allen Klein, descobrem agora que ABKCO é dona de todas fitas masters e direitos autorais de todas as gravações dos Rolling Stones lançados entre 1964-70 pela Decca. Assim, cada vez que se ouve "Satisfaction" na rádio ou TV, ou cada disco desses que se compra, quem está ganhando o dinheiro é ABKCO (Klein) e não os Rolling Stones.

No Estúdio

Durante os primeiros meses do ano, enquanto supervisionava-se as mixagens do disco ao vivo, a turma também participava de trabalhos alheios. Bill Wyman cuidava das gravações do próximo disco do The End, banda que produz e cuida como empresário. O escritório de Klein na ABKCO devolve finalmente os masters dos projetos solos de Brian Jones e Charlie Watts. O trabalho de Brian, 'The Pipes of Pan Joujouka' ficaria arquivado com os Stones por mais um ano enquanto a Rolling Stones Records ainda não deslancha. Mas 'The People Band', grupo de jazz produzido por Charlie Watts em outubro de 1968, é lançado finalmente em fevereiro pelo selo Transatlantic. Mick Taylor grava com Alexis Korner para o disco de estréia de Jack Grunsky chamado Toronto.

Olympic Sounds Studio
Olympic Sounds Studio

Entre março e maio, a banda passa a trabalhar em tempo integral em um novo álbum. Tanto Keith quanto Mick tem uma variedade de composições novas e dão vazão à criatividade montando um extenso catálogo de gravações registrando todas essas bases. Algumas canções recebem mais atenção do que outras. Um trio de engenheiros de som é usado, composto pelos irmãos Glyn e Andy Johns mais o colega Chris Kimsey. Dentre as canções gravadas estão títulos menos conhecidos como "Travelling Tiger", "Candlewick Bedspread", "Rock It", "Aladdin Stomp", "As Now", "Leather Jacket", e um instrumental chamado "Bent Green Needles." Este último, uma vez ganhando letra, passará a ser chamado de "Sweet Black Angel", porém por hora, será uma das menos trabalhadas. "Shine A Light" igualmente ficará para outra época, até ser aproveitada. Outro instrumental, "Dancing In The Light", tem Nicky Hopkins ao piano. Por último, "Good Time Woman", um riff originalmente de Mick, será mais tarde transformado em "Tumblin' Dice" depois de receber do vocalista uma letra.

Dentre as canções que receberam maior atenção, temos também o auxílio de uma pequena legião de amigos, que participam das gravações. Uma das primeiras a serem trabalhadas é "Bitch" e "I Got The Blues", que recebem de cara tratamento com um naipe de metais montado por Bobby Keys no sax e Jim Price no trompete. Billy Preston foi convidado, participando de "I Got The Blues" como também "Can't You Hear Me Knocking." Outros convidados são Rock Dijon nas congas e percussão e Ian Stewart nos pianos e teclados. Paul Buckmaster foi contratado para escrever os arranjos de cordas para "Moonlight Mile" e "Sway." Ao final de maio, entre versões consideradas prontas, faltando apenas mixagens, estão "Moonlight Mile", "I Got The Blues", "Can't You Hear Me Knocking", "Sway", "You Got To Move", "Brown Sugar", e "Dead Flowers."

Solidão e Remédio


Keith estava feliz em estar de volta em casa. A vinda de Marlon fez uma grande diferença para sua vida e não havia lugar melhor do que perto de seu filho. No entanto, apesar de toda felicidade trazida por uma criança, não seria Marlon quem traria calma para a residência da família Richards. É possível que Keith tenha ficado um pouco inseguro vendo Anita jurar veementemente que não quer casar com ele. Mesmo que sendo por uma boa causa, ou seja, não dar esta satisfação para uma sociedade burocrata.

Durante sua ausência, Anita, em nome da solidão, tem feito um maior uso de heroína, geralmente misturada com um pouco de cocaína para evitar o enjôo que geralmente dá. Como quase sempre acontece quando alguém mantendo um relacionamento passa a usar heroína, tudo passa a circular em torno da droga. Logo, a outra pessoa no relacionamento se encontra em uma situação onde há apenas duas escolhas. Encerra a relação, ou se junta ao parceiro(a) e torna-se um viciado.

Pode lhe parecer lugar comum este raciocínio, todavia, se tratando de heroína, seguidos exemplos mostram que depois de toda a conversa de autocontrole e senhor de seu destino, no final, dentro de algum tempo, raramente mais do que dois anos, você está dependente a ponto de fazer qualquer coisa, usar qualquer pessoa, roubar/vender, para conseguir aquela dose. Torna-se uma questão de sobrevivência animal. Passa-se a viver em uma realidade onde o remédio é a doença.


Anita consumia um terço de uma grama diariamente para evitar passar mal. Sendo assim, para economizar, ela já estava se injetando. Keith, vendo a situação, mas ainda extremamente apaixonado por ela, e querendo Marlon sempre por perto, não cogita se separar. Sempre o companheiro, no real sentido da palavra, Keith discretamente começa a usar heroína com maior freqüência. Dentro dos próximos meses, podia-se reparar mudanças no casal. Passavam a ficar cada vez mais com segredinhos particulares. Desconfianças com os empregados, mesmo os mais antigos. Aos poucos, foram recebendo menos visitas, mantendo cada vez menos amizades, e mesmo assim, as visitas que porventura aparecessem eram invariavelmente outros consumidores de heroína. Em tempo, Keith e Anita começariam a esconder papelotes de herô entre si, temendo que o outro pudesse roubar-lhe a preciosidade.

Para manter o estoque, Keith arrumou um fornecedor que ganhava a vida roubando farmácias. Lembrando que na Inglaterra, cocaína, morfina e heroína ainda podiam ser compradas legalmente com prescrição, seu estoque residia primordialmente nestes três produtos e mais barbitúricos.

Visando a Sobrevivência da Banda

Mick estava sofrendo enorme pressão neste inicio de ano. É plausível concluir que, em toda justiça aos fatos que vem acontecendo, assim como sem Brian Jones, os Rolling Stones nunca teriam existido e certamente não teriam se destacado com tanta personalidade e estilo dentre tantas outras bandas de sua época; sem Mick Jagger e sua visão realista tanto das exigências do show business quanto das viabilidades econômicas das mesmas, dificilmente a banda teria sobrevivido à saída de Brian e as articulações financeiras de Klein.

Acontecimentos Desta Primavera

Em março, finalmente estréia comercialmente dentro dos Estados Unidos o filme "One Plus One" de Goddard. A grande curiosidade na película é gerada pelas cenas contendo os Rolling Stones ensaiando a canção "Sympathy for the Devil". Visando lucrar ao máximo dentro do mercado americano, o produtor do filme Alan Quarrier muda o título do filme para "Sympathy for the Devil" e adiciona todas as cenas disponíveis dos Rolling Stones em detrimento do decurso lógico da história seqüencial do filme. Goddard não ficou feliz com esta manobra e os americanos acabaram assistindo um registro completo da gravação de um sucesso dos Rolling Stones em um filme cuja história ficara sem pé nem cabeça.

Cenas do filme Sympathy For The Devil
Cenas do filme Sympathy For The Devil

Também em março, Allen Klein é chamado pelo departamento fiscal americano e é formalmente acusado de sonegação. Sua multa foi calculada em $15 mil dólares. A Immediate Records, selo de Andrew Oldham, fecha suas portas no início de abril. E no final deste mês, Jo Bergman iria ligar para o desenhista americano John Pasche confirmando a encomenda de dois desenhos. Um pôster para a excursão européia a ser realizada em setembro e um símbolo para ser usado como logotipo do selo que a banda pretende lançar.

Durante o mês de maio saem as primeiras notícias envolvendo a fortuna deixada por Brian Jones. Aparentemente ele deixou uma dívida calculada em £191.707 retendo bens no valor de £33.787. Este valor não inclui todo seu investimento em tapetes persas, móveis antigos, jóias, e equipamentos eletrônicos, roubados junto com suas roupas, desaparecendo misteriosamente de sua residência dias após seu falecimento. Mesmo se não tivessem sido roubados, dificilmente mudaria o resumo da ópera. Brian Jones morreu completamente falido.

Um Lobo em Londres

Howlin
Howlin' Wolf

A semana entre os dias 4 a 7 de maio foi dedicada a uma atividade diferente. Marshall Chess, de quem falaremos no próximo capítulo, trouxe Howlin' Wolf para gravar seu próximo disco em Londres. Este disco acabaria sendo lançado apenas no ano seguinte já pelo selo novo dos Rolling Stones. Nas sessões, afora o seu guitarrista Huber Suralin, trazido dos Estados Unidos, tocariam uma série de músicos ingleses. A banda base é formada por Charlie Watts, Bill Wyman, Steve Winwood e Eric Clapton. No entanto, participações incluem também Ringo Starr, Klaus Voorman e Ian Stewart.

Paralelamente às gravações realizadas no Olympic Studios à noite, Mick e Jo Bergman tiram alguns dias para procurar locais aonde a banda possa residir. Acompanhando os dois, Mick levou Marsha Hunt. Por uma questão de gosto pessoal, de toda a Europa, o local onde ele começa a procurar é a França. A preferência foi para o sul onde o inverno é mais ameno e a vista é para o Mediterrâneo.

Solidão e Malcriações

Durante as sessões, Marianne passa a telefonar constantemente choramingando sobre solidão. Ela está frágil e perdeu o hábito de esconder seus sentimentos. Um pouco como Chrissie antes dela, Marianne agora reclama e fala de tudo, telefonando histericamente para Mick, interrompendo constantemente sua concentração no estúdio. Algumas pessoas dentro do círculo começam a se questionar por quanto tempo isto iria continuar.

As sessões passaram para as tardes, deixando as noites livres para clubes ou eventos sociais. Jagger estava cada vez mais interessado nestas festas sociais, especialmente se o convidado tinha um título. Marianne, que por sinal realmente tem sangue azul, caga e anda para estas coisas. Neste momento de carência e depressão em que vive, ela se irrita com a pressão de Mick para participar destes tediosos encontros sociais, obrigando-a a perder horas estudando o que vestir. Coisa aliás que em outros tempos lhe dava enorme prazer, mas que agora lhe parece tão vã e inútil.

Para persuadi-lo a parar de chamá-la, durante um elegante jantar oferecido por David Brooke, o Earl de Warwick, realizado em seu castelo, apropriadamente chamado de The Warwick Castle, Marianne engoliu cinco cápsulas de Mandrax e desmaiou no prato de sopa. Depois de passar esta vergonha, Mick nunca mais insistiu que ela o acompanhasse.

Paquerando os Amigos

Marianne e Mick estão vivendo em mundos distintos, embora dividindo o mesmo teto. Marianne recomeça novamente a tomar heroína, além de suas habituais companheiras, as pílulas de Mandrax. Vive freqüentando a casa de amigo(a)s como Anita, Robert Frazer, Pamela Mayall e Andee Cohen. Volta a manter sua relação homossexual com Anita e Andee. Mick tenta ignorar o que está acontecendo, guardando suas energias para sua luta contra Klein e Decca. Jagger se diverte flertando com o guitarrista Mick Taylor, atraído pelo seu ar de inocência. Taylor ao entrar nos Rolling Stones tratava maconha como droga pesada. Agora Mick se diverte em ver o quanto ele consegue corromper o rapaz.

Comentários dão conta que Marianne chegou em casa certa tarde e encontrou os dois Micks deitados na cama, ambos completamente vestidos, porém tirando um cochilo juntos. Quando Jagger acordou, vendo a situação comprometedora em que foram encontrados, comentou com muita tranqüilidade que tomaram algo e devem ter apagado. Pouco se sabe de como realmente se deu e até onde foi o esforço de Jagger em corromper Taylor. Porém, até Rose Miller passaria a se queixar com Mick T sobre como ele anda passando tempo demais com o vocalista.

Relação Nas Últimas

Mick continua mantendo suas relações com Marsha Hunt, que está esperando um filho seu. Mick por vezes se imagina casando com ela, porém no fundo sabe que não a ama a esse ponto. Certa noite Mick começa a tocar no assunto tabu com Marianne, sobre sentimentos de frustração na relação. Questiona o porquê da eterna insatisfação que Marianne demonstra ter com sua vida. O debate, conforme foi ficando mais honesto e sincero quanto às razões das frustrações mútuas, foi igualmente escalando em volume por parte de seus dois participantes. Isto era uma reação extremamente rara, especialmente por parte de Mick Jagger.

No meio a sua análise de como e porque Marianne o havia deixado por outro homem enquanto ele estava na América a trabalho, Mick estava tão alterado que Marianne pela primeira vez sentiu medo de apanhar de seu namorado. Quando Mick percebeu o temor em seus olhos, se retraiu e rapidamente mudou de tática. Convidou Marianne a ouvir uma coisa especial, e ao botar uma fita para tocar, ela ouve em primeira mão o refrão "Wild horses couldn't drag me away" da canção "Wild Horses." Lágrimas inundam os seus olhos. É a primeira frase dita por ela depois de sua overdose ainda na Austrália.


No final de junho é lançada a trilha sonora do filme "Ned Kelly", com Mick Jagger cantando a faixa principal, "The Wild Colonial Boy". A canção é um tema do folclore australiano, que aqui tem um arranjo de Shel Silverstein. Mick Jagger organiza a sessão mas empresta apenas sua voz a esta curiosa faixa. Buscando através da música a paz de espírito que sua vida doméstica atual não oferece, Mick Jagger se envolve em outro projeto, participando com sua voz e sua gaita em várias músicas para um futuro álbum do pianista americano de Nova Orleans, Dr. John.

Injetando Mudanças


Marianne acalmou por algum tempo, mas seu vício chegara novamente ao ponto em que estava antes de seu coma. Ela se injetava com dois terços de um grama por dia e sempre andava com flagrante. Ahmet Ertegun, presidente da Atlantic Records voou até Londres para visitar Mick Jagger e adiantar ao máximo o acordo entre a banda e a gravadora. Vendo as condições de Marianne e reconhecendo imediatamente do que se tratava, Ahmet educadamente deixa claro que a sua companhia vai investir milhões de dólares na banda, e ele não pode arriscar que o projeto acabe por problemas paralelos. Mick entende o recado e sabe que mais cedo ou tarde, a polícia irá pegá-lo novamente por causa dela.

Marianne também entende a realidade dos fatos. Sabe que eles sempre serão visados. Então, em uma escolha consciente entre heroína e a vida de casal com Mick Jagger, optou pela primeira. Em maio, quando Jagger lhe explica que precisarão se mudar para a França, ela lhe informa que não irá com ele. Apesar de surpreso, Mick nada diz para fazê-la mudar de idéia. Acabou. No mesmo dia ela pega suas coisas, seu filho e se muda para a casa da mãe.

O contrato com a Decca termina no primeiro dia de julho e a gravadora sabe que perderá a banda uma vez que todos os esforços para iniciarem negociações para renovar encontram uma parede de indiferença. Os Stones consideram a Decca uma gravadora com uma gerência geriátrica, estagnada e totalmente sem imaginação. E a briga sobre a capa de "Beggar's Banquet" ainda não fora engolida por Jagger. No último dia de junho, Allen Klein recebe um telegrama assinado pelos cinco Rolling Stones informando que ele não tem mais autorização para representar a banda. Cópias de um anúncio geral são distribuídas para a imprensa confirmando o fato que nem Allen Klein, sua companhia ABKCO Inc., ou nenhuma outra firma, tinha mais algum poder para negociar qualquer contrato em nome dos Rolling Stones. Klein os processa e os Rolling Stones o contra processam. A batalha judicial começa.

A Decca igualmente faz a sua birra. Viraram a noite estudando o contrato procurando alguma brecha para poder segurá-los e a encontraram. Observando um detalhe em uma das cláusulas, Jagger é posteriormente informado que a banda tecnicamente deve a sua gravadora mais uma música inédita.

Janice

As gravações no Olympic Studio continuam até julho, agora tendo Jimmy Miller mais presente como produtor. Jimmy grava algumas percussões em algumas faixas e adicionam ao material "Sweet Virginia" e outro cover de Robert Johnson, "Stop Breaking Down." Glyn Johns recebia uma amiga americana que estava hospedada com ele, sua mulher e filho. O nome dela era Janice Kenner, que resolveu ficar na Inglaterra e pediu que Glyn, se pudesse, ajudasse-a a encontrar algum trabalho pela cidade. Durante uma sessão em julho, Glyn dá o aviso geral que ele conhece uma menina que está querendo trabalho. Jagger logo avisa que ele precisa de alguém para cuidar da casa mas quer conhecê-la primeiro. O relacionamento entre Mick e Marsha piorou depois da saída de Marianne de sua vida. Marsha percebeu logo que Mick não ia assumir o relacionamento com ela e sendo uma mulher extremamente independente, mandou ele pastar.

Glyn e Janice foram para a estréia do filme "Ned Kelly" no lugar de Mick que dispensou o programa. Sabendo que o filme era fraco, ele não queria estar lá onde provavelmente receberia apenas críticas e precisaria ficar se explicando. Depois do filme, Glyn leva Janice até o estúdio onde ela seria apresentada a toda banda e Jagger poderia dar sua conferida. Dentro do aquário do estúdio, a banda ouvia "Bitch". Jagger sabendo quem ela era e porque estava ali se chegou, ficando em pé bem na frente da menina sentada. Assim, passa a dançar rebolando os quadris pra frente e para trás com sua cintura bem na frente de Janice, os culhões de Jagger, a um palmo de distância do rosto da menina.

Janice sem saber onde enfiar a cara tentava olhar pros lados, pro chão. Jagger continuava dançando até que perguntou se ela sabia dançar. Janice responde positivamente e é então convidada a dançar com ele. Ela pensa um pouco, amedrontada com a idéia de dançar com Mick Jagger em frente a um bando de estranhos, mas acaba mandando seu medo às favas, se levantando e começando a dançar com ele, imediatamente sentindo a tensão no ambiente sumir. Baseados são acessos e ela aparentemente havia passado no "teste". Na sexta-feira, depois da terceira noite que Janice visita o estúdio, Jagger se oferece a lhe dar uma carona. No carro, antes de saírem, ele cavalheirescamente lhe pergunta, "Então querida, queres acordar na cidade ou no campo?" Janice sabendo muito bem que não é sempre que se tem a oportunidade de passar uma noite com um astro da magnitude de um Mick Jagger, ignora a pretensão do homem pelo brilho do astro. "No campo" foi tudo que ela conseguiu responder.

Passaram o fim-de-semana juntos em Stargroves. Jagger a contratou deixando claro que não seriam amantes. Suas obrigações eram de vigiar que a empregada mantivesse a casa limpa e cozinhar para ele nas ocasiões que ele precisar. No mais, ela serviria apenas como companhia. O repetitivo problema desses jovens vivendo a vida de um magnata e sem poder confiar em amizades que seu dinheiro e estrelismo atrai. Como Keith fez com Tony, Mick faz com Janice, ou seja, contrata um amigo de plantão. Ela passou a morar no quarto e andar imediatamente acima do dele na casa. Os dois se tornaram bons amigos, Janice servindo a Mick como um travesseiro para suas emoções.

Jagger estava ainda um pouco abatido por causa dos incidentes ocorridos em Altamont. Em parte ele se sentia culpado por não ter vigiado mais de perto como estava sendo organizado o evento e desconfiado mais de certas sugestões feitas. Conversavam longamente sobre praticamente qualquer coisa a qualquer hora. Janice logo aprendeu que Mick precisava de um amigo muito mais do que uma amante, embora pelo menos uma vez na semana ela servia os dois papéis. Achando Mick excelente como amante, aos poucos, Janice foi se apaixonando pelo homem que ela passava a enxergar, não o astro.

Janice ouvia com ternura nos olhos enquanto Mick falava que ele se via no apogeu e que agora a tendência só poderia ser a decadência. Afinal, por quanto tempo uma banda de rock pode existir? Os Rolling Stones já eram a banda mais antiga ainda em atividade, seguidos de perto pelo Kinks. Todas as demais já haviam sucumbido, até mesmo os Beatles. Mick questiona se ele deveria voltar a tentar algo na política, uma proposta mais atraente do que a de cinema; todavia, no fundo ele gosta do que faz e não gostaria de largar a vida de líder de uma banda. Conclui que o melhor que pode fazer é tentar manter o nível de seus shows e tentar manter o público interessado na banda o máximo de tempo possível. Com esta conclusão, Mick Jagger passa a fazer exercícios regulares e adota o hábito de andar de bicicleta toda manhã. Diminui consideravelmente a bebida e praticamente para de tomar qualquer tipo de drogas, fora o ocasional baseado. Se ele pretende continuar com seu ritmo de vida depois dos trinta, ele precisa se manter fisicamente em forma.

Catherine

Eric Clapton estava transando com uma loira estonteante chamada Catherine James. Típica groupie porra louca, ela era uma California Girl feito Janice, porém tendendo um pouco mais para o gênero loira burra. Embora Catherine fosse (segundo se especula) muito boa de cama, ela era incapaz de manter um debate com um mínimo de profundidade intelectual. Quando Eric cansou, passou o bastão para o amigo Mick, que sumiu por um fim-de-semana com ela e depois a trouxe para morar em sua casa na função de amante titular.

Se Mick pretendia que Catherine substituísse Marianne como a dama da casa, estava extremamente enganado. Catherine tinha menos finesse do que ela tinha de cultura e rapidamente ficou óbvio para todos que ela não passava de um espermatório de Jagger e nada além. Catherine estava feliz vivendo a ilusão de que se apaixonara por Mick Jagger e ele por ela. Janice tentou avisar a coitada que, cega pela ilusão, recusou-se a enxergar. Para ele, era uma relação perfeita onde uma mulher alimentava o corpo e a outra a mente. Catherine e Janice morriam de ciúmes uma da outra, ambas inseguras demais para se queixarem da situação com Mick. Jagger conclui que uma das teorias de Brian Jones sobre ter duas mulheres estava certa, existe mesmo segurança em números.

Mas se as duas evitavam discutir quando Jagger estava presente, quando ausente, as meninas entravam em uma guerra que chegava a ponto da histeria. Eventualmente as faíscas passaram a ser soltas com Mick em casa e ele se divertia em vê-las lutando por ele. Enquanto Catherine agredia verbalmente Janice e as duas discutiam, Jagger assistia quieto alimentando seu ego com enormes quantidades de presunção. Janice sendo mesmo mais inteligente do que a outra, logo percebeu que Jagger divertia-se tentando jogar uma contra a outra para assisti-las brigarem por ele. Aos poucos foi deixando as discussões de lado e esperou o inevitável. Ela apostou corretamente na probabilidade de Jagger se cansar da Catherine. Afinal, era inviável tentar manter aquele nível de fricção constante dentro de casa por muito mais tempo.

De fato, foi no final de agosto, quando a banda ia excursionar pela Europa que o trio foi desfeito. Planos iniciais incluíam no roteiro um show em Moscou mas não se conseguiu as devidas permissões. Shirley Arnold, presidente do fã clube ia seguir como parte da tropa no papel de assistente particular de Anita e babá de Marlon. Todavia, na semana antes de viajar, ela torceu o calcanhar e não pôde ir. Combinou-se então que Janice seguiria com a tropa no lugar de Shirley. Catherine que estava chorosa porque não ia viajar, ao saber que Janice ganhara uma tarefa e iria estar com eles, ficou puta da vida. Debatia suas necessidades de viajar com Mick enquanto Janice ajudava a fazer suas malas. Cansado da ladainha, Jagger a leva para outro quarto. Talvez dando uma bimbada de adeus ela sossegue, ele pensou.

Enquanto ele começava a dar seu doce adeus, outra mulher, abre a porta para falar com Mick. Era a atriz Myriam Breton, namorada de Donald Cammell, que viera fazer uma visita para conversarem sobre a possível estréia de "Performance", filme que ambos trabalharam juntos dois anos antes. A Warner finalmente iniciava a preparação promocional para o seu lançamento no mercado. Catherine, não sabendo que tipo de relação Mick tinha com essa outra mulher que aparecera de repente, ficou histérica ao vê-la entrando no quarto. Confundindo Myriam com alguma groupie escondida por Mick pela casa, Catherine perde a postura e passa a arranhá-lo e puxar seus cabelos pela raiz. "Eu te odeio! Eu te odeio!" ela gritava enquanto atacava seu galã milionário. Mais tarde, mais calma, Catherine foi convidada a se retirar. Jagger foi para o aeroporto com Janice e Myriam enquanto Catherine, juntou suas coisas antes de anoitecer e sumiu.

Parte 33 - A Excursão Européia

No carro, antes de saírem, Mick pergunta cavalheirescamente, "Então querida, queres acordar na cidade ou no campo?". Janice sabendo muito bem que não é sempre que se tem a oportunidade de passar uma noite com um astro da magnitude de um Mick Jagger, ignora a pretensão do homem pelo brilho do astro. "No campo" foi tudo que ela conseguiu responder. Passaram o fim-de-semana juntos em Stargroves, sua casa de campo. Jagger depois a contratou deixando claro que não seriam amantes. Suas obrigações eram de vigiar que a empregada mantivesse a casa limpa e cozinhar para ele nas ocasiões que ele precisasse. No mais, ela serviria apenas como companhia.

Escolhendo Gravadoras

Há um mês e meio sem gravadora, os Rolling Stones anunciam para a imprensa a intenção da banda de montar um selo próprio. A criação do selo, apropriadamente chamado de Rolling Stones Records, é inicialmente comparado pela imprensa com a Apple Records dos Beatles, mantendo o estigma de comparações e duelos entre as duas bandas. Jagger se limita a garantir que o selo terá seu patrimônio e gerência definida dentro do próximo ano, antes do lançamento do novo disco dos Rolling Stones.

Durante o decurso do ano, a firma Rolling Stones receberia uma enorme quantidade de ofertas por parte das gravadoras. Que se saiba, as grandes que disputaram com valores altos de dinheiro foram a RCA, CBS e Warner Bros. Sabe-se, por exemplo, que a RCA ofereceu cerca de $7 milhões de dólares por seis discos a serem entregues no período de não mais que cinco anos, enquanto a Atlantic ofereceu apenas $5.2 milhões. No entanto, após o convívio com uma gravadora grande como a Decca, aspirações artísticas interessavam aos dois principais Stones mais do que cifras.

Tanto Mick quanto Keith estavam ideologicamente querendo associar a imagem da banda a uma gravadora que simbolizava a música que eles tanto amam e divulgam. Por isso foram procurar a Chess Records e a Atlantic Records. Afinal, foram estes dois selos que mais investiram em blues e rhythm & blues nas décadas de quarenta e cinqüenta. Foram os discos destas duas gravadoras que os rapazes compravam para ouvir seus artistas prediletos quando ainda garotos. No entanto, as situações das duas gravadoras, no final da década de sessenta, mudara. A Chess Records havia sido vendida recentemente para a GRT, e seus escritórios deixaram a cidade de Chicago para uma nova sede em Nova York. Incertezas também rondavam a possível migração da banda para a Atlantic Records, apesar das conversas com Jerry Wexler e Ahmet Ertegun, iniciadas durante a excursão americana de ´69, e que foram tão importantes para cativar Jagger.

Atlantic Records


A Atlantic Records, junto com sua subdivisão Atco, foram compradas pela Warner Seven Arts em 1967. Esta companhia de cinema deixou o seu setor fonográfico funcionando como duas companhias separadas, a Warner Brothers Records, que por sua vez comprara a Reprise Records de seu dono Frank Sinatra, mais a Atlantic Records e sua lucrativa subsidiária a Atco Records.

O grupo Warner Seven Arts seria então comprado por uma companhia chamada Kinney National que cuidava de várias empresas menores que atuavam em áreas tão diversas como terrenos para estacionamento, produção de tickets para estacionamento, limpeza de escritórios, aluguel de carros, distribuição de revistas e casas funerárias. Esta lucrativa empresa, diversificando seus investimentos ainda mais, compra a Warner Seven Arts em 1969 e acabaria também comprando em 1970 a Elektra Records. Seu setor fonográfico agora passaria a se chamar WEA (Warner-Elektra-Atlantic) Records, dirigido pelos respectivos presidentes de cada companhia individual, Mo Ostin e Joe Smith para a Warner Bros., Jack Holzman para a Elektra, e por último, Ahmet Ertegun e Jerry Wexler para a Atlantic. Além de dirigir seus respectivos selos, eles também atuariam juntos na forma de um comitê para a WEA. Com o passar da década, a Kinney National evoluiria para a atual Warner Communications (embora retendo o nome Kinney para suas mais antigas atividades ligadas a estacionamentos, funerárias e limpeza).

Mas naquele período, as mudanças ainda geravam dúvidas sobre a política interna de cada empresa e como ela poderia influir na maneira dos Stones trabalharem com sua Rolling Stones Records. Apesar de Ertegun garantir que ele continua tendo controle administrativo da sua gravadora, as dúvidas fazem com que Mick aguarde antes de fechar qualquer acordo.

Chess Records


Na década de quarenta, dois irmãos, imigrantes poloneses chamados Leonard e Phil Czyz (pronuncia-se Tchez), americanizam o sobrenome da família para Chess. Compram a falida gravadora Aristocrat Records fundando assim em 1947, a Chess Records. Foram os primeiros a gravarem artistas como Muddy Waters, Howlin' Wolf e muitos outros músicos que são considerados hoje os papas do blues.

Após o falecimento de Martin Luther King Jr. em maio de 1968, o Movimento dos Direitos Civis, que visava direitos iguais para cidadãos brancos e negros na América, mudou de tática. Onde havia uma busca de harmonia e aceitação pacífica entre raças, liderada por King, passaram a haver protestos mais rancorosos, principalmente contra instituições que lucravam através dos negros.

Leonard e Phil estavam recebendo certa pressão de grupos da comunidade negra por terem levantado seu pequeno império, praticamente graça a talentos negros. O fato que o trabalho dos dois irmãos em levantar a gravadora e divulgar estes talentos ser em parte responsável por estes artistas terem uma carreira reconhecida no mundo todo, ficou esquecido e colocado em segundo plano.

Diante do momento desfavorável, os dois homens, já com mais de cinqüenta anos de idade cada um, resolvem vender a gravadora, seus sonhos girando agora na possibilidade de investir no cinema. No entanto, em outubro de 1969, Leonard faleceu repentinamente e Phil acabou preferindo se aposentar a iniciar sozinho uma nova empreitada.

Marshall Chess

O presidente da Rolling Stones Records e responsável por tocar o selo adiante seria Marshall Chess, um americano de 29 anos, filho de Leonard Chess. A gravadora Chess Records havia sido criada quando o rapaz ainda era um menino de apenas cinco anos. Marshall herdou do pai e do tio uma cultura musical fenomenal, principalmente na área de blues e rhythm and blues. Aprendeu também muito sobre como gerenciar uma gravadora e se manter atualizado conforme o mercado. Durante a década de sessenta, Marshall Chess já trabalhava para a gravadora da família e foi responsável por lançamentos de Muddy Waters e Howlin' Wolf. Seu talento natural pendeu sempre para a produção de álbuns, função que exerceu dentro da Chess Records até ela ser vendida em 1968.

Como Marshall seria herdeiro do império Chess e foi preparado desde criança para um dia assumir a gravadora, houve um acordo entre os dois irmãos de que ele receberia cerca de um milhão de dólares como sua parte na gravadora. Com este dinheiro ele poderia começar o seu próprio selo. No entanto, devido ao falecimento repentino de seu pai houve problemas legais, uma vez que Leonard não deixou um testamento. De acordo com as leis americanas, o governo pôde descontar uma porcentagem muito maior em impostos: uma pequena fortuna. Com isso, Phil não pôde honrar o acordo de cavaleiros feito entre irmãos e com isso, Marshall não teve como receber seu milhão de dólares. Desapontado e desgostoso, Marshall aproveita o período de transição dos escritórios de Chicago para Nova York, para anunciar que abria mão da posição oferecida a ele dentro da nova Chess Records.

Teria sido Bob Krasnow (que se tornaria no futuro o presidente da Elektra), que apontou para o fato dos Rolling Stones estarem prestes a deixar a Decca. A idéia de Krasnow era que os dois se associassem para negociar com os Stones como intermediários entre a banda e uma gravadora. Preferindo trabalhar sozinho, Marshall viaja para Londres na esperança de conseguir algum tipo de acordo. Conversou rapidamente com Jagger no Ad Lib Club, marcando um encontro de negócios dentro dos próximos dias. Foi neste encontro que Mick e Keith conheceram e ficaram impressionados com Marshall. Por ser da mesma idade que eles, e assim sendo, oferecendo uma imagem de executivo diretamente oposta a que os dois músicos estavam acostumados na Decca, houve uma confiança natural.

Na série de encontros que se seguiram, Marshall demonstrou ter uma vasta cultura musical em rock 'n' roll, portanto sendo também um fã fervoroso da música dos Rolling Stones. Conversaram informalmente sobre o projeto dos Stones em montar um selo próprio e Marshall ofereceu tanta energia positiva para Mick, Keith e os demais, que contagiou a todos.

Assim, foi uma escolha unânime convidá-lo a ajudar a montar e depois administrar o novo selo da banda, a Rolling Stones Records. Marshall acabaria sendo um fator importante para influir na decisão de Mick levar os Stones para a Atlantic Records. Ahmet é amigo da família Chess há muitos anos, chegando a comparecer ao Bar Mitzvah de Marshall. Com Lowenstein ainda engatinhando nos meandros da indústria fonográfica, Marshall facilitou as conversações para conseguirem o melhor acordo para ambas partes. Estes anúncios só seriam realizados em abril de 1971. Enquanto isto, a primeira função de Marshall seria vistoriar o lançamento do álbum ao vivo, último trabalho dos Stones com a Decca Records.

Cocksucker Blues

Falando na Decca, não se perturbando com a fútil tentativa desesperada da sua agora ex-gravadora de arrancar mais algum dinheiro deles, Mick Jagger prepara sua resposta. Ele prontamente pegou um violão, compôs e gravou sozinho uma canção, que de tão cheia de palavrões e insinuações sexuais, Jagger acredita impossível a gravadora poder fazer uso. Entregou através das mãos de Marshall Chess o rolo de fita com a gravação da canção para o presidente da Decca, Sir Edward Lewis, com um bilhete dizendo, "Aqui está o nosso divórcio."

Sir Lewis ficou um pouco entristecido em ver sua mina de ouro deixando o selo. Não tanto que ele não pudesse apreciar o poder promocional desta última canção entregue ao selo. Marshall Chess comenta sobre esta reunião que, ao ouvirem a nova canção, 'Cocksucker Blues', os executivos quase engasgaram em seus charutos. Em dado momento Marshall pensou para si, "Acho que vou gostar de trabalhar para esta rapaziada."

Eis a letra da canção:

Well, I'm a lonesome schoolboy,
and I just came into town
Well, I'm a lonesome schoolboy,
and I just came into town
Well, I heard so much about London,
I decided to check it out.

Well I wait in Leicester Square,
with a come-hither look in my eye.
Yeah, I'm leaning on Nelson's Column,
but all I do is talk to the lime.

(Refrão)
Where can I get my cock sucked?
Where can I get my ass fucked?
Well I may have no money,
but I know where to put it every time.

Well I asked the young policeman
if he'd only lock me up for the night.
Well, I had pigs in the farmyard,
some of them, some of them they're all right.
Well he fucked me with his truncheon,
and his helmet was way too tight.

Embora a intenção do Jagger era de fazer algo que não pudesse ser utilizado, a Decca acabaria lançado oficialmente a canção em 1984, através de sua filial alemã que a incluiu em um box set. Quando a matriz inglesa soube do lançamento, a canção foi retirada da caixa. No mesmo ano, começou a aparecer uma prensagem pirata com selo da Rolling Stones Records em formato de maxi-disc (compacto de 12 polegadas em 45rpms) em vinil azul, verde ou vermelho, contendo a canção em um de seus lados.

Excursão Européia

Começa a excursão européia. A primeira atividade na pauta foi uma coletiva de imprensa em Copenhagen, Dinamarca no dia 29 de agosto. De lá seguiram para Malmö na Suécia onde estrearam a excursão. A banda tinha com eles no palco, agora pela primeira vez, três músicos convidados. São eles Ian Stewart no piano, Bobby Keys no sax e Jim Price no trombone e trompete. Serão quarenta e um dias, onde se apresentarão em dezoito cidades em oito países diferentes.


Foi por estarem cansados de chegar em casas de espetáculos mal preparadas, que eles decidem trazer durante a excursão nos Estados Unidos o seu próprio equipamento de som e luz, mais equipe, para os locais dos shows. A organização Rolling Stones dá agora o próximo passo natural que era trazer com eles um palco completo, em uma clara tentativa de homogeneizar a plataforma onde é realizado o espetáculo.

A bagagem de palco agora inclui plataforma, cortinas e um guincho, além de um sistema completo de luz e som. São utilizados dois caminhões para carregar tudo. Vinte e seis pessoas faziam parte da equipe de palco. Somada a banda mais assistentes, computavam cinqüenta e uma pessoas no total.

O repertório era basicamente igual ao da excursão americana, porém com arranjos para sopros e algumas diferenças na seqüência e escolha das músicas. A ordem básica seguia com Jumping Jack Flash/ Roll Over Beethoven (Berry)/ Sympathy For The Devil/ Stray Cat Blues/ Love In Vain (Johnson)/ Dead Flowers/ Midnight Rambler/ Gimmie Shelter/ Live With Me/ Let It Rock/ Little Queenie (Berry)/ Brown Sugar/ Honky Tonk Women e Street Fighting Man. Depois do primeiro show em Malmö, "Gimmie Shelter" cairia da programação. Para abrir o show, havia as apresentações da dupla de bluesmen Buddy Guy e Junior Wells, como também uma desconhecida menina americana de vinte anos chamada Bonnie Raitt.

Último Material para a Decca

Durante a primeira semana da excursão a Decca lançaria o LP "Get Yer Ya Ya's Out" que teria excelentes vendas promovidas pela banda durante a excursão. A concepção original era que o disco fosse um álbum duplo e incluísse apresentações de BB King e Ike & Tina Turner, porém a Decca abortou a idéia. No dia 8 de fevereiro, o fotógrafo Michael Berkofsky registrou uma série de imagens com Charlie Watts carregando instrumentos em cima de um viaduto. O intuito destas fotos seria servir como capa do novo disco ao vivo, mas elas acabaram sendo recusadas. Abaixo três fotos desta sessão.

No dia 7 de junho, agora com o fotógrafo David Bailey, a mesma idéia foi executada, agraciando a capa do disco agora chamado "Get Yer Ya-Ya's Out! - The Rolling Stones in Concert". A arte da capa é de John Kosh. A frase "Get Yer Ya-Ya's Out" vem de uma canção de Blind Boy Fuller, gravado em 29 de outubro de 1938, na Carolina do Sul. Fuller morreria três anos depois aos 32 anos. Este é o primeiro disco ao vivo em estéreo autêntico com qualidade de som do nível de uma produção de estúdio. Para uma melhor orientação do que se está sendo ouvido neste disco, segue as faixas e suas fontes:


Lado A:

- Jumping Jack Flash - NYC, 27.11.69
- Carol (Chuck Berry) - NYC, 28.11.69, 1º show
- Stray Cat Blues - NYC, 28.11.69, 1º show
- Love In Vain (Robert Johnson) - Baltimore, 26.11.69
- Midnight Rambler - NYC, 28.11.69, 2º show

Lado B:
- Sympathy For The Devil - NYC, 28.11.69, 1º show
- Live With Me - NYC, 28.11.69, 2º show
- Little Queenie (Chuck Berry) - NYC, 28.11.69, 1º show
- Honky Tonk Woman - NYC, 27.11.69
- Street Fighting Man - NYC, 28.11.69, 1º show ou Baltimore 26.11.69

A Dupla Bob e Keith

Como de costume, depois dos primeiros shows ainda frios, logo a banda estava tocando azeitada como uma locomotiva a todo vapor. A química entre Keith Richards e Bobby Keys solidifica-se rapidamente em uma amizade forte. Durante o almoço, Keith repara um sujeito incomodando seguidamente Bobby. Aproxima-se como quem não quer nada e acerta o sujeito com uma garrafa na cabeça, o rapaz caindo inconsciente no chão. Keith imediatamente chama os seguranças e manda prender o sujeito por agressão antes que ele acorde e possa se defender da acusação.

Depois de Suécia e Finlândia, vieram os quatro shows na Dinamarca. Copenhagen teve quebra de recorde com todos os 1.200 lugares sendo vendidos em seis horas. Na parte da tarde, Marlon não consegue dormir por causa de uma britadeira em plena ação do outro lado da rua do hotel. O gerente informa Keith que não tem poder sobre o andamento das obras públicas. Foi quando Bobby Keys então se oferece para fazê-lo mudar de idéia. Em uma conversa franca, o gerente novamente negou poder ajudar. Segundo conta a história, Keys segue então para a cozinha do hotel e lentamente começa a jogar prato por prato no chão duro, ouvindo eles espatifarem como que procurando aquele que ressoasse com o melhor timbre. O texano só parou quando o barulho da rua encerrou.

Keys e a do Avião

Bobby Keys e Jim Price trabalhavam juntos há bastante tempo. São ambos americanos do Texas e enxergam o mundo com o mesmo tipo de prisma particular. Jim conta que certa vez viu Bobby sentado ao lado de uma mulher bonita no avião, puxando a maior conversa. Conhecendo o amigo, ele logo se chega para ouvir no que vai dar esse papo. Nestas seguidas viagens, Bobby Keys estava percebendo que na Escandinávia, a maioria das beldades que aflorava nesses vôos não entendia nada de inglês. E contando mesmo com isto, Keys se divertia soltando as mais baixas declarações que ele conseguia imaginar. Falava baixarias como ele jamais poderia fazer, com o tom de voz mais natural possível, livre de qualquer escrúpulo graças à certeza absoluta que ela não estava entendendo nada mesmo. Assim, não há maneira de ofender ou arrumar uma situação desagradável.

Ao se aproximar, Jim Price ouve Bobby Keys comentando algo como "Eu realmente adoraria chupar essa sua buceta todinha. Juro que sim. Eu adoraria meter minha jeba nesta sua buceta e fazer você gozar. Te fuder bem gostoso, fazer você estrebuchar a cada estocada, te comendo todinha até o amanhecer. Chupar este teu peito enquanto meu dedo está acariciando o seu grelo, minha putinha loira gostosa. Mas que tesão você me dá. Quero te fuder lindinha, vou te cavalgar a moda texana, você vai ver." Price se divertindo só ouvindo seu amigo extrapolado na baixaria resolve interromper a conversa. Ele olha para a menina, que até então está calada e ignorando pacientemente a óbvia cantada, e com um sorriso pergunta em um inglês igualmente texano, "Você é de onde?" E ela responde, "Roterdam." Com isso Bobby Keys gelou. "E você mora aonde?", concluiu Jim. "Filadélfia" ela respondeu, sem em momento algum sequer olhar para Keys. Ela estava entendendo tudo o tempo todo e Bobby saiu dali rapidinho, sua brincadeira estragada, mas satisfeito que o incidente não tenha dado maior merda do que deu.

Alemanha Ocidental

Em alguns lugares, membros do grupo de motociclistas Hell's Angels foram vistos arrumando brigas em uma tentativa de conseguir se posicionar em frente ao palco, certamente em uma tentativa de intimidação à distância. Em Berlim, Bill, Charlie e Mick Taylor foram para a Alemanha Oriental à passeio, porém na volta os guardas do lado comunista encrencaram com os cabeludos e o trio teve dificuldades para retornar. Depois de horas detidos, aguardando uma solução e sendo visivelmente ignorados, acabaram tendo seus passaportes devolvidos e foram escoltados para fora do país. Enquanto esta aventura acontecia, Mick Jagger conhece uma nova modelo alemã que aparece em cena, a jovem Ushi Obermeir. O gavião Jagger teria a modelo como mais uma de suas muitas conquistas.


O frenesi já esperado do público nestes shows chegou no auge em Hamburgo. Brigas e vandalismo obrigaram a polícia a invadir o local do show e seus arredores fazendo cerca de cinqüenta prisões. Todas as janelas da casa de espetáculo foram quebradas. A banda permaneceu na Alemanha Ocidental por uma semana onde realizou quatro shows em quatro cidades diferentes, Hamburgo, Berlim, Cologne e Stuttgart.

França


Chegam então na França onde se apresentariam quatro vezes no Palais Des Sports de Paris. Como em quase toda cidade importante, foi realizada uma mega conferência com a imprensa, esta na tarde do dia 22, antes da estréia da banda à noite. Os franceses ainda viam Mick Jagger como um rebelde líder politizado, uma faceta de sua personalidade que ele há muito já deixara de lado. Utilizaram os shows como desculpa para demonstrações políticas nada pacíficas. Estudantes revoltados jogaram tijolos e se armaram com barras de ferro. Houve muitas prisões na cidade antes do show que foi gravado profissionalmente por Glyn Johns.

Depois do espetáculo, houve uma festa em homenagem aos Rolling Stones. Mick Jagger, estando hiper-cansado, cogitou em não comparecer. No entanto, ele sabe que precisa promover a banda com sua imagem. Entre os presentes na festa estava um velho conhecido chamado Eddie Barclay, executivo dono do selo francês Barclay Records. Eddie todo feliz da vida, apresenta sua noiva, uma nicaragüense que ele havia roubado de Michael Caine, chamada Bianca Perez Moreno de Macias. Jagger deu uma olhada e ficou apaixonado instantaneamente. Ou pelo menos, assim contam. A mulher de seus sonhos que ele nunca soube como descrever estava finalmente diante dele. Bianca se parecia com a versão feminina dele mesmo, prato cheio para qualquer narcisista. Ela tinha o mesmo rosto fino e alongado, olhos grandes e os mesmos lábios grossos.

Jagger educadamente pediu permissão para dançar com ela e Barclay educadamente autorizou. Mas não antes de sussurrar em seu ouvido "Dançar você pode, mas lembre-se que ela vai dormir comigo esta noite." Bianca estava lisonjeada com a atenção dispensada por Mick, ciente e adorando repentinamente ser o centro das atenções. Quando Mick sugere a ela um lugar onde pudessem se encontrar depois, Bianca concorda. Vai até o banheiro e não reaparece. Mick se despede meia hora depois. Os dois se encontram no local combinado e passam horas conversando, porém ela se recusa a ir para cama com ele. Dentro dos quatro dias de estada da banda em Paris, os dois se encontram repetidas vezes, Bianca em momento algum aceitando os convites de Mick para irem dormir juntos. Isto lhe deixa cada vez mais enfeitiçado, ansioso e esperançoso, sabendo que ele ainda não conseguira conquistá-la. Quando os Stones partiram para Áustria, Mick e Bianca combinaram de se reencontrar em Roma.

Em Viena, Janice não estava particularmente feliz em ser incumbida de apanhar Bianca de limusine no aeroporto à noite enquanto a banda está se apresentando. A fofoca que se ouvia pelos corredores era de que Mick havia encontrado uma mulher misteriosa que o deixou atordoado. Janice percebeu logo que não se tratava de uma vadia de ocasião quando Mick informou-lhe que ele havia reservado um quarto no hotel só para ela. Quando Keith soube disso exclamou: "Parece que desta vez é pra valer."

Bianca Perez Moreno de Macias


A história verdadeira de Bianca Perez Moreno de Macias e a história que ela contava para todos são duas coisas distintas. Contada por ela, Bianca era uma nicaragüense de Manágua, vinte e um anos de idade, filha de pais separados. A mãe era uma comerciante e o pai um diplomata, dono de uma imensa plantação de café. Ela teria viajado sozinha para Paris onde estudou e batalhou por sete anos se sustentando com uma carreira na Embaixada da Nicarágua.

Esta versão de sua biografia contém verdades salpicadas com algumas mentiras. Acostumado a não aceitar tudo que lhe dizem, Jagger imediatamente fez a conta matemática e viu a impossibilidade da afirmação. Se Bianca tinha vinte e um anos e estava há sete em Paris, então ela teria que ter vindo batalhar sozinha aos quatorze anos de idade. Pouco provável.

Bianca de fato é filha de pais separados. Ela nasceu no dia 2 de maio de 1945 e portanto contava com vinte e cinco anos ao conhecer Mick Jagger em setembro de 1970. Sua mãe, Dora Macias, tinha uma barraca de comes e bebes onde vendia sanduíches e refrigerantes. Seu pai era um pequeno lojista de poucos recursos. Extremamente inteligente, depois de Bianca terminar o segundo grau com altíssimas notas, teve a ajuda de um primo que trabalhava na Embaixada da Nicarágua na França. Ela viaja então a Paris para estudar ciências políticas no Institute des Sciences Politiques, em Sorbonne. Ainda uma virgem, foi na França que ela aprendeu a questionar a crença imposta desde criança de que a virgindade é o maior patrimônio de uma dama. Quando esta crença foi estourada, todas as outras passaram a ser questionadas também.

Sua beleza, suas amizades e sua facilidade para aprender e conceituar seu aprendizado, lhe permitiu aprender, em um período de tempo relativamente curto, a falar razoavelmente bem francês, inglês e italiano, além de sua língua nativa, o espanhol. Depois de dois anos, voltou a Nicarágua poliglota e rapidamente lhe foi oferecido um emprego no governo, na área de comércio exterior. Ela recusou o convite e voltou para Paris onde trabalhou em uma feira de exposições. Sua boa aparência, elegância e seu domínio de várias línguas, somados aos contatos importantes que fez na referida feira lhe renderam um convite para trabalhar na Embaixada Nicaragüense.

Passou a ter maior contato com uma parcela da elite parisiense, freqüentando festas da moda e mantendo amizades com os radicais- chiques da cidade. Mudou-se para Londres por um período onde acabou conhecendo e namorando Michael Caine. Sua insegurança acabou atrapalhando o relacionamento e Bianca preferiu voltar a Paris. Foi contratada para trabalhar para a gravadora Barclay, onde passou a ser vista acompanhando o patrão Eddie Barclay. Depois de um tempo, ele passou a apresentar Bianca como sendo sua noiva. Quando ela conhece Jagger na festa, ambos viram no outro uma variação de si mesmos.

Não Sobrou mais Stones Para As Groupies

Depois de consumarem a atração em Roma, a visível seriedade no relacionamento entre Mick e Bianca causou ondas entre todas as mulheres que costumeiramente rondam a banda. Estando Charlie com Shirley, Keith com Anita, Bill com Astrid, Mick Taylor com Rose e agora Mick Jagger com Bianca, não sobrou mais nenhum Rolling Stone para as groupies. Ao que parece, as artimanhas sexuais nesta excursão ficaram por conta dos dois texanos, Bobby Keys e Jim Price. De todas as mulheres, nenhuma se sentiu mais ameaçada do que Anita Pallenberg. Ela que reinava absoluta como centro das atenções, percebeu rapidamente que poderia perder seu status para a nova musa de Jagger.

Mick e Bianca na Itália
Mick e Bianca na Itália

O casal Mick e Bianca passou a ser inseparável, ficando quase impossível trocar duas palavras com Jagger. Todo o seu tempo e toda sua atenção estavam dedicados a Bianca. Os paparazzis logo passaram a tentar invadir a privacidade do casal a cada oportunidade. Não é portanto de se estranhar o fato de ter havido incidentes com a imprensa.

Em um dos tais incidentes, Jagger enfurecido pelo invasor inoportuno, agride o fotógrafo com um soco no nariz. Processado, Jagger teve que pagar uma multa de $1.400 pela indisciplina. Em outra ocasião, desta vez em Hamburgo, um segurança particular acaba destruindo uma máquina fotográfica de alguém. Tudo serviu apenas como ainda mais promoção em torno do novo casal do jet-set europeu.

Bianca não tinha intenção de causar problemas, mas Anita, sentindo-se ameaçada, logo começou a causá-los. Passou a ter por hábito pedir emprestado algumas roupas de Bianca. Usava e depois não devolvia, deixando-as jogadas pelo chão do quarto ou banheiro de sua suíte. Como ela estava diariamente injetando heroína na veia, coisas triviais como tomar banho passaram a perder importância. Nas poucas vezes que Anita devolveu alguma roupa emprestada, a peça estava tão fedida que Bianca com nojo era obrigada a jogar fora. Anita com um sorriso sarcástico comenta com a Janice como está sendo bom ter Bianca nesta excursão. Ela, Anita, nunca mais precisou desfazer e refazer suas malas. Bianca evidentemente estava puta da vida, mas se encontrava em uma posição politicamente sutil. Seus anos trabalhando em embaixadas lhe deram tarimba para entender bem como ações precisam ser tratadas com sutileza. Ela não queria causar um incidente que obrigasse Mick a ter que se posicionar contra Keith.

Bill Wyman e Keith Richard
Bill Wyman e Keith Richard

Mesmo assim, ela sabe que precisa se impor de algum modo. Mick entende o que está se passando e pede a Keith pra ver se Anita se comporta. Mas Keith despacha a questão retrucando que Mick sabe quem é a peça e ficou o dito pelo o não dito. Na verdade, Keith também odeia Bianca, possivelmente movido pelo ciúme de ver as atenções de seu amigão ser totalmente absorvido por essa estranha. Aos seus olhos, Keith enxerga Bianca como uma pessoa esnobe, pretensiosa, careta e totalmente fora dos padrões rock´n'roll. Ele quer mais que Mick coma, se satisfaça e passe logo para outra. Quanto menos Bianca ficar circulando entre eles, melhor.

Etapa Final da Excursão

Badalações à parte, a presença dos Rolling Stones nas cidades muitas vezes obrigava a polícia a apelar para a violência para conter a fúria dos fãs aglomerados em massa. Destes, alguns sem conseguir ingressos, tendiam a ficar insatisfeitos e propensos a causar problemas. Em Milão por exemplo, a polícia achou necessário dispersar a multidão com gás lacrimogêneo. O tour terminou dia 9 de outubro na Holanda em um show que teve participações especiais de Stephen Stills e Leon Russell.

Janis Joplin
Janis Joplin

A excursão computou um lucro total de $200mil, porém as despesas, graças ao palco, custaram $250mil. Toda a banda e companhia voltam para Inglaterra cansados e querendo apenas descansar. Parecia insano pensar que estariam na semana seguinte se reunindo no Olympic Studios para trabalhar em novas músicas. Entre o início da excursão no final de agosto e sua conclusão, agora em outubro, morreram Jimi Hendrix e Janis Joplin. É lançado finalmente na Europa por volta desta mesma época o filme Monterey Pop registrando o festival de Monterey realizado no verão de 1967. Sentimentos mistos entre alegria e tristeza para o público que assiste pela primeira vez esta película. Nela estão contidas imagens vívidas de artistas amados como Otis Redding, Brian Jones, Jimi Hendrix e Janis Joplin, todos os quatro já falecidos, os dois últimos a menos de duas semanas.

Chegando no aeroporto londrino, a imprensa está toda curiosa querendo algumas imagens e palavras desta mulher misteriosa que roubou o coração de Mick Jagger. Com microfones apontados para ela, Bianca apenas diz, "Não tenho nome. Não sei inglês." Enquanto Jagger, com um sorriso sarcástico afirma, "Somos apenas bons amigos." Estão morando agora na casa de campo em Stargroves, Mick, Bianca e os empregados, incluindo Janice, que não consegue deixar de ser encantada pela beleza e postura extremamente elegante de Bianca, ao mesmo tempo em que achava hilárias as sacanagens aprontadas por Anita contra ela.

Os Rolling Stones passam o restante de outubro trabalhando em algumas composições novas e outras mais trabalhadas. Estas sessões foram realizadas no estúdio de Stargroves com a ajuda do Rolling Stone Mobile Unit. Dentre o material ensaiado e gravado estão "Hide Your Love", "Red House", "Potted Shrimp", "Bitch", "Sweet Black Angel", "All Down The Line", "Aladdin Story", agora com Bobby Keys e Nicky Hopkins, "Shake Your Hips" e "Stop Breaking Down" com Ian Stewart e "Good Time Woman" com letra alternativa. Ian Stewart e Bobby Keys também adicionam suas partes em "Sweet Virginia".

Karis

Na primeira semana de novembro, Marsha Hunt liga do hospital para Mick, lhe informando que o bebê nasceu. Secretamente, sem Bianca saber, ele foi apanhá-la de Bentley quando Marsha e a criança receberam alta. Mick Jagger era agora pai de uma menina que foi chamada de Karis Hunt. Mick e Marsha passaram algumas horas celebrando o nascimento da infante. Depois ele voltou para casa. Mick contou para Bianca sobre o nascimento de Karis e apesar da notícia ser inesperada, ela trata o assunto com muita serenidade.

Marsha Hunt
Marsha Hunt

Marsha em parte estava triste pela covardia de Mick. A criança não foi um acidente, como depois se tentou especular. Eles conversaram a respeito de querer um filho e então esta criança foi gerada. Contudo Marsha percebeu mais tarde que Mick estava intimidado pela responsabilidade, concluindo que não conhecia direito a pessoa que pensava que gostava. Neste dia, Marsha se despede de Mick explicando que ela não tinha tempo para suas inseguranças. Suas últimas palavras para Mick foram, "Eu cuidarei de minha criança." Mick nunca mais viu Karis em pessoa durante a infância.

Tempos depois Marsha iria aparecer em um programa de televisão falando de sua criança e de como é criar uma filha sozinha sem uma figura paterna dentro de casa. Com muita firmeza ela dispensa qualquer teoria de abandono nem tampouco, em momento algum, anuncia quem é de fato o pai.


A carreira de cantora de Marsha seguiria com ela trabalhando arduamente com os produtores Kit Lambert e Gus Dudgeon em seu disco de estréia. O álbum, quando finalmente saiu em setembro de 1971, mostrou uma lista de músicos que continha os nomes de Pete Townshend, Marc Bolan, Ronnie Wood, Kenny Jones, Rick Wakeman, Maynard Ferguson, Doris Troy, e Madeleine Bell. Logo ela estaria virando suas atenções para o cinema participando do filme "Dracula A.D. 1972" com Christopher Lee, Peter Cushing e a banda Stoneground.

Em julho de 1973, Marsha daria entrada em um processo para que Mick Jagger seja oficialmente declarado o pai. Depois de testes sangüíneos provarem o fato que todos já sabiam, dada a similaridade facial entre a criança e Mick, ela ganharia o pleito e passaria a receber uma assistência financeira, mesmo que mínima, para cuidar das necessidades de Karis. A menina, a partir dos três anos de idade, passa a ser reconhecida como Karis Hunt Jagger.

Novembro


Além do primeiro bebê de Mick Jagger, outra surpresa nasce no início de novembro. É a Warner Bros. que finalmente lança o compacto "Memo From Turner" (Jagger-Richard) / "Natural Magic" (Ry Cooder), que faz parte da trilha sonora do filme Performance que ainda está para ser lançado. O álbum com toda a trilha sonora também chega as lojas, porém sem ficha-técnica. Sabe-se que além de Mick Jagger e Ry Cooder, há participações do americano Randy Newman e da cantora folk Buffy St. Marie.

Dinheiro continuava sendo um problema. Entre telegramas para Klein exigindo depósitos de verbas, assim como pagamento de contas já em atraso, os cinco Stones apelam para empréstimos bancários. O Leopold Joseph Bank recebe solicitação e concede empréstimos em valores de £10.000 pra cima, a cada membro individual da banda.

Bill Wyman foi assistir Muddy Waters tocando em um bar perto de sua casa. Não havendo lugares, Wyman sentou no chão. Waters ao reconhecê-lo abriu um enorme sorriso. Ele então contou ao público que estava feliz por ver um Stone lá e que se não fosse pelos Rolling Stones, nenhum garoto branco nos Estados Unidos iria conhecer a sua música ou a de seus colegas bluesmen. Wyman tenta disfarçar o enorme orgulho que sentiu neste momento.

Back To The Roots - John Mayall
Back To The Roots - John Mayall

Estando os Rolling Stones agora sem compromissos agendados até o ano seguinte, Mick Taylor acaba aceitando participar da gravação do próximo álbum de John Mayall. Em dez dias, as gravações do disco, que seria chamado de "Back To The Roots", teria como banda base: John Mayall (voc, pno, org, gtr, gaita, perc), Mick Taylor (gtr), Larry Taylor (bxo) e Keef Hartley (bta).

Jagger e Bianca passaram a parte final do mês de novembro nas Bahamas. Chegando Thanksgiving Day - Dia de Ação de Graças, um importante feriado americano, o casal passou o dia na casa de Ahmet Ertegun em Nassau, capital do país. Em meio à festiva ceia, os detalhes finais entre os Rolling Stones e a Atlantic Records estavam sendo concluídos.

Dezembro

Dia seis de dezembro, exatamente um ano após o ocorrido, é lançado o filme "Gimmie Shelter" que ajudou a quebrar a imagem da geração paz e amor criada por filmes como Easy Rider e Woodstock. Muito bem editado por Charlotte Zwerin que ganha crédito de co-diretora, o filme inclui as seguintes apresentações e locais:

- Jumping Jack Flash -New York 28.11.69, 1º show
- Satisfaction -New York 28.11.69 1º + 2º show (editados)
- You Got To Move (Fred McDowell-Rev. Gary Davis) - Muscle Shoals, Alabama 12/69
- Wild Horses (pt.) (Mick Jagger/Keith Richards) - Alabama l2/69
- Brown Sugar (pt.)(Mick Jagger/Keith Richards)- Alabama 12/69
- Love In Vain (Robert Johnson) - imagem: New York, 27 ou 28.11.69; som: Baltimore 26.11.69
- Honky Tonk Women -New York 28.11.69, 2º show + New York 27.11.69 (editado)
- Street Fighting Man -New York 28.11.69, 2º show
- Sympathy For The Devil 1 -Altamont 6.12.69
- Sympathy For The Devil 2 -Altamont 6.l2.69
- Under My Thumb 2 -Altamont 6.12.69
- Street Fighting Man -Altamont 6.12.69
- Gimme Shelter -Altamont 6.12.69

No aniversário de Keith, dia 18, trabalharam no estúdio com material gravado no Alabama. "Brown Sugar", "Wild Horses", "You Gotta Move" e "Dead Flowers", todos tiveram adicionados detalhes como piano. Depois Bobby Keys, Al Kooper, Eric Clapton e George Harrison chegariam. Os rapazes então gravam uma nova versão de "Brown Sugar" com todos presentes, menos Harrison, que só assiste. A versão é tão boa que Keith cogita usá-la no disco. Porém mais tarde conclui que a bateria de Charlie Watts está melhor na outra. No dia seguinte, Mick e Marianne se apresentaram em Marlborough Street Magistrate Court, onde foram considerados oficialmente inocentes na acusação de posse de narcóticos.

Durante compras natalinas, Mick Jagger encontra-se por acaso em uma loja de roupas com sua ex-namorada Chrissie Shrimpton. Ela lhe informa que teve recentemente um bebê, Mick confessando que ele também. A notícia de que Mick Jagger é o pai da filha de Marsha Hunt continua teoricamente um segredo embora houvesse boatos que comentem o assunto. O segredo iria continuar por mais dois anos.

A Guerra Não Declarada de Anita

Tentando criar condições para uma paz, acreditando que bastasse se conhecer melhor para se resolver as diferenças, Mick convence Keith a promover programas juntos, obrigando assim, Bianca e Anita a ocuparem o mesmo espaço. Como geralmente acontecia nessas ocasiões, os homens vão para um canto da casa conversar sobre negócios ou música e as mulheres, como faziam Anita e Marianne antes, teoricamente iriam socializar. Mas Anita geralmente não suportava o ar esnobe de Bianca e se retirava do recinto deixando-a sozinha.

Anita intensificou sua campanha contra Bianca. Conspirou contra com todos os amigos dentro do círculo interno do grupo. Jurou que se não conseguirem se livrar dela, Bianca irá acabar com os Rolling Stones como Linda Eastman acabou com os Beatles! Embora esta afirmação possa soar estranho hoje em dia, onde o mártir da vez é Yoko Ono, esta é uma corrente de pensamento que existia na época, uma vez que foi Paul quem anunciou deixar a banda. Esta versão ganhava recente popularidade depois da entrevista com John Lennon publicada na revista Rolling Stone. Mais tarde a entrevista, praticamente na íntegra, seria editada em formato de livro com o titulo de Lennon Remembers (no Brasil, "Lembranças de Lennon").

Apesar da incansável campanha contra seu desafeto, os modos elegantes de Bianca e seu comportamento exemplar em público em qualquer situação ganharam simpatizantes até mesmo entre os amigos de Anita e ela aos poucos viu que estava tentando lutar uma batalha já perdida. Bianca aparentemente é feita de ferro e nunca demonstrou para ninguém insegurança ou dúvida. Toda agitação dentro da "Família Rolling Stones" que Anita tentou causar em sua política anti-Bianca, somente deixou o casal Mick e Bianca ainda mais unido.

Anita aos poucos se retira de cena, sumindo quase que por completo dos olhos dos amigos e do mundo. Aqui reacendem algumas perguntas quanto sua possível adoração por Mick Jagger e planos de eventualmente querer ficar com ele. Uma estudiosa de magia negra, Anita fez uso de todos os seus poderes contra Bianca e nada conseguiu. Derrotada, Anita passou a fazer cada vez mais uso de heroína. Alguns associam a ordem dos eventos cogitando que Anita passara a usar a droga para substituir sua frustração em relação à Bianca. Injetando-se rotineiramente, seu gosto por se vestir e aparecer socialmente cessara por completo.

Warner Lança Performance


Com quase três anos de atraso, a Warner Brothers finalmente lança em circuito comercial o filme "Performance", que chega à Inglaterra no dia 4 de janeiro. Keith e Anita freqüentam a estréia mas Mick, preso num avião sem condições de aterrisar por causa da neblina, não chega a tempo.

O filme seria censurado em vários países e teria outras tantas edições, variando em que parte do mundo você o assista. Independente destas variações feitas pela censura individual de certos países, a versão oficial da Warner chegou às salas de projeção tão editado, que muitas das seqüências picantes que sobreviveram aos cortes, perdem sua lógica natural na história, parecendo gratuitas e indiscriminadas.

Houve mais revolta entre os envolvidos no projeto do que satisfação por este produto final entregue ao público. Estes episódios infelizes nos dois filmes em que participara, manteria Jagger longe de qualquer maior investimento como ator por muitos anos.

Parte 34 - Boca Aberta e Dedos Gosmentos

Anita aos poucos se retira de cena, sumindo quase que por completo dos olhos dos amigos e do mundo. Uma estudiosa de magia negra, ela fez uso de todos os seus poderes contra Bianca e nada conseguiu. Derrotada, Anita passou a fazer cada vez mais uso de heroína. Alguns associam a ordem destes eventos, cogitando que Anita passara a usar heroína para substituir sua frustração em relação a Bianca. Injetando-se rotineiramente, seu gosto por se vestir e aparecer socialmente cessou por completo.

O Anúncio

Ainda em janeiro, enquanto o chanceler britânico Dennis Healey, do Partido dos Trabalhadores, fala em aumentar ainda mais os impostos dos ricos, os Rolling Stones anunciam a intenção de se mudar para França em função dos altos níveis de impostos, praticamente 90%, que eles são obrigados a pagar. Em tempo, outros súditos da Rainha também fariam as malas e deixariam o país, efetivamente obrigando a Inglaterra a rever sua política de super taxação.

Viver em Londres para os Stones estava cada vez mais difícil. A polícia estava constantemente à procura de uma oportunidade para prender Keith e Mick. Principalmente Richards, que notoriamente consumia entorpecentes pesados. Analisando o período, Keith comenta que no fundo o grande vilão desta história é a necessidade de controle do governo, que é apoiado pela coroa. "Mas quando prenderam Lennon, eles (o governo) ficaram mal com o povo. Deixaram a gente ver por debaixo das saias. Ops! Olha só, apenas mais uma xoxota." (Em inglês, 'just another pussy'. Quando se chama um homem, ou neste caso, uma instituição, de 'uma xoxota', está lhe chamando de fraco, medroso e covarde.)

Com a notícia da saída dos Stones do país, vem também a promessa deles fazerem uma rápida excursão inglesa como forma de dizer adeus ao seu querido público nacional. Foi desta maneira que os Rolling Stones, sem premeditar, adotam outra tendência no Rock, largamente absorvida pelo marketing estratégico. A de batizarem suas excursões com nomes que ajudam a marcar e vendê-los. Esta é a primeira de tais excursões, apropriadamente chamada de "The Farewell Tour", com início marcado para março. Nesses quase dois meses antes do evento, Jagger, Bergman e equipe organizam os detalhes da excursão, detalhes da mudança para França e detalhes para a montagem da equipe que cuidará da firma Rolling Stones Records e seu espólio.

Atividades Paralelas

Os Rolling Stones alugam seu caminhão com a unidade móvel de gravação para o Led Zeppelin que passa a ficar estacionado em Headley Grange, Hampshire, gravando o próximo disco da banda. Ian Stewart, que estava presente, aproveita e grava com a banda um tema baseado na canção "Ooh My Head" de Richie Valens, que agora passa a se chamar "Boogie With Stu". É também dele o piano em "Rock And Roll." Em Londres, dia 6 de janeiro, Rose Miller, namorada de Mick Taylor, dá luz a uma menina que ganha o nome de Chloe. Papai Mick T terá apenas dois meses em casa antes de excursionar com a banda e depois começar a procurar um novo lar em um novo país.

Em 9 de fevereiro Bill e Astrid viajam para Nice onde passam dois dias a convite de Jo Bergman. Neste tempo eles vistoriam uma propriedade encontrada por ela, aprovando e alugando o local em um contrato de um ano com direito a renovação. Retornando novamente para Gedding, Bill ocupa seu tempo trabalhando em material próprio. Dia 19, Charlie Watts passa o dia com Bill e grava com o colega a canção "Texas Girl." Outras canções trabalhadas nestas sessões são "The Walls Come Down" e "Going To The River."


Com a chegada de março, no rastro das mais recentes informações sobre os Rolling Stones, foi ao ar pela Rádio BBC um programa especial chamado "A Story Of Our Time - Brian Jones, The Rolling Stones". Nele foi apresentada uma rápida biografia do músico e sua banda durante a década de sessenta. O programa também ofereceu a chance de ouvir interessantes entrevistas com parentes e amigos. Dentre estes estavam Michael Aldren, Lewis Jones, Alexis Korner, Cliff Richard, Les Perrin, e Mick Jagger.

The Farewell Tour


No curto período de dez dias, entre dia 4 e 14 de março, os Rolling Stones correram pela Grã Bretanha se apresentando em Newcastle, Manchester, Coventry, Glasgow, Bristol, Brighton, Liverpool e Leeds, antes de fecharem em Londres. Em cada cidade que a banda visitava levantava-se tamanha confusão que um jornalista chegou a comparar a chegada dos Rolling Stones com a tomada da Normandia.

Com exceção de Leeds, houve sempre dois shows em cada cidade. Em Leeds, Glyn Johns com a assistência do sistema móvel, gravou a apresentação que foi editada e mais tarde indo ao ar, mesmo que incompleta, na rádio BBC. Para esquentar o público, a excursão incluiu shows de The Groundhogs que aproveitam para promoverem seu quarto álbum "Split." Em Glasgow tocou o quinteto progressivo Merlin, enquanto em Leeds e Londres, o quarteto semiprogressivo Noir, promovendo seu único álbum, "We Had To Let You Have It."

A banda é a mesma da excursão européia, ou seja, inclui Bobby Keys, Jim Price e Nicky Hopkins. O repertório é "Jumping Jack Flash", "Live With Me", "Dead Flowers", "Stray Cat Blues", "Love In Vain", "Prodigal Son", "Midnight Rambler", "Wild Horses", "Bitch", "Honky Tonk Women", "Satisfaction", "Little Queenie", "Brown Sugar", "Street Fighting Man", e "Let It Rock."

Por ser na Inglaterra, a banda viajou de trem para muitos dos shows. Para alguns, foi uma volta ao passado e uma oportunidade de lembrar dos tempos que ir de trem era a única opção e realidade diária de suas vidas. Bianca acompanhou Mick por toda a excursão. A troupe do Keith inclui além de Anita e Marlon, seu cachorro Boogie e mais o amigo Gram Parsons. Além da tendência habitual de Keith chegar atrasado, seu uso de heroína, e a falta de ligeireza de raciocínio e coordenação motora, faz com que ele sistematicamente perca o trem.

A ocasião que melhor exemplifica o estado de Keith conta que, estando de pé na plataforma diante do trem, o guitarrista não teve presença de espírito de reagir ao seu transe e entrar no vagão, acabando por assistir, sem dar muita atenção para o fato, à composição indo embora, novamente sem ele. Portanto não chega a ser uma surpresa o fato que os Rolling Stones começam suas apresentações religiosamente em atraso. Especula-se que o vício do casal exigia cerca de um terço de um grama de heroína injetado por dia cada um.

Briga com o Capitão

Em Glasgow, após perder o trem de volta para casa, Keith e família pegam um avião para Londres. Informado que ele não poderia levar o cachorro com ele a bordo, Keith tenta levá-lo escondido. Embora tenha conseguido entrar no aparelho, o piloto se recusou a levantar vôo com o cachorro entre os passageiros. O animal teria que seguir os regulamentos, viajando dentro de uma jaula no compartimento de carga. Apesar de estar totalmente sem razão, Keith discute o quanto pôde. Finalmente o comandante de bordo mandou chamar a polícia para escoltar Keith para fora do aeroplano.

Apesar de estar carregando flagrante, Keith encara os policiais e discute o seu suposto direito de viajar com o animal de estimação. Quando até ele mesmo estava cansado de se ouvir falar, entregou o bicho que viajou na carga conforme exige a lei. O aeroplano decola com mais de uma hora de atraso.

Roundhouse

Apesar do pique de excursão, Bianca e Anita praticamente não se vêem, ou sequer se falam. Não há conflito; primeiro porque tanto Keith quanto Anita estão a maior parte do tempo 'viajando.' Segundo, porque o casal Mick e Bianca está em um outro mundo, diferente dos demais. Mick havia cortado seu cabelo curto, e se vestia agora mais parecendo com um francês do que um inglês. Coroando o novo "visual", Mick e Bianca se comunicavam um com o outro apenas em francês, deixando todos os outros de fora do papo.


A turnê do Reino Unido terminou com um memorável show em Londres, no Roundhouse Theatre. Amigos e parentes estavam presentes, Jagger comentando depois a curiosa sensação de rebolar a bunda no palco enquanto a sua mãe o assistia na platéia - "uma espécie de incesto," ele brinca. Vários artistas também vieram assisti-los, os Rolling Stones mostrando ser mesmo a maior atração de rock 'n' roll da era. Entre os presentes estão os integrantes da banda Family, dos Faces, Dave Mason, Jim Gordon, Eric Clapton, Jim Keltner, além de gente do meio como John Peel e Tom Donahue.

Valores

Computaram nesta excursão um público total de 34.400 pessoas, o que lhes rendeu um lucro calculado em £25.800. Notícias de Klein vem na forma de um documento da ABKCO declarando pagamento de royalties devidos. O documento informa os depósitos de $805.589 para Mick Jagger, $805.629 para Keith Richards, $251 para Brian Jones, $251 para Ian Stewart, $662 para Bill Wyman, dos quais $411 se referem a royalties da sua composição "In Another Land", e $251 para Charlie Watts.

A Lógica na Limpeza

Heroína marrom
Heroína marrom

Em preparação para a mudança iminente à França, Keith e Anita concordaram que o casal não teria os contatos necessários para manter seus vícios. Com heroína fazendo um papel primordial em suas vidas, a hipótese de passar algum tempo sem poder ter esta droga, em crise de abstinência no exílio, era uma idéia assustadora demais. Concluem que é melhor então limpar o organismo antes de sair da Inglaterra. Se vão ter que enfrentar as dores durante as crises de abstinência, então que seja na Inglaterra, onde todos falam a mesma língua.

Através do escritor William Burroughs, souberam de uma enfermeira que praticava um tratamento relativamente eficiente para acabar com a dependência de heroína e sem a agonia da abstinência. Burroughs, que havia nutrido um vício por vinte e cinco anos, se limpou graças a um médico chamado Dr. John Dent. O seu tratamento consistia em administrar apormorfina como um regulador para o metabolismo. O remédio age no sistema nervoso, diminuindo a produção de dopamina. Efeito colateral consiste em náusea e ânsia de vomito. Com o falecimento de Dr. Dent, sua assistente, a enfermeira Smith, passou a administrar o tratamento. Apesar de ser apenas uma enfermeira, esta senhora gostava de ser chamada de Dra. Smith, contudo pelas costas, Burroughs a chamava de Smitty, o apelido logo sendo adotado por Keith. Smitty era parruda e forte, apesar da idade que beirava os sessenta anos. E ela não era nem um pouco ingênua, muito pelo contrário.

O plano foi estudado e executado pelo casal do seguinte modo, Keith e Anita não poderiam parar juntos pois alguém precisaria ficar lúcido para vigiar e cuidar de Marlon. Então Keith foi o escolhido para primeiro entrar no programa. Após a excursão, ele se mudou sozinho para Redlands com Dra. Smith, onde ela passou a administrar e vigiar o tratamento. A estimativa de tempo era de dez dias para que o tratamento pudesse ser considerado concluído.


Durante os primeiros dias, Keith Richards ficaria passando de mal a pior, se contorcendo em dores e quase delirando em febre. Com suas entranhas em reviravolta, ele sente como se os músculos de seu estômago estivessem se rasgando por dentro. Rolando no chão em agonia, assim que conseguiu respirar novamente, Keith estava pronto para atacar Smitty, tamanho seu desespero. Mais pesada e com a vantagem de estar com boa saúde, a doutora praticamente senta em cima de Keith, mantendo ele preso ao chão. Keith urra em dores e depois vomita sobre o tapete, o chão e nele mesmo. Somente quando a Dra. Smith concluía que o rapaz não agüentaria mais é que ela lhe dava a pílula mágica.

Esta pílula mágica que ela usa é um composto de Metadona Hidrocloreto, cuja composição química é C21H27NO HCI. Trata-se de um sedativo parecido com a morfina, que anestesia o paciente, como um analgésico, porém não gera vício. O remédio foi inventando especificamente para ser usado como uma droga alternativa para viciados em heroína e morfina, exatamente o caso de Keith Richards. Com a droga fazendo efeito, as dores da abstinência somem por algumas horas, mas inevitavelmente voltam. A proposta era dar a medicação em horários cada vez mais espaçados, desta maneira dando condições para o organismo se acalmar e passar a funcionar normalmente sem reagir negativamente na ausência da heroína na corrente sangüínea. Como metadona não vicia, parar de usá-la posteriormente não se torna um problema.

Em meio a seus delírios febris, Keith imagina que há uma seringa cheia de heroína escondida atrás da parede, bastando ele conseguir chegar até ela. Quando acorda, mais calmo, percebe que o papel de parede está rasgado e a parede está cheia de marcas de unha. No décimo dia, Keith voltou à Londres se sentindo curado. Sua aparência, segundo quem esteve com ele naquele dia, demonstrava um aspecto desgastado pelo sofrimento, ou em outras palavras, bem cara de doente. No entanto, o seu olhar foi descrito como sendo de um homem que acabara de sair da cadeia para a liberdade. No caminho de casa, Keith pede a seu chofer se ele não descola algumas gramas de cocaína para levantar a sua disposição. Logo seria a vez da Anita.

Recreação


Já Mick e Bianca não tinham maiores preocupações com seus vícios. O casal gostava de cocaína e tanto Mick quanto Bianca faziam constante uso do pó. Criada até os dezoito anos em Nicarágua, Bianca veio a ensinar Mick e outros do grupo interno de amizades dos Stones que o melhor pó do mundo tem sua coloração puxando para o rosa. Esta cocaína, conhecida nos Estados Unidos pelo nome de Peruvian Pink, é produzida não só na América do Sul, como também na América Central e Ásia.

Jagger vai deixando a companhia de Keith e Anita, excessivamente envolvidos com heroína, em prol da companhia do casal Jean Paul Getty II e sua linda esposa Talitha Pol, filha do pintor William Pol. Visitas recíprocas de residências entre esses vizinhos são cada vez mais freqüentes, onde há sempre um bom vinho ou whisky e muito, muito pó.

A pessoa que bebe, quando passa de certo ponto, tende achar tudo excessivamente engraçado e mais tarde, geralmente quer vomitar. Da mesma forma, a pessoa que passa da hora de parar de cheirar cocaína, também tem uma mudança em seu comportamento. Quando a limitação financeira não é um fator, fica difícil encontrar o freio e decidir encerrar a brincadeira da noite. Com o consumo seguido, a ligação e exuberância que se sente no início da noite passa a deixar o cérebro excessivamente ativo, causando efeitos típicos de paranóia. Se por um lado cocaína auxilia o cérebro a pensar e reagir mais rapidamente, o excesso da droga faz você pensar tão rápido que você mesmo não consegue acompanhar o raciocínio, muito menos verbalizá-lo tão coerentemente como antes. Você perde toda a disposição de comer e não importa quão cansado estiver o corpo, você tem uma dificuldade imensa de dormir simplesmente porque o cérebro não consegue parar de pensar.

Na maioria dos casos destes roqueiros desta geração, o excesso de cocaína foi o passaporte para conhecerem e experimentarem com heroína. Certa noite, quando os casais Mick e Bianca, e Jean Paul e Talitha estavam tão eletrizados pela cocaína que não conseguiam mais aturar a onda, Mick ligou para alguém que trouxe heroína para acalmá-los. O contraste em sensações é tão distinto quanto instantâneo. Mal comparando, é como sair do vendaval de um furacão para a morosidade que se sente após a praia no verão. Você apaga por uns minutos e depois acorda se sentindo legal. Daquele ponto em diante, você não sente mais nada. Nada te incomoda, nada te fere, nada te toca.

Como a vaidade de Jagger era mais forte do que seu vício, visando preservar sua pele, ele nunca deixou as coisas perderem seu prumo, limitando o uso de heroína apenas em instâncias onde precisava cortar o efeito da cocaína rapidamente. Bianca aparentemente era feita do mesmo tipo de barro. No entanto, Jean Paul II, como seu pai antes dele e seu filho depois, acabou viciado em heroína e rapidamente se tornou um dependente sintomático. Seu relacionamento com Thalita, igualmente dependente, iria deteriorar a ponto do casal ir se distanciando.

Bowden House

Anita, sabendo do sufoco que Keith passou, não quer saber de sofrimento igual e busca outra opção. Ela soube de um tratamento em que os médicos lhe oferecem pílulas para dormir e lhe alimentam via intravenosa com doses cada vez menores de Metedrina, um remédio à base de metanfetamina. O especialista que administra este tratamento garantia que Anita não sentiria nenhuma dor. Anita então é internada no dia 26 de março em um hospital particular chamado The Bowden House. No entanto, é questionável se a Anita estava no estado de espírito certo para o tratamento. No caminho, ela implora para que Keith lhe dê um pouco de heroína para levar com ela, caso entre em pânico. Keith retruca lhe pagando um esporro, considerando o raciocínio como absurdo.

E é com esta mentalidade que Anita dá entrada na casa de saúde, com os sintomas de abstinência já começando a se mostrar. Depois de um beijo de adeus, Keith segue para o Marquee Club em Wardour Street, onde os Rolling Stones fariam naquela noite uma apresentação que seria filmada. A intenção seria para um especial de televisão visando o mercado europeu e sul-americano.

Ladies and Gentlemen at The Marquee

Terminada a excursão, estava marcado no cronograma uma apresentação especial no Marquee Club, local onde a banda tocara ao vivo pela primeira vez nove anos antes. O evento seria filmado para televisão e teria um público formado apenas por convidados. Entre os convidados presentes nesta tarde incluem amigos como Eric Clapton, Ric Grech, Jimmy Page e até Andrew Oldham.

A equipe de filmagem, a equipe de gravação, como também os Rolling Stones estão todos no Marquee Club há horas, aguardando a chegada de Keith. A primeira passagem de som teve Mick Jagger na guitarra e a segunda, para ensaiarem as câmaras, já ia começar quando Keith finalmente chega. De barba por fazer e roupas rotas como quem dormiu com elas e acabou de sair da cama, ele logo agita o ambiente. Keith não quer o painel do fundo que tem em letras garrafais o nome MARQUEE CLUB. O gerente da casa, Harold Pendelton, é o mesmo fã ardoroso de jazz que nunca teve boa vontade com os Stones quando começaram. Keith não esquece e igualmente tem má vontade com Harold.

A questão da placa já havia desagradado Mick e foi motivo de uma discussão bem mais polida antes. Porém Keith não está com disposição para tato e insiste que a placa seja retirada enquanto Harold insiste que a casa é dele e a placa permanece. Em dado momento, emputecido, Keith tenta acertar o rosto do gerente com sua guitarra, mas erra. Logo se meteram diversos roadies entre os dois, cada um levando o outro para o canto oposto da casa.

Até aqui, os convidados assistiam silenciosamente o desenrolar do impasse como se fosse uma peça de teatro vivo de Julian Beck. Porém, depois de Keith tentar acertar Harold com a guitarra, todos foram convidados a se retirar e esperar lá fora. Mais de meia hora se passou enquanto se negociava o impasse. O meio termo ficou com a placa permanecendo, porém toda a iluminação do show sendo alterada. Desta forma, deixam na sombra todo o fundo do palco, e por conseguinte a placa com o nome do clube, ficando praticamente invisível para as câmaras. Jagger achou que a banda não estava soando bem e preferiu gravar um primeiro set com a casa vazia. Depois os convidados puderam retornar e recomeçaram o show, desta vez filmando com a casa cheia.


A apresentação dos Stones no Marquee, vista no filme que ganhou o título de "Ladies and Gentlemen: The Rolling Stones" é uma ótima oportunidade para se verificar o poderio desta banda em uma casa pequena. Raros são os momentos que os Rolling Stones podem tocar em tais lugares que cabem no máximo quinhentas pessoas sentadas ou menos. Precisa-se ter muita segurança para interagir tão perto assim de seu público, mesmo quando, como neste caso, este público é escolhido a dedo entre amigos pessoais e profissionais.

A banda apresentou uma versão simplificada de seu show com "Live With Me", "Dead Flowers", "I Got The Blues", "Let It Rock" (Chuck Berry), "Midnight Rambler", "Satisfaction", "Bitch", e terminando com "Brown Sugar". Embora editado fora do filme, os Stones repetiriam mais duas vezes "I Got The Blues" e fechariam a noite com "Bitch". Insatisfeitos com o resultado, o filme nunca seria veiculado comercialmente.

A Volta Pra Casa

Já era meia noite quando Keith Richards, acompanhado pelos amigos Michael Cooper, Tony Sanchez e Madaleine D'Arcy, descobre que ele perdera as chaves de seu Bentley. Telefonaram para a polícia pedindo assistência e os dois guardas que chegaram para o auxílio trataram o grupo com a mesma simpatia que fariam com cidadãos normais. Com eficiência, abriram o carro e depois deram partida usando um fio. Keith agradece a assistência enquanto seus amigos, abarrotados com flagrante no bolso, sentam-se no fundo do carro rezando que os guardas não resolvam revistar o grupo.

Foram todos para a casa de Tony Sanchez onde Keith pernoitou. Estacionam o carro na garagem e deixam o motor ligado a noite toda para não ter que chamar a polícia novamente para dar partida na manhã seguinte. Dentro do apartamento, Michael Cooper logo tira seu saquinho com heroína. Todos dentro do circulo dos Rolling Stones eram viciados em cocaína e heroína, salvo poucas exceções. "Você, claro, não vai querer, Keith", comenta Michael enquanto vai preparando as linhas. "Pode apostar que vou!" Os amigos se entreolham, e mais uma carreira foi trilhada.

Acudindo Anita

Na manhã seguinte, após café preto e cocaína para acordar, foram verificar a situação para voltar para casa. O carro que ficou com seu motor ligado a noite toda estava com pouca gasolina e precisava de uma chave para a tampa para poder reabastecer. Keith e Michael foram para a loja onde o Bentley havia sido comprado na esperança que eles consigam uma outra chave. Apesar de tal solução ser declarada impossível, o pessoal da revendedora consegue abrir a tampa na marra. Após reabastecerem, Keith e Michael seguiram até o bar do hotel Hilton na Park Lane, novamente deixando o carro estacionado na garagem com o motor ligado. Depois de três horas e uma infinita quantidade de margaritas, Keith, já bêbado e com a fala arrastada, recebe a notícia de que a Anita está querendo fugir do hospital.


Se quando sóbrio já era um péssimo motorista, bêbado então nem se fala. Keith entra no carro e imediatamente cheira duas carreiras de cocaína para "ficar esperto". Botou uma fita com o material do álbum novo e, ao som de "You Got To Move" a todo volume, saiu em disparada pelas ruas londrinas. Segundo consta, Michael chega a fechar os olhos ao ver a morte iminente a cada curva e em alguns casos, nas retas também. Depois de ultrapassar algumas vezes pelo lado errado, nas proximidades de Wembley, Keith quase bate em um caminhão. Ele consegue desviar porém sem conseguir controlar o carro, sobe no canteiro e bate, despedaçando uma cerca de ferro.

Com a imagem clássica do radiador jorrando vapor, ficou claro que o Bentley não tem condições de continuar a jornada. O impacto, dado à velocidade, foi tão forte, que o chassi empenou, apesar do motor continuar ligado e o toca-fitas continuar tocando a todo volume "Brown Sugar".

Michael sugere que o melhor a fazer é fugir antes que a polícia apareça e eles sejam revistados. Descem a rua, pulam um muro e em poucos minutos Michael e Keith estavam batendo na porta de Nicky Hopkins que morava bem perto de onde ocorreu o acidente. Nicky, recém chegado de uma excursão com a banda Quicksilver Messenger Service, não faz uso de tóxico algum, tornando-se assim um lugar seguro para Michael poder guardar seu flagrante, enquanto Keith liga para o seu advogado. Lavam suas feridas enquanto uma limusine estava sendo providenciada para buscá-los. O Bentley acabaria ficando abandonado mesmo, opção tomada por Keith que, não tendo carteira e prestes a deixar o país, não quer se complicar com pendências legais. Será substituído dentro de pouco tempo por um Jaguar vermelho.

Enquanto o transporte não chega, Keith liga para o hospital para falar com Anita. Ela, em tom de desespero, explica que o tratamento não está funcionando. O remédio para colocá-la para dormir - Mogadon - é fraco demais e ela está em pânico. "Keith! Traga o H com você ou eu vou me embora daqui agora mesmo!" Nervoso diante do pânico da namorada, Keith concorda desde que seja só um pouquinho. Uma vez no hospital, acalmam o desespero de Anita com a droga.

Na manhã seguinte Anita está batendo na porta da casa de Tony Sanchez querendo comprar herô. Ela cansou do tratamento e simplesmente fugiu do hospital. Já com tremedeiras e princípio de febre, bastou uma cafungada para cair em um sono pacífico e relaxante. Quando acordou, decidiu retornar ao hospital até a manhã seguinte, onde voltou a procurar Tony. Anita continuou neste esquema por quatro dias, deixando o hospital para arrumar heroína e depois voltando para passar a noite. O médico finalmente a expulsou, telefonando para Keith e deixando claro que não fazia sentido permanecer internada se ela não estava preparada para sucumbir às exigências do tratamento. Keith voltou imediatamente ao hospital e deu uma bronca na sua mulher, tendo ela prometido que iria se comportar e não fugir mais durante o dia.

A Boca Aberta e os Dedos Gosmentos

Na terça-feira, dia 30 de março, uma coletiva de imprensa foi realizada onde foi apresentado oficialmente o novo selo - o Rolling Stones Records. A direção fica nas mãos de Marhsall Chess como presidente e Trevor Churchill como gerente geral do selo, sendo os Stones os donos e diretores. O selo Rolling Stones Records terá sua base inscrita em Genebra na Suíça, e com escritórios em Londres e Nova York.

Na apresentação formal para a imprensa, Marshall Chess começa o encontro indicando os planos traçados para o selo. Informa que um contrato de distribuição está sendo negociado e que além dos discos da banda Rolling Stones, o selo Rolling Stones trabalhará também com atividades paralelas de seus membros. Perguntado se existe um trabalho solo de alguém já em pauta, Marshall confirma a intenção de se começar a gravar os discos de Bill Wyman e Keith Richard, adiantando que este último será um trabalho em conjunto com Gram Parsons, ex-Byrds e Flying Burrito Brothers. Infelizmente este projeto nunca chegaria a ser formalmente iniciado, apesar dos dois passarem uma temporada tocando juntos em julho de 1971.


Uma das atrações da noite foi o novo logotipo e símbolo do selo, uma boca bem vermelha e carnuda com a língua de fora em um fundo amarelo, criação do artista americano Ruby Mazur, que cobrou $10.000 pela arte. Embora a associação imediata que se tem é invariavelmente com a boca de Mick Jagger, a inspiração de Mazur vem de uma conversa com o próprio Jagger que chama sua atenção para a língua de Kali, Deusa Hindu da criação, vida e destruição.

A idéia do logo não ter dizeres vem de uma sugestão de Marshall Chess, que comentara o fato dos postos Shell na Holanda não trazerem o nome da companhia sobre o seu logo, a concha, como é o caso do seus postos nos Estados Unidos. Ele particularmente achou que ficara melhor assim, e os demais aprovaram o resultado.

Os Rolling Stones fariam do desenho uma mina de dinheiro graças ao bom uso de merchandising. Em 1972, a firma Rolling Stones pagou £200 extra para Mazur por conta de reconhecimento pelo sucesso do logo. Marshall também confirma nesta coletiva um compacto dos Rolling Stones a ser lançado antes do final do mês.

À noite os Stones deram uma festa de despedida no Skindles Hotel em Maidenhead, Berkshire. Duzentas e cinqüenta pessoas foram convidadas entre elas Ron Wood, John e Yoko Lennon, Roger Daltrey, Eric Clapton, Dave Mason, o fotógrafo David Bailey, o escritor William Burroughs e até o Conde de Litchfield esteve presente. Um jam entre amigos fechou a noite que prometia não ter fim mas foi abruptamente encerrada com o corte da força por parte do gerente do hotel. Já eram duas da manhã e os outros hóspedes estavam reclamando do barulho. Irado, Mick Jagger prontamente pegou uma cadeira e a jogou pela vidraça que ficava na lateral do hotel e que dava para o rio. Com isto, os cacos de vidro e a referida cadeira acabaram sendo levados pelas águas. Jagger então tratou de correr.

Fim do Tratamento

Anita Pallenberg
Anita Pallenberg

Anita parou de fugir do hospital e Keith foi proibido de visitá-la, uma vez que fora ele quem levara heroína para ela da última vez. Assim, ele designa Tony Sanchez para duas vezes ao dia lhe fazer uma visita, levando flores e apoio. Como era de se esperar, Anita implora por heroína, contudo, se não bastasse a promessa feita ao Keith de não lhe dar nada, Sanchez era sistematicamente revistado antes de poder entrar na sua ala do hospital. Ainda assim, Tony trazia sempre com ele um pouco de cocaína, só para alegrá-la. Anita ficou apenas mais uma semana hospitalizada. Depois, de saco cheio, deu baixa com seu vício intacto, embora sutilmente menor.

Com Anita de volta em casa, ela cuidava de Marlon enquanto Keith novamente requer os serviços de Smitty. Desta vez, a terapia foi realizada em Cheyne Walk mesmo, Keith tendo ainda a companhia de Gram Parsons, os dois amigos fazendo juntos o tratamento, buscando se livrar da dependência. Passavam o tempo sentados ao piano discutindo aguerridamente sobre acordes, uma forma de jogar a mente longe de suas próprias agonias.

Exílio na França

A migração dos Rolling Stones para a França foi feita durante a primeira semana de abril. A cidade escolhida por Jagger foi St. Tropez, com sua marina e praias cheias de iates luxuosos. Com os Stones, além de esposas e filhos, vieram também vários de seus empregados. No dia primeiro, chegam os dois Micks e o Bill enquanto Keith e Charlie aterrisavam no dia 3.


Mick e Bianca passaram a morar em Biot, enquanto Keith, Anita e Marlon se mudariam para uma residência a cerca de vinte minutos de distância de Capt. Ferrat. Bill Wyman e Astrid Lundströem, que aos poucos passava a usar informalmente o nome Astrid Wyman, foram para Nice. Lá fincaram residência perto da Bastide St. Antonie, situado em Grasse. Bill optou por deixar Stephen na Inglaterra para ele não ter sua educação alterada por problemas lingüísticos ou culturais. Assim, o menino ficou estudando em um excelente colégio interno. Durante o primeiro ano Bill não podia retornar a Inglaterra para visitá-lo. Então ele mandava Astrid ocasionalmente visitar o menino em seu lugar para verificar como anda sua vida e educação, retornando com noticias para o paizão preocupado.

Mick Taylor, sua namorada Rose Miller e mais o bebê Chloe, alugaram uma casa em Le Haunt, Tignet, também parte de Grasse e não muito longe de Bill. Charlie, Shirley e Serafina Watts, levaram mais tempo para escolher um lugar adequado. Ficaram primeiro hospedados em um hotel em Cannes até dia 7 onde então se mudaram para La Borie, Thorias em Artes, perto de Marseilles. Deles todos, quem morava mais distante de qualquer outro Rolling Stone era definitivamente Charlie.


Durante as suas primeiras excursões pelo exterior, ainda com John Mayall, Mick Taylor passou a adotar o hábito de ler. Em pouco tempo tornou-se um hábil devorador de livros, dos mais diversos tópicos e estilos. Quando ingressou para os Rolling Stones, Taylor começava a se interessar por poesia, o que germinou um interesse por composição. Ultimamente, Taylor vinha investindo cada vez mais em aprender a ler música e tocar piano.

Taylor concluira que o piano é um instrumento consideravelmente melhor para composição do que a guitarra ou o violão. Seria na França, durante este longo período de exílio, que Mick Taylor iria aproveitar o isolamento de parentes e amigos para aprimorar ainda mais a sua execução ao piano em casa. O clima de férias no balneário permitiria bastante folga entre gravações com os Stones para que Taylor passasse o tempo em casa com a família e o piano.


Dentro da banda, Bill e Charlie foram os dois a deixar a Inglaterra aparentemente com mais pesar. Mas as condições financeiras não deixavam mesmo outra alternativa e eles se renderam aos fatos. Rapidamente os cinco membros perceberam uma diferença de atitude das pessoas em relação aos Rolling Stones. A preocupação sempre presente que sentiam da polícia inglesa aprontar alguma coisa simplesmente porque eram cabeludos e diferentes, foi rapidamente dissipada neste novo lar. Na França, eram vistos e tratados como artistas, e este tratamento influenciou positivamente na banda, que em meio a batalhas judiciais e mudanças de contrato, absorveu a sua aceitação por parte dos habitantes como uma injeção de confiança.

Dia 6 de abril os Stones assinam na cidade de Cannes um contrato com a Kinney National, adicionando a Rolling Stones Records à sua cartela de selos. Além dos cinco Rolling Stones que chegaram para a ocasião solene em um iate alugado, estavam presentes para assinar o contrato Steve Ross, que respondia pela Kinney National, Ahmet Ertegun representando a Atlantic Records e Marshall Chess respondendo pela Rolling Stones Records.

O contrato estipulava que a banda Rolling Stones teria que lançar seis discos no período de quatro anos. O evento foi realizado no Charlton Hotel. Na pequena festa para fins publicitários que se seguiu, Mick e Bianca ficaram animadamente conversando e entretendo os diversos convidados enquanto Keith, que não gosta muito deste tipo de evento, deixou o local cedo. Ele supostamente teria dito a um repórter na saída, "Eu tenho que encontrar o meu cão. Ele é o único amigo que tenho nesta festa, cara."

Sticky Fingers


Dia 22 de abril viu chegar nas o novo disco dos Rolling Stones, "Sticky Fingers". A capa, uma concepção totalmente nova, mostra a cintura de alguém vestindo uma calça jeans. A contra capa mostra a cintura do mesmo modelo de costas. A arte foi assinada pelo artista plástico Andy Warhol e tem como detalhe um zíper de verdade. Para proteger o vinil de ser danificado pelo zíper, Warhol colocou no lugar apropriado um volume macio causando uma ondulação perceptível. No papel que guardava o disco internamente, outra foto de um modelo masculino de cueca, frente e verso. Os modelos são Corey Tipper de jeans e Glenn O'Brian de cueca, ambos amigos de Warhol, que recebeu £15.000 pela criação.

Incluindo no pacote estava uma folha de papelão onde de um lado continha a ficha técnica completa do álbum escrita sob uma imagem do desenho da boca, e do outro uma foto da banda. Como um toque final de ironia e mau comportamento, o primeiro disco do selo Rolling Stones Records tem o número de catalogo COC 59100.

Keith Richard, Charlie Watts, Mick Jagger, Bill Wyman e Mick Taylor
Keith Richard, Charlie Watts, Mick Jagger, Bill Wyman e Mick Taylor

Lado A

1. Brown Sugar (Jagger/Richards)
2. Sway (Jagger/Richards)
3. Wild Horses (Jagger/Richards)
4. Can't You Hear Me Knocking
(Jagger/Richards)
5. You Gotta Move (Davis/McDowell)

Lado B
1. Bitch (Jagger/Richards)
2. I Got the Blues (Jagger/Richards)
3. Sister Morphine (Faithfull/Jagger/Richards)
4. Dead Flowers (Jagger/Richards)
5. Moonlight Mile (Jagger/Richards)

O disco, embora quase todo gravado entre 1969 e 1970, soava conciso e em sincronia com o momento que a banda e muitos de seus fãs estavam vivendo. Tornou-se rapidamente um sucesso extremamente lucrativo, e pavimentou a base para o repertório da banda em futuras excursões. O álbum reflete a vida maldita que os Stones estavam de fato vivendo há tempos. No entanto, diferente de outros tempos e outras bandas de rock, não há mera alusões discretas sobre o uso de tóxicos. Praticamente o disco inteiro tem referências quase explícitas sobre o uso e abuso de drogas pesadas. Como disse um velho rocker certa ocasião, 'Periga cheirar o disco e ficar chapado.'

Sway

Did you ever wake up to find
A day that broke up your mind
Destroyed your notion of circular time

It's just that demon life has got you in its sway

Ain't flinging tears out on the dusty ground
For all my friends out on the burial ground
Can't stand the feeling getting so brought down

It's just that demon life has got you in its sway

There must be ways to find out
Love is the way they say is really strutting out

Hey, hey, hey now
One day I woke up to find
Right in the bed next to mine
Someone that broke me up
with a corner of her smile, yeah

It's just that demon life has got you in its sway
It's just that demon life has got me...

Você já acordou para encontrar
Um dia que estraçalhou sua cabeça
Destruiu sua noção de tempo circular

É apenas aquela vida demoníaca que te pôs sob seu domínio

Não estarei lançando lágrimas na terra empoeirada
Pois todos os meus amigos lá no terreno para enterro
Não suportam a sensação de estarem sendo abaixados

É apenas aquela vida demoníaca que te pôs sob seu domínio

Deve haver maneiras para descobrir
Amor é o caminho eles dizem que está realmente pulando fora

Ei, ei, veja agora
Um dia eu acordei para encontrar
Bem na cama ao lado da minha
Alguém que me estraçalhou
com o canto de seu sorriso, é

É apenas aquela vida demoníaca que te pôs sob seu domínio
É apenas aquela vida demoníaca que me pôs...

Qualquer coisa menos do que um sucesso absoluto, teria levado os Stones para uma grave situação financeira que, aliás, já estava caótica e precisava desesperadamente de dinheiro para se recobrar. Agora sem a competitividade direta dos Beatles para comparação, os Rolling Stones reinavam supremos, apesar da banda Led Zeppelin estar crescendo a cada ano em popularidade internacional.

Os Stones conseguem pela terceira vez consecutiva ter seu produto aclamado pela crítica especializada como sendo um marco na história do rock em geral. "Sticky Fingers" é até hoje considerado possivelmente o melhor disco de toda história da banda ou pelo menos um dos três melhores nas listas da maioria das pessoas. E a canção carro-chefe do álbum, 'Brown Sugar', se tornou mais um clássico dos clássicos do rock. Um feito realizado por muito poucas bandas. É o terceiro dos Stones, junto com 'Satisfaction' e 'Jumpin' Jack Flash'. Keith pela segunda vez em seguida insere um número country no disco da banda com a canção 'Dead Flowers.'

Felizes com o primeiro sucesso do selo Rolling Stones Records, foi organizada uma festa comemorando a chegada de 'Brown Sugar' ao primeiro lugar na parada inglesa. A festa realizada novamente no Cannes Yacht Club, contou com as presenças de Marshall Chess, Ahmet Ertegun, Mick e Bianca, Eddie Barclay, Jo Bergman, e os amigos Bobby Keys e Stephen Stills.

Parte 35 - O Casamento do Ano

Felizes com o primeiro sucesso do selo Rolling Stones Records, foi organizada uma festa comemorando a chegada de 'Brown Sugar' ao primeiro lugar na parada inglesa. A festa, realizada novamente no Cannes Yacht Club, contou com as presenças de Marshall Chess, Ahmet Ertegun, Mick e Bianca, Eddie Barclay, Jo Bergman, e os amigos Bobby Keys e Stephen Stills.

O Segredo Que Todos Sabiam

Nem passara o primeiro mês em St. Tropez e Bianca já estava grávida. Mick liga para seus pais e informa que ele irá se casar, porém que será em segredo. Portanto, era imperativo que eles mantivessem a discrição. Em seguida, Jagger ligou para praticamente todo mundo de importância do pop e da aristocracia inglesa que ele conhecesse e convidou-os para o casamento a ser realizado em 13 de maio. Preparações incluíam o aluguel de um jato particular para levar os parentes e convidados de Londres à Nice, onde um ônibus os levaria em seguida para um hotel em St. Tropez, onde quartos estariam previamente reservados. A todos, ele repetiu a sua única exigência, que não contassem para ninguém, pois não queria que o casamento se transformasse em um circo. Jagger então liga para o seu departamento de divulgação para dar a notícia da cerimônia, completa com data e local e o inevitável aviso que esta informação era para ser mantida em sigilo.

Mick e Bianca
Mick e Bianca

Mick e Bianca adquiriram na França o hábito de fazerem longas caminhadas juntos. Em um destes passeios encontraram uma pequena capela no alto de um morro, com vista para a marina. Era a igreja de St. Anne e supostamente foi neste dia, tomado pelo momento, que Jagger a pediu em casamento. A brisa e a vista das belezas naturais de St. Tropez devem ter nutrido substancialmente este momento tão romântico na vida deste roqueiro. No entanto, o fato de que Bianca estava grávida também deve ter pesado.

A igreja, que era católica, exigiu que Mick fizesse um cursinho de um mês para se inteirar com os fundamentos da fé catolica apostólica romana, uma vez que sua religião, mesmo que não praticante, é originariamente da igreja anglicana. Quando perguntado, o sacerdote que administrou o curso, Padre Abbé Lucien Baud comentou que "o rapaz tem um grande senso e entendimento para com religião. Ele realmente leva jeito". Em meados de abril, a menos de quinze dias da grande data, quando perguntado pela imprensa francesa, Mick categoricamente negou qualquer plano de se casar. Mas uma cópia da lista de convidados já estava nas mãos da imprensa e todos, incluindo os fãs, já sabiam a verdade.

Nova Vizinhança

Villa Nellcôte
Villa Nellcôte

Keith Richards alugou uma propriedade chamada Villa Nellcôte, uma pequena mansão construída em 1899 por um almirante excêntrico inglês que depois acabou se suicidando, pulando do telhado da residência. Alojado entre as montanhas Capt. Ferrat e a baía de Villefranche-sur-Mer, a mansão foi tomada e usada como QG pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A casa, toda mobiliada, tinha escadarias de mármore e candelabros no teto. O imenso jardim e área exterior estavam repletos de palmeiras, ciprestes, bananeiras, pereiras, laranjeiras e parreiras cheias de cachos de uvas.

Ao final de uma longa escadaria externa encontrava-se uma praia particular. A propriedade era a mais vistosa de Villefranche-sur-Mer, um vilarejo de pescadores, cuja marina é usada pela elite como estacionamento para seus iates, lanchas e escunas. O local foi oferecido pela bagatela de $2.400 por semana, com a opção de compra pelo valor de $2.000.000.00, opção que Keith não pegou. Dentro da primeira quinzena na nova residência, tudo era novidade. Se nos primeiros dias a casa era o grande foco de interesse, logo virou rotina e a novidade passou a ser explorar os arredores.

Nesta etapa, o casal primeiro passou a visitar a marina. Nela, dentre tantos outros barcos, havia uma escuna que fisgou a atenção de Keith, pois pertencia a Errol Flynn. O barco aparentava estar bem baleado, com um mastro quebrado e um rombo no fundo do casco. Ninguém entrara na nau há tempos e ele só não afundava graças a duas bombas que sugavam a água do mar, bombeando-a de volta ao Mediterrâneo, vinte e quatro horas por dia.

Sendo Errol Flynn um ator com fama de rebelde nos áureos tempos e um herói de infância de Keith, procurou-se saber da possibilidade de compra. Acontece que, afora o preço da escuna em si, havia contas devidas da marina, que Flynn parara de pagar desde que seu filho morrera no Vietnã já há alguns anos. A questão estava na justiça e o dono da marina mantinha a embarcação flutuando na esperança de vencer o processo. Segundo as regras marítimas, caso a escuna afundasse, tornar-se-ia dono quem a retirasse do mar.

Keith e Marlon passeiam pela marina
Keith e Marlon passeiam pela marina

Secretamente Keith namorou a idéia de ir no meio da noite até a escuna e desligar as bombas, acreditando que poderia comprar o barco por um preço bem mais em conta, uma vez que os problemas legais teriam ido literalmente por água abaixo. Mas na hora 'H' não teve coragem e não conseguiu convencer nenhum de seus empregados a fazer o serviço. Nem encontrou ninguém que ele pudesse pagar para fazê-lo. A idéia acabaria sendo deixada de lado, embora Keith volta e meia passeasse na marina, "namorando" a escuna.

Novos Amigos

Feito um ímã, apareceu a figura de Jean de Bretieul, um francês que tinha a peculiaridade de ter um olho verde e outro amarelo. Por manter o costume de se vestir sempre com suspensórios vermelhos, Keith passou a se referir a ele pelo nome de Johnny Braces. Jean se apresentou como sendo amigo de William Burroughs, e foi logo explicando que tinha uns papelotes de heroína para apresentar. Em um pequeno estojo de pó de mulher, Jean guardava o que a princípio parecia talco cheiroso de cor levemente rosada. Keith, usando seu canudinho de ouro sempre pendurado no pescoço, deu uma boa cafungada e ficou pouco impressionado. Anita e Tony, seu assistente, também cheiraram cada um uma trilha, todos ligeiramente desconfiados.


"O que é isso, talco?" perguntou Keith um pouco irritado. "Não" disse Jean, "é heroína da Tailândia". Mas era tarde demais para ouvir a resposta. Keith, Anita e Tony já estavam desmaiados. Quando acordaram poucos minutos depois, Keith agradeceu a presença e passou a tratá-lo com todo apreço. Jean recebeu o grã tour da casa, bebeu e conversou por horas. No final, Keith pediu para comprar o estojinho de pó e gostaria de manter um contato fixo para futuras remessas.

No entanto, Jean estava a caminho de Londres e a fonte de seu contato ficava em Marseilles, capital da heroína vendida na França. Keith, percebendo que iria ficar mais tempo sem um contato, foi logo oferecendo estadia de duas semanas em sua casa em Cheyne Walk em troca do estojo. Jean aceitou na hora.

O Casamento

Naquela manhã de maio, um jato particular da viação da Dan-Air está taxiando pela pista, pronto para levantar vôo em direção à costa francesa. À bordo está a nata artística e aristocrática inglesa, como também a família imediata de Mick - Joe e Eva Jagger, respectivamente seu pai e sua mãe, mais o irmão Chris Jagger.

Mary, Paul e Linda McCartney
Mary, Paul e Linda McCartney

Entre a lista de amigos convidados estão nomes como Eric Clapton, Peter Frampton, Stephen Stills, Donayle Luna, Robert Frazer, Tony Sanchez e sua namorada Madaleine D'Arcy, Donald Cammell, Paul e Linda McCartney e suas crianças, Ringo e Maureen Starkey, Keith e Kim Moon, Doris Troy, Terry Reid, P.P. Arnold, Roger Vadim, Nathalie Delon, Ossie Clark, Leslie Perrin, Lord Patrick Lichfield, Lord Harlech e suas filhas, incluindo a então namorada de Eric Clapton, Alice Ormsby-Gore, os irmãos Andy e Glyn Johns, Jim Horn, Bobby Keys, Nick e Linda Hopkins, Ron e Krissie Wood, Ronnie Lane, Ian McLagan, Kenny Jones, David Brown, Michael Shrieves, Jimmy Miller, Marshall Chess e Ahmet Ertegun.

Ao todo, setenta e cinco pessoas incluindo uma banda caribenha que tocará na recepção. O avião aterrisou em Nice, onde um ônibus levou todos ao 'Hôtel Byblos', onde ficariam hospedados. Todos os membros dos Rolling Stones e suas respectivas estavam igualmente convidados e instalados no hotel.

No dia 12, enquanto convidados e não convidados, jornalistas internacionais e fãs de diferentes partes da Europa disputavam um lugar na capela e arredores, Mick e Bianca discutiam freneticamente, ambos ameaçando cancelar o casamento. Acontece que as leis francesas exigem que o casal opte por um entre dois tipos de união, ou seja, podiam casar com comunhão de bens ou sem comunhão de bens. Bianca exigia um casamento completo, com tudo incluído, enquanto Mick queria assinar um contrato de matrimônio sem comunhão de bens. Bianca foi pega totalmente de surpresa. Em momento algum este assunto fora discutido por ela e Mick antes.

Passaram boa parte da manhã nesta discussão, Jagger devidamente assessorado por advogados, fazendo pressão até Bianca ceder. Resolvido o impasse, saíram então correndo para o Fórum de St. Tropez, aonde o Prefeito Marius Estezan aguardava o casal para realizar o casamento no civil. O local estava igualmente infestado de fãs e gente da imprensa. Jagger ficou descontente com a invasão do público mas teve que se contentar com o fato que, se quisesse mesmo um casamento secreto, ele não deveria ter contado a tanta gente com tanto tempo de antecedência.

Assinaram como testemunhas o diretor de cinema Roger Vadim e sua esposa, a atriz Nathalie Delon, respectivamente padrinho e madrinha de casamento. Ao entrar no recinto, já com certo atraso, a quantidade de flashes que pipocavam sobre Mick e Bianca era tanta que os cegou. Mick, irritado, parou no meio do caminho e tentou voltar, de tão revoltado com a cena. Jornalistas e fotógrafos chegaram a brigar e discutir durante a cerimônia, cada um lutando pelo melhor lugar para registrar o momento. O Fórum, uma casa antiga, tinha o piso já abalado ao centro e a possibilidade de que com o peso ele cedesse e todos acabassem no porão passou pela cabeça de algumas pessoas.

Uma vez oficialmente casados, seguiram direto para a Igreja onde outra legião de testemunhas oculares se acotovelava para presenciar o momento histórico. Com a noiva e o noivo acumulando uma hora de atraso, todos que foram convidados ao casamento já estavam posicionados dentro da igreja. Sendo assim, todos as portas da capela foram então fechadas e trancadas, para garantir que nenhum furão indesejável entrasse. No entanto, quando o Bentley de Mick Jagger chega, após passar pela multidão de curiosos do lado de fora, não consegue acesso à capela. Ele bate na porta, grita pelo nome de Les Perrin, seu advogado, mas com a zoeira do lado de fora, ninguém lá dentro consegue distinguir sua voz.

Inevitavelmente, alguém finalmente foi verificar quem estava batendo na porta, permitindo que o noivo entrasse. Em seguida o órgão passou a tocar uma seleção que incluía A Marcha de Núpcias de Bach e o tema de Love Story, música do filme homônimo. Bianca Jagger entrou acompanhada de Lord Lichfield, em seu vestido de noiva desenhado por Yves St. Laurent, extremamente decotado, o que renderia comentários nos jornais de fofocas por anos a fio.


Depois da cerimônia, todos seguiram para a recepção realizada em um pequeno teatro ao lado do Café des Artes, que cuidava da comida. Com cerca de mil convidados, a festa virou a noite. Bianca trocou o vestido de noiva por uma roupa mais confortável. Ela mandara fazer um vestido exclusivo para a recepção mas não conseguiu entrar na peça. Embora não muito visível, havia uma pequena protuberância na sua barriga denunciando o fato de estar no quarto mês de gravidez. Sua opção foi vestir uma saia e blusa de renda semi-transparente mais um turbante. Como detalhe, ela colocou o colar de diamantes presenteado por Mick, que lhe custou a fábula de $10.000.

A Recepção

Embora jornalistas e fotógrafos externos tivessem sido barrados na entrada, alguns conseguiram se infiltrar. O que presenciaram na recepção foi uma orgia de caviar e lagosta, regado a champanhe nacional. Keith aproveitou a oportunidade para quebrar a máquina fotográfica de um dos fotógrafos que penetraram na festa. Além de um grupo local, uma banda de reggae chamada The Rudies foi contratada para tocar a noite toda. Lá pelas tantas, os convidados que eram músicos naturalmente começaram a querer tocar.

Terry Reid foi o primeiro a subir no palco, onde tocou algumas de suas canções antes de Bobby Keys assumir o espaço e começar a organizar um jam. A banda base que surgiu era formada por Keys no sax, Nicky Hopkins no piano elétrico, Stephen Stills na guitarra, e Michael Shrieves na bateria. Vários dos convidados, conforme desejassem, aproveitaram para tocar um pouco. Instigado por Stills com a ajuda dos demais, Mick Jagger finalmente subiu no palco e cantou vários sucessos de soul com Doris Troy e Pat Arnold. Era seu desejo botar os Rolling Stones para fazer um set, mas Keith estava roncando num canto do salão totalmente desinteressado com o que se passava. Aqueles que repararam cochichavam perguntando se Keith não estava se tornando o próximo Brian Jones.

Com Jagger dando atenção a todos menos à noiva, Bianca resolve voltar para o hotel se sentindo totalmente ignorada pelo marido. Às quatro da manhã, um ônibus encostou-se à frente do teatro para apanhar os convidados ingleses para prontamente levá-los ao aeroporto de Nice, onde o jato aguardava para levar todos de volta à Londres.

Encontro de Sócios

Ringo e esposa Maureen no aeroporto
Ringo e esposa Maureen no aeroporto

Embora sentados em poltronas distantes na ida, um evitando o outro, foi nesta recepção que Paul McCartney e Ringo Starr tiveram a oportunidade de se socializar mais relaxadamente. É a primeira vez que os dois conversam desde o ano anterior, quando ainda faziam parte dos Beatles. O evento serviu para reaproximar os dois sócios apesar de suas pendências jurídicas. Junto com o amanhecer, Paul e sua família seguiram com os demais para Inglaterra, enquanto Ringo e sua esposa permanecem na França, seguindo para o Festival de Cinema de Cannes, onde John e Yoko participavam com dois filmes, 'Apotheosis' e 'Fly', o segundo sendo particularmente bem recebido. Ringo não se encontra com a família Lennon, mas recebe George e Pattie Harrison em seu iate alugado. Juntos acabam escrevendo a canção 'Photograph' que seria seu primeiro No.1 nos Estados Unidos ao final de 1973. Sua estada durante o festival também lhe rende um convite para participar de uma produção italiana, um faroeste que seria chamado 'Blindman'.

A Rebordosa

Eric Clapton acordava na manhã do dia 14 ainda em St. Tropez. "Que festa!" foi o máximo que ele conseguiu articular para Alice ao seu lado. Por ter sentido as tremedeiras, aviso prévio para qualquer viciado em heroína para saber que é hora de seu remédio, optou por não pegar o avião com os demais. Eric, Alice e mais um casal de amigos voltaram até o hotel onde Anita abriu mão de uma quantidade de metadona para eles injetarem, aliviando assim os sintomas de abstinência que já estavam claramente se manifestando. O casal se aplicou com a droga e acabou dormindo no jardim do hotel, acordando com o som dos grilos.

Como lua-de-mel, Mick e Bianca alugaram um iate de 97 pés com intuito de passear pela Riviera Francesa e Italiana. No entanto os paparazzis estragaram o romance, e o casal passou a maior parte do mês em um castelo italiano onde o acesso existente era apenas pelo mar. Eles retornam no final de maio.

Marianne Comemora


Marianne Faithfull estava em Londres fazendo tratamento contra sua dependência. O tratamento consistia em tomar uma injeção de Valium, duas vezes por semana, paga pelo seu atual namorado Lord Rossmore. Isto porque, para ficar sem tomar heroína e sem sofrer a abstinência, Marianne havia passado a usar barbitúricos e álcool. Uma tática que de fato funciona, todavia, para obter os resultados desejados, a pessoa precisa tomar tanto álcool que se arrisca a morrer mais rapidamente de cirrose. Tendo Marianne passado boa parte do ano de 1970 se sentindo um zumbi, o novo namorado Lord Rossmore lhe encaminhou a um médico que acabou receitando este tratamento questionável à base de Valium. Os resultados finais não resolveram os problemas de dependência de Marianne, tampouco o relacionamento com Lord Rossmore.

Ao voltar de Londres para Goring, onde morava com a mãe, Marianne acaba de tomar sua dose de Valium quando lê a manchete do jornal: "Mick e Bianca Casam à Francesa". Com o choque da notícia, sua reação foi de sair imediatamente em direção ao bar mais próximo e tomar três martinis com vodka em homenagem ao casamento. Sua intenção era em seguida pegar o trem para casa, mas ela não contava com o efeito do álcool quando misturado a uma droga como o Valium. Ela acordou no dia seguinte dentro da cadeia. Foi presa por embriaguez pública e obrigada a pernoitar numa cela. Versões dão conta dela desmaiando dentro de um restaurante chinês. Ao acordar no dia seguinte, foi prontamente liberada e tratada com muita cordialidade, graças a seu status de celebridade. Segundo Marianne, antes de ir embora ela assinou alguns autógrafos para os policiais.

Cem Por Hora

Outro novo amigo que apareceu foi Tommy Webber, que se dizia um ex-piloto de corridas. Ele surgiu um dia em Nellcôte com seus dois filhos. O fato de ser um ex-piloto de corridas impressionou Keith. O fato que Tommy trazer um quilo de cocaína direto de Amsterdã, distribuído em dois embrulhos colados nas costas de cada criança, impressionou mais ainda. Sua esposa aparentemente estava se recuperando no Bowden House para se livrar do seu vício de heroína. De Londres, Tommy pegou as crianças e passou por Amsterdã antes de chegar a St. Tropez.

Anita e Keith no GP de Mônaco
Anita e Keith no GP de Mônaco

Ele estava indo para Monte Carlo, aonde pretendia assistir o Grande Prêmio de Mônaco. Tommy acabou convencendo Keith e Anita a lhe acompanhar para juntos assistirem o GP com ele. Uma vez em Monte Carlo, riram e beberam muito mais do que prestaram atenção para a evolução dos carros. Neste, que foi um domingo ensolarado, testemunharam a vitória do escocês Jackie Stewart, vencedor da corrida com sua Tyrrill.

Mandrax e Courvoisier

Keith evidentemente comprou uma boa parte daquela remessa e Tommy passou a freqüentar a casa regularmente. No fim de maio, a atriz Michelle Breton que contracenara com Anita em "Performance", passou uns dias na casa em uma visita prolongada, prática que se tornaria cada vez mais comum entre as visitas de Nellcôte. Cheirando cocaína até quase altas horas da madrugada estavam Keith, Anita, Tony, Madaleine, Michelle, e Tommy. Todos ligadaços até demais, resolveram tomar um Mandrax para acalmar. Desceram o barbitúrico com goles de Courvoisier, levando a tropa a cair feito moscas, empilhados sobre a imensa cama Luis XIV no quarto do casal.

Tommy foi o primeiro a despertar horas mais tarde, por volta das cinco da manhã, com o céu já clareando. Ele percebeu que estava praticamente em cima da Anita com Keith roncando do lado. A posição instintivamente o deixou excitado e ele não se conteve e passou a se esfregar levemente nela. Anita acordou, olhou para ele e sorriu arteiramente. Tommy tendo a aceitação, logo colocou a mão na sua coxa e passou a subir lentamente. Anita ri e depois geme baixinho, dando-se então o início de um rala-rala. Não demorou muito e a cama estava balançando ritmicamente, suavemente ao início, e depois com firmeza, os dois em pleno ato sexual. O ritmo pulsante acordou Tony, que temendo o constrangimento e o fim de seu emprego, se fingiu de morto e tentou voltar a dormir.

Preparando As Gravações

Antes de Mick casar e sumir em lua-de-mel, foi acertado que com o seu retorno começariam a trabalhar em material para o novo álbum. Foram escaladas pessoas para o trabalho de olheiro em busca de alguma fazenda nos arredores para servir de estúdio, utilizando o equipamento do Rolling Stones Mobile Unit. Keith exigia porém que o local estivesse perto de sua residência, o que delimitou consideravelmente o raio de ação de todos encarregados de encontrar um lugar apto.

Um jovem fotógrafo francês de vinte e três anos chamado Dominique Tarlé conseguiu contato com os Rolling Stones ainda em Londres, antes deles se mudarem, buscando oferecer seus serviços. Após fechar contrato com a firma Rolling Stones em Londres, Dominique chega uma manhã em Nellcôte para conversar com Keith sob detalhes do tipo quando e aonde se dará o início às referidas sessões de gravação que ele registraria em fotografias.

Passeio na Marina de Beaulieu

Informado sobre uma lancha com motor turbo à venda na Marina vizinha de Beaulieu, Keith convida Dominique a se juntar à tropa e acompanhá-lo para ver o barco. Distribuíram as pessoas em dois carros: Anita, Michelle, Tommy e Dominique foram no Dodge cinza com um motorista particular chamado David, enquanto Keith dirigia seu Jaguar vermelho conversível, acompanhado de Tony com Marlon no seu colo. Uma chuva de verão rápida caiu com sol à pino e durante este passeio Tony comenta com Keith o que viu. Tentando tapar o solo com a peneira, Tony fala de Tommy tomando vantagem da Anita, bolinando ela enquanto dormia. Keith ouvia em silêncio sem nada comentar, embora estivesse na cara que ele estava fervendo por dentro. Tony pede sigilo quanto à fonte, coisa que Keith concordou na hora.

Ao chegar na Marina, encostam perto de uma casa que parecia ser o escritório, e esperam encontrar alguém ou alguma indicação que eles estavam no ponto certo do cais. Foi quando apareceu outro Jaguar, que calcula mal a largura da rua estreita e ao passar pelo carro estacionado, arranha com a ponta lateral do pára-choque a lataria do Jaguar de Keith. Pronto. Keith explode, ofendendo o casal de italianos que estava no carro agressor de tudo quanto é nome. O casal tenta se desculpar mas Keith estava literalmente soltando os cachorros. De repente, ele tira uma faca de caçador de sua bolsa e parte pra cima do italiano, obrigando Tony a sair correndo e tentar segurá-lo. O responsável pelo lugar, atraído pela balbúrdia, sai da oficina e manda os italianos entrarem, acenando para o jovem cabeludo manter sua distância. Isto enlouqueceu Keith, que desata a ofender o homem, que não falava inglês e não entendia verbalmente o que ele dizia.

Mesmo assim, o responsável, que era um homem forte, também perde a compostura, e começa a responder gritaria com gritaria. Então temos em cena dois homens se ofendendo mutuamente, cada um em uma língua diferente sem entender o que o outro estava dizendo. Keith, talvez tentando intimidar o sujeito, mostra sua faca, e este responde imediatamente com um soco na cara. Keith cambaleia pro lado, perde o equilíbrio e cai no chão. O francês então parte para cima de Tony, que desfere um soco certeiro no rosto do homem. Foi o tempo de Keith levantar e partir imediatamente para o carro. Ele tira das mãos de Marlon sua pistola de brinquedo e aponta para o francês com um olhar assassino. O homem na mesma hora saca um revólver de verdade, e já estava prestes a atirar quando Tony se mete no meio, tomando a pistola de brinquedo de Keith e jogando-a longe, gesticulando em seguida para o francês dizendo que tudo era um mal entendido. O homem entra no escritório e em dois minutos já se ouviam as sirenes da polícia chegando.

Keith mandou Tony fugir no Jaguar enquanto ele se esconderia no Dodge e de fato, ao arrancar no carro potente, foi para o Jaguar que o francês apontou quando a polícia chegava. Deu-se então o início de uma perseguição, com o Jaguar sumindo rapidamente no horizonte. Ao chegar em Nellcôte, Tony esconde o carro no jardim e tranca os pesados portões de ferro que separam a propriedade da rua. Horas mais tarde Keith e o pessoal chegam. Keith ri e parabeniza Tony pela corrida. A idéia de comprar uma lancha fica para outro dia.

Resolvendo a Questão

Keith então telefonou para seus advogados, que foram imediatamente se encontrar com ele em Nellcôte. Telefonaram para a polícia local e um oficial foi até a casa entregar uma notificação de que Keith teria que comparecer a delegacia para prestar depoimento na manhã seguinte, às dez da manhã. Isto resolvido, Keith foi tomar satisfações com Anita, que inicialmente se faz de desentendida. "Eu sei de tudo. Tony me contou!" Depois que a poeira baixou, Tommy foi convidado a deixar a hospitalidade de Nellcôte.

Na manhã seguinte, Keith estava com ar de criança arteira novamente. Ele havia lido uma estória sobre Errol Flynn que, depois de uma briga similar aquela que eles viveram, foi ordenado a ir prestar depoimento ao delegado mas se recusou. No fim, o delegado é que teve que ir até sua casa para tomar o depoimento. Keith resolveu fazer o mesmo. Tony foi sozinho dar o seu depoimento e à tarde o delegado veio até Nellcôte, recebido por Keith e a equipe de advogados.


Keith declarou que seu filho machucara a cabeça quando o responsável pela Marina o agrediu gratuitamente e portanto era de sua intenção processar o homem. Depois de muita conversa em francês com os advogados, o delegado foi convidado a jantar com eles e ganhou uma série de álbuns autografados por Keith. Sendo Tony o único que acertara o homem, foi aconselhado a se declarar culpado, tendo Keith pago sua multa, de aproximadamente $12.000 dólares e lhe concedido umas férias, ocasião em que ele sai do país por algumas semanas. Ficaram sabendo mais tarde que na semana seguinte a espôsa de Tommy havia falecido. Apesar de parecer que Keith saiu de mais essa situação impune, na verdade a polícia marcou o local e a pessoa.

Outras Ocorrências Políticas

Angela Davis, uma professora negra americana, é acusada de participar da tentativa de fuga de dois prisioneiros em 1969, tentativa esta que resultou na morte de três pessoas. Caçada pelo FBI, ela se manteve escondida com a ajuda dos Panteras Negras. Uma vez encontrada e presa em 1971, deu-se início a uma série de manifestações populares, reivindicando sua imediata libertação. Angela Davis passa a se tornar um símbolo do cidadão oprimido. Estas manifestações não se resumiram à Califórnia, estado onde ela havia sido acusada e portanto onde seria julgada. Em Paris, Mick e Bianca Jagger são vistos participando de uma ação popular para libertar Angela Davis, realizada no Place de la Bastille. Angela Davis é um perfeito símbolo de opressão para Mick, pois era uma mulher, negra, e acima de tudo inteligente e carismática. Angela era uma professora de Filosofia extremamente bem qualificada, e não tinha medo de exprimir opinião própria contrária à do governo. No entanto, durante a manifestação, Jagger repara que alguns dos jovens estão adotando a bandeira comunista da União Soviética. Isto lhe assusta e se inicia uma pequena discussão filosófica, com ele acusando a USSR de dizimar milhares de pessoas como Angela Davis, e por fim deixando o local perplexo e triste. Em casa, Jagger escreve então uma letra pensando em Angela, chamada "Sweet Black Angel".

Só para variar um pouquinho, o nome dos Rolling Stones está nos jornais através de Shirley Watts, mulher de Charlie. Em Nice, ela se irrita com oficiais da alfândega no aeroporto que, sobre a guisa de eficiência, implicam com os menores e mais elementares detalhes. Shirley se sentindo provocada gratuitamente, perde a postura e agride o oficial. Existe uma histórica inimizade natural entre o inglês e o francês e esta pode ter sido uma das razões do incidente. Presa e acusada de agredir um oficial alfandegário, que constitui um crime federal, seus advogados aconselharam-na a deixar o país, o que ela faz prontamente. Dia 2 de junho, Shirley foi condenada a seis meses de prisão e $75 dólares de multa. Os advogados apelaram, e em agosto a sentença foi reduzida para quinze dias de cadeia, porém suspensa. Shirley então pôde voltar a França.

Chamada Geral

Ao retornar a St. Tropez, Mick Jagger estava pronto para começar a trabalhar e não demorou muito para ele começar a agitar as coisas. Concluiu-se que seria mais produtivo manter o estúdio perto de Keith, pois ele habitualmente é quem mais se atrasa. Keith ofereceu então a sua adega no sótão da casa como uma opção para estúdio. De fato, o local oferecia bastante espaço que poderia ser bem aproveitado. Ian Stewart então recebeu o aguardado telefonema para trazer o caminhão carregando o Rolling Stones Mobile Unit até Villefrenche-sur-mer. Outro telefonema foi para John Morris, um 'promoter' americano que trabalhava em Londres já havia algum tempo. Ele foi convidado a vir até St. Tropez para ajudar nos preparativos de uma excursão pelos Estados Unidos para o ano seguinte. Outros telefonemas seguiriam para diversas seções da organização Rolling Stones, para Mick se situar em relação ao andamento da firma.

Keith e Bill ensaiando na sala
Keith e Bill ensaiando na sala

O caminhão chegou de Londres no dia 7 de junho e ficou estacionado ao lado da casa. Monitores para retorno, amplificadores e demais equipamentos, assim como instrumentos musicais, foram instalados no sótão. Algumas câmeras foram posicionadas estrategicamente no novo estúdio que se criou, ligadas a monitores de TV situados junto à mesa de som e ao gravador dentro do caminhão. Assim os técnicos podiam acompanhar visualmente tudo que está se passando enquanto os músicos tocam. Cabos passavam pela janela da cozinha e seguiam até o sótão. O estúdio no porão passa a ser chamado de "Keith's Coffee House."

Apesar de estarem todos tecnicamente prontos, a banda estava soando mal junta, ninguém totalmente focalizado no trabalho. A música que produziram nesta primeira semana naturalmente refletiu esta dispersão. Mas antes que a banda pudesse realmente se aquecer, Keith apronta outro problema que atrasa tudo.

Andando de Kart, Keith consegue cair do carro ralando bastante as costas. Com muitas dores, passa a semana seguinte de molho e a banda fica então mais alguns dias sem ensaios. Bill Wyman, que havia começado a produzir o disco de John Walker no final de maio, aproveita o equipamento e retorna ao trabalho em Nellcôte. No fim desta segunda semana de junho, um Keith novamente animado estava participando das gravações tocando baixo em duas canções no disco de Walker.

Os ensaios começaram a ganhar pique na terceira semana de junho, começando religiosamente às oito da noite e terminando por volta das três da manhã. Como nos velhos tempos, Bill e Charlie chegam pontualmente na hora marcada e ficam esperando pelos demais. Keith está sempre ocupado com algo e desce sempre um pouco mais tarde. Algumas coisas são gravadas apenas para servir como referência, mas tudo soa tecnicamente pobre. A banda continua sem pegada. Keith batiza essas sessões de junho de "Sessões de Doença Tropical".

Jean de Bretieul

Jean de Bretieul havia viajado para Londres com um acordo fechado em que Keith lhe garantia duas semanas de moradia gratuita em seu apartamento em Cheyne Walk. Se ele resolvesse ficar mais tempo, passaria a pagar um aluguel de $600 por semana. Jean gostou tanto do lugar que telefonou de Londres para Marseilles, encomendando uma entrega à domicílio e dando o endereço de Nellcôte. No mesmo dia, um carro chegou na casa de Keith com dois tipos com pinta de mafiosos. Conversaram com Keith e lhe apresentaram um saco que poderia ser confundido com um quilo de açúcar, não fosse a brilhosa coloração rosa. Era heroína tailandesa pura. Tão pura, que antes de Keith poder usá-la, foi obrigado a aguardar até que uma mão mais experiente a diluísse com o dobro de quantidade em glicose. Em função da cor, Keith passou a se referir à droga pelo nome de 'algodão-doce'. As entregas passariam a ser periódicas, cada saco desses custando por volta de £4.000, aproximadamente $9.000, câmbio da época. O saco quase durou o mês.

Em Londres, durante uma visita a Thalita Getty, Marianne Faithfull conhece Jean de Bretieul, que acaba estendendo sua estada em Londres por mais tempo, fincando residência em Cheyne Walk por vários meses. Ele estava com uma boa clientela, vendendo bem e faturando alto. Quando Jean Paul Getty II se internou para tentar se livrar de sua dependência, se apaixonou por sua enfermeira Victoria Brooks, e avisou para sua esposa Thalita que ele não voltaria mais para ela. Thalita por sua vez acabou sucumbindo ao charme francês de Jean de Bretieul, seu novo vizinho e amante. O fato dela ser uma junkie e ele um fornecedor de mercadoria de primeira era apenas um detalhe insignificante na relação, com certeza. Quando Thalita precisou retornar à Itália para conversar com seu marido sobre o filho ainda pequeno do casal, Marianne naturalmente entrou no seu lugar como dama da vez.

Marianne Faithfull
Marianne Faithfull

No final de junho Jean e Marianne visitam Keith e Anita e seguem depois para Paris, onde ficaram hospedados no L'Hotel. Ao que tudo indica, Jean teve Jim Morrison como um de seus clientes, pois Marianne conta que, no dia 3 de julho, Pamela Morrison ligou assustada e Jean correu para o hotel onde ela e Morrison estavam hospedados. Quando voltou deu instruções para fazer as malas imediatamente. Seguiram correndo para o aeroporto, aterrisando em Tangier, no Marrocos, dentro de algumas poucas horas.

Jim Morrison passa a ser a outra grande baixa recente no rock. Nove dias depois era a vez de Thalita Getty ser encontrada em sua piscina em Roma, morta por uma overdose de heroína. Dentro de alguns meses morreria também Pamela Morrison, igualmente como o namorado famoso de quem adotou o nome, também por overdose de heroína.

Keith Richards e Gram Parsons

Os ensaios passam a ser encaradas mais seriamente a partir da chegada dos engenheiros de som Glyn e Andy Johns, junto com Jimmy Miller, no dia 6 de julho. A função primordial de Miller, o produtor, seria de colocar ordem na casa e ajudar a banda a se focalizar no trabalho. Com ocasionais tempestades de verão, as gravações tinham que ser canceladas pois a força acabava, toda a casa ficando às escuras. A fiação antiquada da residência mostrava logo sinais de estafa diante das necessidades de consumo de toda aquela maquinaria. Membros da equipe de som encontraram uma estação de força da ferrovia francesa não muito longe da casa. Autorizados por Keith, puxaram um gato direto para Nellcôte que passou a alimentar não só os estúdios assim como toda a casa.

Keith, Gram e Gretchen
Keith, Gram e Gretchen

As mortes de velhos amigos e conhecidos não alteraram em nada a disposição de Keith e Anita. Gram Parsons e sua mulher Gretchen foram convidados por Keith a passar uma temporada em Nellcôte. Parsons, um ávido consumidor de heroína, se maravilhou com o pó servido em St. Tropez. O consumo dos dois aumenta quantitativamente. Keith passara a se injetar no músculo, no lugar da veia, para lhe dar uma falsa sensação de controle sobre o vício. Com o uso contínuo, manchas e marcas começam a aparecer. Seus dentes estavam aos poucos escurecendo e Keith passaria a sofrer de constipação, outro problema comum, porém pouco mencionado, entre os dependentes de drogas químicas.

Com Mick agora tão envolvido com Bianca, Keith adota Gram como parceiro para canalizar o seu lado Country, uma música que ele sempre amou desde os tempos de fã de Roy Rogers, mas que pouco utilizou dentro da fórmula adotada pelos Rolling Stones. Trabalharam em um clima extremamente descontraído preparando material para o anunciado disco dos dois. Este período foi de grande importância para Keith Richards aprimorar sua versatilidade no violão. Gram Parsons lhe ensina as mecânicas aprimoradas do Country, dando profundidade histórica aos acordes e palhetadas. Keith aprende a reconhecer e executar as duas escolas de Country existentes, a de Nashville e a de Bakersville. Comentando a respeito deste período recentemente, Keith teria dito, "Gram foi um gênio que reinterpretou o Country, sua influência alterando o gênero completamente depois dele. E ninguém sequer percebeu".

Parte 36 - Exílio em Nellcôte

Com Mick agora envolvido com Bianca, Keith adota Gram como parceiro para canalizar o seu lado country, uma música que ele sempre amou desde os tempos de fã de Roy Rogers, mas que pouco utilizou dentro da fórmula adotada pelos Rolling Stones. Gram Parsons lhe ensina as mecânicas aprimoradas do country, dando profundidade histórica aos acordes e palhetadas. Comentando a respeito deste período recentemente, Keith teria dito: "Gram foi um gênio que reinterpretou o country, sua influência alterando o gênero completamente depois dele. E ninguém nem notou". De fato, é mais fácil se encontrar quem fale de The Eagles como pioneiros, do que aqueles que lembrem primeiro de Gram Parsons.

Wyman Produz

Outro efeito colateral de ter um estúdio de gravação em uma casa de verão é a dispersão de Keith na hora de trabalhar. Com isso as sessões voltam a ficar morosas e improdutivas. A turma designada para organizar as sessões - Jimmy, Andy e Glyn - acabam sucumbindo à fartura de cocaína, Jimmy em particular pegando o hábito de usar heroína também. Havia muitos momentos de ócio, com pessoas no estúdio esperando Keith ou alguém definir o que fazer. Durante tais momentos, Bill Wyman aproveitou a equipe para trabalhar em alguns projetos paralelos.

Bill Wyman
Bill Wyman

A banda The End, do qual Wyman era empresário havia acabado. The End acabou evoluindo para uma nova banda chamada Tucky Buzzard. Wyman produz a banda que tem suas sessões gravadas no Olympic Studios com o engenheiro de som Keith Harwood. Wyman na verdade não pôde comparecer a todas estas sessões londrinas, porém com as fitas em mãos, grava com a ajuda de Glyn Johns o acréscimo de Mick Taylor, nas faixas "My Friend" e "Whiskey Eyes", esta última tendo ainda as participações de Bobby Keys e Jim Price nos metais.

Dormindo em Nellcôte

Ficou cansativo para todos ir e vir toda noite e a banda passa a morar na casa também. Alguns técnicos conseguiram alugar uma casa ou quarto nas redondezas. A residência de Nellcôte tinha um fluxo constante de visitas das mais variadas áreas artísticas. Eric Clapton, John Lennon, Gram Parsons, William Burroughs, Terry Southern, Marshall Chess, Donald Cammell, Jo Bergman, June Shelley, Mick McKenna, Astrid Lundström, Sandy Lieberson, Trevor Churchill, Dominic Lamblin e Rene d'Amico foram todos, em um momento ou outro, aparecer na casa. Houve ainda mais algumas pessoas trazidas por outras e que acabaram ficando.

Keith contratou uma equipe de cozinheiros liderados pelo Chef Jacques para morar e trabalhar na casa. Sua função era de servir alimentação a qualquer hora do dia ou da noite. Havia por vezes vinte e cinco pessoas para o almoço ou janta. As refeições eram regadas a lagosta, caviar, filés, champanhe e vinhos. De vez em quando, após o Chef Jacques servir um jantar a base de filé ou outra carne nobre, Keith gostava de pedir linguiça com ervilhas amassadas, prato predileto do típico trabalhador inglês, popularmente chamado de 'bangers and mash'. Outro prato solicitado com intuito exclusivo de irritar o seu cozinheiro é hambúrguer com bastante ketchup.

O Corpo Reclama

A banda se aglomerava no estúdio de Nellcôte, no auge do calor de verão, desde as oito da noite esperando Keith descer para começar. Várias foram as ocasiões em que ele somente aparece perto da meia noite. Keith então agita o início da sessão, tocando com a banda por quase uma hora. Depois sobe novamente com a desculpa de ter que botar Marlon para dormir, retornando três horas depois. Encontra então apenas metade das pessoas, os demais já tendo ido para a cama.

Este problema, que passa a ser comum dentro da dispersa rotina das sessões em Nellcôte, é apenas mais uma maneira em que o vício de heroína e sua influência no organismo de Keith passa a estressar e atrapalhar o seu trabalho. Keith está em um estágio em que o seu corpo está longe de estar funcionando regularmente. Keith está constipado e portanto, passa a ser normal ele passar horas trancado no banheiro. Elvis Presley tinha uma pequena biblioteca montada em seu banheiro em Graceland, assumindo seu problema e construindo confortos ao redor dele. Keith por sua vez, enquanto hóspede em Nellcôte, passa a levar um caderno, caneta e o violão, tirando as horas para compor, ou se distrair tocando um pouco.

De início o costume, datado ainda em Londres, Anita batia na porta para saber se estava tudo bem. Mas Keith sempre respondia agressivamente e portanto ela parou de se preocupar verbalmente. Keith comentaria depois a respeito, "A última coisa que eu quero ouvir quando eu estou no vaso, é alguém batendo na porta me perguntando se está tudo bem. Como assim se está tudo bem? Estou cagando, porra!"

Entre Paris e Nellcôte

Bianca se recusou a ir a casa daquela vaca, termo mais simpático que ela usou para se referir a Anita. Visitou Nellcote em uma ocasião e se trancou no banheiro passando o tempo se maquiando, sem falar com ninguém. Mick não teve outra solução senão deixá-la em casa enquanto ele passa alguns dias trabalhando hospedado na casa de Keith. Recusando-se a ficar sozinha grávida em uma casa de verão, Bianca pegou um avião e foi para Paris onde ela se sente mais segura para qualquer possível emergência. Mick passa a fazer translados semanais de St. Tropez à Paris e de volta.


Paralelamamente às gravações realizadas de noite, Mick passava suas tardes ou compondo com Keith ou tratando dos negócios da banda. Recebeu William Burroughs e Terry Southern para conversar sobre a possibilidade dos Rolling Stones fazerem a trilha sonora de um filme baseado no livro Naked Lunch. A idéia ficou a ser estudada embora o filme acabasse não acontecendo. Ou melhor, só efetivamente acontecendo na década de noventa com Ornette Coleman na trilha sonora.

John Lennon, após sua passagem pelo Festival de Cinema em Cannes ainda em maio, aparece certa tarde em Nellcôte. Segundo consta, provou das guloseimas de Keith e passou mal, vomitando na escadaria de mármore antes de ir embora. Em outra ocasião foi Eric Clapton quem apareceu para fazer uma visita. A heroína de cor rosa, ganhou o apelido de algodão doce, os dois amigos fazendo a festa. Clapton ficou por uma semana retornando para Londres e se trancafiou em casa, escondido do mundo, pelos próximos dois anos.

Bianca sumiu em Paris quando Mick ficou mais de quatro dias direto sem voltar. Mick, então sabendo que tudo não passava de pressão por atenção, larga tudo e volta para Paris com John Morris, onde se hospedem no L'Hotel e continuam acertando detalhes sobre a futura excursão. Enquanto Morris conversa sobre os detalhes ainda pendentes da turnê, Mick se pendura no telefone procurando encontrar sua esposa em todos os lugares plausíveis.

Processos

Dia 23 de julho, os Rolling Stones, através de seus advogados, dão entrada a uma queixa-crime contra Andrew Oldham e Eric Easton. Oldham e Easton travaram um acordo secreto entre eles e a Decca Records para receber uma porcentagem em cima dos vencimentos dos Rolling Stones. Acontece que eles tinham também um contrato com os Rolling Stones que pagariam a eles uma outra porcentagem pelos mesmos serviços. Isto se constitui em crime por servir o seu cliente em má-fé.

Os Stones igualmente aproveitam a oportunidade para dar entrada em um processo contra Allen Klein no valor de $25 milhões de dólares. A queixa contra ele era de se servir da banda e não servir a banda. Klein é igualmente acusado de agir de má-fé ao organizar as finanças da banda de tal modo que todo o dinheiro passasse a ser retido com ele e sua ABKCO e não com os Rolling Stones e sua firma. Desta maneira, embora Allen Klein tenha sido contratado pelos Rolling Stones, na prática, são os Rolling Stones que ficaram na posição de empregados de Allen Klein.

A Compra de Mandrax

Keith e Anita precisavam reabastecer seu estoque de mais heroína e cocaína enquanto não chegava a próxima entrega do pessoal de Marselles. Conseguiram um contato com um clube de motociclistas local, mas a quantidade não deu conta do consumo da casa por muito tempo. Keith então encomendou Tony para buscar e trazer toda a heroína que ele havia deixado escondido na casa em Cheyne Walk. A encomenda foi encontrada e colocada cuidadosamente dentro do fundo de um piano de brinquedo do Marlon. Sanchez então manda o piano e uma série de outros brinquedos do Marlon em uma caixa para St. Tropez. Ao chegar, Keith destrói o brinquedo para reaver o tóxico.


Pelo fato do sul francês ser uma área portuária, e St. Tropez sendo perto de Marselles, Keith cogitou que poderia ter alguns portos menores onde ele poderia descolar ópio por um preço bem em conta. E que melhor maneira de visitar os navios que passam do mundo todo do que com uma lancha a motor? Assim, Keith se anima a voltar à marina de Beaulieu e tentar encontrar aquela lancha com motor turbo. Desta vez, sem maiores incidentes, Keith a encontra e compra por $2000 dólares.

Seu motorista David entendia de lanchas e eles se decidem retornar para casa pelo mar, apesar de desaconselhados por Monsieur Raymond, responsável pela marina que acabara de vender-lhes a lancha. Com a maresia instigando devaneios marítimos, Keith, Marlon, David, e Tony zarparam de volta a Villefranche-sur-mer. Rapidamente o mar ficou revolto e Marlon começou a chorar. Não demorou muito e se encontraram na seguinte situação: se fossem rápido pelas ondas volumosas, bateriam com o casco forte demais, podendo rachá-lo e jogar um dos passageiros, mormente uma criança leve, para fora da nau; se andassem mais devagar, a maré os carregaria para mais longe da costa. Para piorar a situação, a engrenagem trava e David é obrigado de usar um alicate para forçar a lancha em marcha neutra.

À deriva e sem conseguir consertar a lancha, transcorre uma pequena eternidade até uma barca de pescadores passar perto. Os gritos de socorro foram respondidos com acenos e o barco sumiu com o sol no horizonte. Horas passaram até o próximo barco pesqueiro passar, desta vez bem mais perto. Cobraram 300 francos, cerca de $45 dólares, para rebocar a lancha e seus ocupantes de volta para a costa. Keith instintivamente tentou regatear no preço, mas relutantemente cedeu ao fato de não terem outra opção. A meia milha da costa a lancha da Guarda Costeira chegou e conduziu-os pelo resto do caminho em poucos minutos.

Keith malandramente tentou se livrar dos pescadores que o rebocaram até ali, uma vez que a Guarda Costeira assumiu o serviço gratuitamente. No entanto, uma vez na terra, se viu diante de pescadores rancorosos e teve que pagar o dono do barco pesqueiro o valor combinado. Keith só então percebe que não trouxe dinheiro solto consigo. Dá então o seu Rolex que valia $2.000 dólares como garantia, prometendo voltar no dia seguinte com os 300 francos. Ele nunca mais achou o pescador provando aquele velho ditado que diz malandro demais se atrapalha.

Keith e Marlon
Keith e Marlon

Keith batizou o seu barco de Mandrax pois como a droga, este o relaxava. Passou a ter o hábito de pegar o barco e sair pro mar sem se importar para onde. De forma rotineira, Keith se perdia ou desmaiava em estupor tóxico. Com isso, acabaria sempre se envolvendo em acidentes náuticos, fosse por bater em pedras, outro barco, ou simplesmente deixando acabar o combustível, tendo que ser rebocado por uma balsa pesqueira. Keith se tornara uma peste conhecida nas redondezas e uma certa animosidade a ele e aos Rolling Stones começava a surgir.

Intoxicante Clima de Férias

As sessões em Nellcôte passaram a ser realizadas não com a banda presente, mas com o grupo de músicos que estivesse presente no momento, mais Keith. Marshall Chess, presidente da Rolling Stones Records apareceu na casa para ver se ajuda a colocar os músicos e os técnicos novamente aprumados para gravar um disco. Mas logo ele também está passando as tardes fumando ópio com Anita. Acabaria depois deixando a França viciado em heroína.

Charlie e Keith
Charlie e Keith

Até Bill Wyman foi visto fumando maconha, tamanho clima de férias e irresponsabilidade tomara o lugar. Na verdade, Bill, ao deixar de fumar tabaco, e infeliz por ter que deixar a Inglaterra e o contato do filho, adota a canabis com gosto. Astrid comenta com admiração sobre a facilidade que Bill tem para abandonar seu vício com cigarro, mas se espanta de como ele adota a maconha em seu dia a dia. Charlie Watts por sua vez, que já bebia com certa regularidade, passa a beber ainda mais, fato que não passaria despercebido pela sua esposa, Shirley. Irritado com o constante estado de eterna espera por Keith, abandona as sessões para passar o tempo cuidando das necessidades de sua nova propriedade e sua família.

Rocks Off

Com Bill e Charlie evitando a letargia de Nellcôte ao voltar a morar em suas casas, e Mick estando a maior parte do tempo em Paris fazendo companhia a Bianca grávida de sete meses, a banda que gravou a maioria das bases do que seria conhecido como o álbum "Exile on Main Street" é composta de Keith Richards na guitarra, Mick Taylor no baixo, Bobby Keys no sax, Nicky Hopkins no piano, Gram Parsons na guitarra, Ted Newman Jones III (texano recém contratado como técnico para as guitarras de Keith) também na guitarra e Jimmy Miller na bateria e percussões.

As guitarras de Parsons e Jones acabariam sendo apagadas nos estágios finais do album. Há quem sugere que é possivel ouvir a voz de Gram Parsons fazendo coro em determinadas momentos do álbum, apesar de nenhuma ficha técnica confirmar esta afirmação. De fato Gram contribuiu quando não havia demais integrantes da banda na casa em sessões realizadas na cozinha já no auge do verão. Seu estilo particular de cantar, esticando as frases foi posteriormente adotado pelo Keith quando fazendo vocais de fundo e, segundo alguns, pelo próprio Mick Jagger.

A primeira música a ser escrita e gravada com certa facilidade é "Rocks Off." Mick e Keith a compõem juntos à tarde, e à noite já a gravam com todas as idéias se encaixando praticamente de primeira. A canção foi supostamente gravada em apenas dois takes.

I hear you talking when I'm on the street
Your mouth don't move but I can hear you speak
What's the matter with the boy?
He don't come around no more
Is he checking out for sure?
Is he gonna close the door on me?

And I'm always hearing voices on the street
I want to shout, but I can't hardly speak
I was making love last night
To a dancer friend of mine
I can't seem to stay in step
'Cause she come ev'ry time
that she pirouettes over me
And I only get my rocks off while I'm dreaming
(only get them off)
I only get my rocks off while I'm sleeping
(only get them off)

I'm zipping through the days
at lightning speed.
Plug in, flush out and fire the fuckin' feed
Heading for the overload
Splattered on the dusty road
Kick me like you've kicked before
I can't even feel the pain no more
And I only get my rocks off while I'm dreaming
(only get them off)
I only get my rocks off while I'm sleeping
(only get them off)

Feel so hypnotized,
can't describe the scene
Its all mesmerized
all that inside me

The sunshine bores
the daylights out of me
Chasing shadows moonlight mystery
Headed for the overload
Splattered on the dirty road
Kick me like you've kicked before
I can't even feel the pain no more
And I only get my rocks off while I'm dreaming
(only get them off, get them off)
I only get my rocks off while I'm sleeping
(only get them off, get them off)

Eu lhe ouço falando quando estou na rua
Sua boca não mexe mas eu posso ouvir você falar
Qual o problema com o garoto?
Ele não se enturma mais
Estaria ele verificando para ter certeza?
Será que ele irá fechar a porta para mim?

E estou sempre ouvindo vozes na rua
Eu quero gritar, mas eu mal posso falar
Estava fazendo amor ontem à noite
Com uma dançarina amiga minha
Não consigo manter o passo
Pois ela goza cada vez
que ela dá uma pirueta sobre mim
E eu só consigo deleitar quando estou sonhando
(apenas deleitar)
E eu só consigo deleitar quando estou dormindo
(apenas deleitar)

Estou zunindo pelos dias
na velocidade de um relâmpago
Conecta, localiza e liga a porra da alimentação
A caminho da superalimentação
Esparramado na estrada empoeirada
Me chuta como chutou da outra vez
Eu nem consigo sentir mais nenhuma dor
E eu só consigo deleitar quando estou sonhando
(apenas deleitar)
E eu só consigo deleitar quando estou dormindo
(apenas deleitar)

Sinto-me tão hipnotizado,
não consigo descrever a cena
Está tudo tão mesmerizado,
tudo aquilo dentro de mim

O brilho do sol enfadonha
todo o brilho diurno para mim
Seguindo sombras, mistério do luar
A caminho da superalimentação
Esparramado na estrada empoeirada
Me chuta como chutou da outra vez
Eu nem consigo sentir mais nenhuma dor
E eu só consigo deleitar quando estou sonhando
(apenas deleitar, deleitar)
E eu só consigo deleitar quando estou dormindo
(apenas deleitar, deleitar)

Outras músicas lentamente começam a ser concluídas. "Ventilator Blues" nasceu de um riff criando por Mick Taylor, sendo por este motivo creditado como co-autor. A letra foi escrita no estúdio numa noite particularmente quente quando a única fonte de alívio era um ventilador de teto diretamente em cima da bateria. A batida rítmica porém foi uma sugestão de Bobby Keys, que ficou ao lado de Charlie Watts batendo palmas na hora do tempo fora, a única maneira que Charlie conseguiu executar a canção corretamente.

"Happy" foi composto por Keith na varanda após saber que Anita estava gravida novamente. "Cassino Boogie", essencialmente uma jam criada por Keith e Bobby Keys, e a letra de "Tumblin' Dice" foram inspirados nos cassinos de Monte Carlo, Mônaco não sendo muito longe dali. "Torn And Frayed" foi um country baseado em coisas que Keith e Gram estavam fazendo juntos. Outros tantos temas, jams e versões embriônicas, como também canções que não evoluíram no processo de trabalho, estão registrados nos rolos e mais rolos de fita que compreendem este período de gravações da banda. Entre alguns títulos que vazaram estão nomes como "I Ain't Signifying", "Sophie Loren", "Fragile", "Fast Talking Slow Walking", e "Let It Loose".

Richards Remembers

Com o disco encaminhando e agosto findando, Keith ainda tira um tempo para conceder uma entrevista para Robert Greenfield da revista Rolling Stone. A entrevista quando publicada mostraria o lado irreverente do Keith em declarações e citações engraçadas, uma das mais memoráveis sendo "Eu nunca tive problemas com drogas. Apenas com a polícia". Keith também falou um pouco mais seriamente sobre o assunto: "Se você vai se meter com junk (drogas químicas injetáveis), ela toma o lugar de tudo. Você não precisa de mulher, você não precisa de música, você não precisa de nada. Mas não irá te levar a lugar algum. Não é chamado de junk (tradução literal: lixo ou porcaria) à toa". Quando perguntado sobre Altamont, Keith procurou minimizar o polêmico assunto despachando a pergunta dizendo "foi apenas mais uma apresentação onde precisei sair de lá correndo".

A foto da capa da Rolling Stone aquele mês de agosto, traz um Keith Richards com ar de drogado. Lábio rachado, lingua roxa, dentes verde musgo, um já estando preto. A pele já bastante enrugada. Quase instantaneamente Keith se torna o mais querido entre os drogados conhecidos do rock. Aspectos de sua vida passam a ser revistos, seu uso e abuso de substâncias químicas aumentando seu apelo de rebelde contra o sistema, sempre um apelo para adolescentes e jovens adultos. O resultado final da entrevista iria agradar bastante Mick Jagger pois a receptividade e publicidade gerada seria comparável a badalada entrevista de John Lennon no ano anterior, com os Stones novamente procurando se emparelhar com os Beatles.

Lançamentos


A Rolling Stones Records lança em agosto o disco "Howlin' Wolf London Sessions" e em setembro "Brian Jones Presentes The Pipes of Pan Joujouka". Poucas pessoas se interessaram pelo chamado disco póstumo de Brian Jones. O álbum sofreu nova edição e remixagem, uma vez que a mixagem original feita por Brian, influenciado pelo rock psicodélico da época, foi considerada datada. George Chkiantiz seria o responsável pela remixagem feita no Olympic Studios. Levaria algumas décadas até o disco ser analisado por críticos e considerado como o precursor dos conceitos que definem a world music.

As faixas incluídas são: "Keimonos", "Incantation (from the Koran)", "Aatini Mak", "Music For Bou Jeloud", "Men's Song", e "Pipe Tunes". No alto das montanhas de Joujouka, afirmam alguns que os músicos colocaram uma foto de Brian Jones pendurada no local principal onde tocam seus cânticos. É confortante para alguns imaginar o espírito de Brian presente ao local, dançando ao som das flautas e tambores.


Outro lançamento com participação de integrantes dos Rolling Stones é do pianista Dr. John pela Atlantic Records. Trata-se do álbum "The Sun, Moon & Herbs" lançado no final de agosto, onde encontramos uma série de faixas com Mick Jagger fazendo backing. São elas "Craney Crow", "Black John The Conqueror", "Where Ya At Mule", "Pots On Fiyo"/"Who I Got To Fall On", "Zu Zu Mamou" e "Familiar Reality - Reprise". O disco ainda conta com Jim Price e Bobby Keys entre a turma que na época trabalhava com os Stones.

Outros músicos presentes no álbum que podem atrair alguma atenção do público são Doris Troy, PP Arnold, Victor Brox, Graham Bond e mais os integrantes do Derek & the Dominos: Jim Gordon, Carl Radle, Bobby Whitlock, e Eric Clapton. Por último, também temos o álbum de Ben Sidran que tem pelo menos uma faixa, "The Blues in England" tendo a participação de Charlie Watts na bateria.

Esquema Nellcôte

O esquema em Nellcôte funcionava em torno de Keith e os demais aguardando sua disposição para começar a trabalhar. Todos estavam irritados em níveis diferentes. Anita estava irritada com seu marido pela falta de sexo na relação entre os dois. Brigas homéricas aos berros entre o casal são ouvidas em silêncio cômico pelos seus hóspedes.

Bobby Keys
Bobby Keys

Mick Taylor, que se tornara rapidamente um ávido consumidor de cocaína, estava tendo problemas em casa com sua mulher constantemente se queixando de seus novos hábitos. Em contrapartida, Taylor estava preocupado que, este sendo o primeiro álbum da banda em que ele efetivamente participa do começo ao fim, nada parece estar encaminhando como as sessões que ele está acostumado. Sua preocupação se aprofunda quando ele começa a desconfiar que Mick Jagger estava dando em cima de sua mulher.

De fato, Rose Taylor está irritada e insatisfeita com sua vida ao lado de Mick. Obrigada a deixar a Inglaterra, morando em um país estrangeiro, sua vida se resume a cuidar da casa, da criança e ficar a espera do marido aparecer em casa com forças suficientes para dar alguma atenção para ela. Embora não se possa afirmar que houve uma relação sexual entre Rose e Mick Jagger, o quadro é extremamente favorável para que sim. A cocaína e as incertezas fazem Mick Taylor entrar em uma silenciosa depressão.

Perigoso Atrito Entre Amigos

Os primeiros grandes atritos entre Mick Jagger e Keith Richards começam aqui em Nellcôte. A falta de disciplina para gravar o disco estava lhe irritando, mormente porque Keith acabava sendo o principal culpado da situação. Para acentuar o problema, a presença de Gram Parsons passava a ser um motivo de atrito. Parsons estava consumindo muita droga e sendo um instrumento de incentivo para Keith fazer o mesmo. Embora não admitisse abertamente, aborrecia-lhe também o fato de Keith estar relacionando com Parsons quase como um parceiro. Irritado com o esquema atual das sessões, Mick Jagger tirou umas mini-férias na Irlanda para alegrar Bianca.

Toda esta fricção apenas confirma uma verdade que já se podia notar desde a década passada. Que os Rolling Stones existiam em função de Keith Richards, e sem ele a banda simplesmente não conseguia funcionar como uma unidade musical. O som da banda é movido pela sua mão direita. Ou, usando uma jargão conhecido, na banda, era Keith Richards quem preparava as refeições enquanto os demais Rolling Stones lavavam os pratos. Evidentemente isto não é inteiramente verdade, os Rolling Stones tendo a voz e interpretação de Mick Jagger, outro ponto de equivalência. Mas como a voz é a última coisa a ser gravada em um processo de gravação profisional, no fundo, a base para Mick poder cantar por cima não existe sem Keith.

Depois foi Bill que, igualmente cansado de ficar a disposição de Keith sem garantias de produção, resolve sumir. Wyman alugou um iate e viajou com Astrid por cinco dias. Keith quando soube, prontamente apagou o baixo do Bill em duas músicas já prontas e ele mesmo gravou um baixo por cima. Quando o álbum ficou pronto, teria somente oito faixas com a participação de Bill Wyman, mostrando claramente uma distância entre os dois no que se refere a respeito mútuo.


Quando Bill volta e percebe o que foi feito de seu trabalho, passa a evitar falar com Keith, um silêncio que duraria dez anos. Abandona as gravações do novo disco para trabalhar com Johnny Walker em Los Angeles. Mas isto se mostrou ser igualmente frustrante pois Walker estava se afundando em whiskey e tornando as sessões totalmente improdutivas. Cansado, Bill fica na cidade a tempo de assistir a estréia ao vivo da banda Tucky Buzzard no clube Whiskey A-Go-Go.

Wyman então segue para Miami onde se encontra com Stephen Stills que o convidara a participar de uma sessão de gravação de um novo projeto seu, chamado Manassas. Em dois dias, Bill Wyman grava e até produz uma das sessões. Sua chegada e pique para produzir agita todos no estúdio e sua influência lhe rende crédito de co-autoria de "Love Gangster", uma das canções que acabaria no álbum. Além desta, Wyman está no baixo nas canções "Hollywood Crazies" e "Cuban Bluegrass".

Sobre Gram Parsons


Há muito que se especula quanto à participação de Gram Parsons nas sessões de Nellcôte, e, até certo ponto, no som dos Rolling Stones em um todo. A influência de Parsons é um fato que pode ser constatado pelo simples fato de se verificar a quantidade de músicas country que a banda vinha gravando desde que o conheceram. Desde o álbum "Let it Bleed" que Keith vinha explorando mais sua velha paixão, o country, um resultado diretamente ligado a sua amizade com Gram.

Parsons é descrito por todos que o conheceram como o mais gentil dos cavaleiros. Do tipo que instintivamente se levantava quando uma dama adentrava o recinto. Quando acompanhou a banda durante a turnê inglesa em março, conquistou a simpatia de todos os demais integrantes e equipe, inclusive Jagger. Agora, em Nellcôte, percebendo as tensões entre Mick e Keith, Gram sabiamente evitava se expor demais, nunca comentando ou fazendo sugestões sem ser solicitado. Evita rondar pelo estúdio e passa seu tempo ocioso com Gretchen quando não está chapado demais.

Sua namorada, Gretchen Carpenter, tinha apenas vinte anos e apesar de tentar ser cordial e agradável com Anita, percebeu logo o despreso de sua anfitriã. Anita, tentando domar seu hábito por heroína, tentou substituir a doga se injetando com cocaína. O resultado acabou deixando-a hiper paranóica. Eternamente querendo afastar os sanguessugas e lambe sacos de sua rotina familiar dentro de casa, em Nellcôte, com tanto espaço, o problema parecia pior do que em Londres. Era difícil saber distinguir entre os predatores e os amigos sinceros, e a esta altura, Anita desistiu da tarefa.

Devido à neurose exarcebada pela cocaína, Anita passa um período zunindo facas na direção de pessoas, tentando amedrontá-las para que partissem. Diria depois que era uma maneira de dizer não vem mexer com a gente. Mas a tática, se podemos chamar assim, não funcionou como queria. A jovem Gretchen porém, a ver uma faca voar perto de seu rosto e acertar a porta, ficou terrivelmente assustada, passando a reclamar com Gram constantemente.

De fato, Gram Parsons, então com vinte e cinco anos, estava com um comportamente auto destrutivo preocupante. Andy Johns lembra dele na cozinha com um pedal no ouvido na cabeça pensando que era um headfone, totalmente chapado. Lembrando Brian Jones, Parsons não sabia quando parar, quando ele já estava "legal" o suficiente. Tomava todas até cair para trás. Injetava, fumava e cheirava tudo que chegasse a seu alcance e se recusava a ir embora, apesar dos suplícios de Gretchen.


Parsons passa a desmaiar nas horas menos propícias e muita gente estava preocupada se Keith também passaria a cair. Entre o teto preto ocasional de Gram e as brigas de casal entre ele e a namorada, a presença de Gram Parsons passa a ser um problema. Keith não teve coragem de mandá-lo embora, mas autorizou Mick a resolver o problema. Jo Bergman chegou então à casa e comunicou que o casal devia partir. Parsons, que não pode sequer se despedir de ninguém, se manteve elegante durante o incidente, mas ficou profundamente magoado. Uma vez em Londres, ele tentou se suicidar com uma overdose de heroína sendo encontrado no banheiro por Gretchen.

Gram e Gretchem acabariam se mudando para a casa de Rick Grech, ex-Blind Faith, onde juntos, compõem uma séerie de canções, algumas com títulos curiosos como "The Blues Made A Nigger Out of Me" e "I Ain't No Beatles, I Ain't No Stones". Apesar deste trabalho juntos não frutificar em termos de sessões de gravações visando um disco no mercado, serviu para Gram colocar sua vida temporariamente em ordem. Antes do ano de 1971 terminar, Parsons iria conseguir vencer sua dependência de heroína, retornando para os Estados Unidos e se casando com Gretchen. Infelizmente seu lado auto destrutivo voltaria a seduzi-lo, tendo heroína e bebida retornando à sua rotina.

Caem Mais Moscas

Ginger, mulher de Michael Cooper, foi outra que precisou da ajuda do Bowden House para tentar acabar com seu vício de heroína. No entanto, ela não conseguiu agüentar o tratamento e acabou morrendo. Michael, fotógrafo e amigo dos Stones, pretendia entrar no programa após Ginger se recobrar. Uma vez ela falecendo, a tristeza de Michael o levou a se afundar ainda mais na droga, heroína sendo a mais forte das anestesias. Nenhuma dor supera suas garras. A notícia chegou até Keith e Anita de que Jean de Bretieul, também morrera naquele verão. Nada disso influenciou o comportamento do casal.

Lucifer Rising

Myriam Gibril como a Deusa Iris
Myriam Gibril como a Deusa Iris

Depois da morte de Jean de Bretieul, Marianne voltou a morar com a mãe por algum tempo até Kenneth Anger aparecer e convidá-la a trabalhar em mais outra tentativa de terminar as filmagens de sua obra-prima, "Lucifer Rising". Neste épico, Marianne contracenaria com Chris Jagger, irmão de Mick, que Anger contratou para fazer o papel de Lúcifer. Briguento e indisciplinado, Chris discutiu com Anger e acabou despedido no primeiro dia de filmagem. Seria então substituído pelo namorado de Kenneth, o ator Leslie Huggins.

A equipe e elenco viajaram para o Egito, cenário de um certo segmento do filme. Marianne faz o papel de Lilith, o amigo Donald Cammell é Osiris e sua namorada Myriam Gibril é a Deusa Iris. Os fundos do projeto iriam secar antes do término e novamente o filme seria abandonado por alguns anos. Anger conseguiu Jimmy Page para cuidar da trilha sonora. Contudo, depois de aguardar dois anos pela música para o seu filme, Page lhe apresenta apenas vinte minutos de gravações de sons abstratos e sonoplastia. Irado com o que julgava ser pouco caso com seu trabalho, o diretor despede Jimmy Page alegando publicamente que o músico foi incompetente dado ao seu excessivo envolvimento com o que chama de "A Dama Branca", para não usar o nome heroína. Mas enquanto Page anda se aplicando no conforto luxuoso de seu castelo, Marianne passa a morar de favor na casa de Pamela Mayall, ex-esposa do músico John Mayall.

Outono

Com a chegada de Outubro, os dias começaram lentamente a ficarem menores. A segunda remessa de Marselles, meio quilo de heroína, chegou ao preço agora de £6.000 libras esterlinas. São pagos em dinheiro, mas Keith começa a ficar temeroso pela segurança de sua família. Começa a vislumbrar a possibilidade da máfia local tentar sequestrar Marlon, uma vez que sabe que ele é rico.

Keith e Anita
Keith e Anita

Esses temores levam Keith a indagar se haveria um meio legal de se comprar uma arma com fins de proteção. Contudo suas solicitações são prontamente recusadas. Um dos empregados sugere que Keith pague esses mesmos homens para garantir a segurança da casa. Existe um código de honra dentro da máfia que geralmente é respeitado, portanto sob sua proteção, nenhuma outra quadrilha teria coragem de mexer com ele. No entanto, a concepção de se gastar uma fortuna por algo tão subjetivo como proteção não desce bem.

Com a casa sempre aberta e pessoas de fora aparecendo a qualquer momento, era fatal que em algum momento coisas começassem a sumir. Primeiro foram pássaros em suas gaiolas, escalou para móveis e finalmente, os instrumentos musicais, incluindo guitarras, baixos e violões. Keith estava assistindo televisão no andar de cima, totalmente alheio ao que se passa na casa. Foram onze instrumentos ao todo, nove guitarras, dentre as quais o Gibson Flying Arrow que pertenceu a Albert King, o mesmo que Keith usou no show em Hyde Park. Quando soube, Keith literalmente chorou. Foi a primeira vez que vários dos amigos e empregados mais antigos viram Keith Richards chorar. No bolo foi também o sax barítono de Bobby Keys e o baixo Fender Mustang de Bill Wyman. Keith registrou queixa na polícia no dia 11. O prejuízo estava assegurado e foi calculado em $44.000.

Anita, no mês anterior, havia autorizado uma gangue de motoqueiros que basicamente ganhavam dinheiro roubando e vendendo cocaína a morar na residência do porteiro, uma casa que ficava próxima ao portão de entrada. Há aqueles que creditam a estas pessoas participação no roubo dos móveis e dos instrumentos musicais. Levaria um tempo até Keith dar ordem para expulsá-los do terreno.

Vigília

A polícia francesa já há tempos suspeita sobre as atividades em prática em Nellcôte e vigiam à distância. Aproveitando acesso a residência por conta do roubo recente, colocam escutas no telefone e um microfone secreto entre as garrafas de vinho da adega que funciona como estúdio. Homens em pontos estratégicos tiram fotos de todos que entrem e saem dos portões de entrada da luxuosa residência. Enfim, procuram coletar o máximo de evidência para poderem montar um caso contra o roqueiro.

Não demorou muito para Keith desconfiar que suas chamadas telefônicas estavam sendo ouvidas por estranhos. Conta-se que ao colocar o aparelho ao ouvido, percebeu o barulho de respiração antes mesmo de começar a discar. A partir deste momento, ele mesmo deu sinal de alarme para todos. A ordem foi de trancafiar-se no estúdio e completar o disco antes que a polícia prendesse alguém.


Toda a banda e equipe passou a morar em Nellcôte direto durante boa parte do mês de outubro. Os gastos de manutenção da casa multiplicam consideravelmente. Keith está gastando quase £4000 libras por semana entre comida, bebida, drogas, empregados e aluguel. Para se ter uma idéia, as estimativas indicam que Keith gastava £1.200 em aluguel e £1.800 em heroína. Ele então passa a cobrar £100 semanais de cada um dos hóspedes, inclusive de Mick, Bill, Charlie e Mick T. Inicialmente pensando que se tratava de uma piada, nada restava a não ser pagar a conta, que era bem menor do que se ficassem hospedados em um hotel. De positivo nisto tudo estava no fato de Keith passar a gastar oito horas quase ininterruptas por noite no estúdio.

Jade

Bianca deu luz a Jade Jagger no dia 21 de outubro em Paris. O nome Jade foi escolhido porque ela é preciosa e perfeita, explicava Jagger. Ele deu uma pequena festa para amigos mais íntimos do casal e depois telefonou para Keith para dar a notícia. Com o nascimento da filha, Mick quer tirar pelo menos três semanas de férias antes de voltar à rotina de estúdio e assuntos ligados aos Rolling Stones. Propõem então que Keith continue as sessões sem ele, termine o disco e depois seguiriam todos para Los Angeles onde fariam retoques e mixagem. Keith não ficou satisfeito com a decisão de Mick e a química entre os dois amigos estava visivelmente alterada.

Brincadeirinha

Anita, apesar de estar novamente grávida, não consegue largar a heroína. A opção de voltar à clínica para se limpar era rechaçada por ela. Anita associava o nome de Bowden House a recém morte dos amigos e não queria chegar nem perto do lugar. Ela tentou parar algumas vezes, mas as dolorosas contrações que se seguiram às primeiras horas de abstinência lhe amedrontaram. Ela começou então um novo tipo de brincadeira dentro de Nellcôte, a de apresentar heroína para pessoas, de preferência para aqueles que nunca haviam tomado antes. Keith é igualmente culpado de permitir, se não persuadir, pessoas a tomarem o primeiro gosto por herô. Foi em parte sob sua influência que pessoas como Mick Taylor, Rosie Taylor, Bobby Keys, Marshall Chess e Jimmy Miller, entre outros, iniciaram suas experiências com a droga.

Anita Pallenberg
Anita Pallenberg

Outra brincadeira da Anita era de colocar Mandrax na bebida de Keith sem ele saber. Quase toda noite após o jantar, Keith gostava de sentar na varanda, sentindo a brisa do Mediterrâneo enquanto sorvia uma bebida gelada. Seguidamente ele passou a acordar na manhã seguinte na varanda. Levou bastante tempo até começar a desconfiar o que estava se passando. Ao conversar com Anita a respeito, ela prontamente acusa um dos empregados de estar dopando ele à noite para poder sair escondido com seu Jaguar pela cidade. Indagado, este negou a acusação e combinou de nunca mais lhe preparar uma bebida. Uma vez que Keith continuou acordando na varanda, ficou sabendo que só podia ser Anita.

Keith havia contratado a filha adolescente do cozinheiro chefe para ser babá do Marlon. Anita então, só de brincadeira, pressiona e aterroriza a menina até deixar que lhe fosse aplicada uma injeção de heroína. A garota passa violentamente mal mas depois se recupera. Anita fez ela jurar não contar para ninguém, muito menos para o pai. A menina assustada promete e fica um tempo quieta. Mas quando a história circulou dentro de Nellcôte, os amigos e profissionais sabiam de cara que a coisa ia, cedo ou tarde, dar em merda.

Fogo

Problemas e incidentes começavam a se acumular com maior freqüência. E nem todas as doideiras eram praticadas por Keith ou Anita. Mas tudo inevitavelmente trazia as atenções para os novos hóspedes de Nellcôte. Bobby Keys com seu temperamento explosivo, principalmente quando bêbado, somado ao volume alto de sua voz, bem a moda texana, o leva a ser expulso mais de uma vez, de cassinos em Monte Carlo. A reincidência de sua conduta errática o leva a ser persona non-grata em mais de um lugar.

Certa tarde, David, o motorista particular de Keith, vendo fumaça saindo por debaixo da porta do quarto do casal, invadiu o local. Encontrou Keith e Anita nus e dormindo na cama com o colchão em chamas. Inicialmente achando que o casal havia desmaiado pela fumaça, percebeu depois que ambos estavam completamente chapados e desacordados. Aparentemente Anita estava fumando quando acabou dormindo, o cigarro ainda aceso em sua mão. A brasa, uma vez em contato com a fronha da cama, naturalmente provocou um incêndio.

Se não bastassem os problemas criados pelos Richards e equipe, tinha ainda os convidados para temperar o angu. Um dos atores, amigo de Anita e Keith, integrante do Teatro Vivo, aparentemente molestou um rapaz menor de idade que morava na vizinhança e que, como muitos, gostava de passar suas tardes vadiando em Nellcôte. O menino deu queixa para a polícia, mas o convidado já havia deixado o país.

Keith está preocupado pois a presença das autoridades vigiando à distância ficava cada vez mais fácil de se perceber. Ele liga para o escritório em Londres para arrumarem uma casa para ele e sua família em Los Angeles, local das mixagens do álbum. O sentimento geral é mesmo de que o inverno será mais seguro se passado longe dali.


Algumas semanas depois, a babá finalmente abriu o bico e o cozinheiro Jacques ficou sabendo que sua filha fora obrigada a tomar heroína. Compreensivelmente aborrecido, Jacques veio tomar satisfações com Keith. O pai da menina pediu £30.000 para não ir à polícia e dizer que amarraram a filha antes de injetarem ela com heroína.

Keith, recusando-se a ser chantageado, prontamente mandou o cozinheiro ir se fuder e o despediu. Não foi surpresa então no dia seguinte a polícia chegar cheia de perguntas, a mais desconcertante delas sendo o por quê de pessoas conhecidas internacionalmente como sendo ligadas ao tráfico serem vistas entrando e saindo da residência. Um esquadrão de advogados chegou para contornar a situação, mas estava óbvio que os problemas desta vez não seriam resolvidos com álbuns autografados.

Nem os técnicos tampouco os demais músicos queriam continuar a trabalhar na casa. Em linguagem tipicamente hippie, afirmavam que as vibrações agora estavam pesadas. Keith, temendo acabar na prisão, queria deixar logo o país. Mas a polícia não pretendia facilitar nada para ele ou sua família. Estavam proibidos de deixar a França até as investigações serem concluídas. Contudo, com muita negociação, os advogados conseguiram contornar esta exigência garantindo que Keith continuaria pagando o aluguel da casa em uma demonstração de boa fé de que ele pretendia voltar.

Marlon, Keith e dois amiguinhos
Marlon, Keith e dois amiguinhos

Neste contexto, no dia 30 de novembro, Keith, Mick Jagger e Mick Taylor mais suas famílias seguem para Los Angeles. Com eles vieram também toda a equipe e músicos contratados. Com cerca de vinte músicas praticamente prontas, o suficiente para um álbum duplo, começaram a trabalhar nos acabamentos das canções para em seguida iniciar as mixagens.

Antes de ir para Los Angeles, Keith e seu técnico para guitarras, Ted Newman Jones III, seguem para Memphis onde Keith compra uma guitarra Fender legítima, para repor a que foi roubada. Compra também alguns violões das marcas Gibson e Martin. Compras incluem também várias guitarras Gibson, modelos Stratocaster e Telecaster.

Duas semanas depois, dia 14 de dezembro, a polícia francesa invade Nellcôte procurando prender Keith Richards, sua família e outros ocupantes da residência. Encontraram a residência vazia, afora alguns pouco empregados que confirmaram a partida de todos há poucos dias. Encontraram cocaína e heroína em quantidades passíveis para tráfico e mandatos de prisão foram imediatamente expedidos tanto para Keith quanto para Anita.

Parte 37 - Los Angeles e Vevey

Dia 14 de dezembro, exatas duas semanas depois de todos deixarem Villefranche-sur-Mer, a polícia francesa invade Nellcôte para prender Keith Richards, sua família e outros ocupantes da residência. Foram recebidos por uma casa vazia, fora alguns poucos empregados que confirmaram a partida de todos poucos dias antes. Encontraram cocaína e heroína em quantidades consideradas tráfico, e mandatos de prisão foram imediatamente expedidos tanto para Keith quanto para Anita. Antes porém, Ian Stewart havia recebido ordens para ir até Nellcôte pegar o caminhão com o Rolling Stones Mobile Unit e levá-lo de volta para Londres. O caminhão e todo o seu equipamento para gravação são então alugados para o Deep Purple, que iria usá-lo para gravar sua apresentação ao vivo em Montreux na Suíça. Em um dos episódios que acabariam se tornando históricos nos anais do rock, a casa iria arder em chamas iniciadas em meio a uma apresentação de Frank Zappa e The Mothers. Deep Purple acaba gravando um álbum inteiro no quarto do hotel, com o caminhão estacionado em frente do local e fiação entrando pela janela do quarto adjacente. Os incidentes que levaram a banda à tão inesperada situação renderiam a letra para seu clássico, "Smoke On The Water", composto e gravado durante estas sessões.

Los Angeles

Mick Jagger e Bianca alugam uma mansão de trinta quartos em Sunset Boulevard, nem muito perto, nem muito longe de onde estava Keith. A residência pertencia a Michael Butler, herdeiro milionário considerado por muitos um hippie grã-fino. Na década de cinqüenta foi amigo e depois conselheiro do então Senador J.F. Kennedy para assuntos referentes ao Oriente Médio e Índia. Butler continuaria nesta função durante o período da presidência de Kennedy. Inicialmente abandonou a política após o assassinato do amigo presidente, mas por uma solicitação do Senador Robert Kennedy, Butler voltaria à política para atuar em Illinois. Defendeu o envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã até provar maconha em 1967. Justamente quando seu partido concordava em colocá-lo para concorrer ao Senado como representante do estado de Illinois, Butler resolveu deixar o cabelo crescer e passou a se envolver com a produção da peça Hair.

Mick Taylor, Rosie e Chloé
Mick Taylor, Rosie e Chloé

Mick Taylor e sua família alugaram uma casa em Stone Canyon de frente para a casa ocupada por Keith Richards. Taylor contrata Janie Villiees como cozinheira e babá de Chloé, sua filha. Keith acabaria também contratando-a para cuidar de Marlon. Sobre seu patrão, Janie diria que a primeira vista Keith Richards é a própria imagem do rebelde do rock que a imprensa divulga. Mas ao conhecê-lo pessoalmente, descobrira que Keith na verdade era o mais sensível e amável do grupo.

Jagger, agora em maior contato com Keith e Mick T, está assustado ao perceber o nível de consumo de tóxico dos dois. Keith está tão drogado que não consegue fazer a guitarra de "Torn And Frayed", obrigando-os a contratar Al Perkins para executar a tarefa. Embora nada fosse dito, opções são estudadas para atenuar o problema, tudo como parte dos planos para assegurar o sucesso da próxima excursão americana a ser realizada no verão de 72.

Bill e Charlie permaneceram na França e as duas famílias passaram o Natal juntas. Em janeiro, Bill Wyman iria se mudar para outra residência, agora na cidade de Vence. Mal faz a mudança e Wyman segue para Paris, onde volta a trabalhar com a banda Tucky Buzzard, que inicia as gravações de seu segundo LP. Enquanto isto, Astrid faz sua visita periódica a Inglaterra para ver como Stephen Wyman estava indo na escola, e mantendo o contato entre o menino e o seu saudoso pai.

Noitadas e as Sessões

Em Los Angeles, Mick e Keith foram juntos assistir a um show de Chuck Berry. Existe uma variação muito grande de como essa história é contada, mas basicamente alguém ligado a Chuck Berry, ao ver Mick e Keith os convida a subir no palco e tocar com ele. Keith a todo volume começa a acompanhar "Sweet Little Sixteen" enquanto Mick Jagger dançava. O público enlouqueceu.

Chuck Berry por sua vez, fica logo irritado com a guitarra excessivamente alta de Keith. Depois de sinalizar mais de uma vez para o guitarrista abaixar o volume, acaba expulsando os dois do palco. Versões dão conta que isto ocorreu após duas canções. Mais tarde, Berry afirmaria que nem viu que era Keith Richards. Outra versão conta que Berry chegou a chamá-los de volta, mas era tarde. A dupla já estava dentro de uma limusine negra descendo a estrada.

Vale apontar para o fato que, já há alguns anos, Chuck Berry não sustentava mais uma banda. Ao marcar um show de Chuck Berry você recebe somente Chuck Berry, e ele toca com a banda que o local fornecer. Sua lógica é que qualquer músico que pretenda tocar rock o faz aprendendo o material de Chuck Berry. Assim sendo, o astro não vê mais motivo para carregar uma banda fixa em suas viagens, o que só aumentaria sua despesa.

Seu comentário a respeito do incidente foi algo nos moldes de "ele estava com um chapéu e eu não vi o seu rosto. A guitarra estava muito alta e depois do terceiro aviso, mandei o guitarrista sair. No meu show, mando eu". A opinião geral das pessoas que assistiram o desenrolar do episódio comentam que Chuck Berry provavelmente ficou enciumado pelo público estar dando mais atenção para integrantes da banda do que para ele.

Outra apresentação que Mick Jagger assistira foi a de T. Rex, que estava na cidade. Jagger aproveitou para analisar bem seu estilo 'glitter', uma tendência que se consolidava na Inglaterra. Nos bastidores depois do show, Jagger e Bolan puderam bater um bom papo e se conhecer um pouco melhor. Em outra ocasião, Jagger assistiu Bobby Bland, sendo chamado para subir no palco e cantar com ele. Jagger e Dr. John também foram assistir juntos à cantora Mary Clayton, cuja carreira ascendeu após o sucesso de sua participação na gravação de "Gimmie Shelter".

Dr. John (Mac Rebennack)
Dr. John (Mac Rebennack)

Tanto Mick quanto Keith passam a andar com o pianista Dr. John. Seu ingresso no projeto até então chamado "Tropical Disease", acaba sendo crucial para o som final do novo trabalho, agora chamado de "Exile On Main Street". Foi ele quem indicou as cantoras Tami Lynn, Vanetta Lee, Clydie King e Shirley Goodman, que efetivamente deram um tom negro para o álbum.

Outra assistência veio através de Billy Preston, que levou Mick Jagger para a igreja assistir o sermão de domingo. Lá, Mick ouviu o coro regido pelo Reverendo James Cleveland. Desta maneira as canções do disco vão tomando seu formato final. Na ausência de Bill Wyman, ainda na França, as linhas de baixo que não foram feitas por Keith ou Mick Taylor são gravadas pelo baixista Bill Plummer. Sua participação pode ser conferida nas canções "Rock's Off", "Turd On The Run" e "All Down The Line".

Outros músicos convidados são Kathy McDonald, que canta em "All Down The Line", uma canção que é na verdade sobra do álbum "Let It Bleed", e Richard Washington, creditado com o nome de Amyl Nitrate ("Lança Perfume") nas percussões em "Sweet Black Angel". Há ainda as presenças de Billy Preston em "Shine A Light" e Dr. John em "Let It Loose". Em um dos últimos retoques gravados, impossibilitado de tocar corretamente tamanho seu estado de dependência, Keith relegou a Al Perkins o trabalho de slide guitar na canção "Torn And Frayed'".

Segredo da Voz

Poucos foram os vocais gravados em Nellcôte que seriam aproveitados sem retoques, e Mick e Keith regravam suas partes novamente, agora no conforto de um estúdio profissional. Na hora de mixar os vocais, Mick insiste em ter sua voz mixada mais baixo do que o padrão. Jimmy Miller ainda tentou convencê-lo que sua voz estava ótima, até perceber que a motivação de Jagger não era fundada em receios. Jagger quer a sua voz presente, porém com um volume igual ao dos outros instrumentos para que soasse como os cantores dos velhos discos de blues, em sua maioria, gravados com a fala meio embolada.

Mick explica que, quando criança, raramente conseguia entender perfeitamente a letra que o cantor cantava. Precisava comprar o disco e ouvir repetidas vezes para tanto. Emulando esta deficiência, Jagger deseja o mesmo de seu público, e principalmente de outras bandas que quisessem incluir versões dos Stones em seu repertório. Numa prática que passaria a ser característica nos discos dos Stones, a voz é mixada um pouco mais baixo em relação à prática do mercado.

Projetos Prometidos


Estando em Los Angeles, Keith e Gram Parsons se reencontraram e voltam a andar juntos. A proposta de produzir um disco solo de Parsons volta a ser discutida, embora Keith procure deixar claro que isto teria que ser quando os Rolling Stones não estivessem preparando um disco ou excursão. Todavia, Keith incentiva Gram a usar o seu nome para abrir quaisquer portas que precisasse. Gram faria exatamente isto e mesmo após uma série de desapontamentos com projetos desandando na reta final, um disco solo seria efetivamente gravado e lançado pela Reprise em 1973, simplesmente intitulado "G.P." O disco teria a importante participação do amigo Rick Grech e serviria como o ponto de partida da carreira da cantora Emmylou Harris.

Outro a quem estava sendo prometido um álbum solo lançado pela Rolling Stones Records, que nunca veria a luz do dia, foi John Phillips. O encontro aconteceu por intermédio de Gram Parsons, que levou Keith e Mick para conhecerem pessoalmente o compositor e mente por trás dos mundialmente famosos The Mamas & the Papas. Phillips, que havia se separado da segunda mulher, Michelle Phillips, uma das integrantes da referida banda, morava agora com sua terceira mulher e sua filha do primeiro casamento, a então pré-adolescente MacKenzie Phillips, que faria sua estréia na grande tela dentro de dois anos, participando do filme "American Graphitti", aos treze anos de idade. Depois co-estrelaria em 1975 o seriado de televisão "One Day At A Time", que ficaria bastante popular.

Comentando sobre as constantes visitas de Mick Jagger, Keith Richards e Gram Parsons a sua casa no meio da madrugada para tocarem música e tomaram drogas, MacKenzie, então com onze anos, diria que sonhava em dormir com todos eles. Conseguiria realizar sua fantasia pubescente em 1978, dormindo com Mick Jagger.

Quanto ao projeto do primeiro disco solo de John Phillips, que seria produzido por Keith Richards e lançado pela Rolling Stones Records, acabaria feito o disco solo de Gram Parsons. Uma promessa nunca cumprida, embora nunca oficialmente engavetada. Na verdade, Keith e John acabariam se reunindo em 77 especificamente para iniciar as gravações do tal álbum. Porém o abuso de substâncias químicas dos dois atrofiou as pretensões. John Phillips resumiria a questão simplisticamente: "As drogas sempre conseguiam fuder com tudo".

Decca Lança Outra Coletânea


A Decca e ABKCO não perdem uma oportunidade para levantar um dinheiro em cima dos Stones. Sabendo que estão para lançar um novo álbum e a poucos meses de uma excursão americana, o selo lança a coletânea "Hot Rocks 1964 - 1971", que tem de interessante a inclusão de versões alternativas de "Brown Sugar" (com Eric Clapton) e "Wild Horses". Essas duas músicas seriam retiradas do álbum a partir da segunda prensagem, após um acordo final entre os Rolling Stones e Allen Klein, que encerraria a disputa legal entre a banda e seu ex-empresário.

Planejando A Excursão

Planos para a próxima excursão haviam se iniciado em outubro do ano anterior, mas agora estavam a pleno vapor. Com Altamont ainda na memória, Mick Jagger fazia questão em ter nesta excursão o mais profissional de todos os shows de rock já vistos. Em reuniões realizadas no Hyatt Hotel, Mick e John Morris tramam e montam a equipe buscando não deixar nenhum detalhe, por mais ínfimo que fosse, sem estar previsto.

Um dos primeiros a ser contratados para a equipe seria Peter Rudge, gerente de excursão do The Who, que atuaria ao lado de Morris como co-produtor. Todavia, conforme as preparações foram evoluindo, Rudge acabou se tornando o produtor do espetáculo, enquanto Morris foi retirado da equipe. A visão de Morris incluía os Stones tocando em lugares de médio porte, onde a banda e público poderiam realmente alimentar-se um ao outro, em uma troca de energia ímpar. Embora Keith apoiasse esta visão e Jagger concordasse que seria o ideal, ele sabe que para a excursão poder dar o lucro necessário para tirar os Stones da delicada situação financeira que a banda e sua empresa se encontravam, era preciso tocar nos maiores lugares possíveis. A excursão americana duraria dois meses, o dobro que a anterior de 69, com praticamente o triplo de pessoas trabalhando para sua realização.

Chris O
Chris O'Dell

Outros envolvidos diretos com a organização eram Jo Berman, secretária de Jagger; Alan Dunn, um empregado da Rolling Stones há alguns anos, que começou como motorista particular, passando agora para responsável por transportes; Ian Stewart continuando responsável pelos instrumentos da banda; Chip Monck e sua equipe, novamente cuidando de tudo referente ao palco e iluminação. Chris O'Dell, que trabalhara antes para a Apple Records, era agora secretária particular de Marshall Chess, presidente da Rolling Stones Records. Chris passa a cuidar especificamente dos assuntos da banda Rolling Stones enquanto estiverem em Los Angeles, tornando-se depois uma segunda secretária geral durante a excursão. Contratam a Gibson & Stromberg, uma firma de relações públicas, que cuidaria da divulgação. Gary Stromberg inclusive viajaria com a banda pelo país durante toda a turnê.

Segurança

Uma das principais preocupações de Mick Jagger em relação a esta excursão era ligada à segurança. O assunto foi levantado por Jagger tão repetitivamente que começam a surgir sussurros pelos cantos de que Mick estaria com medo, demonstrando insegurança quanto à idéia de se apresentar diante de milhares de pessoas. Sua preocupação não era gratuita, mas sim intimamente ligada às lembranças ruins que o nome Altamont evocava. Jagger sabia que o menino assassinado, Meredith Hunter, estava armado e poderia estar lá para atirar nele. Contempla portanto a possibilidade que, desta vez, alguém possa resolver mesmo tentar mirar nele ou outra pessoa no palco.

Esta preocupação deu um segundo peso para a proposta de fazerem shows em teatros de tamanho médio. Contudo, a realidade financeira dos Rolling Stones exigia que a banda faturasse muito para poder pagar suas enormes dívidas, e começasse a realmente juntar algum dinheiro. Esta foi a principal razão por trás dos Stones toparem passar, pela primeira vez, dois meses seguidos nesta excursão americana, tocando sempre em estádios, salvo raras exceções.

Ingressos

Os ingressos foram disputados a tapa, com cada comprador tendo o direito ao máximo de quatro. Vendas feitas pelo correio através da firma Ticketron facilitam ainda mais a vasta distribuição de ingressos para cidades vizinhas aos locais dos shows. No entanto, após o lançamento do álbum "Exile On Main Street" em maio e sua subseqüente ida para No.1 nos Estados Unidos, a procura passou a ser sem precedência.

Em Detroit, 140 mil ingressos foram vendidos em um dia. Solicitações para adicionarem datas ao programa original tiveram que ser estudadas cuidadosamente. Logo não havia mais ingressos para serem encontrados nos pontos de vendas. Assim, ingressos que custavam inicialmente $6.50 dólares passam a ser vendidos por trinta ou cinqüenta dólares, às vezes mais. Em Nova York o ingresso mais caro de $13 dólares estava sendo valorizado em $200, e o assunto chegou a ser comentado no Wall Street Journal, jornal dedicado exclusivamente a assuntos ligados à Bolsa de Valores.

Política e Violência na América

Em abril, Jagger fica sabendo de ameaças por parte de gente ligada aos Hell's Angels. Há conversas que sugerem que existia um prêmio pela sua cabeça, bronca remanescente ao episódio em Altamont e como Jagger deixou a culpa cair nos Angels. O clima logicamente fica tenso e o casal decide que ficou perigoso demais para Jade. A família opta então por deixar Los Angeles, seguindo para Bali. Ele retornaria antes de maio a tempo de uma reunião com os advogados e Allen Klein em Nova York. Para a excursão foi acertado que Mick Jagger teria à sua disposição dois guarda-costas particulares.

Os Estados Unidos em 1972 estavam passando por um período bastante tumultuado. Havia eleições presidenciais onde Richard Nixon tentava ser reeleito. Os conflitos no Vietnã continuavam sem indicar um fim. Nixon prometeu diminuir a quantidade de tropas sendo mandadas para aquela parte do mundo, restringindo o envolvimento dos Estados Unidos à assistência médica e financeira. De fato, os números de soldados mandados para o Vietnã diminuem drasticamente entre o fim de 1971 e até a reeleição de Nixon ser consumada. Em seguida à reeleição, os números de tropas remetidas ao Vietnã deslancham, deixando claro que nunca houve real intenção de findar o envolvimento bélico e humano neste conflito. Tudo não passou de uma tática para apaziguar os ânimos até Nixon efetivamente vencer a eleição.

O povo americano, mormente os mais jovens - não somente os que efetivamente corriam risco de ser mandados para o Vietnã, mas também aqueles soldados que tinham voltado da guerra - ficam revoltados e a violência urbana aumenta. Espionagem por parte da FBI de seus próprios cidadãos é incentivada pela administração Nixon, o que é um acinte à constituição americana. Mais e mais protestos deixam de ser pacifistas, gerando confrontos sangrentos contra a polícia. A animosidade entre o cidadão politicamente consciente, vendo seus direitos constitucionais sendo usurpados pelo próprio governo por meio do uso indevido do FBI e CIA, deixa o país à beira de uma ameaça de guerra civil.

Angela

Na Califórnia, havia seis anos que Ronald Reagan era o Governador do Estado, que havia prendido e sentenciado à morte a ativista política Angela Davis. Esta professora de filosofia de vinte de oito anos de idade foi acusada em 1969 de dar assistência à fuga dos irmãos George e Jonathan Jackson, ambos acusados de roubo a mão armada. Em meio à fuga, realizada durante o julgamento destes dois irmãos, morreram o juiz, dois civis e um dos acusados, o caçula Jonathan Jackson. Por ser uma ativista política e membro do Partido Comunista, ela perdeu seu emprego dando aula para a Universidade do Estado, localizada em São Francisco. O próprio governador, Ronald Reagan, jurou que ela jamais trabalharia no estado da Califórnia novamente.

Angela Davis
Angela Davis

Se sentindo prejudicada em função de sua cor e sua crença, o que vai em direta oposição ao que declara a Constituição Americana, ela se associa aos Panteras Negras, que lhe oferecem auxílio, mantendo-a escondida. Angela Davis foi declarada pelo FBI como uma das dez pessoas mais procuradas do país. Ela acabou sendo encontrada e presa em agosto de 1971, na cidade de Nova York, e levada de volta para a Califórnia, onde seria julgada e, se considerada culpada, seria condenada à prisão perpétua, uma vez que a pena de morte havia sido recentemente abolida.

Este julgamento, que durou dezoito meses, deu início a uma imensa campanha para libertar Angela Davis, campanha essa que encontrou simpatizantes na área artística. John e Yoko Lennon lançam a canção "Angela" em sua homenagem, incluindo uma foto da ativista na capa de seu disco "Sometime in New York City". Os Rolling Stones também se sentiram compelidos pela história desta negra americana, aparentemente injustiçada pelo racismo de sua terra. É para Angela Davis a letra da canção "Sweet Black Angel". Para melhor divulga-la sem serem ostensivamente políticos no processo, incluíram a canção no lado B do primeiro compacto do novo disco.

Angela Davis seria, em fevereiro de 1972, declarada inocente de todas as acusações e posta em liberdade. Ela funda 'The National Alliance Against Racist and Political Repression,' (Aliança Nacional Contra a Repressão Racista e Política), uma entidade cujo propósito é explícito pelo próprio nome. Davis retomou suas aulas na San Francisco State University, indo lecionar depois em outros estados de seu país.

O Fantasma de Brian Jones

Em fevereiro, Bill Wyman e Charlie Watts deixam a França e seguem para Los Angeles. Pouco depois, a polícia francesa passa a exigir o retorno de Keith e Anita para responderem à perguntas pendentes da investigação. Em tempo, todos os Stones serão intimados a se apresentarem à polícia para depoimento.

Jo Bergman mandou uma fita com a cópia do álbum "The Pipes of Pan Joujouka" para Keith que, depois de ouvi-lo, convidou todos a aparecerem uma noite para escutar. Ficaram chocados de quão diferente era esta música, mais séria do que as doideiras que normalmente associavam à lembrança de Brian Jones. Comoveram-se todos, sem bem entender como ou porque esta música tão diferente e que não lhes representava conseguia lhes tocar tão profundamente. Um senso de perda e desperdício novamente recai sobre os integrantes dos Rolling Stones presentes.

Exilado em Montreux

Com três meses em Los Angeles, Keith começava a demonstrar sinais de paranóia novamente. Cismado, Keith estava desconfiando que a polícia local, assim como fizeram a francesa e a inglesa antes, estava com uma escuta ligada a sua linha, ouvindo suas conversas telefônicas e mantendo vigia. Naturalmente o escritório dos Stones ficou atento para estudar uma opção de moradia para Keith, que queria sair o quanto antes de Los Angeles. A opção que mais lhe agradou foi a Suíça.

Em tempo: a neurose de Keith não era gratuita. Anos depois, com a liberação para domínio público de vários documentos do FBI e CIA, ficaram confirmadas as suspeitas do riffman. A FBI havia alugado a casa vizinha à de Keith Richards para vigiar a entrada e saída de todas as pessoas que o visitavam. A vigília foi comandada pelo agente Dale Marr, que uma vez entrevistado sobre o assunto, confessou ter conseguido colocar uma espiã feminina dentro da casa para reportar toda a atividade.

Somando a isso a situação tensa entre Keith e a lei francesa, surgiu espaço para que Mick sugerisse que agora seria uma boa hora para buscar um tratamento para auxilia-lo a eliminar o vício. Keith está igualmente preocupado com a situação de Anita, que com quase sete meses de gravidez estava se injetando três vezes ao dia. Ela havia tentado parar com cinco meses de gravidez e através de um esforço tremendo, sua resolução durou o total de três dias sem a droga. E só.

Foi encontrada e marcada uma internação na clínica de Dr. Denber em Vevey na Suíça. A clínica tinha uma reputação de ser tão cordial quanto discreta em relação a todos os seus clientes. Especulações sugerem que esse tratamento iria custar a Keith a bagatela de $1.000 por dia. Em meados de março, a família Richards segue então para Montreux, onde são hospedados no Hotel Metropole que fica ao lado do Lago de Genebra. Coincidentemente, Vladimir Nabokov, autor do romance "Lolita", estava ocupando um quarto no andar imediatamente acima ao da família Richards. Acompanhando-os está um representante da firma Rolling Stones, a eloqüente e tarimbada quebradora de galhos, June Shelly.

Keith é levado de ambulância e internado no dia 26 de março. A primeira semana foi terrivelmente dolorosa, e as notícias que chegavam a Los Angeles sobre seu estado não eram das mais animadoras. Incapaz de agüentar as cólicas de abstinência, ele permanece sedado a maior parte do tempo. No entanto, passando os primeiros cinco dias, com a chegada de abril, o tratamento deixa de ser tão traumático. Keith ganha até permissão para deixar sua cama e caminhar pelo corredor da clínica. Keith diria: "nos primeiros dias você sobe pelas paredes. Lá pelo quinto dia você já está bem. Dali em diante, depende de você"

Dr. Denber comenta que se Keith seguisse uma dieta e passasse a trabalhar em horários regulares, seu estado físico e mental lhe daria condições para viver uma longa vida. Ele conclui dizendo que dada a incrível capacidade de recuperação de seu paciente, ele autorizaria Keith a deixar o hospital dentro de três, no máximo quatro semanas. Keith no entanto, tinha outros planos, Marlon e Anita tendo prioridade. Assim, sentindo-se bem o suficiente para se locomover livremente pelo hospital, ele exerce pressão para ser liberado imediatamente.

Dandelion

Uma vez que Keith recebe alta, Anita é imediatamente internada. Sua desintoxicação é igualmente difícil porém mais perigosa pelo fato de estar grávida. Sem poder permanecer sedada ininterruptamente, foi nela administrada uma dose mínima de metadona por dia. Em meio a sua desintoxicação, no dia 17 de abril, após as contrações se iniciarem, nasce a primeira filha do casal. Parida prematuramente, ela é saudável embora com uma fenda palatina no céu da boca. Ou seja, o feto desenvolveu-se com um acesso entre a boca e o nariz, permitindo que se veja o septo nasal no fundo da boca. A criança ficou no hospital em tratamento especial. O casal chama a criança de Dandelion, que significa em português a flor dente-de-leão, também título de uma canção de Keith gravada em 1967.

"Prince or pauper beggarman or thing
Play the game with every flower you bring
Dandelion don't tell no lies
Dandelion will make you wise
Tell me if she laughs or cry
Blow away dandelion

One o'clock two o'clock three o'clock four o'clock chimes
Dandelions don't care about the time
Dandelion don't tell no lies
Dandelion will make you wise
Tell me if she laughs or cry
Blow away dandelion blow away dandelion

Tho' you're older now it's just the same
You can play this dandelion game
When you're finished with your childlike prayers
Well you know you should wear it

Tinker tailor soldier sailors lives
Rich man poor man beautiful daughter wives
Dandelion don't tell no lies
Dandelion will make you wise
Blow away dandelion blow away dandelion

Little girls and boys come out to play
Bring your dandelion to blow away
Dandelion don't tell no lies
Dandelion will make you wise
Tell me if she laughs or cry
Blow away dandelion blow away dandelion"


Anita estava triste, calada e pouco propensa a sair de seu quarto de hotel. Keith ficou tomando conta de Marlon, saindo com ele a passeio todos os dias. O casal voltaria novamente ao uso de cocaína e heroína, provavelmente a maneira que encontraram para manter o espírito alto (cocaína) e apagar a dor, medo e frustração (heroína) em ter uma filha recém-nascida menos que perfeita. Fumando excessivamente e nunca deixando o quarto do hotel para que pudesse passar por limpeza, o local passou a feder terrivelmente. Para solucionar o problema, Keith solicitou um novo quarto. Quando as empregadas do hotel puderam finalmente limpar o local, estava tão empesteado que recomendaram à gerência fumegar o local primeiro.

Enquanto Keith cuidava de Marlon, após deixar o hospital, Dandelion ficara nas mãos de Doris Richards, mãe de Keith, trazida da Inglaterra a pedido do filho. Ciente do estado psicológico do filho e de sua nora, Doris tomou para si a responsabilidade de mudar o nome da neta. Assim, não demorou muito tempo para Dandelion ter seu nome oficialmente mudado para Angela Richards.

Enquanto isto, visando uma jogada promocional, no dia 28 de abril, Mick Jagger recém chegado de Bali, está no Sunset Sound Studio de Los Angeles mixando a canção "Exile On Main St. Blues" e gravando "I Don't Care", ambos temas de voz e piano apenas, que serviriam como um compacto promocional, no formato de flexi-disc, para distribuição gratuita em publicações especializadas pela Europa. No dia 14 de abril foi lançado o compacto "Tumblin' Dice" / "Sweet Black Angel". Então no primeiro dia de maio, todos os cinco Rolling Stones recebem um aviso dos advogados informando de que eles deveria evitar ir para a França. A polícia francesa tem ordem de apreender todos para interrogatório. Mick Jagger segue para Nova York para se encontrar com Lowenstein e Klein.

Mais Stones Vs. Klein

A batalha judicial entre os Rolling Stones e Allen Klein estava a pleno vapor já fazia dois anos. Após uma longa conversa, Lowenstein e Jagger analisaram o quanto poderiam ganhar versus o tempo e os sacrifícios exigidos até efetivamente serem considerados vencedores, e convocam uma reunião entre os integrantes da banda. Segundo Lowenstein, não havia dúvidas que os Stones podiam ganhar a questão na justiça e sair com uma recompensa financeira substancial. Os Rolling Stones pediram inicialmente $25 milhões como ressarcimento pelos prejuízos. Lowenstein calcula que, na pior das hipóteses, a justiça lhes garantiria pelo menos $17 milhões, provavelmente mais. No entanto, para perseguir esta soma, arriscam ter seus bens e suas contas congeladas até a batalha ser resolvida, o que poderia durar pelo menos dois ou até dez anos antes de uma definição.

E se isto não fosse o bastante, Klein já conseguira provar que todo o material contido no álbum "Sticky Fingers" havia sido composto e gravado durante os anos de 69 e 70, um período ainda sob contrato com ele e a Decca. Portanto a ABKCO tem direito de receber uma porcentagem do lucro deste disco. Klein também alegou que a mesma lógica se aplica para algumas composições do novo álbum da banda, mormente "Tumblin' Dice", o primeiro compacto lançado deste disco.

Havia um receio de Klein continuar encontrando brechas na lei para abocanhar mais fatias sobre futuros lançamentos. Negociou-se então a possibilidade de um acordo com Klein fora das cortes. Admitindo que Klein tem o futuro dos Rolling Stones praticamente em cheque-mate, optam por entrar em um acordo extrajudicial. A proposta de Klein obriga os integrantes, principalmente Mick e Keith, a abrir mão de tudo que produziram até ali. Em troca, Klein concordaria em pagar $2 milhões de dólares.

O valor, embora irrisório em face ao que especulavam conseguir pelos trâmites legais, tem como única vantagem encerrar de vez os avanços de Klein sobre futuros produtos da banda, permitindo assim que os Rolling Stones pudessem colher todos os frutos produzidos dali em diante. Este dinheiro pago por Klein seria dividido da seguinte forma: $1 milhão dividido entre Mick e Keith pelos direitos autorais, $1 milhão dividido entre os cinco - Mick, Keith, Bill, Charlie e Brian. As despesas do processo seriam divididas, não igualmente, mas em proporção ao valor recebido por cada um. Bill Wyman, furioso com a covardia tática de não lutar na justiça até o fim, foi o mais verbal. No fundo, apenas esperneou a título de terapia e acabou aceitando a proposta após Mick e Keith concordarem em pagar a Bill e Charlie um extra de $50 mil dólares.

Klein e Lowenstein se encontraram em Manhattan em uma reunião que durou aproximadamente trinta e seis horas. Ao final, um acordo foi anunciado oficialmente no dia 9 de maio de 1972. Klein não teria mais direito a nada referente ao material lançado pelos Rolling Stones doravante. No entanto, ele passa a ser o dono de tudo que o grupo gravara e lançara durante seu tempo com a Decca. Isto incluía o material contido em "Sticky Fingers", que embora lançado depois do conjunto deixar a Decca, foi gravado durante os anos em que este contrato continuava válido.

E mais: Allen Klein fica sendo dono dos direitos autorais de todas as composições Jagger-Richard, como também as de parcerias da banda, registradas como Nanker Phelge. Sendo dono das masters e dos direitos autorais deste material, Klein continua com direito a receber uma porcentagem sobre qualquer lançamento feito pelos Stones que contenha uma destas faixas, seja em sua gravação original, versão ao vivo ou regravação pura e simples.

Tendo agora os laços entre os Rolling Stones e Allen Klein finalmente cortados, Jagger encontra tempo para visitar uma sessão de gravação de John Lennon e Yoko Ono, nos estúdios da Record Plant.

Véspera da Excursão Americana


Os ensaios dos Rolling Stones antes da excursão iniciaram-se em meados de maio. Toda a banda segue para a Suíça, pois apesar dos custos, a lógica ditava que era mais fácil a banda ir até Keith do que ele ir até a banda. Todos os integrantes estão com aproximadamente trinta anos de idade, casados, com filhos e vivem vidas distintas. Não são mais os garotos semi-unidos que foram no passado. Esses ensaios foram projetados para reuni-los novamente, tanto pessoal quanto musicalmente.

Chegaram em Montreux junto com os Stones, Nicky Hopkins, Bobby Keys e Jim Price por volta do dia 12 de maio. Durante aquela semana ensaiaram secretamente durante a madrugada no Rialto Theatre, um teatro alugado pela banda para esse fim. Lá esculpiram um repertório de quarenta e cinco canções, das quais iriam diluir em Los Angeles para utilizar cerca de vinte, que caberiam em um formato de noventa minutos de show.

Uma equipe alemã viera filmá-los, onde além de registrarem versões de "Loving Cup", "Shake Your Hips" e dois improvisos, acabaram também filmando o que seria o clipe promocional de "Tumblin' Dice". Ocasionalmente a polícia aparecia aos ensaios, trazida por reclamações de vizinhos a respeito do barulho.

Durante um jantar com Mick J, Mick T, Keith, Bill, Astrid, Charlie, Stu, June e Marhsall, concluíram que seria de seu melhor interesse abrir uma conta na Suíça para receber o dinheiro devido por Klein e a ABKCO. June Shelly é então encarregada de tratar deste assunto. Os Stones deixam Montreux no dia 21 de maio. Anita e as crianças permanecem na Suíça enquanto Bianca e sua filha Jade estavam morando em Paris. Em uma breve passagem por Londres, os integrantes dos Stones e toda sua equipe recebem da embaixada americana os novos vistos de trabalho necessários para entrarem no país. Aterrisam na América no dia 24 de maio.

Exile On Main Street


Dia 12 de maio, novamente com um número de catálogo sugestivo - COC 69100, chega às lojas o primeiro álbum duplo da banda, "Exile On Main St". A capa é uma colagem de fotografias, todas tiradas em Los Angeles, por Robert Frank. A arte gráfica e desenho de toda a embalagem são assinados por John Van Hamersveld e Norman Seiff.

Dentro das primeiras prensagens vinha incluída no álbum, uma série de 12 cartões postais, com os cinco Rolling Stones mais Anita Pallenberg na face. Em cada cartão postal, uma foto diferente. Quem guardou esses cartões postais tem hoje um tesouro valioso em memorabília.

Mick Jagger define o álbum como sendo dividido em quatro sets separados e que não deveria ser ouvido todo de uma vez. O primeiro lado é mais acelerado, o segundo mais acústico, o terceiro tem um tom mais country, embora soturno, enquanto o quarto é mais soul. Alguns podem argumentar que o terceiro lado soa mais Keith Richards enquanto o quarto é mais Mick Jagger.

O álbum estava sendo tocado incessantemente nas rádios. Mick dá uma entrevista para Wolfman Jack, último dos grandes DJ da era AM, iniciada na década de cinqüenta, mas que se tornaram cada vez mais raros ao fim da década de sessenta. Sobre o disco, Jagger comentaria: "Fala sobre uma gama de assuntos diversos que eram de nosso interesse até aquele momento". Apesar do estrondoso sucesso do álbum, músicos e técnicos responsáveis pelo disco o consideram de qualidade sonora duvidosa. Jagger teria resumido a questão dizendo: "Foi gravado de uma forma bem amadora".

Jimmy Miller, produtor do disco, fala sobre ele em 1990 com reservas: "Eu nunca fiquei inteiramente satisfeito com o som do álbum, mas um amigo meu me colocou para ouvi-lo cerca de um mês atrás e, considerando as condições em que foi gravado, o disco realmente soava melhor do que eu me lembrava". Miller é o primeiro a elogiar o trabalho de mixagem feito por Joe Zagarino, que no seu entender, salvou o material gravado em Nellcôte.

Atentado de Wallace

Stan Moore
Stan Moore

Ao retornar para Los Angeles uma semana antes da estréia da banda ao vivo em Vancouver, um incidente novamente deixa Mick Jagger desassossegado com relação a sua segurança nesta excursão. O Senador George Wallace, candidato à presidência para as eleições daquele ano, acabara de sofrer um atentado contra sua vida. Ele tomou alguns tiros dentro de um Shopping Center no estado de Maryland, que lhe deixariam paralisado e condenado a uma cadeira de rodas pelo resto de sua vida. Tanto Mick quanto Keith passam a andar constantemente armados com um revólver calibre 38 carregado.

Foram contratados dois seguranças particulares, Stan Moore e Leroy Leonard, ambos negros, grandes, fortes e ameaçadores, embora extremamente gentis com seus patrões. Suas obrigações eram de permanecer observando Mick e Keith por todo o tempo durante a excursão, Moore guardando corredores e acessos onde os dois estão localizados, Leonard para estar fisicamente no mesmo espaço que eles, dormindo em um quarto ao lado dos dois, jantando e acompanhando os dois onde quer que estejam. E quando Mick e Keith estivessem no palco se apresentando, Leonard estaria junto à cortina assistindo o show na lateral do palco, pronto para qualquer intervenção, caso necessária.

Parte 38 - STP

Foram contratados dois seguranças particulares, Stan Moore e Leroy Leonard, ambos negros, grandes, fortes e ameaçadores, embora extremamente gentis com seus patrões. Durante toda a excursão, tanto Mick quanto Keith passam a andar constantemente armados com um revólver calibre 38 carregado.

Equipe STP


Alguns ensaios foram realizados em Los Angeles, em um estúdio nos fundos de uma loja de venda de instrumentos na Santa Monica Boulevard. Uma vez que a banda iria tocar em grandes arenas, acabam optando deixar a pequena sala de ensaios, utilizando um dos estúdios de cinema da Warner Brothers, um gigantesco galpão situado em Burbank.

O local, absurdamente grande, permite a banda se acostumar com o ambiente de arena aonde iriam se apresentar. Em contra-partida, a acústica do lugar era péssima.


Paralelamente a isto, do lado oposto do galpão, o palco estava sendo construído e preparado por Chip Monck. Este novo palco, repleto de espelhos, tem no seu projeto um novo esquema para iluminação. No lugar da tradicional luz apenas na frente do palco, sobre os artistas, este previa uma iluminação indireta, vinda de trás do palco, apontada para cima e lados e sendo refletida pelos gigantescos espelhos.

A concepção inovadora recebeu admiração, dando ao palco e seus ocupantes um aspecto definido como de sonho, para quem o assiste a certa distância. O piso do palco era lavado com água morna e soda limonada para que se mantivesse bom para dançar. Para transportar todo o palco e adendos seriam utilizados dois caminhões, cada um com um pequeno trator-guindaste para levantar o material e coloca-lo no caminhão e do caminhão para a arena aonde a banda fosse tocar.

Os roadies, ou seja, a equipe encarregada de diferentes tarefas ligadas à montagem e desmontagem completa do palco, fossem luz, equipamento ou o próprio palco em si, foram chamados de STP e receberam todos crachás com essas três letras. STP, além do nome de uma poderosa droga à base de ácido lisérgico, também significa Stones Touring Party. Até a excursão entrar no ritmo já seriam denominados de Start Tripping Please. Entre os nomes a se destacar, afora Monck já mencionado, temos Rick Mandella, técnico responsável pelos amplificadores, Ted Newman Jones III, responsável pelas guitarras e suas devidas afinações, Wille Vacarr responsável pelo transporte das malas de toda STP, banda e etc., e Steve Goekee responsável pela maquiagem da banda no palco.

A equipe conta ainda com um avião particular, tipo Lockheed Electra Turbo, com o logo da boca pintado na fuselagem e no rabo da nave. A STP batizaria o aeroplano de 'The Lapping Tongue' (A Língua Lambedora).

Dr. Sessler

Na equipe haveria, como de hábito nas últimas excursões da banda, a figura do assistente particular de Keith, ou seja, a pessoa ou mula que irá carregar todo o seu estoque de entorpecentes. Este serviço passa a ser do velho amigo de sangue azul, Príncipe Stanislau Klossowski de Rola, popularmente chamado de Stash (Muamba). Segundo Tony Sanchez, ele é tratado nesta excursão pelo apelido de Flex.

O passo adiante desta concepção, está na figura do farmacêutico oficial da excursão. Isto mesmo; Dr. Fred Sessler cuidaria de toda e qualquer prescrição que se precise receitar durante a turnê. Este cavalheiro, nascido na Polônia, fugiu de seu país após a invasão do exército nazista, ato que daria início à Segunda Guerra Mundial. Em 1940, Sessler chegava em Nova York onde trabalhou durante boa parte de sua vida nos laboratórios da Merrck & Co., companhia da indústria farmacêutica com sede na Suíça, que fabrica grande quantidade de remédios vendidos pelo mundo.

Sessler trabalhava naquela época na fabricação de Methaqualene e Cocaína, ambos remédios vendidos legalmente na Europa. Homem culto, de vocabulário rico e com gosto por um bom papo, ele ganharia o respeito de todos durante a excursão, acabando por fazer boa e duradoura amizade com Keith Richards. Como farmacêutico, Sessler tinha licença para importar Cocaína da Suíça, fabricada pelos laboratórios da Merrck.

Além de Dr. Sessler, fazia parte da equipe desta excursão o Dr. Larry Badgely, médico oficial da excursão. Em tempo, ele seria sugado para dentro da irreal realidade que girava em torno dos Rolling Stones, e movido pela sua atração por meninas extremamente jovens e desinibidas, passaria a trocar prescrições por sexo.

Robert Frank

Robert Frank
Robert Frank

Foi acertado que um registro em filme seria feito da excursão, e uma equipe foi contratada, liderada pelo cineasta Robert Frank. Este cineasta suíço se tornou famoso em 1959 ao dirigir "Pull My Daisy", considerado o primeiro filme underground. Seu livro de fotografias, "The Americans" tem prefácio de Jack Kerouac e foi lido e admirado por Mick e Keith. Foi assim que Frank acabaria sendo contratado para fazer a capa do novo álbum, Exile on Main Street.

Os Stones queriam um registro diferente para esta excursão e Robert Frank foi considerado o homem ideal para fazê-lo. Para fins de mobilidade, sua equipe era mínima e tinha Danny Seymore como auxiliar e responsável pelo som do filme. Marshall Chess, que fez questão de acompanhar toda a excursão, para ter uma função, passou a assistir diretamente a Robert Frank na filmagem da turnê. A banda escolhida para abrir todos os shows é novamente Stevie Wonder e seu conjunto batizado de Wonderlove.

De boca em boca, aos poucos o segredo de que os Stones estão em Los Angeles ensaiando em Burbank para a excursão começa a atrair pessoas para o local. Dallas Taylor, baterista do trio Crosby, Stills & Nash aparece, assim como Jack Cassady e Gram Parsons para assistirem um dos últimos ensaios. Uma entrega especial é feita, trazida em uma caixa lacrada, um presente do Grateful Dead. A banda se entreolha imaginando do que se trata. Ao abrir, descobrem se tratar de um quilo de maconha, e dois pacotes de papel de seda - serviço completo. Após inalar os primeiros trapas, são unânimes em declarar a safra de ótima qualidade. A caixa fica com Keith para guardar e proteger.

Realeza do Rock

Havia uma certa dúvida no ar porém que ninguém da banda falava a respeito. O receio que se tem quando se percebe que ninguém mais da sua geração permanecia. Da era dos Rolling Stones, acabaram-se todas as outras bandas. Somente os Hollies e os Kinks ainda estavam em atividade. Em termos de rock 'n' roll, os Rolling Stones já estavam velhos. Em uma indústria que produz música para jovens, três anos no topo é uma boa expectativa de vida pra uma banda. Cinco anos de existência é um pouco raro. Se reparar, a grande maioria não passa desta faixa de três à cinco anos. Muitos aliás, sequer chegam a dois anos e incontáveis ficam com o sucesso de apenas um compacto que os tornam notícia gigantesca durante um período minúsculo do ano. Muitos são aqueles que vivem deste momento como seu marco pelo resto da carreira. Assim caminha a humanidade dentro do mundo do rock 'n' roll.

Esta é uma das razões porque uma banda como os Rolling Stones era tratada como realeza. Começaram quase que juntos a grupos como os Animals, Yardbirds, Dave Clark Five, Zombies, Spencer Davis Group e Pretty Things. Todos essas bandas eram grandes na Inglaterra entre 63 e 64, contemporâneo ao inicio dos Stones. A maioria delas tiveram sucesso também nos Estados Unidos, e todas já haviam encerrado atividades. Apenas os Beatles tiveram uma carreira superior em termos de sucesso tanto popular quanto artístico. Mas os Beatles também haviam chego ao fim.

David Bowie como Pirate Man
David Bowie como Pirate Man

Os novos nomes a atrair o interesse juvenil na Inglaterra são bandas como Roxy Music, T. Rex e David Bowie. Os líderes destas bandas lembram em parte o personagem Turner em Performance, aludindo no palco, em plena performance, para suas similaridades. É o que passava a ser chamado de Glitter Rock, com plumas e paetês, maquiagem e batom. Então havia a dúvida sincera se esta geração nova iria se interessar no que os Stones estavam fazendo. Ou será que os Rolling Stones falavam apenas para a sua geração e mais ninguém?

Como a excursão americana de 1969, esta de 1972 definiria o futuro econômico da banda. No fim, perceberão que esta terá sido a grande e derradeira excursão dos Rolling Stones. Quando estiver tudo encerrado, e os Stones puderem voltar a morar na Inglaterra no ano seguinte, o fariam estando ricos de verdade, pela primeira vez em suas vidas.

Começando por Vancouver

Sim, havia dúvidas nas mentes de algumas pessoas, Mick Jagger inclusive, quando a banda estava se aprontando para seguir para Vancouver no Canadá, o primeiro ponto da excursão. O local foi escolhido para a estréia por ser ao mesmo tempo perto e longe de Los Angeles. Logo no primeiro show os problemas começaram. Não puderam entrar no país de avião por problemas técnicos ligados à aviação. Voaram até a fronteira estadual em Bellingham, no estado de Washington e seguiram de carro o resto do caminho até seu hotel, o Georgian Towers. Depois, no local do show, o Pacific National Exhibition Forum, mesmo o público estando mais quente do que a banda, a maioria gostou do que ouviu. Com a casa lotada e um batalhão de adolescentes do lado de fora fazendo de tudo para conseguir entrar, o choque com a polícia teve momentos tensos e a desordem reinou no quarteirão.


Quase conseguiram derrubar o portão de metal dos fundos da casa, mas os seguranças assistidos por roadies conseguiram segurar pelo lado de dentro até a polícia chegar e espantar a turma pelo lado de fora. Lá dentro, garrafas de bebidas estavam sendo jogadas no palco, enquanto pequenas brigas entre adolescentes e lanterninhas ferviam em um clima caótico e quase surreal.

Em uma época onde o filme Laranja Mecânica ainda estava em cartaz, um batalhão de cerca de dois mil adolescentes estava entusiasmado e disposto a praticar suas versões daquela 'velha ultraviolência' representada no filme.

Trinta policiais passaram pelo hospital para tomar pontos. Jornais na manhã seguinte promoverem o que classificam como sendo uma catástrofe em termos de repressão à desordem. De jornal a jornal, os números vão de duas mil para vinte e duas mil pessoas envolvidas. O estigma dos Rolling Stones serem sinônimos de desordem, vandalismo e bagunça continua sendo o assunto predileto da grande mídia.

Descendo A Costa Oeste

Edgewater Inn
Edgewater Inn

Depois foram tocar em Seattle, todos fazendo questão de ficarem no famoso hotel, The Edgewater Inn, aquele onde o Led Zeppelin, um peixe e uma groupie, fizeram história no rock 'n' roll. Quando Frank Zappa compôs uma suíte sobre o tema e lançou-o em um de seus álbuns no ano anterior, o ponto ficou obrigatório para toda banda de rock de passagem pela cidade se hospedar. Nos dois shows lá realizados, foram confiscadas do público diversas facas e até uma pistola automática encontrada com um garoto.

Na festa após os shows, um rapaz de aproximadamente vinte anos de idade retira um envelope do bolso, abre e cheira o conteúdo. Daí passa o envelope adiante, cada um dando sua cafungada gratuita sem maiores preocupações em saber que pó era esse. Tratava-se de Heroína. A festa acabou cedo pois o gerente chamou a polícia por causa do barulho. Os guarda-costas de Mick e Keith logo chegaram para retirar as pessoas integradas à comitiva dos Stones. Os demais ficaram atrás, se livrando do flagrante.

Bobby Keys
Bobby Keys

Evidentemente rolou muita sacanagem dentro dos quartos também. Bobby Keys foi um dos mais ativos sexualmente nesta tour. Depois de dar umas boas chineladas em uma perereca no banheiro de alguém, volta para o seu quarto com as pernas bambas, apenas para descobrir uma suruba, tipo três em uma, que rolava lá em sua ausência. Segundo Keys, a mulher agüentando o tranco era tão feia que parecia um mecânico de oficina. Ele acaba expulsando todo mundo, morto de cansaço e querendo logo ir dormir. Mas rapidamente muda de idéia e chama correndo o serviço de quarto para trocar a roupa de cama, pois estava tão cheia de pontos molhados que se torna impossível dormir, mesmo em seu estado. Pior sorte teve Peter Rudge, que ao entrar em seu quarto, descobre que alguém encheu o local com galinhas e perus vivos. Suspeitas recaem sobre Chip Monck como provável responsável pela estripulia, que seguidamente provaria ser o gaiato da excursão.

San Francisco

Seguem então na manhã seguinte em direção a San Francisco, local onde a banda ainda deve um bom show. A fama de ser uma cidade de boas vibrações nunca funcionara com os Rolling Stones, pois as duas vezes que haviam tocado por lá na última excursão renderam problemas absurdos, desde a grande discussão com Bill Graham no show do Coliseum à organização desastrosa de Altamont. Portanto desta vez Mick Jagger optou por perder dinheiro e tocar em um lugar menor, o Winterland, ponto clássico de rock da cidade, onde cabiam cerca de quatro mil pessoas e que também pertence a Graham. Ao se reencontrarem, Billy e Mick imediatamente se comportaram, Mick se mostrando extremamente simpático e Billy devolvendo em dosagem igual. Foram descritos como dois homens agindo como se o passado não acontecera e ficara no passado.


Por estarem em um lugar menor, para dar vazão à procura de ingressos, os Stones fizeram quatro apresentações em duas noites. Apesar da banda ainda não estar tocando tanto quanto podiam, os shows foram um sucesso absoluto. Presentes para assistir na noite de estréia, além da garotada, estavam alguns amigos de profissão como Neil Young, John Lee Hooker, Jerry Garcia e os demais membros do Grateful Dead, assim como também todo o Jefferson Airplane e seus amigos. Ian Stewart porém, com sua habitual honestidade, chamou a noite de estréia de Winterland uma merda completa. Em suas palavras: "Estavam desafinados. Eles tocaram pior do que a porra do Status Quo!"

Na segunda noite em Winterland a apresentação foi bem melhor. Fica claro imediatamente o porque desta velha banda, uma das poucas a poder se vangloriar dos então dez anos de existência, ter o nome e a fama que têm. A mídia, sendo bem paga, pode promover qualquer coisa ao máximo, contudo quando se escuta um show dos Rolling Stones você sabe que está recebendo pelo que pagou. Ouvir e sentir o volume do bumbo e baixo batendo no seu peito, praticamente lhe empurrando para trás, é apenas um dos grandes baratos de ver uma ótima banda em um lugar pequeno.


Poder ouvir uma banda como os Rolling Stones tocando ao vivo a todo volume é um prazer único e absoluto, melhor do que qualquer imagem gerada via satélite ou qualquer vídeo já feito. No entanto, poder assistir uma banda da magnitude dos Stones em um palco de uma casa onde sequer cabem cinco mil pessoas é uma rara oportunidade. Um show memorável de rock, que dentro dos próximos anos, seria lembrado como sendo o ápice da carreira do grupo. Com o sucesso do show, e a confirmação geral de que os Stones estão servindo um banquete de rock a cada apresentação, a busca de ingressos aumentam e os preços dos cambistas elevam-se ainda mais.

Depois de dois dias em San Francisco, retornam para passar o fim de semana fazendo uma série de shows em Los Angeles. Junto com San Francisco, esta é a principal série de shows da excursão, somando-se em importância apenas aos shows em Nova York, já no segmento final.

No avião no aeroporto antes de decolarem, uma mulher linda encosta em Alan Dunn e solicita a oportunidade de entrar no avião e pegar um autógrafo de Mick Jagger para sua filha. Encantado pela beleza desta senhora, Dunn a leva à bordo. Ela, ao encontrar Mick Jagger, ao invés de pedir um autógrafo, retira de sua bolsa uma série de folhas soltas e começa a ler, o que rapidamente se mostra tratar de uma lista de citações legais, todas ligadas à Altamont. Antes que ela finalizasse a leitura, Keith Richards mete-lhe um tapa na cara. Assustada, a moça, de nome Vivian Manuel, sai correndo em direção à porta. Ela sai do avião cambaleando escada abaixo e aos gritos: "Aquele filho da puta me bateu!" Surge então a silhueta ameaçadora de Keith na porta da nave. Ele joga para o alto as citações deixadas para trás pela moça, os papéis se espalhando no céu negro da noite, em parte com a ajuda da turbina do avião. Dentro da aeronave, baseados são acesos, Tequila Sunrise (tequila com suco de laranja) são servidos e o incidente logo é esquecido.

Exílio em Los Angeles


De volta à Los Angeles, um pequeno encontro com as cabeças pensantes da excursão analisam o andamento de tudo até aqui. A principal mudança a ser executada está em relação ao palco inventado por Chip Monck. O efeito de luz refletido pelos espelhos sofreu diversas críticas, principalmente por Marshall Chess, que concluíra que os artistas acabavam geralmente com uma aparência excessivamente pálida. Keith se queixava que os espelhos e a luz excessiva lhe fazia sentir como uma atração de circo. Outro comentário feito apontava para a tendência do efeito tirar a atenção do espectador dos Stones quando de fato deveria ajudar a realçar esta atenção. Monck abandonaria o projeto depois destas apresentações em San Francisco, nunca mais usando este artifício, relegado agora a curiosidade de época.

Foram quatro shows em Los Angeles, dois em locais pequenos, o Hollywood Palladium e o Pacific Terrance Center em Long Beach tendo uma apresentação em cada; depois dois shows no Forum, a grande arena da cidade. Nestas quatro datas no espaço de três dias, os Rolling Stones realizaram suas melhores apresentações até aqui. Não só o grande público como a imprensa especializava ficam extasiados com o que Jimi Hendrix certa vez chamou de 'sopão de rock 'n' roll'. Jornalistas e cronistas disputavam entre si para ver quem criava a melhor metáfora para definir o que acabaram de assistir. Muitos se fixaram na figura de Keith Richards, que aparentemente fez o mundo redescobrir a importância e status da guitarra rítmica, até então sempre relegado a segundo plano. Talvez uma das melhores redações tenha sido uma que definiu Keith como que "tocando seus riffs e preenchendo os espaços vazios de forma tão precisa, no entanto sem aparentemente demonstrar esforço, feito um filho ilegítimo de Chuck Berry".

Entre as duas apresentações no Forum, Bill Graham providenciou um jantar especial para a banda com convidados. Entre os nomes mais conhecidos estão Jack Nicholson, Goldie Hawn e Tina Turner. A festa após os concertos teve uma pequena apresentação do Screaming Lord Sutch e até uma canja com Steve Wonder ao piano.


Embora a ordem do repertório sofresse pequenas alterações praticamente de show em show nesta primeira etapa, o setlist era composto basicamente por "Brown Sugar", "Bitch", "Rocks Off", "Gimme Shelter", "Happy", "Tumblin' Dice", "Love In Vain", "Sweet Virginia", "You Can't Always Get What You Want", "All Down The Line", "Midnight Rambler", "Bye, Bye Johnny", "Rip This Joint", "Jumpin' Jack Flash", "Street Fighting Man" e "Honky Tonk Women". Outros números que ocasionalmente entravam no set eram "Let It Rock", "Loving Cup", "Torn And Frayed" e "Ventilator Blues".

As festas após estes primeiros shows já dão uma pequena indicação de como seria o pique festivo da turma durante os próximos dois meses. O desespero atrás de ingressos para a assistir os Stones era tanto que as meninas fariam, e fizeram, praticamente de tudo para ver o seus ídolos. Assim como Marshall Chess certa vez descreveu, quando trinta e cinco mulheres vão atrás dos Rolling Stones, e só existem cinco Rolling Stones, sobram trinta mulheres, que para não perder a viagem, ficarão com quem estiver mais perto desde que associado à banda de alguma maneira. De fato, caso alguém fosse utilizar as escadas no lugar do elevador, encontrariam entre os andares pessoas em pares ganhando boquetes. Quanto mais acima sobem os andares, mais alto o cargo, começando por seguranças do hotel e subindo para assistente de montagem de palco, roadies e assim por diante.

No bar do hotel havia desde groupies experientes, com dois ou três anos na caça, até prostitutas pra lá de tarimbadas, que geralmente faziam ponto no local procurando executivos de passagem pela cidade. Após cada show havia uma festa. Na última, no Whiskey A-Go-Go, havia tantos penetras que em determinado momento foi feito um pente fino com a ajuda dos segurança para retirá-los. Além de muitos travestis, vários membros da banda Wonderlove do Steve Wonder acabaram na rua, impedidos de retornarem ao local.

San Diego

Mapa da arena esportiva
Mapa da arena esportiva

O próximo show na lista foi no San Diego International Sports Arena. O sol quente de verão que permanece no céu até bem depois das oito da noite nesta época do ano, somados a uma fila de entrada muito lenta, ajudam a criar um clima de impaciência perigosa. A polícia verificando atentamente toda mochila e bolsa que entra na arena faz com que muita gente começasse a beber seu garrafão de vinho na fila mesmo, debaixo do sol. Há também baseados sendo fumados no estacionamento enquanto a polícia está concentrando suas atenções na fila de entrada e fluxo geral da população nas cercanias da Arena.

Quando o povo percebeu a chegada da banda, instintivamente temeram todos que a demora para entrar pudesse significar a perda do início do show. No clima instável que se abateu na multidão, houve aqueles que passaram a provocar a polícia, xingando-os gratuitamente. Evidente que sendo a maioria do público presente compostos de jovens brancos de classe média, a polícia até certo ponto se conteve. Havia muita gente da imprensa ainda do lado de fora da Arena tentando entrar, e alguns creditam a estes detalhes a explicação da demora da polícia em responder os afrontas. Mas quando as primeiras pedras começaram a voar e o som de vidraça estilhaçada passou a ecoar, aí não houve perdão.


Neste baile de baixarias, pedras e garrafas contendo coquetéis molotovs bailavam no ar, trocando canduras com cápsulas de gás lacrimôgeneo. Quando a polícia botava a mão em um desses adolescente 'arruaceiros', no calor do momento, descarregava suas frustrações e medos sobre o agressor, reduzido agora a vítima. Alheios a tudo isso, os Rolling Stones dão seu show sem muito ter o que comentar. No cômputo final, sessenta pessoas são presas, enquanto seis garotos e nove policiais acabam indo parar no hospital. Uma menina teve seu crânio fraturado por uma pedra, agredida por um policial. Ela processou o oficial e a cidade e ganhou a causa. O policial foi expulso da corporação e preso, enquanto a menina pouco mais tarde se formaria na faculdade com honras.

Jagger Analisa a Baderna

Então a excursão segue se movendo cada vez mais em direção ao leste. Com shows em cidades cercadas pelo deserto como Tucson no Arizona e Albuquerque em Novo México, a estratégia era chegar, tocar e voltar para Los Angeles o mais rápido possivel, tudo feito com a ajuda do vistoso avião Lockhead Electra. Em Tucson, a coisa foi similar, mesmo que em menor escala. Uma tentativa de invadir o local sem pagar leva a polícia novamente a usar gás lacrimogenio para conter a multidão. Os jornais não tem como ignorar esses eventos que continuam a associar o nome da banda com desordem na população, muito embora os Rolling Stones mesmo nada fizessem para provocar este caos.


"Era a própria polícia e seus próprios cidadãos" notava Mick Jagger. E uma coisa começa a lhe parecer terrivelmente óbvia: não havia nenhuma conciência política atrás destas manifestações. Esta nova geração nada tem a ver com as aspirações de alguns poucos anos atrás. As pessoas estão demasiadamente drogadas para terem uma opinião ou posicionamento político. Todas as mudanças que se sonhava em realizar depois do ano do ácido parecem-lhe impossíveis agora. A contracultura movida por drogas dera lugar apenas para as drogas, sem nenhuma cultura.

Perguntado a respeito pelo repórter da revista Rolling Stones, Jagger disse o seguinte: "Você não pode culpar ninguém por querer ficar alucinado. Todo mundo quer ficar alucinado de vez em quando, mas não se pode querer passar a vida inteira desta maneira. Não se consegue apagar a realidade. Ela irá sempre retornar e no final das contas, você apenas vai acabar morrendo tentando. As pessoas estão dizendo que todas as drogas disponíveis nas ruas estão fazendo as pessoas deixarem de serem politicamente ativas. Isto me faz pensar... qual a melhor escolha? Eu acho que devemos nos esforçar para fazer o país um lugar melhor para nossos filhos e ficar em casa tomando Heroína e ouvindo um disco não vai realizar isto. Pode lhe parecer antiquado mas precisa-se domar o touro pelos chifres e é um puta de um touro, a América, e seus chifres são desagradáveis".

Alburquerque

Depois de todas as notícias relacionadas a brigas entre a garotada em shows da banda, a polícia de Alburquerque estava esperando pelos Rolling Stones sem a mínima disposição para aturar qualquer coisa de qualquer estudante. O show seria realizado no auditório do Campus da Universidade de Novo México, local evidentemente infestado de estudantes. Uma manifestação estudantil realizada no mês anterior contra a Guerra de Vietnã e o conseqüente bombardeio realizado no Camboja para onde a guerra extra-oficialmente migrava, teve no confronto com a polícia o resultado de uma morte. Portanto a força policial está excessivamente nervosa antecipando a garotada sendo agitada pela música irritante dos Stones, e passam a demonstrar suas neuroses em seu comportamento.


No final, nenhum evento negativo digno a parar nos jornais acontece e todos estão satisfeitos. Que se saiba, apenas um rapaz tentou invadir o local do show sem pagar e foi expulso. Voltou tentando arrumar uma briga quando apareceram seis ou sete policiais para lhe cercar. Juntaram o rapaz até ele sangrar e depois o prenderam por resistir à prisão. Ele foi levado até uma Van, algemado nas mãos e nos pés, e lá tomou uns pontapés na cara e no estômago para aprender a deixar de ser atrevido.

Denver, Colorado


Em Denver, os Rolling Stones e equipe cortam o cordão umbilical com Los Angeles de vez. Estão agora nômades, vivendo na cidade onde seria realizado o próximo show. Fazem duas apresentações no Coliseu de Denver no dia 16 de junho. Este é o único show em que Jagger veste uma camiseta com o logotipo da língua. O dia seguinte foi de folga, com programação marcada apenas para o fim da tarde. Bill e Astrid tiraram o dia para passear, acabando por visitar o Caribou Ranch, onde a banda Manassas de Steve Stills estava gravando. À noite retornam a tempo da festa, realizada no rancho do promotor do evento, o Sr. Barry Fey, situado nas cercanias da cidade. Com uma mesa farta todos se deliciam, a maioria apaziguando a larica que já estava gritante. Os cinco membros dos Stones foram chegando aos poucos ao local, o último tendo sido Keith Richards.

Reencontrando Gram Parsons

Um incidente que foi rapidamente abafado lhe retardara a chegada. Aparentemente Gram Parsons foi visitá-lo em seu quarto, normalmente o ponto de zona da excursão. Parsons, um músico brilhante com contribuições importantes tanto nos Byrds como no Flying Burrito Brothers três anos antes, estava agora passando por um período mais decadente e desagradável. Juntando todas as versões sobre o incidente ocorrido neste encontro, eis provavelmente o que ocorrera de fato:

Sendo extremamente desagradável, Parsons queria porquê queria cheirar toda a Cocaína que Keith tinha com ele. Com as seguidas recusas, Parsons ameaça Keith, que imediatamente o expulsa do quarto avisando que não queria mais vê-lo naquela excursão. Parsons é retirado, se sentindo revoltado pelo que julga ser uma tremenda injustiça. Lembra que em 1969, quando os Stones estavam em Los Angeles e Keith queria Cocaína, Parsons lhe arrumou de graça uma farta quantidade de pó e Haxixe para todos. Agora que é a vez dele estar querendo e precisando, Keith o expulsa, que história é essa? Enfurecido e mal intencionado, Parsons espera escondido dentro do carro no estacionamento.

Quando vê Keith, Parsons discretamente sai e vai em direção ao guitarrista escondendo a faca que está em sua mão. Mas mesmo conseguindo chegar perto o suficiente para o golpe, antes de desferi-lo, Parsons é travado por um dos seguranças. Keith então vendo a lâmina, já nas mãos do segurança, entende o que está se passando e imediatamente parte para cima, esmurrando Gram algumas vezes, tendo o guitarrista saído cambaleando e sangrando pela boca, levado por um amigo que tenta retirá-lo do local antes do envolvimento da polícia. Algumas publicações dão conta que este episódio nunca aconteceu. Deixamos as conclusões para cada um.

Deixando Denver

Antes de deixarem Denver, Keith, Bobby, Jim e Marshall dividem um jogo de pôquer no quarto do hotel. As malas já estão feitas e todos apenas aguardam a hora de deixarem o local, jogando cartas com a televisão ligada. Na telinha, o Senador George Wallace está dando seu discurso habitual, ele sendo um político poderoso e conhecido racista, que no início da década de sessenta tentara impedir estudantes negros de freqüentar a faculdade no Alabama. Depois de paraplégico, em decorrência de um atentado que sofrera no mês anterior, sua chances de concorrer à Presidência da Nação se tornam drasticamente limitadas.

Quando a hora de partir é anunciada, Keith instiga Bobby a ajudá-lo a se despedir do local. Os dois pegam a televisão colorida e jogam da janela enquanto a câmera de Robert Frank registra o feito, seguindo a trajetória do aparelho em sua projeção descendente, caindo dez andares até encontrar um pátio de concreto e explodir. Descem às gargalhadas pensando em entrar logo na limousine antes que a gerência se desse conta e viesse encher o saco. Mas ao chegar na porta da saída o gerente lá estava, fazendo questão de posar para fotos com integrantes da banda. Keith fica segurando o riso e pensando na cara do gerente dentro de alguns minutos quando não encontrasse uma televisão no quarto e olhasse pela janela. Uma vez na limousine, o trajeto até o aeroporto é feito ao som de uma fita dos Four Tops.

Bloomington, Minnesotta


Em Bloomington, no Metropolitan Sports Center, os Rolling Stones fazem um de seus melhores concertos. Keith Richards está particularmente endiabrado, solando onde não havia solo seu antes, com a banda se entreolhando e seguindo atrás como uma locomotiva a todo vapor. Keith se empolga tanto que esquece de voltar ao microfone no refrão de "Happy", a única canção em que ele é o cantor principal. Mick está lá para preencher o espaço. A voz cada vez mais rouca de Keith obriga Mick a sempre estar por perto para reforçar o refrão.

Antes de cada show, durante toda a excursão, Mick Jagger sempre bate algumas carreiras de Cocaína. Sem estar cheirado, ele não sobe no palco nesta excursão. A retirada rápida do local encontra o cheiro de gás lacrimogêneo que fora jogado pela polícia lá fora, odor que já vaza para dentro pelas frestas das portas. Um pequeno comboio de limousines com escolta policial segue para o aeroporto, onde embarcam em um avião para a próxima cidade, Chicago.

Parte 39 - Baco e Pan

Antes de cada show, durante toda a excursão, Mick Jagger sempre bate algumas carreiras de cocaína. Sem estar cheirado, ele não sobe no palco nesta excursão. No final de todos os shows, uma bacia cheio de pétalas de flores é jogado por Mick nas primeiras filas da platéia. A retirada rápida do local encontra o cheiro de gás lacrimogeneo que fora atirado pela polícia lá fora.

Chicago

Com três shows marcados no espaço de dois dias, a banda iria passar três noites nesta que é uma cidade extremamente musical. Chicago havia recebido Humble Pie duas semanas antes e para os Rolling Stones, a segurança foi triplicada, com as ruas ao redor do International Amphiteatre onde é realizado o espetáculo sendo constantemente vigiadas pela policia. Qualquer garotão cabeludo é parado e imediatamente toma uma dura, sendo revistado à procura de drogas nos sapatos e bebidas alcoólicas nas bolsas ou mochilas.


Durante a apresentação, o calor é insuportável e houve várias pessoas que, uma vez passando mal, são levadas até o palco e de lá carregadas embora. Na confusão, um garotão sobe no palco e parte pra cima de Jagger, dando-lhe um chega-pra-lá. Imediatamente Chip Monck aparece para derrubar o garoto, Leroy o segurança chegando em seguida e desferindo logo um soco no rim do rapaz com intuito de amansá-lo. Os três homens rolam pelo chão, enquanto Jagger dança para o lado oposto do palco. Todavia, o holofote erroneamente permanece sobre a briga, abandonado o cantor. A banda continua tocando como se nada estivesse acontecendo de anormal mas há uma expressão de estresse no rosto de todos.

A esta altura, o caminho parecia estar livre para invasão e já se encontram no palco vários outros garotos, todos com intuito exclusivo de aparecer, o palco se tornando um cume a ser conquistado. Entra em cena então os seguranças da casa, enxotando estes novos desafiantes e inibindo futuras tentativas. Ainda assim, um dos meninos consegue sair dançando perto de Bill Wyman, seguindo então para os bastidores e inteligentemente sumindo de vista. A esta altura, Keith está irritado e nervoso. Ele quer segurança no palco, contudo, não quer que os seguranças destratem a garotada. Reclama com Jagger mandando que ele acalme o público e depois se irrita com seu vocalista por esticar muito o papo nas introduções.

Keith então passa a comandar a banda, entrando nas canções enquanto Jagger está ainda no meio do papo. Bate o pé para marcar o tempo olhando para Charlie e Bill e se lança no riff, quem for vivo que acompanhe. E Mick é vivo e está atento, sucumbindo para o temperamento explosivo do seu colega e desistindo de vez de tentar se aproximar do público com conversa. Quando Keith está em pique de correr com um show, ele não é pareo para se segurar. Keith é largamente descrito durante este período como um zumbi drogado na maior parte do tempo. Porém quando ele está no palco, Keith Richards se torna o verdadeiro animal do rock 'n' roll, uma brutal força musical e não apenas o mito desta força.

A Mansão da Playboy

A equipe ficou hospedada em um hotel ao lado de uma estrada, a cerca de vinte minutos do centro da cidade. Mas os Rolling Stones são convidados a permanecerem hospedados na Mansão da Playboy, residência de Hugh Hefner e várias de suas modelos. Chicago é a cidade sede desta famosa revista erótica e dos clubes Playboy, ainda em funcionamentos nesta época. Chicago era onde a Playboy realmente nascera, contudo dentro de poucos anos, Hefner iria mudar toda a organização para os ares mais ensolarados da Califórnia. O convite feito aos Stones é, com certeza, parte de uma jogada publicitária por parte de Hefner, querendo com certeza continuar sendo visto como 'hip' também por esta nova geração que aflora. A mística atrás do nome Rolling Stones faz sentido ser associado com a mística atrás do nome Playboy. Embora Hugh Hefner e Mick Jagger fossem de gerações e gostos distintos, eram também dois homens de origens simples que conseguiram sucesso e respeito profissional assim como inimaginável compensação financeira à base do fruto de seus próprios ideais.

A Mansão Playboy
A Mansão Playboy

Uma vez alojado na mansão, Keith acaba telefonando para o hotel onde estava a equipe STP, convidando uma parte da galera a vir conhecer o local. Cocaína passa a rolar fartamente, embora a droga da moda na América seja metaqualone, ou quaaludes, como são mais conhecidos. Não se trata de uma droga nova, quaaludes eram muito populares há mais de dez anos. A droga oferece uma certa euforia e breca inibições, ao mesmo tempo que lhe deixa em um estado semi-hipnótico. Bom para ações repetitivas como falar incessantemente ou trepar. As coelhinhas adoram quaaludes, coca e alcool e os Stones e toda a STP igualmente estão aptos para este tipo de festa.

Peter Rudge e Hugh Hefner conversam animadamente em um canto da enorme sala de estar, sobre música e o lado legal desta indústria. Hefner está tradicionalmente vestido de pijamas, com um cachimbo na boca e uma loura no colo. Mulheres estão em fartura, aliás, a notícia dos Rolling Stones na mansão faz até ex-coelhinhas aparecerem para uma visita. Espalhados entre a sala de jogos, piscina interna e sabe-se-lá quantos outros cômodos e salas especiais existentes na mansão, havia muita cocaína, quaalude, fumo, birita, comida e sim... sexo. Meninas sendo comidas e passadas adiante com a mesma naturalidade que normalmente passam um bom baseado ou as vinte de um cigarro.

Bill Wyman, que na década de sessenta era junto com Brian Jones a bomba sexual dos Rolling Stones, está agora quieto e distante de toda a ação ocorrendo com as coelhinhas. Com Astrid sempre presente e ao seu lado, ele ocupa seu tempo jogando gamão com Hugh Hefner, além de tênis de mesa e sinuca com Jim Price, Mick Taylor e Willie Vacarr, quando estes estão desocupados. Charlie Watts fica incomodado com toda a atenção e para evitar se perturbar mais, se retira na manhã seguinte se hospedando no hotel.


Com tudo em fartura e sem conta a pagar no final, tem gente da equipe STP compenetrado em comer o máximo de xoxota possível no espaço de uma noite. Haverão aqueles no dia seguinte se vangloriando por ter conseguido trepar com seis mulheres diferentes no período de dez horas. E as coelhinhas estão adorando a festa, uma vez que a bebida e comida, sem falar nas drogas, que normalmente sai do próprio bolso, estão neste fim-de-semana totalmente de graça. Nestes três dias, a mansão se tornou uma imensa boca livre, com direito a um buffet de buceta.

A noite termina com Jagger, Keys, Price, Chess, Rudge, mais Hefner e pelo menos o dobro em coelhinhas, todos refrescando e conversando calmamente na banheira particular do dono da casa. Uma banheira feita para caber mais de vinte pessoas e cheia de água perfumada, mantida em um temperatura amena. Com os primeiros raios de sol no céu, os convidados da equipe STP saem de pernas bambas até seus carros e seguem de volta para o hotel.

Tédio e o Hotel

No hotel, para o resto da equipe que não conseguiu convite para a mansão de Hefner, a monotonia da estrada irrita feito coceira. Em uma festa em um dos quartos, Chip Monck está enrolando um baseado no banheiro com Gary Stromberg e Janice Jones, uma linda mulata, filha adolescente de Quincy Jones, que fugiu de casa determinada a subir a enorme escada de contatos que supostamente a levará até Mick Jagger, seu sonhado ponto final. Sentados no chão e conversando sobre o mundo como ele é em comparação de como deveria ser, Monck olha para cima e resolve desparafusar um cano debaixo da pia. Rindo, Stromberg então desaparafusa o chuveiro. Em pouco tempo os dois haviam desaparafusado tudo no banheiro.

Onde há minutos atrás havia um chuveiro, agora sequer tem o cano, só restando o buraco por onde a água sai. A pia permaneceu no lugar, porém quando aberta a torneira a água passa pelo ralo e cai no chão, molhando tudo e todos. O cifão e os canos foram todos retirados. A privada também acabou desparafusada da descarga e colocada de lado, encostada em um canto do banheiro junto com todos os demais canos agora soltos. Uma vez terminada a brincadeira, deixam o banheiro para o próximo coitado que precisasse do recinto admirar com comprensível perplexidade. Não demorou para serem expulsos da festa pelo hóspede do quarto.

Monck vai até o bar do hotel, porém o local está cheio de executivos em clima de happy hour. Há uma convenção do McDonalds acontecendo e oitocentos executivos estão hospedados no mesmo hotel que a equipe STP. Monck irrequieto segue sem destino certo, acabando por invadir a cozinha onde encontra a caixa de luz desguardada. Movido pela sua mente maquiavélica Chip rapidamente desconectou toda a força que alimentava eletricidade para as tomadas do andar térreo, se retirando do local em seguida.

Não satisfeito, ao encontrar novamente com Gary Stromberg, Monck tem outra proposta a fazer. Passam a afroxar todos os chuveirinhos dos regadores automáticos encontrados nas plantas que ficam encostados ao final de uma ala do hotel em todos os andares. Os dois homens arrumaram o chuveiro para apontar não para as plantas, mas para o outro lado do muro de onde elas se encontram. Lá embaixo, fica um pátio onde normalmente o pessoal da convenção do McDonalds se encontram nos momentos de descanso. Terminados de preparar a travessura, Stromberg e Monck seguem cada um para seu devido quarto dormir. Vão feito moleques rindo baixinho, imaginando como vai ser no dia seguinte quando o sistema for ligado com intuito de aguar as plantas e em seguida se verificar que está chovendo somente em cima dos executivos do McDonalds.

Pavio Quase Gasto


O dia seguinte tem um show morno a tarde e outro a noite. Os Stones estão gastos até o pavio. Muita berita, muito pó, muita maconha e muito, muito sexo em uma longa festa que nunca pára em momento algum. Pelo menos não enquanto os Stones estão no recinto. Jagger se esforça para pular e dançar, Keith e todo o resto praticamente estáticos no palco. Voltam depois para a mansão e a putaria reinicia. Marshall Chess entra em um quarto onde está Mick Jagger, uma coelhinha chamada Lisa, e mais algumas outras pessoas. Ele está acompanhado por uma loura solicitando o cômodo para o seu uso particular. Jagger oferece então o seu quarto e lhe passa a chave da porta. Olha para a loura acompanhando Chess que por sua vez está olhando para Jagger como uma cadela no cio. Jagger sorri e diz brincando: "se preocupa não amor, eu te traço depois". E ela, com um sorriso sacana apenas responde, "Jura? Promessa é divida. Você não iria mentir para mim, não é?"

Quando eles deixam o recinto, Lisa passa a falar de como ela está cheia de marcas por todo o corpo e que sua bunda ainda estava ardendo das estripulias da noite anterior. Comenta de como os rapazes foram todos tão bacana com ela e que está radiante de felicidade pois chegando meia-noite passa a ser seu aniversário. "Canta parabéns para mim, Mick".

Hell's Bells

Foi também em Chicago que apareceram as primeiras ligações de alguém que se identificava apenas como sendo dos Hells Angels de Nova York. A ordem inicial era de desligar a chamada, porém um temor se abateu sobre Peter Rudge de que ingora-los poderia ser pior e ter implicações perigosas para Mick Jagger, seu patrão. Assim, Pete atendeu a próxima chamada e foi informado de que os Hells Angels de Nova York exigem uma reunião para descutir os termos de um acordo entre os Angels e os Stones. Pegando um avião de Chicago a Nova York, Rudge encontrou três Angels em um bar na Broadway com a rua 42.

A primeira prosposta na mesa era para que os Stones fizessem um concerto promovido pelos Angels, ideia rechaçada no ato. O que é conhecido desta história conta que os Angels se queixam que depois do evento em Altamont, do qual Mick Jagger era o responsável, eles foram deixados sem apoio legal para serem processados. A organização (ou esta facção da organização) havia gasto seis mil dólares em custos legais com advogados e processos. Eles querem reaver esse dinheiro e propõe então que os advogados dos Rolling Stones conversem com os advogados dos Hells Angels e um acerto financeiro seja providenciado. Caso contrário haveria retaliação direcionada a Mick Jagger e a ele, Peter Rudge.

Sabendo muito bem da situação difícil em que se encontra, Peter ganha tempo dizendo que ele precisa levar a questão para instâncias superiores. Depois que os Angels deixam o local em suas motos, Peter entra em uma delegacia de polícia para dar queixa. Todavia não havia nada que a polícia pudesse fazer no momento. Peter então volta ao aeroporto e pega um avião em direção a Kansas City onde encontraria a banda.

Dallas

Truman Capote é um escritor e intelectual de alguma respeitabilidade, autor do aclamado livro "In Cold Blood" um romance jornalístico ímpar. Conhecido pelo seu gosto excêntrico, seu carisma e humor ácido, a revista Rolling Stone o contrata para fazer um artigo sobre Mick Jagger e os Rolling Stones. Queriam ver o que aconteceria se unissem estas duas estrelas, possível mote para um ótimo artigo.

Infelizmente nada acontece. Jagger e Capote ignoram-se mutuamente na maior parte do tempo. Desacostumado a reluzir menos do que outra estrela, Capote não foi mesmo com a cara de Mick Jagger, muito menos se interessou pela música dos Rolling Stones. Jagger, por sua vez, não deu muita atenção à pretensão de Capote e evitou o homem.

Em Kansas City, é sair do avião direto para o auditório municipal onde será realizado o show e de lá de volta para o avião. Com uma apresentação fraca e sem muito o que comentar, a banda aterrisa em Dallas na manhã seguinte com um sol escaldante, seguindo direto para o seus quartos no hotel. A única programação do dia seria um ensaio à tarde.


Havia uma preocupação de se fazer um bom ensaio para que as apresentações em Dallas fossem as melhores possíveis, pois seriam gravadas profissionalmente com intuito de lançarem um filme e um disco ao vivo. Estas apresentações serão filmados por outra equipe, não para o documentário da excursão que estão fazendo com Robert Frank, mas para um registro apenas do show para ser lançado em conjunto com o disco. Enfim, Dallas era um ponto importante na excursão.

Embora marcado para as quatro da tarde, somente às oito da noite os Stones chegaram para o ensaio, que prossegui até as duas da manhã, mas rendeu muito pouco. Levaram alguns jams, vários velhos blues e algumas canções que não estavam no repertório principal, como "Monkey Man", "Ventilator Blues", "The Last Time" e "Torn And Frayed". Mas também ensaiaram "Satisfaction", "Gimmie Shelter" e "Shake Your Hips". Depois vão jantar no hotel, sendo que Charlie, Mick e Annie Leibovitz, uma conceituada fotógrafa de vinte e três anos trabalhando para a revista Rolling Stone, querem comer churrasco e resolvem ir procurar o que está acontecendo de interessante no centro da cidade. Seguem de limousine com o motorista e Leroy, o segurança.

Baco e Pan

Quanto ao documentário que estão fazendo da excursão como um todo, depois de ser negado acesso à mansão da Playboy, Robert Frank estava louco para pegar um pouco de ação nos hotéis e bastidores. O pique de extensa orgia na mansão fez a passagem por Kansas City tediosa e as perspectivas eram de que os níveis de tédio subiriam a limites insuportáveis. Aparentemente, a velha máxima de Frank Zappa estava sendo comprovada a cada dia: Excursionar te leva a loucura.

Naquela noite, a festa como sempre era no quarto do Keith, com Robert Johnson e Bessie Smith saindo de seu toca-fita. Jim Price, que dormia três andares abaixo, acordou ouvindo a música. Mas a festa se estendia para outros quartos também e as lentes de Robert Frank saíram capturando tudo. Entra no quarto de Mick Jagger para encontrá-lo olhando no espelho com uma mulher bonita, totalmente vestida admirando Jagger se admirando. Depois entra Annie Leibovitz, que veio à festa apenas como uma fã, não à trabalho. Quando Frank sai do quarto a porta se fecha abruptamente atrás dele. Sim, Leibovitz passa a conhecer seu ídolo a fundo.

Cynthia Plaster Caster
Cynthia Plaster Caster

As lentes de Frank entram e saem dos cômodos captando cenas pelo meio ou já em sua conclusão. Em outro quarto há dois roadies conversando com uma menina completamente nua. É Cynthia Plaster Caster que obviamente acabara de ter relações sexuais e se deixa filmar de pernas abertas. Com esperma ainda na barriga, ela se lambuza, se acaricia e lambe os dedos enquanto a conversa continua naturalmente, apesar da presença da pequena equipe de filmagens. Mick Taylor aparece procurando um baseado. Acaba dando um tapa em um que foi rolado dentro de um cigarro pois ninguém tem papel de seda. "Se você arrumar o papel, eu tenho a maconha" diz Cynthia em uma voz sedutora e convidativa.

Em outro local está Chris O'Dell costurando lantejolas para Jagger em sua roupa de palco. Mas adiante Bobby Keys era visto ingerindo algumas pílulas, junto com outras pessoas, em meio a uma espessa fumaça de cor azul anil. Cigarros e outros fumos proliferam por todo canto e há uma fila para o banheiro, onde pessoas entram em pequenos grupos e quando saem demonstram um brilho especial nos olhos e uma disposição incansável de conversar.

Fort Worth

Princessa Lee Radziwill e Mick Jagger
Princessa Lee Radziwill e Mick Jagger

O show é realizado no Will Rogers Auditorium em Fort Worth. Com duas apresentações agendadas, à tarde e à noite, os bastidores estão repletos de rostos novos. Com o Truman Capote veio seu fotógrafo Peter Beard e uma amiga, a socialite Princessa Lee Radziwill, irmã de Jacqueline Onassis. Segundo contam as más linguas, Lee mereceu atenção especial de seu cunhado, John Kennedy. Também presentes estão Ethan Russell, Terry Southern, Ahmet Ertegun e Mario Medious, mais conhecido com DJ Big M.

Terry Southern

Terry Southern e Keith se conhecem desde 1967, quando Antia atuou em Barbarella, cuja história ele escrevera. Ele acaba portanto ganhando permissão para assistir ao show pela lateral do palco. Durante a apresentação dos Stones, Terry está lá, assistindo o show ao lado do chefe de polícia que também quer e pode se posicionar ali. No entanto, Terry está tão chapado que quando ele vai buscar no bolso seu isqueiro para acender um cigarro, deixa cair vários cartuchos de nitrato de amilamina (lança perfume). Rolaram e se espalharam pelo chão de tal maneira que ficou impossível de não reparar. Keith Richards no palco tocando em meio ao show notou. Alguns rolaram perto dele e discretamente Keith tentava chutá-los em direção do Terry para ele apanhá-los e sumir com aquilo dali. Só que Terry está tão chapado e em outro mundo que se tentar se dorbrar, ele cai. O chefe de polícia aparentemente, ou não reconhece a droga, ou está fingindo que não sabe o que é. Ele continua impávido olhando tudo e não mostrando nenhuma reação anormal para o ocorrido. Rapidamente Gary Stromberg chega, se abaixa e cata tudo, sumindo em seguida.

De volta ao hotel naquela noite após o último show, o pessoal logo começa a festa. A Princesa Radziwill entra no quarto e encontra três meninas na cama enquanto Beard, Southern, Rudge e Watts, estão ali de pé conversando. Suspeita que está na hora dela ir embora e se retira graciosamente. Depois Keith iria colocar dois quaaludes na bebida de Beard sem ele perceber. "É para conhecê-lo melhor" comenta Keith ao Greenfield que assiste a tudo com sorriso velado. O Dr. Larry também é visto na festa com sua malinha a caminho do quarto de Keith. Larry tem sido de extrema ajuda para essa comunidade cigana que se tornou o STP. Fascinado pelo mundo rock 'n' roll que ele passa a conhecer, e a quantidade de mulheres lindas se jogando para qualquer um que tenha alguma relação com os Rolling Stones, o médico passa a trocar com os roadies, groupies por pílulas.

Houston


Em Houston, estão programados para tocar no Hofheinz Pavallon, novamente dois shows, um à tarde e outro à noite. Bianca chega para assistir o show e ficar com seu marido. Ela permaneceria seguindo a excursão por dez dias. Lá fora, o calor está a beira dos 40o C, e os ânimos esquentam ainda mais quando o público fica sabendo que Stevie Wonder e a banda Wonderlove não vieram. Aparentemente o baterista, estressado demais, chegou a seu limite, deixou a banda e voltou para Los Angeles. Sem tempo de encontrar um substituto, o resto da banda simplesmente resolve não fazer a viagem e ficam descansando em Dallas.

Mick e Keith estão enfurecidos, pois os Rolling Stones eram uma banda que funcionava na premissa de que se você pode andar, você pode fazer o show programado. Keith, segundo alguns relatos, passou a desancar Stevie Wonder ao berros, como que querendo que o músico, o único que chegou em Houston alheio à decisão de sua banda, ouvisse sua ira. Wonder teria comentado depois que ele nunca conseguiu saber direito qual era a do Keith em relação a ele, mas Mick sempre o tratou muito bem. Tanto estas duas apresentações, como as apresentações em Fort Worth foram gravados por Andy Johns utilizando o Record Plant Mobile Unit.

Nova Orleans

Na manhã seguinte, um análise do incidente com a banda do Stevie Wonder, assim como o de Terry Southern com o chefe de polícia e todas aquelas cápsulas de nitrato de amilamina, provocam uma reunião de emergência. Estudam dispensar grande parte do excesso de contigente acompanhando a excursão. Mas até o final do dia, este perigo teria passado.

Passam o dia 26 de junho em Nova Orleans onde Truman Capote convida formalmente todos para um jantar antes dele deixar a delegação. Uma grande mesa é posta no Arnaud, restaurante que fica na area francesa da cidade. Depois de um mês na estrada, estão todos os ligados à excursão engolidos para dentro do mundo alternativo e irreal dos Rolling Stones. Muito naturalmente um prato de sobremesa com cocaína circula pelas mesas. Tudo relativamente discreto, relativamente óbvio.

Segundo contam, Mick Jagger levou quase meia hora lendo a carta de vinhos até escolher um Mouton Rothschild de 1939. Quando o garçom chegou para servir, Keith pediu para prová-lo primeiro. O garçom, um especialista em vinhos, limpou carinhosamente as três décadas e pouco de poeira da garrafa antes de abrir a rolha. Keith, achando toda aquela atenção para uma simples garrafa um exagero, simplesmente tomou-a das mãos do garçom e desceu um gole direto do gargalo. "É, está muito bom, pode servir". O garçom serviu segurando as lágrimas nos olhos. Depois foi até a cozinha onde, segundo a lenda, permaneceu aos pratos até conseguir recompor a compostura.

Chris O
Chris O'Dell, Bianca e Mick Jagger com Ahmet Ertegun

Todos bebem e comem animadamente, seguindo depois com Ahmet Ertegun que preparou uma festa para todos em um armazém em Camp Street. Como atrativo musical, Ertegun contratou nada menos do que Roosevelt Honeydripper Stykes, Snookes Eaglin e Professor Longhair. Nenhum desses velhinhos tinham ouvido falar de Rolling Stones ou Mick Jagger.

A Chave da Cidade

Atravessam o Mississippi e chegam em Mobile, Alabama, local do próximo show. O chefe de polícia, Robert Doyle, é também assistente do prefeito e cerimoniosamente entrega cinco chaves para cada um dos integrantes da banda. Em sua representatividade, trata-se da chave da cidade, entregue aos Rolling Stones, com fotógrafos registrando o momento. Doyle não frequentará o concerto, preferindo a quietude de sua casa e seus discos de Guy Lambardo. Shows bem tocados embora um tanto quanto burocráticos em Alabama, tanto em Mobile quanto em Tuscaloosa. O maior comentário feito é em relação ao cabelo curto da população masculina local.

O fator tédio chegara a seu patamar de insuportável. Ninguém tem mais pique de ver nada nas cidades que visitam e a vida passou a ser basicamente uma rotina de hotel, avião, ônibus, hotel, show, ônibus, hotel, avião, repetido exaustivamente por mais um mês. Para compensar o tédio, além do sexo, quantidades absurdas de drogas eram consumidas por todos. Demerol, Placedyl, Desoxyn, Quaaludes, Lança Perfume [Nitrato de Amilamina (C5H11NO2)] e Cocaína rolavam livremente enquanto Heroína ficava um pouco mais retida aos amigos especiais.

Tennessee e o Feriadão

A apresentação em Nashville se mostrou ser a de menor público de toda excursão, com apenas dez mil pessoas presentes. Depois desta apresentação, haveria quatro dias de descanso, momento aguardado por todos. Assistindo dos bastidores, o baixista Donald Dunn e sua esposa Jane convidam o casal Wyman para passar o feriadão em Memphis, na casa do casal.


Bill e Astrid Wyman aproveitam a oportunidade para fugir da vida louca que eles e os demais estão vivendo nesta excursão. O convite é logo aceito e passam os dias vésperas do Dia da Independência Americana comendo churrasco no quintal. Programação noturna inclui assistir shows do Issac Hayes, Rufus Thomas e B. B. King.

Os demais Stones vão para as Ilhas Virgens para um merecido descanso. Enquanto isto, Chip Monck e sua equipe estão em Washington DC, capital do país, montando o palco no gramado do Robert F. Kennedy Memorial Stadium, um estádio de baseball, onde será realizado o concerto dos Stones em 4 de Julho, dia da independência americana. Os Stones se reúnem novamente em Miami, onde pernoitam no Thunderbird Motel antes de seguirem para Washington D. C.

Quatro de Julho

No dia do concerto, os Stones se apresentam em um palco montado de nove pés de altura, com uma muralha alguns metros antes, com pregos na ponta inclinados para frente em 45o graus. Todas essas precauções visando evitar problemas de invasão como vistos em Altamont. Enquanto a banda toca, em uma demonstração deturpada do espírito comemorativo da data, rojões são jogados por espectadores das arquibancadas para o gramado, alguns acertando o palco. Uma menina teve um rojão estourando na sua cabeça, abrindo um buraco em metade de seu rosto. Uma garrafa acertou Chip Monck e a banda começou a acelerar o ritmo do show para saírem logo dali. Mais tarde chega a notícia que um casal estava trepando junto ao muro durante boa parte do show. Rock 'n' roll...

Tédio e a Busca Incansável por um Alívio

A esta altura ninguém tem mais condições de sequer lembrar onde estiveram no dia anterior. Passagens por Norfolk, Charlotte, Knoxville e St. Louis se misturam, ninguém lembrando direito o que aconteceu aonde. Na desesperada procura de alívio do tédio, há tanta ação nos quartos de hotel quanto nos shows. A banda esteve tocando bem em todas estas cidades, o palco sendo o único lugar em que o mundo faz algum sentido, e onde toda loucura pelo qual passam durante o dia se explica.

Bill Wyman passa essa excursão com Astrid e portanto não está participando de nenhuma das orgias. Em Philadelphia chegaria seu filho Stephen que em julho entrou em período de férias escolar, adicionando ainda mais para o seu desejo de se afastar das loucuras dos demais. Charlie Watts passa o tempo livre desenhando em seu quarto. Ele tem um bloco grande mais alguns lápis, que carrega entre suas coisas. Mas até Charlie está de saco cheio e prefere conversar com qualquer um do que ficar trancado em seu cubículo assistindo televisão.

Mick Taylor andara dormindo com Janice, de 19 anos, que já trabalhara como modelo em Nova York, ou pelo menos é o que ela diziz a quem perguntava. Seguindo com a equipe STP desde Los Angeles, ela já passara na mão de um ou outro roadie, antes de pegar os peixes maiores. Dormiu com Chip Monck e com Marshall Chess. Seu sonho de consumo é sem dúvida conseguir trepar com Jagger. Com Bianca só reaparecendo em Nova York, até o final da excursão ela teria sua chance.


Por falta de vagas ou opções melhores para tamanha comitiva, que mesmo dividida em mais de um hotel ainda assim são agrupados em números consideráveis, as estalagens nesta etapa da excursão são bem simplórias. Tédio, tédio, tédio. As lentes de Robert Frank capturam mais loucuras na busca incansável de todos em vencer o tédio e o cansaço da excursão. Em um quarto está Keith Richards deitado com Cynthia Sagittarius, uma menina de 19 anos que seguia os Stones de cidade em cidade, viajando de carona. Sempre que aparece, ela é permitida a frequentar o hotel onde se encontra a banda. Frank filma Cynthia cozinhando a heroína com a ajuda de uma colher e um isqueiro. Na edição final do filme, não se vê a imagem de Keith, apenas do amigo Stash. Cynthia aplica a seringa no braço de Keith que sorri e depois apaga. Cynthia volta a seu ritual habitual e então se aplica, apagando pouco depois ao seu lado.

Sendo um hotel de menos comodidades, dois roadies são escalados para levar a roupa suja de uma divisão da equipe para uma lavanderia. A demora no seu retorno é mais tarde explicada pela seguinte aventura. No caminho encontram uma menina vistosa que se identifica como sendo modelo e que supostamente tinha feita comerciais para televisão. Sabendo que os dois estão trabalhando com os Rollling Stones, ela os convida para fazerem a lavanderia em sua máquina. Chegando em sua casa, um dos rapazes cuida da máquina situada no porão enquanto o outro e a modelo estão conversando no andar térreo. Quando o rapaz termina o serviço encontra o amigo e a modelo trepando animadamente. Não pensa duas vezes em tirar a roupa e a também participar da festinha.

"Que bom você chegou", disse o colega, "não sei se aguentaria mais". Todavia, apesar dessas palavras, eles aguentam muito mais. Depois que os dois exaustivamente satisfazem a modelo, a sua colega chega com umas amigas. O cenário então passa a ser dois caras que trabalham para os Rolling Stones perdidos no meio da América, em uma casa com cinco meninas, que afora a modelo, certamente de maior, estão entre seus dezesseis e dezessete anos. As meninas convidam os rapazes a injetar Preludin para reativar os motores. Preludin é uma anfetamina vendida em tabletes. As meninas, com visível prática, passam a esmagar as pílulas com uma colher. O pó granulado é então cozido e filtrado antes de ser injetado na veia de cada um dos rapazes. Depois foi rock 'n' roll até tarde da noite.

Agito e Tédio em Ohio

Em Ackron, alguém colocou uma bomba debaixo do palco que, ao explodir, danificou uma pequena parte lateral. Felizmente, afora o susto, ninguém se machucou. Durante a apresentação de Stevie Wonder, dois policiais entram no meio do público para pegar alguém fumando maconha. Quando apanham o rapaz, tem seus capacetes retirados por um grupo que não tem medo de reagir. Os policiais tomam cada um uma garrafada na cabeça. Os culpados deixam as garrafas para trás e somem na multidão, enquanto os homens da lei se recobram. Via rádio, um batalhão anti-choque aparece no local, com escudos e bastões, batendo em todo mundo indiscriminadamente.

Chip Monck assiste a tudo e com toda a experiência adquirida em festivais como Monterey e Woodstock, invade o palco e pede à banda de Stevie Wonder que pare de tocar. Toma o microfone e pede a todos deixarem a polícia passar livremente. "Peço encarecidamente que ninguém levante um dedo. Quando eles tiverem certeza de que vocês não são uma ameaça, eles deixarão o espaço. Iremos agora esperar concluírem que podem deixar o espaço" A polícia encontra os dois colegas feridos sem maiores problemas e analisam a situação.

Chip Monck, Steve Wonder e toda a banda Wonderlove assistindo toda movimentação policial com atenção. O povo satisfeito com o que julgam ser um aliado no palco, se mantém quietos assistindo à sequência de eventos. Chip então volta a falar no microfone, desta vez se dirigindo aos guardas: "Cavalheiros, a banda está aguardando. Estamos prontos para prosseguir. Vocês nos deixarão continuar?" O público então começa a aplaudir e a situação continua um pouco tensa. Monck passa a narrar cada movimento dos policiais enquanto pede que o público permaneça cooperantes. Quando a polícia deixa o local, o espetáculo recomeça.

Chip Monck
Chip Monck

Depois do concerto, Chip Monck chega no seu quarto cansado e estressado. Cheira uma cápsula de nitrato de amilamina e em um acesso de rebeldia gerado por tédio misturado com estresse e inquietude, abre a janela e lança o abajur que ali havia. Chip passa então a acompanhar atentamente o objeto ganhando velocidade entre as sombras em sua trajetória, caindo cinco andares até explodir no chão. Em menos de cinco minutos aparece o gerente batendo à sua porta. Ao abrir, o tempestuoso gerente logo lhe questiona: "Foi o senhor que jogou o abajur da janela?!" Olhando fixamente para os olhos do sujeito, Chip fala em um tom tão firme quanto autoritário: "Eu quero um abajur neste quarto. Imediatamente!" O gerente olha espantado e gagueja "Mas senhor... ah... nós acabamos de ver...". Chip impávido continua: "Você espera que eu fique aqui ouvindo sobre o seus problemas? Não há nenhum abajur no meu quarto. Eu necessito de um abajur para poder fazer o trabalho que me aguarda. Por você ser o gerente, eu estou pedindo a você que me providencie um abajur. Está claro?". "Sim senhor", obtém como resposta. Chip fecha a porta em seguida sem dar tempo para mais indagações. Cinco minutos depois, um abajur foi entregue. Tédio, tédio, tédio.

Stash

Ao chegar em Indianapolis, Monck procura Rudge para comentar sobre três pessoas que andam seguindo a excursão, se hospedando no mesmo hotel da banda, desde o show de Washington DC. Ele já percebera que eram vendedores de entorpecentes, seguindo a excursão para vender material de baixa qualidade para a garotada. Essas pessoas, que também são jovens, ao se hospedar no mesmo hotel que os Stones, acabam se beneficiando da proteção policial local fornecida ao hotel para os Stones. Keith resolve visitá-los para conhecê-los melhor.

Maravilhados por poderem receber Keith Richards, os traficantes confirmam que estão lá para fazerem um troco e começam a se vangloriar por estarem tomando vantagem da garotada. Keith é ofendido com os comentários. Em sua ética de bandido, se você vai vender, então venda. Mas tomar vantagem de um viciado vendendo material malhado, ou seja, com uma maior porcentagem de mistura, é o fim para Keith. Ele se retira do lugar e não quer saber mais deles por perto dos Stones.

Com isso Monck e Rudge estariam livres para agir, porém antes deles serem autorizados, Stash toma a primeira iniciativa. E assim inicia uma situação problemática que não terminaria bem. Stash é um amigo antigo de Keith, Mick e que andava muito com eles no tempo que Brian ainda morava com Anita. Se Stash resolvesse escrever um livro sobre suas memórias, seria algo interessante para ler, pois ele esteve presente em vários eventos e situações singulares dos Stones, tendo sido mais de uma vez preso com Brian, Mick e Keith.

Ninguem na excursão sabe, mas Stash tem sangue azul, embora isto não represente absolutamente nada nos Estados Unidos. Mas para Mick e Keith, que são ingleses, isto denota uma linhagem e demanda tato. Sua função na excursão era exclusivamente carregar tudo excessivamente comprometedor pertencente a Keith. Embora oficialmente um empregado exclusivo de Keith, ele acaba se envolvendo com a equipe de filmagem, ajudando ocasionalmente Danny Seymore, assistente de Robert Frank, monitorando níveis de volume de som durante as filmagens. Aparentemente ninguém mais na STP gosta do Stash, afora Mick, Keith e o trio rodando o documentário, no qual ele ajuda. Monck e Rudge já conversaram sobre uma forma de se livrarem dele, mas Keith não permite e Mick não vê motivo. E assim, Stash foi ficando.

Daí se iniciaria um incidente que forçaria a equipe a tomar atitudes contra as recomendações iniciais de seus patrões. Stash chama Willie, sujeito corpulento responsável pelas bagagens, e o guarda-costa, Leroy, rebocando a assistência sob o pretexto de tratar de um problema com alguns garotos que estão colocando os Stones em perigo. Ao invadirem o quarto dos três traficantes, Leroy e Willie assistem Stash extorquir dinheiro deles antes de mandá-los embora. Quando terminado, Willie procura Rudge na certeza que Stash ultrapassou sua imunidade ao usar seguranças dos Stones para a extorsão.

Leroy e Rudge vão até o quarto dos traficantes, Leroy deixando claro que eles deverão sair imediatamente e não mais aparecer nesta excursão. Um novo guarda-costas havia sido contratado recentemente e a ele coube a tarefa de explicar de forma absoluta para Stash que ele não era mais benvindo e portanto chegara a hora de se retirar.

Willie foi para o quarto de Stash e avisou que o novo guarda-costas estava precisando falar com ele. Enquanto este foi ter uma conversa com o guarda-costa, Willie passou a fazer as malas do rapaz. Mal Stash entra no quarto do guarda-costas, ele é jogado na cama, sentindo em seguida uma pistola na sua cabeça. "Se gritar, eu meto uma bala na sua cabeça", disse-lhe. Então Stash passa a tomar golpes, todos sobre o tórax, de forma que, embora todo dolorido e cheio de marcas roxas, uma vez de camisa, nada está a vista. Um carro já foi providenciado para ele seguir até o aeroporto.

Por um acaso, Robert Frank passa pelo quarto de Stash à procura de algumas de suas coisas, e se espanta ao vê-lo de malas prontas e com Willie ao seu lado feito um guarda. Pressentindo que algo está errado, Frank vai logo procurar Dr. Larry e este vai falar com Keith. Este imediatamente manda alguém encontrar Stash e trazê-lo de volta.

Durante o vôo para Detroit, Keith está puto com todo mundo. Falou muito, soltando veneno para todos. Estava tão possesso, que chegou a falar que Brian Jones, se vivo estivesse, estaria querendo as cabeças de todos. Depois disso, Keith começou a tagarelar sobre os velhos tempos com Brian e os Stones, a ponto de, segundo algumas versões, ter se mostrando um tanto quanto emocionado.

Ninguém sabe o que acontecera, ninguém implica ninguém, e um silêncio impera, com rompantes de discussões entre Robert Frank e Willie. Stash foi encontrado no aeroporto, sendo trazido de volta para a equipe, e estando a bordo, passa pelos cuidados do Dr. Larry, que confirma que o rapaz sofrera uma surra na região do tórax. O clima no avião é ruim e Peter Rudge, que viajara algumas horas antes no vôo anterior, encontra agora o grupo desunido.

Detroit

Cobo Hall
Cobo Hall

Em Detroit, Willie está dirigindo um pequeno caminhão carregando um console de som que Marshall encomendara. Perto de Cobo Hall, local do show, a garotada percebe o caminhão e avança sobre ele, quase obrigando Willie a parar. Quando ele encontra uma brecha, acelera e vai embora, entrando na área reservada para estacionar o caminhão. Só então descobre que a garotada havia conseguido abrir a traseira do carro e roubara o console.

Quando Willie reporta o incidente para Marshall, o prejuízo é calculado em dez mil dólares. O que só Marshall, Mick e Keith sabem, é que no console havia um limitador com um compartimento secreto, construído especialmente para a ocasião. Nele, havia quatro gramas de cocaína. Por sorte, um menino foi bater no portão com o limitador nas mãos, dizendo que encontrou no meio da rua e calculou pertencer aos Stones. Por ter encontrado mais do que imaginava, ele foi presenteado com um ingresso grátis.

Keith entra no palco aos tropeços, ainda intoxicado. No entanto, uma vez com a guitarra plugada e a música começando, ele está vivo e atento como só o palco consegue lhe deixar. O povo de Detroit é conhecido por sua energia. Policia e segurança local tentam manter as pessoas sentadas e os corredores livres. Jagger não gosta e pede que deixem o povo dançar. Algumas pessoas tentam tomar o palco mas Leroy está lá para gentilmente empurrá-los de volta para a platéia. Em dado momento, três policiais sobem supostamente para auxiliar o controle e intimidar outras pessoas de invadir o palco. Leroy, com um abraço de urso, agarra os três e gentilmente empurra-os de volta para a platéia. O público urra.

O detalhe especial da noite fica por conta dos Stones se juntarem com Stevie Wonder e sua banda Wonderlove, para juntos tocarem um medley de "Uptight" (Sylvia Moy / Henry Cosby / Stevie Wonder) do repertório do Wonder, e "Satisfaction." Esta é a primeira vez em toda excursão que os Stones tocam "Satisfaction," embora voltariam a tocar a canção, junto com "Uptight" do Stevie Wonder, novamente em Philadelphia e em Nova York. Chip Monck, de brincadeira, colocou um pé de galinha dentro da bacia de pétalas de flores que Mick joga no público no final. Jagger, que nada sabia da brincadeira do colega, nem percebeu a trajetória nas sombras daquele objeto estranho lançado no ar junto as flores. Segundo contam, o pé de galinha acertou uma menina bem na testa. Escondido em algum canto do palco, Chip Monck e Gary Stromberg estão se mijando de tanto rir.

Parte 40 - A Festa de Boston

Chip Monck de brincadeira colocou um pé de galinha dentro da bacia de pétalas de flores que Mick joga no publico no final. Jagger que nada sabia da brincadeira do colega, nem percebeu a trajetória nas sombras daquele objeto estranho lançado no ar junto às flores. Segundo contam, o pé de galinha acertou uma menina bem na testa. Escondido em algum canto do palco, Chip Monck e Gary Stromberg estão se mijando de tanto rir.

Canadá

Toronto e Montreal são as próximas duas paradas, o primeiro show sendo realizado em uma arena de hockey de gelo que estava curiosamente quente em excesso. O calor durante o espetáculo foi tanto, que ao retornar após a apresentação, Keith só deu três passos para dentro do vestiário antes de desmaiar. O médico diagnosticou estafa térmica.

Stevie Wonder & the Wonderlove Band já tinham outro compromisso para esta data e portanto não vieram a Toronto. Para substituí-lo foi contratado Martha & the Vandellas. Além do calor, um outro aborrecimento para a banda foi o excesso de polícia nos bastidores. Se posicionaram ao lado da mesa de comida, que por sua vez fica praticamente em frente à porta do vestiário particular da banda. Mick Jagger e os demais ficam ainda mais irritados quando percebem que os policiais comeram boa parte da janta dos artistas.

Quebec

Em Montreal as coisas foram bem piores. Montreal fica na província (eles não chamam de estado) de Quebec e é sua capital. Quebec por sua vez, quer independência do Canadá. Obviamente esta proposta não interessa ao Canadá e, portanto, um clima de guerra civil persiste há algum tempo, com o Movimento Separatista de Quebec criando manchetes literalmente explosivas para os jornais.

Então, no dia 17 de julho, na manhã do show, uma enorme explosão quebra todas as janelas dos prédios vizinhos. O local foi imediatamente interditado e com a poeira baixando se pode verificar que um dos caminhões dos Rolling Stones, estacionado sobre uma rampa em frente ao fórum, local do show, fora dinamitado. Felizmente, o motorista que normalmente dormia no caminhão, já tinha saído para tomar o seu café da manhã e, portanto, continuava vivo. Uma análise da cena do crime conclui que a dinamite fora colocada debaixo da rampa. Além do prejuízo para o veículo em si, que agora exibe um buraco em seu meio, a rampa e uma plataforma do palco foram destruídos. Outro prejuízo ficou por conta de 30 caixas com alto-falantes que tiveram os seus cones estourados.

O esquadrão anti-bombas verifica todas as instalações do fórum a procura de mais bombas. Quando terminaram e concluíram que estava seguro, os telefones começaram a tocar, avisando que aquela fora uma entre quatro bombas que estão marcadas para explodir durante o dia. O esquadrão volta para o fórum e passam um segundo pente fino pelo local. Contudo nada fora encontrado e de fato não houve outras explosões. Contabiliza-se cinqüenta ligações diferentes cada uma creditando a si a responsabilidade pela explosão, todos provavelmente falsas.

Cones novos foram trazidos de Los Angeles em um vôo comercial, chegando e sendo instalados enquanto o público já entrava no fórum para assistir o espetáculo. O show teve que iniciar com 45 minutos de atraso. Este é possivelmente o show da carreira de Mick Jagger onde ele realmente subiu ao palco morrendo de medo de tomar um tiro ou algo similar. No entanto, como um autêntico guerreiro, ele foi e deu o seu show, e tudo acabou correndo normalmente.

Stevie Wonder & the Wonderlove Band vieram a Montreal, e estava acertado de repetirem no final do show, o encontro das duas bandas no palco para o final com Uptight e Satisfaction. Porém, durante o show alguém jogou uma garrafa em Mick Jagger e portanto resolveram cancelar o bis. Marshall Chess passa a participar da seção de sopros da Wonderlove, tocando trompete nas últimas três canções do repertório de Wonder. Chess passaria a repetir sua participação nos oito shows restantes da excursão.

Lá fora, 3 mil jovens sem ingressos para entrar ou barrados por terem comprados ingressos falsos guerreavam contra a polícia onde o lançamento de pedras e garrafas é o programa básico. Pelo menos um carro foi ateado fogo. Os Stones passaram o dia seguinte, 18 de julho, descansando no hotel até o fim da tarde quando então foram para o aeroporto e seguiram para Massachussetts. Era o aniversário de Ian Stewart e após o show em Boston haveria uma pequena celebração.

Lei de Murphy

Para quem nunca ouviu falar, a Lei de Murphy é uma lei patafísica que procura explicar porque quando o pão cai no chão, sempre cai com a parte da manteiga para baixo. Diz a lei que tudo que puder dar errado, dará errado. E se mais de um evento possa dar errado, os erros irão acontecer na pior seqüência possível. Só assim se explica, mais ou menos, as dificuldades inesperadas encontradas durante a viagem dos Rolling Stones a caminho de sua apresentação em Boston.

Tudo começou ainda em Montreal onde o avião não conseguia levantar vôo. A aeronave pegou velocidade na pista mas ao invés de subir, freava para então voltar ao inicio da pista e tentar novamente. Depois da segunda vez, o aparelho encostou em uma pista lateral e desligou os motores enquanto técnicos chegavam para verificar o problema. Dentro da aeronave, todos estão nervosos, pois como todos sabem e sempre tem alguém para nos lembrar, é na decolagem e aterrissagem onde existem os maiores perigos em voar. Chris O’Dell fica encarregada de levantar a moral e começa a dançar e sapatear pelo corredor em uma tentativa de dissipar o medo.

Cansados de ficarem trancafiados no avião resolvem descer e andar na pista. Sendo em sua maioria ingleses, alguém aparece com uma bola de futebol e começam a bater uma pelada no gramado lateral da pista. O jogo fica interessante e atraí a curiosidade dos americanos da excursão que assistem atentamente uma tabelinha entre Jagger e Richards. Jagger corre para receber enquanto Richards, paradão, só lança.

Com duas horas de atraso, o grupo é novamente reunido dentro da aeronave que mais uma vez retorna à ponta da pista. Porém desta vez, consegue atingir a velocidade necessária para levantar vôo. Quando já sobre o estado de Massachussetts, Peter Rudge é informado pelo piloto que o aeroporto de Boston está com teto baixo. O termo, usado na aeronáutica, se refere a nuvens baixas que quando pairam sobre a área de um aeroporto, impossibilitam pousos e decolagens. O piloto então opta por pousar no Theodore Francis Green Airport que fica na cidade de Warwick, situado no pequeno estado vizinho de Rhode Island, local relativamente perto de Boston. Aterrissam por volta de dez para as oito da noite.

Os Direitos de Dykerman


Como em qualquer cidade relativamente pequena, quando avião aterrissa, já havia o reportar Dante Ionata e fotografo Andrew Dykerman, do jornal The Providence Journel, para registrarem o evento. Muitos que desciam do avião sequer desconfiavam que não estavam em Boston. Por estarem vindo do Canadá, precisarão necessariamente passar pela alfândega primeiro antes de Peter, Jo ou alguém poderem começar a procurar um transporte para levar toda a tropa a Boston. Com o pipocar do primeiro flash, o fotógrafo se faz notar. Stromberg e o guarda-costas Moore encostam nele e explica que estão todos cansados e atrasados para um show. De fato, em Boston, a casa já está praticamente lotada com quinze mil pessoas aguardando. Stevie Wonder está prestes a começar o seu set.

Dykerman, o fotografo de trinta anos, é um fã dos Rolling Stones. Um profissional que conhece o seus direitos e se recusa a deixar o local. O aeroporto é um local público e ele não tem a mínima intenção de deixar de fotografar o movimento ocorrendo. Stan Moore então não vê jeito senão expulsá-lo dali a força. Com isso, Dykerman se vê obrigado a ter que chamar a polícia para proteger o seu direito de trabalhar sem ser ameaçado de apanhar. Quando ele reaparece, com ele está o Sargento Frank Ricci e um pequeno grupo de policiais.

Peter Rudge então se vê obrigado a ficar debatendo com o guarda um acordo pacífico para se livrarem do fotógrafo. Garante o direito de Dykerman tirar quatro ou cinco fotografias da banda e depois deixá-los em paz. Dykerman recusa colocar um número limite e não abre mão de seu direito de ficar ali e tirar quantas fotos ele achar necessário. As negociações não rendem o fruto desejado e o debate tenta se transformar em um ataque contra o direito de imprensa. Não chegando a uma conclusão satisfatória, Dykerman a cada vez que tenta tirar uma foto, encontra Moore e Stromberg fazendo paredinha em frente da lente. O Sgt. Ricci fica assistindo a esta infantil demonstração de gato e rato, aguardando e torcendo que ninguém faça nada estúpido que o obrigue a ter que tomar uma atitude. O fotógrafo já se tornou uma piada para os olhos cansados dos Stones e a equipe STP. Mas em um momento de distração, ele consegue driblar os bloqueios e dá uma pequena corridinha em direção ao Mick Jagger para bater pelo menos uma foto boa sem ninguém atrapalhar. Keith que até então estava quieto num canto só assistindo essa palhaçada toda, ao vê-lo passar a sua frente, não se conteve e retaliou.

Presos no Aeroporto

Keith inclinou o corpo e jogou o peso da mala que carregava contra as pernas do Dykerman, a fivela da bolsa espetando o fotografo que saltou num grito meio de dor, meio de susto, antes de cair no chão. O impacto foi audível e o guarda imediatamente mandou prender o agressor cabeludo. Imediatamente dois oficiais puxam os braços de Keith para trás e aplicam-lhe as algemas. Chris O’Dell discretamente chega no lance e toma sua bolsa, evitando assim problemas piores. Enquanto vão levando Keith Richards preso, Mick Jagger corre na frente dos dois policiais e começa a agredi-los verbalmente. Lembra aos dois que existe uma multidão esperando por eles e que esta atitude só irá explodir nas mãos da polícia mesmo. Jagger fala pontuando suas frases com palavrões até que o sargento se enfeza. “Leva esse aí também.”

Colocam Keith Richards no camburão e vão agora para pegar Mick Jagger. A esta altura, Robert Frank está filmando tudo, Peter Rudge está tentando mudar o panorama da situação e Leroy está tentando atrapalhar o acesso dos oficiais a Jagger, enquanto este não fica parado, circulando entre a multidão que faz parte de sua equipe STP. Marshall Chess quando vê que estão mesmo levando Mick Jagger algemado, parte pra cima. “Seus babacas! Seus filhos da puta!” E acaba na mesma hora sendo algemado e detido também. Keith assiste a tudo isto calmamente do camburão, se divertindo com a cena irreal que sua prisão gerou. Logo Mick Jagger e Marshall Chess estão lá com ele. Robert Frank está lutando com um guarda para conseguir chegar mais perto e filmar os dois músicos no camburão antes que sejam levados embora. Se defende reclamando que não há luz no interior do veículo suficiente para captar a imagem melhor e força a passagem para poder chegar mais perto. Ele acaba batendo com a câmera em um dos guardas sem pensar e este reage torcendo o seu braço e jogando-o no camburão também. “Está detido!”

Vão então procurar Stan Moore, a quem Dykerman no inicio havia feito queixa de agressão. Moore por se tratar de um ex-policial, viaja com os policiais, não no camburão. Enquanto fazem a viagem para a delegacia, Keith, Mick e Marshall estão tirando as baganas que estão no bolso e picando tudo em pedaços minúsculos. No aeroporto, Charlie Watts, Bill Wyman e Peter Rudge estão brigando com o sargento pelo tratamento recebido. Mas o oficial está ignorando os ingleses. Então os dois texanos entram na historia, Jim Price e Bobby Keys se segurando para não dar uma porrada no sargento. Os dois agridem verbalmente, xingando ostentosamente o sargento, querendo ser presos, mas não há mais algemas e o camburão já partiu. Bobby jura que assim que ele se retirar, ele vai encher o fotógrafo de porrada, portanto é melhor levá-lo desde já.

Em outro canto Peter Rudge e Jo Bergman estão no telefone preparando o contra-ataque. Jo Bergman consegue confirmar a contratação de um ônibus velho, único disponível neste exato momento como ela precisa, para leva-los até Boston. Peter Rudge por sua vez está falando ao mesmo tempo em três telefones, cada um para uma cidade diferente. Um para o promoter em Boston para explicar o ocorrido e confirmar que haverá mesmo um atraso. Em outro, ele fala com os advogados de Nova York, reportando a situação e mandando todo mundo se mandar para Boston imediatamente. No terceiro ele consegue um advogado local, via páginas amarelas, um sujeito chamado Joseph Galluci. Confirmada a presença de um advogado local cuidando do caso na delegacia, Rudge e Bergman colocam todos no ônibus assim que o veículo chega. Certos que todos estão a caminho de Boston, Rudge segue para a delegacia de Warwick.

A Festa de Boston

Chip Monck sabe que algo está errado quando percebe que os Stones não chegam e Stevie Wonder está quase na hora de começar a tocar. Ele conversa com Steve e pede para ele atrasar o seu começo. Wonder começa então com quase vinte minutos de atraso, imaginando que os Stones já estejam a caminho da arena. Antes de entrar, a informação de que o aeroporto estava fechado e que os Stones iriam aterrissar fora da cidade de Boston já havia se espalhado entre algumas pessoas nos bastidores. Monck lhe dá carta branca para fazer um set longo e basicamente tocar o quanto quiser.

Steve Wonder & the Wonderlove Band fazem uma apresentação de duas horas antes de deixar o palco. Ainda assim não havia nenhum sinal dos Stones e Monck então pede que Wonder volte para um bis. Mas Steve Wonder está exausto. Ele toca mais uma e depois deixa o palco com sua banda e seguem para o hotel. Chip Monck então assume o palco, e pede a platéia mais aplausos para Steve Wonder enquanto ele pensa o que fazer. Monck então informa que problemas técnicos atrasarão a apresentação dos Rolling Stones em pelo menos meia hora. Pede desculpa pela inconveniência e sai. Funcionou. O público avisado, estão psicologicamente preparados para aguardar civilizadamente, aproveitando o longo intervalo para comprar mais bebida, comida ou irem ao banheiro.

O Boston Gardens está com a casa lotada de pessoas e nenhum show para apresentar. A notícia da prisão em Rhode Island já chegou aos bastidores e todas as energias estão concentradas nas linhas telefônicas. O prefeito da cidade, um político poderoso chamado Kevin White, estava até pouco tempo disputando vaga para representar o seu partido como candidato a vice-presidente, caso Wallace vencesse a presidência. A vaga ficou para outro. Boston a três dias atrás, teve uma guerra em sua cidade entre os puerto-ricanos e a polícia, graças a uma prisão que foi interpretada como sendo de forma racista pela população. O prefeito foi às ruas pessoalmente tentar acalmar a população e depois de três dias, essa é a primeira noite que prometia ser sem incidentes.

Agito em Rhode Island

Quando o Prefeito White fica informado de que o Garden estava aguardando o show dos Rolling Stones começar e os Rolling Stones estavam literalmente presos em Rhode Island, ele sabe que se não agir rápido, sua cidade irá novamente explodir em conflito público. O Prefeito então liga para o Governador Clayborn Pell, no estado vizinho de Rhode Island. A notícia da prisão está espalhando rapidamente, mas ninguém dentro do Garden, afora aqueles nos bastidores, estão cientes.

O Prefeito Kevin White então liga para a delegacia de Warwick e conversa primeiro com Rudge e depois com o delegado. O fato do Prefeito de Boston ligar para a delegacia de Warwick pedindo para falar com alguém da comitiva dos presos já foi o suficiente para criar um mal estar entre os guardas. O delegado é instruído a liberar todos os homens ligados aos Rolling Stones imediatamente e escoltá-los pela estrada até a fronteira com o estado de Massachussetts. Lá eles encontrarão outra escolta policial aguardando pelos Stones para levá-los imediatamente à arena onde havia alguns milhares de pessoas aguardando impacientemente a banda. O oficial foi lembrado que se trata de um assunto de segurança pública e que o caso necessita ser resolvido imediatamente. Pouco depois de desligar, o Governador Clayborn Pell está na linha para dar instruções de que teriam que liberar com fiança de acordo com a lei todos os detidos pertencentes à equipe dos Rolling Stones.

Joe Galluci, o advogado local estava na delegacia, trazendo consigo a mulher e uma filha de quatorze anos. De short e meia, em uma noite calorenta de verão, Galluci, com um charuto na boca, faz uma reunião particular com o chefe de polícia. Enquanto isto, Rudge está no telefone providenciando duas limusines para levar o grupo para Boston. Galluci sai da reunião com o assunto encaminhado. Os detidos ficavam então obrigados de aparecerem para julgamento em 23 de agosto em Warwick. Evidentemente não comparecerão em pessoa, no entanto haverá advogados representando todos no dia e hora marcados.

Não demorou muito e começaram a chegar ligações de jornais de Nova York e Boston querendo confirmação na possível história da prisão dos Rolling Stones enquanto uma multidão os está aguardando para uma apresentação em Boston. Uma multidão de jovens da vizinhança já começam a cercar a delegacia e as limusines quando chegam são instruídas a estacionar no estacionamento subterrâneo como forma de evitar a curiosidade do povo.

A Festa no Boston Garden

Após a sua chamada, o prefeito seguiu então para o Garden para ver de perto como o público está se comportando. No Boston Garden, o prefeito chega temeroso de que tantos adolescentes e jovens adultos juntos são mais do que o suficiente para causar um pandemônio caso fiquem sabendo das prisões de seus ídolos. Resta saber como fazer para manter o segredo enquanto distraem o público. Ele é levado então a conversar com, o que alguém apresentou como, a voz de Woodstock. Ele encontra Chip Monck, que após informar a platéia que houve um atraso no vôo dos Rolling Stones à Boston, passa a distrair o público lendo Fernão Capelo Gaivota para as massas.

Monck ao ver a autoridade pede um momento a todos e vai até a lateral onde o prefeito se encontra. White vê nesse cabeludo a sua frente um homem que aparentemente não sente temor, e é extremamente cativante. White explica que precisa do aparato policial para patrulhar as ruas, uma vez que ainda há muita tensão depois dos eventos dos últimos dias. Mas ao mesmo tempo, ele precisa assegurar que a arena não corre o perigo de entrar em ebulição. Monck assegura que a melhor solução é a verdade e que Woodstock provou que a geração pode se auto policiar sem problemas. Monck então convence o prefeito a subir no palco com ele e comunicar pessoalmente a notícia da prisão da banda.

Monck faz a introdução do honorável prefeito de Boston, Kevin White, que é imediatamente recebido com uma onda de ‘vá se fuder’(Fuck you!) e ‘vai tomar no cú’ (Up yours!). Depois da breve balburdia, White informa que os Rolling Stones foram presos em Rhode Island mas que ele conseguiu com o governador de Rhode Island liberá-los, “portanto podem ficar tranqüilos que a banda já está a caminho com escolta policial.” O público agora em delírio passa a gritar o seu nome, como ele provavelmente nunca ouviu antes. O prefeito então pede a cooperação de todos, pois a cidade ainda sofre com os distúrbios dos últimos dias e portanto ele precisa levar com ele parte do aparato policial. Tranqüiliza afirmando que todos os trens e ônibus irão continuar em funcionamento até duas horas depois do fim do concerto, não importando a hora. Então ele fecha seu pequeno pronunciamento pedindo que todos vão para casa assim que o show terminar. E com o público aplaudindo e gritando o seu nome, o prefeito se retira do Garden, levando com ele quase dois terços dos policiais que lá se encontravam.

Entrando nos limites da cidade de Boston, uma escolta da polícia municipal os leva até o Garden. Pelo caminho, podem ver pela janela, o brilho no horizonte vindo da direção dos guetos puerto-riquenhos, novamente em chamas. O tumulto lá voltou a arder. Mick e Keith estão pasmos com a imagem. Chegam e entram correndo para os vestiários, um zum-zum-zum imediatamente chegando até a platéia onde os boatos cessam com o anúncio de Chip Monck, “Senhoras e senhores, Mick e Keith acabam de chegar.” O povo urra em satisfação, o sono e tédio da espera espantado.

Quando os Rolling Stones finalmente sobem no palco, já passa da meia noite e as pessoas ali presentes esperaram por mais de cinco horas dentro do prédio, fora o tempo que levaram para entrar. A banda então ataca com Brown Sugar, com uma fome de palco e um prazer por poder se apresentar que liberou toda a tensão presa em todos os presentes. Público e banda se tornaram um, em um orgasmo raro de quase cinco minutos. Nos bastidores, pelos corredores, todos estão dançando, todos estão movidos pela música que finalmente explode a todo volume, muitos cantando junto no refrão. Brown sugar! How come you taste so good? Lá pelo o meio do show o cansaço e estafa do longo dia que passaram finalmente se abate sobre a banda. Ainda assim não deixam o palco sem executar pelo menos um bis.

Agradecendo o Prefeito

Como soldados retornando da batalha os músicos seguem para o hotel pensando apenas em irem dormir. Mas outros assuntos tomam precedência. Durante boa parte do show, Gary Stromberg está no telefone negociando para que a imprensa divulgue a versão dele sobre o incidente e de mais ninguém. Com a ficha policial de Mick e Keith, existe uma séria preocupação de manter os dois em condições de poderem solicitar futuros vistos sem problemas. Assim, antes de serem liberados para irem dormir aquela noite, houve uma reunião com todos os músicos e pessoas de comando dentro da equipe STP para serem instruídos no que devem e no que não devem mencionar caso sejam entrevistados sobre o assunto.

No dia seguinte, Keith Richards ainda conseguiu ir assistir uma apresentação de Bobby Womack tocando em outra parte da cidade. Após o seu set, Keith foi correndo para o segundo show dos Stones no Boston Garden. Chegando lá, os Rolling Stones recebem o Prefeito White nos bastidores, dando a ele de presente um pôster autografado por toda a banda. Estão todos, especialmente Mick e Keith, agradecidos pelo envolvimento do prefeito na liberação dos dois.

No jornal durante o dia, o Prefeito de Warwick anunciava que o incidente com a banda Rolling Stones tratava-se de uma questão legal e não espelhava necessariamente o gosto da comunidade de Warwick pela banda como músicos. Curiosamente, durante boa parte daquela noite uma tempestade de verão tomou conta do Estado de Rhode Island deixando o estado totalmente às escuras. Segundo consta, a eletricidade no estado somente foi restabelecida duas horas depois, mais ou menos a hora que os Rolling Stones deixaram o palco em Boston.

Philadelphia


Em Philadelphia, foram novamente três shows em dois dias, quinta e sexta. Apresentações ótimas, a banda está gravando tudo visando a possibilidade para um álbum ao vivo. Várias gravações piratas irão surgir no mercado destas três apresentações. Em uma delas ouvimos Mick Jagger fazendo menção a intenção de lançar um álbum com o show da noite. O público aplaude efusivamente. O público aliás estava bem calma e nenhum incidente ocorreu dentro ou fora do local do show. Entre o que se pode chamar de celebridades assistindo ao show estavam Kris Kristofferson, Dave Mason e Mary Travers do trio Peter, Paul & Mary.

De palhaçada, Stromberg e Monck colocaram um pedaço relativamente grande de fígado de boi dentro da tal bacia de flores que Jagger lança no final do set. Quando a hora chega, Jagger percebe uma diferença no peso sem se atentar do que possa ser a razão. Quando lança as flores no ar, ele vê um objeto estranho e escuro voar pelo ar e cair sobre alguém. Não demorou muito para o objeto ser lançado de volta para o palco, o fígado sangrando asquerosamente enquanto a banda ainda está se retirando. Jagger perplexo de inicio não demora para descobrir os culpados. Como bis, fecham a noite com Stevie Wonder e sua banda participando do final, tocando “Uptight” e “Satisfaction.”

Cinema Verdade

No dia seguinte durante o segundo show, Robert Frank quer filmar uma certa cena e manda alguém procurar uma menina bonita para interpretar seu papel em cinéma vérité. Encontram uma menina de 19 anos, originariamente de Michigan chamada Renee. Groupie aprendiz, Renee passou a noite anterior dormindo com dois roadies após conseguir carona na limousine pelo preço de alguns boquetes durante a viagem. Tudo é novidade para ela, no que se refere a este ambiente cheio de estranhos, todos ligados ao show biz.

Agora, ela está sendo levada para um caminhão. Lá há um estúdio móvel, com uma equipe trabalhando, prestando atenção no show que está desenrolando. Renee é então instruída a chupar o pau do engenheiro de som enquanto ele está gravando o show para a Rádio Luxeburgo. A equipe de filmagens registraria a cena. Então temos para o filme, a cena onde Renee, chupa o pau do grande profissional, enquanto este se esforça a manter pelo menos parte de sua mente no show. Enquanto isto, ouvimos Jagger e os Rolling Stones no palco executado Midnight Rambler com costumeira fúria. Renee olha e sorri para a câmera entre linguadas. Cinéma vérité encontra Rock ‘n’ Roll. (A cena acabou não sendo aproveitado no filme.)

A História do Avião

Renee dormiu novamente no hotel, primeiro com Marshall Chess, mais tarde com o Dr. Larry e na manhã seguinte com Leroy, o segurança. Encontrada no corredor, Robert Frank a convida para outra cena que ele imaginou, desta vez envolvendo o tópico orgia. Ficou combinado que ela seguiria com mais duas outras groupies no avião onde seria filmada a cena que pretende recriar algo parecido com as histórias contadas das excursões do Led Zeppelin.

Bill Wyman estava com Stephen, seu filho, que chegara a poucas horas de Londres. Sendo informado da programação na hora, pensa rápido e leva o menino para a frente do aeroplano. Com a ajuda de Astrid, passam a distrair o menino olhando pela janela e criando imagens com os formatos variados das nuvens. Tanto pai quanto filho estão se divertido muito enquanto no fundo do aparelho, outro tipo de imagens são criadas.

Frank filma no fundo do aparelho, onde Mary, que conversava com o bom doutor, solicita que ele escute seu coração. Ela então retira sua sweater, estando então nua da cintura para cima. Ela é então repentinamente retirada do banco por Willie e levada para a área perto dos banheiros onde não há poltronas para atrapalhar. Margo e Renee em seguida aparecem. As duas meninas passam a ser então despidas por dois roadies. Com isto, chegam Bobby Keys, Mick Jagger, Keith Richards e Mick Taylor. Rindo e totalmente no espírito da encenação, começam uma pequena batucada de inglês, tocando pandeiro e tamborim como trilha sonora para a suruba.

Bobby Keys se mete no meio, pega Mary, a vira de cabeça para baixo e começa a chupar sua xoxota, bem diante das câmeras. Ele passa então a derramar suco de laranja sobre o pessoal que está ainda no estágio inicial da suruba no chão. O fuque-fuque mal começa e a batucada de Keith e Mick está assustando a Renee. Ela está com medo da possibilidade daquela música ser alguma espécie de evocação de voodoo. Renee grita e esperneia para que a larguem, apanha parte de suas roupas, deixa o resto para trás. Ela segue então correndo para o centro do aeroplano onde a monotonia do som dos motores prevalece. Enquanto isso os dois rapazes estão comendo Margo e Mary. No fim, uma das câmeras focaliza a mancha de porra espalhada nas costas de Mary enquanto ela tenta vestir novamente sua camisa.

Frank volta para conversar com Renee e a convida então para uma filmagem exclusiva, trepando com apenas um roadie. Triste por ter decepcionado a pessoa que havia dado a ela a oportunidade de viajar com os Rolling Stones, ela topa. Com as câmeras rodando, Renee e o roadie começam a se despir. Renee então passa a chupar o pau do sujeito em seu estilo tão peculiar que já criara um pequeno fã clube. Mas quando ela tenta passar para o segundo estágio e copular com o rapaz, ele brocha. Ela então reinicia a fase um, embora já estando um pouco nervosa e ansiosa. Bobby Keys senta na poltrona ao lado do casal para estudar sua técnica de perto. Ela pede para beber um gole de seu whiskey mas ele recusa, “Não com essa boca melada de pau.” Renee já está estressada e fica puta da vida com a gracinha. Ela manda Keys a merda mas o dialogo é interrompido pelo aviso do alto-falante que o avião já vai aterrisar. Frank da ordem para continuar a filmagem, portanto Renee e o roadie recomeçam. Infelizmente a tensão em parte pela platéia afeta o rapaz que não coopera mantendo seu mastro estendido.

Stickers de identificação com os dizeres STP são entregues a todos, um sendo colado na bunda de Renee enquanto ela continua malhando o ferro em nome da arte. O avião já pousou e todos já deixaram o aparelho. Passaram pelo saguão e aguardam no ônibus lá fora, enquanto a cena não é concluída lá dentro do aeroplano. Quase uma hora depois chega Renee, cansada porém com sua missão cumprida, encontrando um lugar no fundo do ônibus junto à janela.

Em Pittsburg, Monck e Stromberg preparam outra gaiatice. Desta vez colocam uma cabeça de porco, topando em muito a audácia do pé de galinha inicial. Mas antes de receber a bacia de flores, Jagger já havia instruído Leroy para verificar a bacia e livrar-se de qualquer objeto indesejado que ele possa encontrar. Quando Leroy lhe mostrou a cabeça de porco, Mick pego-a e jogou na direção de Chip, que consegue se esquivar a tempo. Monck e Stromberg riram um bocado pelo fato de Mick ter tomado uma medida de proteção.

Nova York

Em Nova York, novamente há uma grande preocupação em relação a segurança. Estas serão as últimas oportunidades que os Hells Angels terão de causar problema se esta for a intenção deles, como tanto ameaçaram. Como precaução, os cinco integrantes foram colocados em hotéis diferentes e registrados com nomes falsos. No Pierre Hotel estavam Mick Jagger e Mick Taylor, registrados respectivamente como Mr. Shelly e Mr. Ramanoff. Bill e Charlie hospedaram-se no St. Regis Hotel, Wyman como Lord Gedding. Keith e Bobby Keys ficaram no Carliste Hotel, Keith usando o pitoresco nome de Count Ziggenpuss.

Mick e Bianca não ficam muito tempo em Manhattan, aceitando um convite da Princessa Lee Radziwill de passar o dia na casa de campo em Southampton, Long Island. Quando retornam, é a loucura de sempre. Como é o fim da estrada, há muita promoção por parte da mídia. Gente de toda espécie aparece nos bastidores, o que é rotina se tratando de Nova York.

Terry Southern e Truman Capote reaparecem, assim como Andy Warhol e Dick Cavett também aparecem nos bastidores antes e depois do show. A festa realizada após a primeira noite é freqüentada mais por convidados do que por Rolling Stones. Mick e Bianca aparecem com três horas de atraso e são tão cercados por pessoas da imprensa e fotógrafos que sem parar em um ponto, circundam a sala e voltam em direção aos elevadores, deixando a festa em seguida. Keith conversa com algumas pessoas em uma mesa, sua voz um leve murmúrio sem conseguir efetivamente falar nada que alguém consiga entender.

Para o próximo show no dia seguinte, 25 de julho, Dick Cavett que tem um relativamente famoso programa de entrevistas está lá a trabalho. Pretendem gravar entrevistas com todos os Rolling Stones dando a oportunidade para o público médio conhecer um pouco o ambiente de bastidores de um concerto de rock. Uma das primeiras entrevistas concedidas é com Bill Wyman que conversa amigavelmente enquanto fuma um baseado. Outro que acaba entrevistado é Mick Jagger, que enquanto conversa com Dick faz sinais e gestos para uma dezena de pessoas sobre centenas de assuntos diferentes, todos ligados ao show que irá começar dentro de poucas horas.

Madison Square Garden

Na ultima noite, dia 26, é o fim da excursão e também aniversário de Mick Jagger. Chip Monck discutia desde o dia anterior sobre suas idéias de como comemorar a ocasião. A primeira idéia era trazer um elefante para o palco munido de uma rosa na ponta da tromba. O animal daria a rosa para Jagger e depois gentilmente daria um tapinha com a tromba na bunda do cantor antes de se retirar. A gerencia do Madison Square Garden barrou a idéia aludindo para a probabilidade de a multidão de adolescentes gritando ser o suficiente para colocar o paquiderme em um frenesi perigoso.

Monck então aludiu para a idéia de jogar balões e confete na multidão, jogadas do teto da casa. Os balões foram também proibidos, mas a idéia do confete foi aceita a principio. Monck depois mudou de idéia achando confete pouco. Ele resolveu então jogar cinco mil galinhas vivas do teto sobre a multidão e tratou de passar o dia procurando onde comprá-las. Quando a gerência do Garden soube da historia das galinhas lacrou todo o acesso ao teto e as instalações que por lá passam. Chip então comprou um caminhão cheio de tortas de creme e preparou uma guerra de tortas. A gerência confiscou as tortas e Chip Monck foi quase proibido de permanecer nos bastidores durante o último show.

Mas a brincadeira de Monck não fora ainda totalmente estragada. Ele havia escondido mais tortas junto às caixas de som e aguardava apenas o fim do show para o parabéns-pra-você. Este é executado logo após o bis, enquanto um carrinho com o bolo é levado até o palco. Bianca aparece presenteando o marido com um panda de pelúcia e um beijo. Ao lado, Chip Monck aguarda apenas o fim do beijo para acertá-lo com uma torta. Com o carrinho cheio de tortas, Mick pega uma e joga na direção de Charlie que está sentado na bateria em sua costumeira pasmeira. Não demora muito para todos estarem cobertos de creme, no palco como também seguindo com a banda para os bastidores.

Festa no St. Regis Hotel

Como costuma dizer o clichê, todo mundo que era alguém estava lá. A festa de aniversário de Mick Jagger, patrocinada pelo pessoal da Atlantic Records é realizado no terraço de um dos mais prestigiados hotéis da cidade. Mick Jagger se hospedara no quarto onde o Presidente Richard Nixon costuma ficar quando está na cidade, com o quarto ao lado alugado só para guardar os presentes.

A lista de convidados é imensa e contem artistas e socialites em diversos níveis de importância. Entre os nomes estavam os de Carly Simon, Bob Dylan, Betty Midler, Dick Cavett, Andy Warhol, Candy Darling, Truman Capote, Princesa Lee Radziwill, Sylvia Miles, Bill Graham, Ahmet Ertegun, Sr. & Sra. Walther Moreira Sales, Grazielle Lobo, Oscar & Françoise de la Renta, Conde Vega del Ren, Nitia Guerini Maldini, Giani Bulgari, Andrea de Portago, Ceezee & Winton Guest, Lord Hesketh, Isabel & Freddie Eberstadt, Woody Allen, Dianne Keaton, Tennessee Williams, George Plimpton, Huntington Hartford, Robert Rotchschild, Lorna Loft e Zsa Zsa Gabor.

A música ao vivo é fornecido por Count Basie e sua orquestra, com direito a uma apresentação de Muddy Waters e sua banda. Charlie Watts quase chora assistindo Count Basie e lá pelas tantas, outro bolo é trazido, este gigantesco. E do bolo, sai uma mulher negra semi nua dançando e rebolando retornando no final para dentro do bolo falso. Bill Wyman, ainda com seu filho Stephen de 10 anos, conversa com o garoto e faz tudo parecer uma grande brincadeira. Papai Bill aponta para Candy Darling e pergunta, “Está vendo aquela linda moça filho? Ela na verdade é um homem.” O menino perplexo acha que o pai está de sacanagem. Mais tarde Candy Darling, travesti celebrada na música “Walk On The Wild Side” de Lou Reed, vem puxar conversa na mesa dos dois. Bastou ouvi-lo falar que Stephen imediatamente percebeu que o pai não estava brincando.

Concluindo em Los Angeles

Os Rolling Stones, Jo Bergman e Peter Rudge, além daqueles que moram em Los Angeles mesmo, retornam a costa oeste para a última grande reunião. Ao final, conclui-se que as contas mostram um lucro para os Rolling Stones de $1.5 milhões de dólares, praticamente $400 mil dólares para cada membro da banda. Um bom pontapé inicial para restabelecer as condições financeiras da banda e de sua empresa. Uma boa parte deste dinheiro será utilizado para colocar a situação fiscal de todos novamente em ordem com o Império Britânico. Jagger também aproveita para conversar a respeito de uma excursão dos Rolling Stones para o oriente para o ano que vem. Peter Rudge recebe o sinal verde para verificar locais e fazer os primeiros contatos.

Não só pelo lado financeiro, mas por todos os aspectos, a excursão Americana de 1972 foi excepcionalmente boa para os Rolling Stones. E diferente da excursão anterior de 1969, outro marco na carreira da banda, esta, diferente daquela, será tratada com um maior profissionalismo. De fato, esta excursão dos Rolling Stones, com todo o seu planejamento e detalhes, será usado como molde para excursões a seguir de outras bandas, igualmente capazes de levantar o interesse de tamanha quantidade de pessoas.

Por anos, a imagem mais lembrada dos Rolling Stones será essencialmente esta de ‘72. Toda a historia pregressa da banda passa a apenas ajudar a cimentar esta imagem. Não necessariamente a banda com Mick Taylor, ou todos de feições ainda jovens, mas a imagem do Mick Jagger como dono da banda. Ele é o espetáculo, com suas roupas cintilantes e um pique de palco impressionante, além de dono de uma voz incansável que dura por todo o show. E a sua direita, o parceiro Keith Richards - o bandido do rock, o perigoso, que passa a ser apelidado agora de o Riff Humano. Enfim, reafirmam em absoluto o status de ser “A Maior Banda de Rock ‘n’ Roll do Mundo.”

Uma segunda e última festa comemorando o aniversário de Mick Jagger foi realizada, onde Little Richard foi contratado para fazer uma apresentação. Depois, a despedida final do resto que sobrou da já extinta equipe STP. Chris O’Dell em estafa deixaria seu cargo na Rolling Stones Records, permanecendo alguns meses de férias, segundo ela, reaprendendo a comer e dormir em horários ditos normais. Jo Bergman também depois de anos a serviço do rock ‘n’ roll, primeiro trabalhando para Brian Epstein e a NEMS, para depois ir trabalhar para Mick Jagger e os Rolling Stones, resolve que chega e que está cansada da vida. Rudge, assim como Monck voltariam a trabalhar com os Stones nas próximas excursões. Para estes, não existe outro tipo de vida.

Parte 41 - Jamaica e os Rastafaris

Depois, a despedida final do resto que sobrou da já extinta equipe STP. Chris O’Dell em estafa deixaria seu cargo na Rolling Stones Records, permanecendo alguns meses de férias, segundo ela, reaprendendo a comer e dormir em horários ditos normais. Jo Bergman também depois de anos a serviço do rock ‘n’ roll, primeiro trabalhando para Brian Epstein e a NEMS, para depois ir trabalhar para Mick Jagger e os Rolling Stones, resolve que chega e que está cansada da vida. Rudge, assim como Monck, voltaria a trabalhar com os Stones nas próximas excursões. Para estes, não existe outro tipo de vida.

Retorno à Europa

Dos Estados Unidos, os cinco Rolling Stones passam pela Inglaterra, onde os advogados da firma Rolling Stones e o responsável por finanças Rupert Lowenstein explicam que será possível para a banda fazer uma excursão pela Inglaterra desde que seja depois de abril de 1973, fim do ano fiscal de ‘72. As questões pendentes em relação à França tambem são discutidas e conclui-se que é chegada a hora de deixar a polícia francesa interroga-los e ter isto resolvido antes da futura excursão Europeia, também estudada para o ano que vem. Somente Keith não retornará à França e será representado pelos advogados.

Uma vez traçado o plano de ação, dia 5 de agosto todos seguem para Paris onde pegarão uma conexão para Nice. Apenas Mick e Bianca resolvem permanescer em Paris e conversar antes com advogados franceses. Bill e Charlie ao desembarcar em Nice são atuados e levados para interrogatório. São suspeitos de tráfico e de uso de entorpecentes na residência de Nelcôte, uma vez que as acusações feitas pelo cozinheiro da casa em novembro passado ainda estão sendo investigadas. Com a ausência dos moradores no país, foram expedidas ordens de prisão para todos os integrantes da banda. Contudo não há nenhuma prova concreta de absolutamente nada, apenas circumstanciais, uma vez que membros da máfia da Córsega foram vistos no local e a grande quantidade de tóxico foi encontrada na residência já vazia. A acusação da filha do cozinheiro de ter sido forçada a injetar heroína, não dá à policia provas de que estas ações realmente ocorreram. Após Charlie e Bill serem interrogados, foram liberados e retornaram finalmente para suas respectivas residências. Precisarão comparecer diante de um juiz em setembro para ouvir formalmente as acusações.

Vevey

Hôtel des Trois
Hôtel des Trois

Enquanto isso, Keith Richards retorna para a Suiça para se reencontrar com Anita, Marlon e Angela. Morando agora em Vevey, no Hôtel des Trois, ele passa seus dias à-toa com Anita e as crianças. Keith agora goza o melhor período financeiro de sua vida, e não pensa duas vezes em gastar sua fortuna. Antes ele comprava brinquedos de adultos como carros, motos, hovercrafts e outras engenhocas que acabam esquecidos depois de um tempo. Keith agora passa a investir em imóveis.

Tendo agora uma filha suíça e estando com sua residência fixa neste país, é praticamente um passo natural Keth Richards comprar um chalé deixando o hotel. O local escolhido ficava a algumas horas de Genebra, numa villa chamada Le Pec Varp em Villars-sur-Ollon. Foi então contratada uma agência para fornecer uma empregada para limpar e cuidar da casa e uma babá. A familia Richards se muda para a nova residência no dia 9 de agosto de 1972, Keith mandando trazer da Inglaterra o seu carro Lena, que antes cor-de-rosa, agora foi pintado de azul.

Keith e Anita adaptam-se facilmente à vida Suíça. Sem polícia ou imprensa constantemente rondando à procura de uma estória, sentem-se seguros. Os seus vizinhos também são um fator positivo neste novo ambiente. No melhor estilo ‘viva e deixe viver’, ninguém xereta, ninguém se mete, e as amizades locais que acabam fazendo se preocupam em proteger Keith de curiosos, geralmente da imprensa estrangeira. É através destes novos amigos que chegam às mãos de Keith dois discos de um novo som que começa a chamar atenção na Inglaterra.

Keith e Marlon na Suiça
Keith e Marlon na Suiça

O gênero chama-se reggae e os discos são “Catch A Fire” do The Wailers e “Harder They Come”, uma trilha-sonora do filme com o mesmo nome. São literalmente os dois únicos álbuns de reggae editados no país até então. Este segundo álbum oferece faixas de diversos artistas do gênero. O filme, uma produção rodada na Jamaica, se torna um sucesso relativo na Inglaterra, ajudando a iniciar o interesse britânico pelo reggae. Keith e Anita se deliciam ouvindo reggae praticamente o dia inteiro.

Reggae é em si, uma música relativamente nova que nasce na ilha da Jamaica por volta de 1968. É uma evolução de outros dois sons da região, o ska, música essencialmente urbana e o mento, música essencialmente rural. O reggae desacelera o tempo do ska, reforçando a marcação feita pela bateria com linhas de baixo pulsantes e menos melódicas. Inicialmente denominados de rocksteady, tornam-se reggae quando começam a incluir letras menos inocentes, herdando do mento esta tendência de falar dos problemas e sofrimentos da vida. Apenas agora, em meio a pobreza e desilusões após a independência da ilha do Reino Unido, o reggae torna-se a música da juventude politicamente insatisfeita com seu país. Ela será a música adotada pelos rastafaris que batizam o estilo de reggae, a palavra significando “pertencente ao Rei.” Outras fontes sugerem que a palavra reggae seja apenas uma corruptela de ‘ragged’ (esfarrapado). O reggae passa também a ser chamado de ‘o rítmo de Jah.’

Mick T de Baixo Astral

Mick Taylor retorna para o convívio de casa ao lado de sua mulher e a filha. Ávido consumidor de cocaína, Mick T está deprimido e infeliz. Tendo passado tanto tempo longe, quando retorna para casa, seu estado de espírito pesa feito chumbo no relacionamento do casal. Rose está sempre reclamando, se mostrando uma mulher um tanto quanto manipuladora. Ela ocasionalmente solta palavras em direção a um assunto tabú, largar os Rolling Stones.


Depois do nascimento de sua filha Chloe, Mick T tem seguidamente tentado analisar sua vida. Quando ele entrou para os Rolling Stones, ele não bebia álcool nem comia carne. A única coisa ilegal que gostava realmente de fazer era fumar maconha. Agora, ele percebe que entrara no rítmo de Mick e Keith. Ele se tornara um viciado em cocaína e ocasionalmente usa heroína. Ele começa a temer ficar no mesmo estado de Keith. Mick T tem cheirado tanto pó nesses últimos três anos que seu septo nasal foi corroido. Trata-se de uma membrana que separa as duas narinas. O problema é relativamente comum entre usuários excessivos de cocaína. Taylor vai para uma clinica londrina para operar o nariz. Os médicos substituiem seu septo carcomido por um novo feito de plástico.

O casal não pode ficar muito tempo na Inglaterra e estão com receio de retornar para o lar na França. Enquanto em Londres Mick e Rosie fazem amizades com Roy Martin, ator de trinta e cinco anos e diretor de algumas peças de teatro. Naquele ano, ele estaria dirigindo uma peça chamado “Remember The Truth Dentist” que estava sendo encenada no prestigioso Royal Court Theatre. Durante os anos de 72 e 73, Martin seria visto com o casal Taylor com certa freqüência.

Embora Mick Jagger leve sua família a morar em Londres, abrindo novamente o seu apartamente em Cheyne Walk, agora para o conforto de Bianca e Jade, ele mesmo se vê obrigado a ficar saltando de lugar em lugar, geralmente circulando entre Londres, Paris e Nova York. Assim, Mick passa a ter casos cada vez mais freqüêntes com uma grande quantidade de mulheres. Em Nova York, seu caso era com Carly Simon, a quem conheceu melhor no final da última excursão americana, durante a festa de despedida no St. Regis Hotel.

Acusação Formal em Nice

Charlie Watts e Bill Wyman compareceram à corte no dia 7 de setembro de 1972 como combinado. A acusação de uso de entorpecentes em Nelcôte foi formalmente feita e negada pelos dois Stones. As investigações feitas durante o ano que passou renderam uma apreensão de grande quantidade de tóxico em Marselles e algumas das pessoas presas haviam confirmado que viram membros dos Rolling Stones usando entorpecentes naquela residência. Embora esta afirmação dê validade à acusação anteriormente feita pelo cozinheiro e testemunho de sua filha, no entanto não é o suficiente para afirmar que estes dois membros dos Rolling Stones foram os usuários. Tampouco fica claro se fazem correta distinção entre os cinco integrantes da banda ou de qualquer membro de sua equipe técnica, ou até mesmo, se não há a possiblidade de os confundirem com alguns de seus muitos convidados que circularam livremente pela residência durante aquele periodo em que a familia Richards residia lá.

A investigação necessita do testemunho do responsável pela casa, Keith Richards. Ele é quem terá que responder pelas atividades executadas lá. Assim, enquanto o julgamento não seja concluido, o juiz concede tirar os nomes de Bill Wyman e Charlie Watts da lista negra nos aeroportos e fronteiras francesas, para que possam entrar e sair do país sem maiores problemas. Uma vez liberados Bill e Astrid seguem para Londres para visitarem Stephen que está prestes a reiniciar o novo ano letivo.

O Casal Mick e Bianca

Carly Simon
Carly Simon

Mick Jagger deixa Paris e segue para Nova York onde participa de uma gravação para o novo disco da Carly Simon. Jagger canta na faixa “You’re So Vain”, canção que Carly escreveu pensando e criticando Warren Beatty. Bianca, com ciumes, deixa a residência de Cheyne Walk e retorna a Paris. Curiosamente, Bianca mais tarde, após sua separação com Mick (porém antes do divórcio), teria um romance justamente com Warren Beatty.

A relação entre o casal Mick e Bianca já não anda inteiramente bem. Mick já não lhe dá toda atenção como antes. As longas temporadas na estrada obrigam Bianca a ficar sozinha com a criança em casa, enquanto em sua mente, Mick está brincando e se divertindo na companhia de outras mulheres durante as viagens de negócios e excursões. Bianca sabe que as coisas são assim, mas procura punir seu marido pelas sua infidelidade. Bianca foge para Paris e lá desaparece com a ajuda de amigos e amigas. Jagger ao retornar a sua casa, fica aborrecido com a atitude da mulher que deixara Jade nas mãos da babá. Mick segue a Paris atrás dela.

A Última de Marianne


Marianne passara a morar de favor por algum tempo na casa de Pamela Mayall, depois que esta se separou de seu marido John. Dependente de heroína, certo dia Marianne se aplica e adormece na banheira com a água quente aberta. Enquanto Marianne é cozida viva na água escaldante, a banheira transborda e avança sobre a casa. Horas depois Pamela chega e entra em pánico. O seu lar está com água transbordando em cascatas descendo escada abaixo, água infiltrando as paredes, escoando pela fresta da porta de entrada e escorrerendo rua afora. Para piorar a situação, antes de conseguir chegar até a banheira, ela escorrega no piso do banheiro molhado e cai, batendo com a cabeça e sangrando pelo nariz.

Pamela comprensívelmente expulsa Marianne da casa. Sem dinheiro e praticamente sem carreira, Marianne se muda para o Soho, escolhendo uma casa abandonada, escombros de edificações bombardeadas durante a guerra. Lá ela passa o dia encostada em um muro, seu endereço fixo pelos próximos três anos, dormindo no chão de uma das ruínas, junto com outros degenerados, viciados e fudidos feito ela. Apaixonada pela literatura de William Burroughs, Marianne pavimenta sua estrada para a ruína. Pelo caminho, ela iria perder a posse de seu filho Nicholas para o pai do menino, John Dunbar. Sua mãe, Eva Faithfull, ao ser obrigada por lei a entregar seu neto ao pai, comete suicidio tomando uma overdose de morfina. Sua amiga Carol a encontrou desmaiada ao lado de uma carta de adeus. Levada ao hospital, sobreviveu, porém, ao se recobrar, ficou furiosa por ainda estar viva.

A Trilha Sonora

Era a intenção da Rolling Stones Records lançar um disco ao vivo com as melhores versões do material gravado durante a excursão, reunidos em um álbum duplo. Houve uma audição do material, versões devidamente garimpadas, e um álbum foi mixado e compilado. Bill Wyman chegou a ser chamado para fazer alguns overdubs sobre suas linhas de baixo. No entanto, Allen Klein ao saber da intenção deste lançamento, logo avisa que ele lutará pelo direito de uma parte dos lucros, calcado no fato de poder provar que o álbum Sticky Fingers havia sido lançado com material gravado durante a época que a banda ainda estava sob contrato com ele. Esta briga, ou melhor, a inevitável briga que o lançamento do disco traria, faz com que Rolling Stones Records optassem por abortar o projeto. Segue a listagem do disco que seria, se fosse...

- You Can't Always Get What You Want (MJ/KR) - Houston 25.6, 1o show
- Sweet Virginia -Philadelphia 21.7, 1o show
- Bitch -Philadelphia 20.7
- All Down The Line -Houston 25.6, 1o show
- Happy -Fort Worth 24.6, 1o show
- Tumbling Dice -Philadelphia 20.7
- Rip This Joint -Fort Worth 24.6, 1o show
- Gimme Shelter -Philadelphia 20.7
- Brown Sugar -Philadelphia 20.7
- Uptight (Sylvia Moy/Henry Cosby/Stevie Wonder) /Satisfaction - Philadelphia 20.7

Curiosamente, no dia 11 de agosto de 1972, a rádio WMMS - Radio Cleveland, colocou no ar este material na integra, fonte para interessantes versões piratas a pipocar nas lojas de discos nos meses seguintes.

Buzzard

Charlie Watts e Bill Wyman mais as respectivas, retornam para suas residências na França. Quando Bill Wyman e Astrid passam pela alfandega, a polícia de Nice novamente lhe dá tempo quente. Aparentemente, seu nome ainda está constando na lista negra.


Depois de algumas horas sendo maltratado, Bill Wyman acaba sendo liberado e passa a viver uma existência ainda mais reclusa em sua residência em Vence. Para passar o tempo de forma produtiva, Bill produz o disco de Tucky Buzzard, banda que surgiu das cinzas do The End. Alugando para o projeto o Rolling Stone Mobile Record Unit, as gravações são realizadas em seu estúdio caseiro em Vence. Além da produção, Bill Wyman toca piano em algumas das faixas. O album irá sair pelo pequeno selo Purple Records em novembro de 1973.

Irlanda

Rumores de que a polícia Francesa estava preparando um bote para cima dos Rolling Stones começa a deixar todos inseguros. Mick liga para Bill e Charlie de Paris e aconselha os dois a ficarem preparados para deixar a França a qualquer momento. Mick e Bianca Jagger deixam Paris e retornam a Londres. Então seguem para a Irlanda, apenas por precisarem deixar a Inglaterra, uma vez que Jagger ainda vive como um exilado enquanto o ano fiscal de 1972 não termina. Mick Taylor, Rose e Chloe também vão para a Irlanda, basicamente pelos mesmos motivos. Há esperanças que a viagem também possa servir para melhorar a harmonia que está faltando ao casal.

Encontro em Montreux

Mick depois vai visitar Keith na Suíça para que juntos possam começar a trabalhar nas composições para o próximo álbum. No entanto, a química da dupla não era mais a mesma. Mick encontra um Keith excessivamente dependente de heroína e incapaz de trabalhar de forma coerente. Keith por sua vez está enjoado da imagem ‘jet set’, baba ovo de grã-fino que ele julga ser o seu antigo amigo e comparsa.

Baiscamente, o encontro serviu para efetivamente acabar com a relação de coperação sincera e artística entre os dois. Keith passa a usar a velha tática de botar Mick para esperar eternamente pela sua presença, coisa que ele já fizera em Nellcôte. Mas o fim da linha foi quando Keith lhe apresentou como um trabalho de parceria, um germe inicial de música que mal durava cinco segundos, e mandou Mick completar dali. A letra, se quiser chamá-la assim, consistia apenas de “o-o-o-o-o, Angie.” Mick Jagger tomou esta nova concepção de parceria como um sinal para ir embora e cuidar sozinho de suas próximas composições.

Keith e Anita, tomados pelos som do reggae, resolvem conhecer a Jamaica. Quando lá chegaram, o casal se apaixona pelo lugar. Dentro de alguns dias, Keith está conversando com Mick J pelo telefone, contando sobre este novo paraíso encontrado. Rapidamente Jamaica se torna um ponto plausível para a banda trabalhar, permanecendo fora das garras fiscais da Inglaterra e longe dos aborrecimentos que borbulham na França. Mick Jagger em rota, passou o dia 22 em Nova York com os Lennons num estúdio da Record Plant. Jagger toca violão, pela primeira vez em uma participação para um trabalho alheio, contribuindo na canção de Yoko Ono, “Is Winter Here To Stay?”. A faixa será incluída no álbum Aproximatly Infinite Universe, lançado no primeiro mês do ano de 1973 pela Apple Records.

Outro programa agendado, Mick e Bianca passam por Washington DC para fazerem uma doação de $857.500 dólares para o Fundo de Desenvolvimento Pan Americano. Este ato age positivamente para ele Mick Jagger pessoalmente, como também para a firma e banda Rolling Stones. Mick passa a ser bem quisto por uma serie de politicos poderosos dentro dos Estados Unidos, como também com o embaixador Americano na Inglaterra, Walter Annenberg. Esta amizade lhe será conveniente no futuro.

Kingston

Terra Nova Hotel
Terra Nova Hotel

Os demais Rolling Stones e suas respectivas esposas e filhos chegam à cidade de Kingston no dia 23 de novembro, todos se hospedando no Terra Nova Hotel. Com as perspectivas positivas em relação ao saldo das contas bancárias dos dois, Keith e Mick aproveitam o sol na piscina do hotel Terra Nova para conversar sobre finanças. Keith, que já investira seu dinheiro na compra de seu novo chalé na Suíça três meses antes, conclui que seu próximo investimento será mesmo na Jamaica.

Como Anita e Bianca continuavam a se estranhar, nenhuma das duas felizes com a presença da outra, Keith facilita as coisas aumentando a distância entre os Richards e os Jaggers. Ele aluga uma residência chamada Casa Joya, situada no norte da ilha em Ocho Rios, perto da baía de Mammee.

Dynamic Studio

Keith soube que Paul Simon havia gravado algo no Dynamic Studio de Byron Lee, mesmo local onde Peter Tosh gravara o seu disco. Byron Lee era um conhecido músico local, que tinha uma banda de ska muito popular na virada das décadas de cinquenta e sessenta chamada The Dragonaires. Byron Lee & the Dragonaires representaram seu país durante a Feira Mundial realizada em Flushing, NYC em 1964. Na ocasião, a Jamaica havia conquistado recentemente sua independência do Reino Unido, e este evento se torna a primeira vez que o ska, uma música nascido dos guetos, passava a representar oficialmente o povo Jamaicano. Durante a participação na Feira Mundial, Byron Lee & the Dragonaires se tornam então adidos culturais. A maioria deve conhecer Byron Lee e seu conjunto, por conta de sua aparição no filme Dr. No, primeira do que se tornaria uma série interminável de filmes sobre James Bond, um certo agente do serviço secreto de Sua Majestade. Filmado em Kingston em 1962, vemos Byron Lee e seu conjunto tocando calypso.

Keith negociara a vinda dos Stones uma vez que Byron Lee se comprometesse a investir em equipamentos novos para o estúdio. E em termos de Jamaica, equipamentos novos incluem coisas simples como headfones de qualidade e microfones Neuman, especificamente para gravar voz. Lee também adiciona no estúdio um piano de cauda e um órgão Hammond, modelo B3. Assim, começaram os ensaios para o que virá a ser conhecido como o Goat’s Head Soup Sessions. Estas sessões iniciais duram apenas uma semana. Duas curiosidades do estúdio comentadas por Keith são o fato de que os amps eram pregados ao chão e havia sempre um sentinela de espingarda junto ao portão de entrada do estúdio. A banda sente as boas vibrações do lugar e concordam que seria benéfico para a música trabalhar neste ambiente novo. No entanto, há problemas demais para serem resolvidos antes, todos relacionados com a situação legal dos integrantes na França.

Julgamento em Nice

Assim, os Stones retornam para Londres dia 2 de dezembro, quando é realizada uma reunião com Lowenstein e os advogados, para estudarem e se prepararem para o julgamento em Nice em dois dias. Apenas Keith e Anita corriam real perigo de serem levados à cadeia, e portanto um grupo de advogados os defenderia em corte, sem a presença física do casal. Desta forma, os quatro Stones seguem para Nice para se apresentarem dia 4 de dezembro.

Durante o julgamento, a acusação mostrou testemunhos assinados por pessoas alegando terem visto os Stones usando heroína e haxixe. Porém quando estas pessoas foram testemunhar pessoalmente, surpreendem ao alegar que foram surradas pela polícia durante interrogatório até assinarem o tal documento. Aparentemente todas essas alegações eram falsas, as próprias testemunhas da polícia acusando a polícia de coerção. Os Rolling Stones foram considerados inocentes, embora o caso de Keith e Anita ainda continuaria a se desenrolar durante boa parte do ano de 1973. Bobby Keys igualmente estava sendo investigado por consumo de tóxico, seu julgamento seguindo paralelo ao de Keith e Anita. Com o julgamento resolvido, os Rolling Stones retornam para a Jamaica no dia 13 de dezembro, desta vez trazendo Ian Stewart, Jimmy Miller, Andy Johns, e Nicky Hopkins com eles.

Sopa de Bode na Jamaica

Byron Lee & Mick Jagger
Byron Lee & Mick Jagger

Quando retornam, ficam novamente hospedados no Terra Nova Hotel. Desta vez, Bianca não querendo aturar Anita, preferiu ficar em Londres onde segue em perseguição de sua própria carreira como modelo. As sessões e gravações são realizados no Dynamic Sound Studios de Byron Lee como combinado. Byron trabalhava junto a Mickey Chong, seu engenheiro de som, que não era jamaicano, era chinês. Na ausência de Jimmy Miller, Byron auxiliava Mick e Keith como produtor.

Para garantir total liberdade de horários, como também, que nada se altere no estúdio na arrumação já pré estabelecida para os instrumentos da banda, o estúdio é alugado pelo período total, nenhuma outra sessão sendo realizada no Dynamic Sounds durante este mês. Muitos temas iniciaram com uma jam simples sobre um núcleo qualquer. Algumas vezes este núcleo evoluiria para um tema e uma canção, outras não daria em nada. Neste espírito, não é de se estranhar uma quantidade de temas soltos, todos batizados, que se encontra nos rolos de fitas destas sessões.

São títulos como “After Muddy & Charlie”, “Brown Leaves”, “First Thing”, “Four And In”, “Give Us A Break”, “Jamaica”, “Man-Eating Woman”, “Miami”, e “Zabadoo”. Estes números receberam todos algum especie de letra, seja parcial ou completa desde sua primeira execução. Entre os instrumentais podemos ouvir “Tops”, que anos mais tarde ganharia letra, e “Separately” uma composição creditada a Mick Taylor e Keith Richards. Outros temas receberam um pouco mais de atenção por parte da banda, sendo gravados mais de uma vez e com evoluções em seu arranjo. Entre estas estão “Angie”, “Can You Hear The Music”, “Criss Cross”, “Winter”, “Doo Doo Doo Doo Doo”, “Short And Curlies”, “You Should Have Seen Her Ass”, “Through The Lonely Nights”, “Star Fucker”, “Coming Down Again” e “Waiting On A Friend.” Com o desenvolvimento das sessões, Mick desconfiando das reais condições de Keith de poder manter no palco um pique de tocar rocks seguidamente, sutilmente começa a puxar a banda em direção a baladas.

As Novas Composições


As novas composições têm como caracteristica o fato de não serem mais em parceria como até então têm sido. Mesmo quando uma canção representava mais um dos dois compositores da dupla, invariavelmente haveria uma participação dos dois. A partir deste trabalho, Mick e Keith estão vivendo já em circulos extremamente diferentes. Chegam portanto com trabalhos praticamente prontos, sem precisar realmente da ajudo do outro para completar suas concepções musicais. Mick já aprendeu a tocar violão o suficiente para conseguir estruturar suas letras, enquanto Keith já aprendera a transpor pro papel suas idéias líricas.

“Coming Down Again” é uma canção composta inteiramente por Keith e fala de um relacionamento extra-conjugal, como que um aviso para Anita se cuidar. “Doo Doo Doo Doo Doo” e “Star, Star”, uma ode a todas as groupies, mormente as da última excursão Americana é composição exclusiva de Mick. A canção foi originalmente chamada de “Star Fucker” mas teve que ser rebatizado por motivos comerciais. Outra, “100 Years Ago” é uma canção que Mick havia escrito em 1970 e deixado encostada. A canção toca em assuntos relativos à desintegração de seu relacionamento com Marianne Faithfull.

A exceção a esta nova regra é “Dancing With Mr. D.” que é uma colaboração de fato com a música montada por Keith e a letra por Mick. “Short And Curlies” por outro lado, é um tema trabalhado por Keith, mas que nascera de um improviso com grande participação criativa por parte de Ian Stewart e Mick Taylor. Já “Angie” é uma canção do Keith, apesar de Mick ter participado na estrutura da letra e Mick Taylor ter praticamente feito sozinho a melodia. Uma vez lançada comercialmente, um boato nasceria e se espalharia internacionalmente de que a canção ser uma confisão de amor de Mick Jagger a Angela Bowie, esposa de David Bowie. Na verdade, trata-se de Keith tendo como musa a sua filha Dandelion, que teve seu nome legalmente mudado para Angela Richards pela avó paterna da criança. Incidentalmente, Mick Jagger e Angela Bowie nunca tiveram um romance realmente. Apenas uma ‘rapidinha’ no sofá de um hotel que só iria acontecer em meados do ano seguinte.

Mick Jagger, Marlon e Keith Richards
Mick Jagger, Marlon e Keith Richards

Uma Excursão Pro Japão

Peter Rudge foi à Jamaica ficar com os Stones, fumar ganja e principalmente conversar sobre a futura excursão para o oriente. A excursão é vendida como The Winter Tour, também chamada de The Pacific Tour, uma alusão ao Oceano Pacífico. Foram marcadas apresentações no Havaí, Austrália, Nova Zelandia, Japão e Hong Kong. Serão 19 apresentações espalhadas entre estes cinco países. A máquina de publicidade japonesa rapidamente entrou em ação e jornalistas nipônicos passaram alguns dias na Jamaica entrevistando a banda e tirando uma série de fotografias promocionais.

Houve, porém, outros problemas mais imediatos a pensar. A notícia das acusações feito aos membros dos Rolling Stones por parte da polícia francesa finalmente se espalhou pelos jornais da Europa. Pela primeira vez, o resto da Europa e os Estados Unidos estão agora sabendo do incidente em Nellcôte, embora o mesmo tenha ocorrido a um ano atrás. O governo Americano se soubesse antes, provavelmente não teria autorizado visto de trabalho para a banda e a lucrativa excursão que fizeram a poucos meses não teria acontecido. Na mesma hora, vistos para os Estados Unidos, Japão e Austrália são negados. Seis apresentações na Austrália já haviam vendido todos os ingressos, enquanto no Japão cinco mil ingressos já foram comprados quando o banimento fora anunciado.

Na Jamaica, Keith alega para jornalistas que ficou sabendo destas acusações contra ele pelos jornais, que as acusações iniciais feitas contra os Rolling Stones surgiram do nada e já foram oficialmente negadas e o caso julgado e todos inocentados. A acusação ainda pendente contra ele é um mistério que será resolvido pelo departamento legal da firma Rolling Stones. Em suma, ele não tem a mínima ideia de onde surgiu esta historia e que tudo é provavelmente mais uma tentativa de alguem usar o nome dos Rolling Stones para se promover e para a imprensa aproveitar e vender mais jornais.

Distrações

Durante um domingo de folga, Bill e Astrid Wyman, acompanhados de Mick e Rose Taylor, fazem um passeio até a capital das Bahamas, a cidade de Nassau, no intuito apenas de fazer turismo. No avião, Rose querendo forçar uma atitude do marido, comenta confidencialmente com Bill que Mick T está pensando em deixar os Rolling Stones para ir tocar com a banda Free. Wyman não comenta nada. Secretamente, ele também começa a fazer as contas e cogitar quanto tempo mais levaria para o mercado cansar da banda e os Rolling Stones acabarem. O esquema caótico das gravações em Nellcôte, a pesada dependência de Keith Richards, um dos principais integrantes da banda, e a já excessiva longevidade para uma banda de rock ‘n’ roll, faz com que se pense em quanto tempo a sorte vai conseguir continuar do lado da banda.

Tanto Keith quanto Anita estão encantados pela beleza de Ocho Rios e bom astral da ilha caribenha. Resolvem então deixar a vida na Suíça de lado por um tempo e passar a morar na Jamaica. Keith então acaba comprando a residência de Tommy Steele, um dos pioneiros do rock inglês em meio à onda skiffle em 1957. A casa, chamada Point of View, também em Ocho Rios, tinha uma vista para as montanhas de St. Anne e para a baía de Mammee. A residência lhe custou a bagatela de $147 mil dólares. Seu interesse pelo povo Jamaicano aumenta, atraído pela consciência musical dos jamaicanos. Sua curiosidade é ainda mais aguçada pelos rastafaris.

Rastafarianismo

O rastafari é um religioso ainda temido e evitado pelo restante dos jamaicanos no inicio da década de setenta. Não seria até 1975, quando o sucesso da música de Bob Marley atinge não só a Inglaterra como também os Estados Unidos, que passaria a haver alguma mudança em relação à imagem do rastafari por parte da população nativa da ilha. Só então, com a projeção mundial que se tem quando se conquista o mercado Americano, é que o reggae e o rastafari passam a ser mais respeitados. Atualmente o rastafarianismo representa uma maioria significativa da população da Jamaica.

A crença do rastafari vem de uma mistura de interpretações da Biblia Sagrada, com maior enfoque no Velho Testamento do que no Evangelho. Essencialmente, eles absorveram preceitos católicos e judaícos, criando uma consciência de animismo e espiritualismo.

Para se entender melhor o que é um rastafari e como sua religião veio a surgir, precisamos olhar um pouco da história recente da Jamaica. Como o Brasil, Jamaica também era então um grande produtor de cana-de-açucar. Depois que o Reino Unido toma o controle da ilha dos espanhois, a mão-de-obra escrava que já existia, se intensificou consideravelmente. Curiosamente, a grande maioria desta população escrava fora capturada originalmente na mesma região, a Etiópia. Com a abolição da escravatura, a ilha passa por um empobrecimento radical, o que gerou desinteresse dos Bretões pelo lugar, e permitiu à ilha ganhar autonomia parcial.

Uma vez que a população da Jamaica já é uma maioria negra, o controle branco se faz em parte através de um domínio psicológico do europeu branco sobre o africano negro. Porém surge em 1927, um jamaicano de 40 anos chamado Marcus Garvey que passa a ganhar notoriedade por pregar a consciêcia negra. Sua influência na mentalidade do povo negro da Jamaica é tanta que ele é hoje visto como o precursor do rastafarianismo. Entre outras coisas, ele clamava para o povo ter orgulho de sua herança Africana. Mas o que o fez ser reconhecido como um profeta, foi apontar ao povo que se devia manter as atenções na Africa, pois um rei Africano seria coroado como o messias negro.

Haile Selassie I
Haile Selassie I

Em 1930, o Primeiro Regente de Etiópia, Ras Tafari, anunciou que ele era descendente legítimo do Rei Salomão e da Rainha de Sheba. Ras Tafari foi então coroado Rei de Etiópia, mudando seu nome para Rei Haile Selassie I. A profecia de Marcus Gravey fora realizada e o Rei Haile Selassie I é tido como o verdadeiro messias. Se fossemos comparar com os personagens da religião cristã, Marcus Gravey seria o equivalente a João Baptista, aquele que avisa da vinda do Senhor, enquanto Selassie seria a reincarnação de Jesus Cristo em pessoa. Deus em carne, andando sobre a terra.

Como religião, o rastafarianismo é mais praticado do que escrito. Portanto existe uma grande variação de ‘tribos’, termo herdado do judaísmo, dentro da religião, cada uma praticando sua adoração de uma forma diferente. Como regra, todo rastafari venera o Rei Haile Selassie I como o Imperador do Mundo e o Deus na Terra. Ele é tido como o Rei dos Reis, Senhor de todos os Senhores e o leão conquistador das tribos de Judá. O nome Haile Selassie significa “O Poder da Santa Trindade.”


Esta crença define o homem negro como sendo o legítimo herdeiro da tribo de Israel. Esta noção vem do Velho Testamento, Jeremias 8:21, onde há a afirmação, “Eu sou negro.” O rastafari condena a carne de porco e geralmente é incentivado a simplesmente evitar comer carne. Seu estilo de cabelo, conhecido como dreadlocks, tem na origem de seu nome a intenção de desafio. No entanto, o tratamento dado ao cabelo, vem novamente de uma interpretação da Biblia, onde em Numero 6:5 se jura não cortar o cabelo. O aspecto do rastafari, ou simpelsmente rasta, com seus dreadlocks, representam ideologicamente, a juba do leão de Judá. O uso de maconha ou ganja como é chamada, como auxílio para meditação e adoração a Deus, também tem sua origem em uma distinta interpretação da Biblia, específicamente Genesis 1:12 e 2, como também Samuel 2:29, onde se faz alusão à “sabedoria da erva.”

Basicamente pode-se dizer que o rastafari vê a Jamaica como o Inferno, seu lar terreno onde passa seus dias aguardando o retorno à terra prometida. Esta é a Etiópia, o Zion ou paraíso, o lar espiritual a ser atingido. Apesar do Rei Haile Selassie I incentivar a leitura da Biblia, o Cristianismo é geralmente visto como uma religião do homem branco, e portanto, não representa a vida e as injustiças sociais sofridas pelo homem negro. Bob Marley acabaria sendo visto como um profeta e guerreiro. O reggae que Marley ajudou a popularizar, acabaria atraindo turistas para a ilha, agitando a indústria de turismo local.

Embora nem sempre as inspirações espirituais estejam em harmonia com os desejos carnais, o rastafari é em tese um homem humilde e pacífico, ao mesmo tempo que orgulhoso e confiante. Ele não busca posse material e sim um maior entendimento das escrituras. Ele não odeia o homem branco embora veja o mundo do homem branco como maligno, cheio de inveja e desonestidades, o qual ele interpreta como sendo a Babilônia moderna. Apesar de seu pacifismo, o rastafari é dono de grande poder interior e irá como regra defender com firmeza o que julga serem os seus direitos.

Todas essas coisas intrigavam Keith Richards, este facínio facilitando a aproximação de Justin Himes, um rastafari e conhecido cantor de mento (outro tipo de música jamaicana), quando ainda morava no interior do país, antes de vir para a capital. Himes se tornou rapidamente o grande amigo de Keith e Anita na ilha, passando a freqüêntar a casa regularmente, e trazendo consigo outros amigos, todos rastas. O reggae levado nos fins de tardes no porão da casa deixa o casal em transe, quase que em êxtase. Keith passa a meditar ao som de reggae, entrando em uma fase que para ele mais se assemelha a uma experiência religiosa.

Os Stones Deixam a Jamaica

Nicky Hopkins, que sempre teve uma saúde delicada, teve uma infecção intestinal, seu organismo possivelmente estando cansado do prato tipico jamaicano que é bode com molho curry, e acabou deixando o projeto, retornando à Inglaterra mais cedo. Billy Preston vem substituí-lo, chegando apenas nas últimas duas semans de trabalho. Mas o clima virou rapidamente quando o quarto de Wyman foi invadido por homens mal intencionados. Embora esta informação tenha sido confirmada em mais de uma fonte, poucos detalhes revelam como se deu a situação. Aparentemente Bill Wyman se viu atado e colocado debaixo da cama enquanto sua mulher Astrid Wyman era estuprada. Uma vez que a notícia se espalhou, todas as mulheres passaram a se sentir vulneráveis e o clima dentro do grupo não era mais o condizente para se fazer música. Retornaram todos a Londres no dia 22 de dezembro. Anita era a única entre as mulheres realmente triste por ter que deixar o lugar.

Bill e Astrid coversam muito e retornam para sua residência no sul Francês. Não muito depois, Bill conclui que estava fumando maconha demais e ficando preguiçoso no processo. Sem pensar duas vezes, pegou todo o haxixe que tinha em casa, cavou um buraco no quintal e enterrou tudo, para o espanto de Astrid. Bill Wyman que havia largado tabaco em 1971, agora não fuma mais erva alguma. Astrid no entanto, não tem a mesma força de vontande e continua fumando. Ela secretamente também tomou gosto pelo uso de cocaína, embora minimize o seu uso, sempre longe das vistas de Bill.

Terremoto na Nicarágua

No dia seguinte a sua chegada em Londres houve um tremendo terremoto em Managua, capital da Nicarágua. Bianca se apavora quando não consegue linhas para o país. Ela quer noticias de seus pais mas as comunicações para a Nicarágua estão dificeis. Jagger está com ela tentando conforta-la. Ele propõe que os dois peguem um avião e vão para Managua procurar eles mesmos. Sem vôo comercial para a cidade, Mick aluga um avião para o casal e aproveita para comprar toda vacina contra tifo que consegue encontrar.

Centro de Manágua
Centro de Manágua

Durante a corrida de taxi do aeroporto de Manágua passando pela cidade, Bianca Perez Moreno de Macias, agora internacionalmente conhecida como Bianca Jagger, mal consegue reconhecer a cidade onde passou sua infância e a maior parte de sua vida. Nos escombros serão encontradas seis mil pessoas mortas, outras tantas milhares ficando agora sem teto.

Depois de três dias desaparecida, encontraram a senhora Macias, arranhada mas inteira, sem fraturas. Sua casa foi destruida mas ela teve muita sorte. Apesar da casa literalmente desabar sobre sua cabeça, nada lhe atingiu diretamente e ela conseguiu escapar entre os buracos e sair inteira. Nem todos os seus vizinhos tiveram a mesma sorte. Bianca estava arrasada e Mick ficou em choque. Nunca antes ele testemunhara tamanha desgraça e destruição gratuita como as cenas que este terremoto lhe ofereceu.

Mick Jagger na Nicaragua
Mick Jagger na Nicaragua

Mais tarde, o casal conversou sobre que tipo de ajuda poderiam conseguir. Mick sabe que a mola propulsora para qualquer ação é dinheiro. E de imediato lhe vem a ideia de como conseguí-lo. Um concerto dos Rolling Stones com toda renda revertida para o governo da Nicarágua para ajudar com os feridos e sem teto atingidos pelo terremoto em Manágua. Se o governo americano autorizar os vistos de trabalho, a apresentação seria realizada em Los Angeles. O anúncio da intenção dos Rolling Stones funcionou como publicidade positiva para a banda. Os Estados Unidos autorizaram o visto, salvando assim de tabela as apresentações em Honolulu. Austrália foi outro país que acabou autorizando a banda a entrar em seu país, confirmando assim as datas também em Nova Zelandia. Apenas o Japão se mostrou irredutível.

Vistos Para o Japão

Uma vez em Los Angeles em janeiro de 1973, Mick Jagger foi pessoalmente visitar o consulado Japonês para conversar com o consul. Aparentemente os vistos de todos os Rolling Stones e equipe foram garantidos, menos o de Mick Jagger. Por ser pego e considerado culpado de posse de maconha em 1969, o governo Japonês não tem como permitir sua entrada no país. As leis japonesas são bem firmes a este respeito e Mick Jagger é um nome famoso demais para deixar passar sem derrotar o propósito da lei. O visto continuou negado e Jagger conversando com a imprensa declarou que dois meses de sua vida dedicados a este projeto foram jogados fora. Que os Rolling Stones queriam muito tocar no Japão e toda a excursão Pacific Tour foi construida em cima deste proposito.

Concerto Para a Nicarágua

Bill Graham promoveu o espetáculo marcado para dia 18 de janeiro no Forum de Los Angeles. Um show desta magnitude leva geralmente vários meses para ser aprontado, no entanto, por causa da imediata necessidade dos fundos para Manágua e aproveitando ao máximo o fato do assunto estar em voga, tudo foi feito rapidamente, Bill Graham tendo apenas uma semana para aprontar tudo. Os Rolling Stones se reuniram novamente em Los Angeles no dia 16, onde ensaiaram no SIR, Studio Instrumental Rentals.

Programados para o que acabou sendo uma noite chuvosa de quinta-feira, estava uma apresentação de meia hora dos comediantes hippies Cheech & Chong, seguidos de um show de uma hora de Carlos Santana e sua banda, seguidos depois pelos Rolling Stones. Ingressos variam de $25 até $100 dólares, tudo em nome da caridade. Vale a pena comentar sobre a dupla cômica Cheech & Chong que consiguiram resultados surpreendentemente positivas considerando que sua apresentação trata-se de um bate-papo com o Forum, uma casa cuja lotação era quase máxima, um total de 18.625 pagantes computadas. A programação da noite funcionou perfeitamente apesar do pouco tempo de preparação e rendeu boa promoção para Billy Graham. Para os Rolling Stones, a boa publicidade já rendia frutos positivos deixando boa vontade dos Estados Unidos em relação a banda e seus interesses mercadologicos neste país. O show em si funciona como um aquecimento para a Pacific Tour a iniciar em poucos dias.


Enquanto um Forum lotado aguardava os Rolling Stones, a banda recebia nos bastidores uma placa de agradecimento pelo seu gesto de caridade direto das mãos do embaixador da Nicarágua. Quando finalmente tomam o palco, os Stones fazem uma apresentação extra-comprida, tocando um total de uma hora e quarenta minutos. Vários números antigos foram incorporados ao repertório, canções como “Route 66” e “It’s All Over Now”. O espetáculo levantou um total bruto de $516.810 dólares. Uma vez tiradas as despesas, Mick e Bianca Jagger puderem entregar para o embaixador da Nicarágua em Washinton DC, um cheque no total de $350 mil dólares.

A equipe escalada para trabalhar no Pacific Tour tem em suas chefias os mesmos nomes que trabalharam na excursão americana. Chip Monk cuidando de luz e palco, Gary Stromberg de publicidade e como responsável por tudo durante a excursão está Peter Rudge.

Pacific Tour


Dois dias depois os Rolling Stones estavam aterrisando em Honolulu para três shows em dois dias. O repertório da excursão é Brown Sugar, Bitch, Rocks Off, Gimme Shelter, It’s All Over Now, Happy, Tumbling Dice, Love In Vain, Sweet Virginia, Dead Flowers, You Can’t Always Get What You Want, All Down The Line, Midnight Rambler, Live With Me, Rip This Joint, Jumping Jack Flash e Street Fighting Man. O show rendeu um álbum pirata notório, “Liver Than They’ve Ever Been.”


A banda se apresenta com o auxilio de Bobby Keys, Jim Price e Nicky Hopkins. Para abrir a noite em todos os três shows, a banda ZZ Top. Com a confirmação dos cancelamentos das apresentações no Japão e Hong Kong, a banda opta por retornar a Los Angeles e continuar trabalhando no novo álbum. Assim, depois da última apresentação da noite do dia 22, a banda retorna para LA pegando ainda o dia 22 em claro. Depois de um descanso, retornam ao estúdio com Nicky Hopkins para trabalhar no novo album em “Dancing With Mr. D”, “Doo Doo Doo Doo” e “Star, Star”. Tornam-se todas versões alternatives das que efetivamente acabaram no álbum. Também houve um desenvolvimento na canção “Tops” além da gravação de um instrumental que foi batizado de “Windmill”.

A banda chega cedo na Austrália, aterrisando dia 9. A recepção no aeroporto lembra os longínquos tempos da década de sessenta e a Stonemania. No entanto, a alfândega exigindo que todos os músicos tirassem todas as roupas para uma mais do que completa verificação de que não estão trazendo consigo nenhuma droga ilegal, também lembra outros tempos que poderiam ter ficado esquecidos.


Depois de resolvidas as questões alfandegárias, uma série de entrevistas foram realizadas durante a maior parte do dia, tanto no próprio aeroporto, como em hoteís e estações de rádios, antes que a banda pudesse retornar ao seu hotel e finalmente descansar em seus quartos.

Por medida de precaução, todos os músicos foram registrados no Kingsgate Hotel com nomes falsos. Escolheram nomes de jogadores de crikett, pois Jagger estava em uma fase em que se encontrava facinado pelo esporte. Assim, Mick Jagger é registrado como W. G. Grace, Keith Richards como Freddie Truman, Bill Wyman é Len Hutton, Charlie Watts torna-se Trevor Baily e Mick Taylor assume o nome de Peter May. Para complementar temos Bobby Keys registrado com o nome de Jack Hobbs, Jim Price como Herbert Sutcliffe e Nicky Hopkins como Tony Lack. Da equipe, Peter Rudge e Alan Dunn optam pelos nomes de dois Primeiro Ministros da Inglaterra, respectivamente registrando-se como Ted Heath e Harold Wilson.


Dia 11, o primeiro show é em Aukland, na Nova Zelandia, país vizinho. A apresentação foi filmada por uma equipe Neo Zelandesa. Retornando à Austrália, estreiam com um show na cidade de Brisbane no dia 14, seguido de três apresentações no Kooyong Tenis Courts de Melbourne. Maconha fora encontrada na posse de um roadie mas o incidente não chegou a ter uma maior repercussão. A banda fez então duas apresentações em Adelaide, onde o controle público se tornou um duelo incansável entre adolescentes e a polícia.

Com uma apresentação em Perth e duas em Sydney fecham a excursão, deixando a Austrália no dia 28 de fevereiro. Souberam depois que toda a roupa de cama onde os membros da banda dormiram no hotel, fora depois vendida em um leilão, pelo equivalente a $1.329 dólares. Foram adquiridas por um colecionador que pretendia cortá-las e transformar tudo em uma série de bandanas e lenços, vendendo tudo como souvenier para o grande público, esperando recuperar o dinheiro e faturar um considerável lucro no processo.

Destinos Destintos

Mick Taylor foi o único que não seguiu os demais em vôo para Los Angeles, seguindo da Austrália para Hong Kong, onde passeou feito um turista qualquer. Mick Jagger, Keith Richards, Bill Wyman e Ian Stewart ficam em Los Angeles. Irão continuar trabalhos no novo álbum. Charlie Watts segue em direção de sua casa em Marselles, onde sua esposa e filha aguardam sua chegada.

Pouco depois do inicio de abril, todos deixam Los Angeles, seguindo para Nova York. No aeroporto JFK, cada um segue em uma direção diferente. Mick se encontra com Bianca e seguem então para as Bahamas. Keith pega um vôo para Montreux, enquanto Stu, de posse das fitas masters do futuro disco do grupo, retorna para Londres. Quando Keith chega em sua casa em Montreux, descobre que Anita e as crianças voltaram para Ocho Rios enquanto os Stones estavam excursionando. Keith então segue de volta para a Jamaica.

Parte 42 - A Heroína na História

Cada um segue em uma direção diferente. Mick Taylor foi o único que não acompanhou os demais, seguindo da Austrália para Hong Kong. Charlie Watts segue em direção de sua casa em Marselles, onde sua esposa e filha aguardam sua chegada. Mick Jagger se encontra com Bianca e juntos, seguem então para as Bahamas. Keith Richards pega um vôo para Montreux, enquanto Ian Stewart, de posse das fitas masters do futuro disco do grupo, retorna para Londres. Quando Keith chega em sua casa em Montreux, descobre que Anita e as crianças voltaram para Ocho Rios enquanto os Stones estavam excursionando. Keith então segue de volta para Jamaica.

A Dupla Jagger-Richard


Depois de passar uma temporada em Barbados assistindo partidas de cricket, Mick Jagger retorna definitivamente para Londres em maio. Jagger passa a acompanhar o esporte atentamente e é visto com certa regularidade em locais onde são realizados as partidas. Durante o período inicial deste retorno a Inglaterra, Mick aproveita em uma tarde, vai até o norte da Escócia para conhecer a Ilha Gigha. É de sua intenção comprar a ilha que está a venda, porém não foram aceitas as suas propostas. Seu círculo de amigos pertence quase todo à alta sociedade. Exatamente do lado oposto do espectro está Keith Richards e suas amizades com os mal vistos rastafaris. Mick Jagger e Keith Richards. Cada um em uma direção oposta, se encontrando no centro de um furacão comumente chamado de rock 'n' roll.

O Amadurecimento de Bianca

Durante o ano de 1973, aos poucos, um a um, todos os Stones retornam para morar novamente na patria mãe, Inglaterra. É particularmente importante também para Bianca Jagger, pois é o ano que ela passa a se definir como uma personalidade independente da estrela do seu marido. Ela se recusa a ser apenas a Sra. Jagger. Se recusa a ser resumida aos olhos alheios como um adorno na vida do seu marido famoso. Assim, ela passa a investir em uma carreira de modelo. Um de seus primeiros trabalhos será desfilar para a coleção do amigo, o costureiro Ossie Clark. Seu cachê por apresentação é geralmente doado para alguma caridade, de forma que junto com a aceitação profissional, vem também uma certa admiração do público por suas ações filantrópicas. Aos poucos, Bianca Jagger vai conseguindo se tornar uma estrela do jet-set londrino de importância própria, independente de seu marido.

O casal Mick e Bianca Jagger passa a freqüentar novamente os eventos sociais, e em alguns destes encontram Marianne Faithfull. No primeiro encontro houve um certo desconforto, embora nada tenha sido dito ou feito para perturbar o ambiente, afinal são gente civilizada. Marianne comentaria anos depois que Bianca foi muito simpática, mantendo um comportamente exemplar. No segundo reencontro, novamente em outra festa, contudo, desta vez sem a presença de Bianca, Mick e Marianne conversaram um pouco mais. Mick tentara discretamente saber se ela voltara a usar heroína sem precisar necessariamente fazer a pergunta. Marianne percebeu o intento mas não lhe deu a satisfação de uma resposta. Se a verdade fosse dita, ela teria que confessar que havia sim voltado a usar heroína.

Anita e os Rastas

Anita Pallenberg
Anita Pallenberg

Anita estava adorando a companhia dos novos amigos Jamaicanos. Fazia tempo que ela não chamava tanta atenção e tinha para si tanta bajulação. Ela saía com a rapaziada para dançar nos clubes e depois os trazia para casa para o pernoite. A residência de Point of View ficava em uma área residencial onde a maioria da comunidade era formada por políticos e milionários. Para eles, os rastafaris eram gente perigosa e indesejável. Não via a relação desta conterrânea com esses negros como saudável.

Quando Keith chegou na Jamaica, percebeu logo que sua casa estava se tornando, entre outras coisas, um ponto de rastafaris ativistas da esquerda. Ficou particularmente magoado com Anita e seus múltiplos relacionamentos durante sua ausência. Não demorou muito para alguém da vizinhança vir falar com Keith, avisando que "era melhor ter uma conversa com sua esposa e dar um ponto final neste entra e sai de rastafaris, caso contrário ela se meteria em problemas sérios". Keith mandou a pessoa cuidar da própria vida, mas incomodou a percepção trazida pelo toque, de que todos os vizinhos estavam acompanhamdo a movimentação em sua casa. Humilhado, Keith então opta por deixar Anita curtir a vida dela como achasse melhor, retornardo sozinho para Londres.

De Volta aos Estúdios

O mês de maio de 1973 foi um que viu várias atividades entre os Stones, mormente na vida de Keith e Mick. Dia 7, o grupo retomou trabalhos para o novo álbum no Olympic Studios. Para não atrair nenhuma atenção para o fato que estavam trabalhando, evitando assim a ação de pirataria, a sessão foi marcada como sendo da banda The Cockaroaches. Pelo mesmo motivo, as fitas mestres eram identificadas com o nome Stevie Wonder. Nestas sessões, além de analisar o que tinham de produtivo após as últimas sessões em Los Angeles, aproveitaram para gravar "Hide Your Love."

Uma sessão de fotos foi marcada para a capa do novo álbum. Storm Thorerson e Aubrey Powell, ambos artistas da firma Hipgnosis são inicialmente os responsáveis pelas fotos e concepção de arte da capa. A idéia aprovada por Jagger é de ter os cinco Rolling Stones fotografados e depois transformados para aparecerem na capa como se fossem um grupo de minotauros e centauros. A idéia acabaria sendo preterida por outra.

O Documentário de Robert Frank

O documentário de Robert Frank fica pronto e uma projeção especial é feita para os cinco integrantes da banda. O filme é chamado de "Cocksucker Blues" e abre com uma ótima versão para "You Can't Always Get What You Want", feita pela banda no ensaio na salinha nos fundos da loja de instrumentos em Burbank. Depois mostram Mick Jagger ao piano tocando a música que dá nome ao filme, composição feita com intuito de insultar a Decca que fez de tudo para dificultar a saída da banda do selo. Marshall Chess é entrevistado contando essa história. Mais tarde Keith Richards é visto também ao piano tocando umas improvisações além da canção "Say It's Not You" (Dallas Frazier). Em outro segmento, vemos Mick e Keith sendo entrevistados por um DJ de Londres chamado Emperor Don Rosko, respondendo suas perguntas com voz embargada, enquanto enrolam uma série de baseados.


Versões picadas de "Brown Sugar" em San Francisco; "Midnight Rambler" em Fort Worth; "All Down The Line" em Seattle; "Happy" em Houston; e por último "Street Fighting Man" mais o medley de "Uptight com Satisfaction" contendo os Stones mais Stevie Wonder & the Wonderlove, no palco de Nova York. Estas compreendem as cenas ao vivo no filme. Um ensaio de "I'm Free" tocado pelas duas bandas também é visto, mas a maior parte do filme é feito de cenas soltas de bastidores. Cenas que apresentam a loucura lá fora com a população tentando assistir o show, enquanto cambistas trabalham vendendo ingressos a preços exorbitantes.

O filme oferece uma boa demonstração de tudo que é loucura que rola com e ao redor dos Rolling Stones, várias já narrados aqui. Vemos cenas nos hotéis, com mulheres nuas, pessoas se injetado de heroína, cheirando cocaína, fumando maconha, e cenas do grupo em trânsito, com a banda jogando sinuca em uma birosca no meio da estrada, ou fazendo um batuque no avião.


Ao fim da projeção, Keith comenta rindo que tudo traz de volta um bocado de memórias. Mas o consenso geral é o óbvio, que não poderão lançar o filme de imediato, senão nunca mais deixariam os Stones entrar na America. Terão que esperar alguns anos pelo menos.

Até o presente, "Cocksucker Blues" nunca foi lançado em larga escala, sendo projetado em poucas ocasiões com o discreto titulo de "CS Blues". Várias cópias acabaram sendo vendidas secretamente no mercado negro de videos piratas a partir da década de oitenta.

No entanto, apesar de levar ainda outra década até essas cópias fossem vistas por colecionadores e fã clubes, isto não significa que a polícia londrina não tivesse nenhuma idéia de que Keith Richards estava metido com drogas. Podiam não ter a real noção do hedoísmo que é o seu estilo de vida e a das pessoas ao seu redor, mas também não eram idiotas. E como fizeram com Brian Jones cinco anos atrás, retornam à tática da chantagem, certos policiais aparecendo ocasionalmente na porta, geralmente a noite, ameaçando fazer uma busca domiciliar por flagrantes caso Keith não solte uma grana. Claro que a conversa não acontece com estas palavras. E como todo drogado tem sempre um motivo para estar paranóico, Keith Richards com a casa cheio de flagrante, pagava o preço se posicionando a mercê destes policiais.

Jagger Cobrindo As Bases

Já Mick Jagger era um profissional sério que vinha exercendo através dos anos múltiplas funções na organização dos Rolling Stones, tanto como uma empresa lucrativa quanto como atração musical. Ele não tem paciência para lidar com alguém que não está comprometido totalmente com o trabalho em mãos. Mick começa a desconfiar e temer que Keith Richards, visto por ele agora como um junkie total, possa se tornar um problema para a banda do mesmo jeito que Brian Jones havia se tornado para os Beatles. A dependência de Keith se tornara já há tempos um problema para os Stones quando estavam na estrada e ultimamente tinha atrapalhado a relação entre os dois ex-amigos. Sua personalidade mudara e a confiança que havia entre os dois simplesmente não existia mais. Com a expectativa de proteger o investimento feito nos Rolling Stones, os interesses da banda e daqueles que investiram nela, através de acordos e contratos assinados, Mick começa a se precaver.

O uso de drogas na década de setenta se tornou uma pratica absorvida pela grande maioria dos adolescentes e jovem adultos. Não somente entre os hippies de vida alternativa como também entre os intelectuais. O uso de drogas geralmente trazia certo status entre pessoas dentro de um grupo. Keith Richards já era um viciado conhecido, amado e respeitado como um guerreiro do rock 'n' roll pelo seus fãs exatamente por essa sua imagem de junkie. Seus hábitos combinam perfeitamente com sua imagem do "grande bandido do rock". Mas a noção de que drogas como heroína causam profunda dependência e matam também começa a ser reconhecida com melhor nitidez conforme a década de setenta caminha.

Assim, iniciam boatos ligados a expectativa da eventual morte de certos usuários conhecidos do meio rock 'n' roll. Nomes como Eric Clapton, Keith Richards e Pete Townshend estão no topo da lista fictícia. A lista com esses prováveis próximos mártires ganha o nome de rock 'n' dope. Esses boatos chegam até os ouvidos de Keith, que encarava a confirmação de uma imagem que ele não se incomodava em alimentar. No fundo achava tudo uma grande bobagem e sequer deu-lhes muita atenção. Mas havia quem realmente acreditasse e se preocupasse com a probabilidade de Keith morrer em pouco tempo, tanto que neste mesmo ano sai uma canção chamada "Keith Don't Go" gravado pelo músico Nils Lofgrin.

Com a óbvia distância entre Jagger e Richards, começavam a circular veladamente boatos de que Mick estaria procurando alguém para substituir o seu parceiro. De fato, Mick Jagger estava conversando com Ron Wood sobre música. O contato levou a uma visita para a casa de Woody em Richmond, o local sendo conhecido como The Wick. Levado até o estúdio caseiro localizado no sotão, passaram a ouvir algumas coisas feitas por Ron que iniciara despretensiosamente a trabalhar em seu primeiro disco solo. A canção "I Can't Feel The Fire" de Wood, estava com a letra ainda por fazer e Mick se propõe em ajudá-lo nisto. Juntos compõem a letra da canção que, quando lançada, não receberá crédito de Jagger.

Em dado momento, um convite foi feito a Ron Wood por Mick Jagger para atuar como guitarrista dos Rolling Stones nas apresentações ao vivo. Não para substituir Keith Richards inteiramente, mas caso Keith por qualquer motivo não pudesse fazer a próxima excursão, Ron substituiria o guitarrista, evitando o cancelamento das datas já marcadas. Em meio a um bate-papo descontraído entre dois músicos, Mick mostra uma canção sua que igualmente estava aos pedaços. Pega-se uma guitarra e começam a brincar com idéias. Nasce em meio a isso a canção "It's Only Rock 'n' Roll." No final da brincadeira, Mick propõe que Wood ficasse com todo o crédito de "I Can't Feel The Fire" enquanto ele ficaria com "It's Only Rock 'n' Roll."

Keith e sua Ferrari

Com Anita na Jamaica curtindo a vida com os nativos, Keith passa então a voltar a curtir as noites nos clubes. Aluga uma Ferrari Dino amarela e passa a frequentar o Tramp Club em Jeryme Street, novo ponto chic das noites londrinas. Geralmente com Tony Sanchez ao seu lado, Keith está quase todas as noites a caça de atenção feminina. Há magoa e ódio em seus olhos e publicamente, Keith age como um capanga, reforçando ainda mais sua imagem de mal. Keith começa a fazer na vida real o papel do Keith Richards que criaram para ele nos jornais. Pior, Keith passa a procurar desculpa para arrumar uma briga com alguém. Geralmente discussões rapidas, sem muita contestação, só o suficiente para atestar sua masculinidade e reforçar a imagem que ninguem se mete com Keith Richards.

Sua presença atrai uma linda loura logo nas primeiras noites, que se diz feliz por vê-lo novamente. Trata-se de Krissie Wood, mulher de Ron Wood, que aparentemente estava no clube sozinha. Keith ficou cheio de tesão pela linda jovem e convidou-a para um drinque. Ficaram conversando, rindo e curtindo a companhia um do outro. Depois Keith lhe ofereceu uma carona para casa, tendo os dois deixado o local juntos na Ferrari.

Chegando em casa, Krissie convida Keith a entrar para tomar um café. Ele julga que o convite só pode querer dizer uma coisa e rapidamente de pé, ele segue a belíssima Krissie para dentro da vistosa residência. Mas Keith logo percebe a furada quando Krissie o convida a conhecer o estúdio e para dizer olá para o Ronnie. A decepção se transforma em constrangimento quando constata que dentro do estúdio com Ron Wood está Mick Jagger, os três homens se entreolhando querendo entender o que o outro está fazendo lá. Keith acabaria associando a presença de Mick aos boatos de sua pendente substituição nos Rolling Stones por problemas com drogas, um boato que ele até então nunca acreditara. A relação entre os dois sócios não iria melhorar com isso. Curiosamente, o encontro também seria o inicio de uma amizade que lentamente se formaria entre Keith Richards e Ron Wood.

Amizades Coloridas

Há entre Mick Jagger e David Bowie uma curiosa relação de admiração e competividade. Os dois homens estão constantemente tentando ter relações sexuais com as amantes do outro. Ambos com fama de apetite sexual inesgotável, e Bowie levando teórica vantagem pela permissividade de sua esposa Angela Bowie, situação que Mick Jagger não desfruta com Bianca Jagger. Angela por sua vez, bisexual convicta, tem como brincadeira tentar trepar com todas as meninas mais importantes que David consegue atrair, antes de seu marido conseguir comê-las.

Dana Gillespie
Dana Gillespie

No entanto, todas as ameaças de Bianca não são o suficiente para que Jagger freie ou diminuie sua horda de conquistas. E dentre elas, uma das mais tórridas foi com a cantora inglesa de blues Dana Gillespie. Dana é mais lembrada pelo seu papel de Maria Madalena na montagem inglesa da peça "Jesus Cristo Superstar". Seu elo com Bowie vem do fato que Dana havia perdido sua virgindade aos quatorze anos com Bowie em 1965, quando este era cantor de uma banda chamada The Lower Third. Dana sempre se envolveu com o ambiente criativo da vida artística e naturalmente ela se desenvolveu em uma cantora talentosa, além de uma mulher atraente.

A relação entre Mick e Dana estavava em uma fase de crescente paixão. Contudo, Mick Jagger era um egocêntrico e nenhuma relação, por mais sexualmente calorosa que fosse, seria poderosa o suficiente para ele se tornar realmente monogamista. Ao procurar por Dana em Nova York, encontrou-a dormindo em sua suite de dois quartos no Sherry Netherland Hotel, quem dividia com Angela Bowie. Angela e Dana são boas amigas, assim como Mick e David. No entanto, quando a Angela oferece para acordar Dana para recebê-lo, Jagger com um sorriso safado sugere que o destino estava oferecendo aos dois a oportunidade para se conhecerem mais intimamente. Entre gemidos no sofá, Dana acorda e interrompe as atividades em óbvia inveja. "Como puderam começar sem me chamar?" ela exclama com sorriso igualmente safado. Angela teria dispensado então o mega-star, satisfeita que estava com a sua meia-hora, Dana e Mick seguindo imediatamente do sofá para a cama.

Mexendo A Sopa

As mixagens do novo álbum, já intitulado "Goats Head Soup", uma alusão ao voodoo jamaicano, se iniciam no dia 28 de maio no Island Recording Studios. Os últimos overdubs são aprontados e as sessões contam com as participações de Jim Price, Bobby Keys, Chuck Finley, e Jim Horn nos metais, Ian Stewart, Nicky Hopkins e Billy Preston nos teclados, Jimmy Miller, Ry Cooder, Pascoal e Reebop Kwaku Baah nas percussões. Os arranjos de cordas em "Angie" foram preparados por Nicky Harrison. Foi também gravado uma nova base para "Doo Doo Doo Doo Doo." Essas sessões também produziram duas novas contribuições para o projeto, "Silver Train" que Mick e Keith tinham escrito para Johnny Winter ano passado, e "Through The Lonely Night" que teve um overdub de guitarra feito por Jimmy Page. Sessões de overdubs e mixagens continuaram por todo o mês de junho até meados de julho. E apesar de termos esse grupo de músicos concentrados em uma proposta artística, há uma sombra negativa pairando sobre as cabeças das pessoas envolvidas intimamente nesse projeto. Heroína estava corroendo os integrantes da equipe e mudando os Rolling Stones.

China e Inglaterra

A história da heroína é, em parte, a história do ópio. Usado pelos egípcios como anestésico há mais de seis mil anos atrás, o ópio foi levado para a Ásia pelos árabes por volta do Século VII. Trocavam com os chineses essa planta medicional e outros produtos, por mercadorias como seda, papiro e pólvora. Plantas e frutas trocadas tambem faziam parte deste trajeto chamado 'o caminho da seda'. Entre as frutas estavam a mandarina, do chinês Mandarim. A fruta chegaria a Europa através da cidade de Tangier, Marrocos, e seria vendida com o novo nome de Tangerina.

No Século XVII os chineses descobrem que ópio pode ser fumado, e seu uso torna-se popular, agora não mais com propósitos medicinais. Para manter a demanda, o governo chinês comprava grandes quantidades dos portugueses e ingleses. Com o domínio da India, rapidamente os portugueses saíram do mercado e os ingleses ficaram sem concorrentes. Quando o ópio se tornou ilegal na China, os ingleses continuaram vendendo o produto, contrabandeando-o pelas fronteiras da India. Isto deu origem a duas pequenas guerras entre a China e o governo Britânico e nos tratados de paz que se sucederam, dentre outras coisas, a China perdeu o domínio de Hong Kong por cem anos, reconquistando o território pouco antes do novo milênio.

Se é Bayer é Bom


Foi em 1874, nos laboratórios da Bayer, que se criou a droga que chamamos heroína, um remédio processado da morfina, que por sua vez é um extrato natural da semente da papoula, a mesma planta que nos dá o ópio. A intenção era de se conseguir uma droga que servisse ao mesmo propósito da morfina, ou seja, fosse usada como anestésico, porém, que não fosse tão viciante como ela.

De fato, ne início, a heroína era vista como uma droga salvadora, eis a origem de seu nome. Os primeiros artigos sobre essa nova droga a descrevia como excelente para a pele, a saúde e o bem estar geral. Pode-se imaginar a dificuldade das instituições da medicina em assumir seu erro de avaliação. Heroína se tornaria ilegal em 1920, após estudos mais aprofundados constatarem que a droga é ainda mais viciante do que morfina e portanto sua dependência algo ainda mais dificil de se livrar.

Como qualquer droga ilegal, existe uma enorme diferença entre o que se compra do laboratório ou farmácia e o que se compra na rua. Heroína pura em grande quantidade mata, mas em pequenas quantidades apenas aniquila sua vontade própria, lhe deixando "anestesiado" por um longo período de tempo. Como o corpo humano têm a capacidade de se adaptar, o uso continuo invariavelmente fará que o efeito dure menos tempo e o próprio corpo peça a reaplicação da droga. Esta 'exigência' feito pelo corpo é o que se costuma chamar de 'efeito de abstinência.'

Agora, comprar heroína da rua é mil vezes mais perigoso. Uma aplicação pode matar, pois o usuário NUNCA sabe ao certo o que está injetando em sua veia. A heroína da rua SEMPRE é misturada, variando apenas em o quê e em que proporção se dá essa mistura. As práticas mais comuns são a mistura feita com açúcar, leite em pó ou amido. Há também casos onde misturado na heroína se encontra estricnina ou outros venenos. Pode-se então perceber rapidamente o perigo que é não ter uma boa fonte para nutrir o seu hábito.

Keith Richards sabia disto tudo. Ele entendia que a quantidade de mortes ligadas à heroína era uma realidade natural de qualquer junkie. E que pessoas que colocam junk (porcaria) nas veias acabam morrendo. Mas ele também sabe que seu dinheiro pode comprar a melhor heroína disponível em termos de quantidade de impureza. Raras são as oportunidades de se ter uma droga realmente pura. Keith comentaria anos depois: "A razão por eu ter sobrevivido foi porque era merda da mais alta qualidade. Quando eu estava nessa, eu era um especialista! Quando você está nessa, é aquela maravilhosa sensação morna de estar ligado. Porém rapidamente você passa a apenas precisar da porra do negócio. Você faz qualquer coisa para colocar as mãos naquilo, e se você precisa se locomover e cruzar fronteiras internacionais, então você precisa pensar como. Cada vez mais energia é gasta em matutar como se locomover sem ser preso do que fazendo as coisas que você realmente deveria estar fazendo. No entanto, nunca enxergei a coisa como glamurosa. O vício toma o lugar de tudo. Você não precisa de uma mulher, você não precisa de música, você não precisa de nada. 'Junk' não te leva a lugar algum. Não é chamado de junk à toa."

A Equipe Faz o Hábito

Sim, a heroína estava corroendo os integrantes da equipe de apóio dos Rolling Stones. Apesar de todas as previsões apontando o contrário, Keith ainda está conseguindo produzir música. No entanto, as pessoas ao seu redor estão aos poucos decaindo a um estado de digamos, produção duvidosa. Jimmy Miller não consegue mais efetivamente contribuir como um produtor. A produção fica cada vez mais nas mãos de Mick Jagger e, até certo ponto, Keith Richards. Andy Johns é outro que, por causa de heroína, começa a comprometer o ritmo de trabalho e é dispensado sem nenhuma cerimônia. Keith Harwood assume seu papel de engenheiro de som nas sessões.

Finley e Horn acabam sendo convidados a entrar para o projeto porque Price e principalmente Keys, ambos sofrendo ocasionais rebordosas por conta do hábito adquirido com heroína, estavam igualmente propensos a não estarem bem dispostos todos os dias de trabalho. Os Rolling Stones tinham planos para excursionar pela Europa e precisavam poder contar com sua seção de sopros. Graças à forte amizade entre Bobby e Keith, Keys e Price não são dispensados, e os Stones simplesmente duplicam o naipe de sopros.

Sessões de Fotos

Dia 6 de junho, outra sessão de fotografias para a capa, desta vez tiradas por David Bailey em sua casa em Glouchester Avenue. Bailey dá um tratamento glitter para as fotos a pedido de Mick que quer que a banda se mantenha condizente com as tendências do mercado atual. Keith odeia glitter e tem nojo do que gente como David Bowie estão fazendo com o rock. O álbum estava previsto para ser lançado em agosto. Jagger, por sua vez, acha tudo interessante. Se este é o caminho que a tendência segue, então os Rolling Stones não ficarão para trás.

The Tramp

Certa noite, novamente no The Tramp, na mesa do Keith Richards está seu assistente Tony Sanchez, o casal Ron e Krissie Wood e mais algumas amigas fazendo graça e companhia a Keith. Dentro de seu papel de 'o bandido do rock' Keith se irrita com dois sujeitos que ficavam olhando e encarando sua mesa à distância. Keith faz comentários altos o suficiente para ser ouvido por todos no clube, deixando claro que ele não está gostando. Porém os dois sujeitos, embora jovens, eram gangsters italianos de verdade e não se intimidam facilmente. Pelo contrário, tomam a atitude de Keith como um desafio. Reconhecem o papel de Sanchez como guarda-costas de Keith e esperam ele ir até o banheiro para agirem. Vão então até a mesa e cumprimentam uma das meninas da mesa com um "ciao bella". Keith fica mortalmente ofendido, puxa uma faca que comprara na Jamaica e parte prá cima, derrubando a mesa e tudo que havia nela. Algumas mulheres gritam, pessoas correm, mas antes que Keith consiga esfaquear alguém, um dos italianos lhe dá um chute no saco. Keith começa a cair e o outro italiano pega uma cadeira e atinge o guitarrista nas costas com toda a força.

Os garçons que serviam a casa também como seguranças, chegaram em seguida e os dois são convidados a sair. Tony retorna a tempo de ver o gerente da boate ajudar Keith a se levantar. Mais tarde Keith pagou $500 para alguém achar e surrar os dois caras. Este intermediário, temendo que o assunto pudesse se tornar uma vendetta assumida por uma família italiana, o que colocaria a vida de Keith realmente a perigo, preferiu dar o dinheiro para os dois, com a condição que sumissem e evitassem a boate por algum tempo. Depois informou a Keith que ambos foram surrados como ele desejara.

Ocho Rios

Enquanto isso, na Jamaica, Anita continua curtindo a vida de mulher madura, solteira e liberada, dançando horizontalmente e em todas as posições com sua turma de amigos rastafaris. A cena perturba muitas pessoas, provocando sentimentos menos nobres em outos britânicos que moram na redondezas. Sobre suas relações extra conjugais, Anita diria: "Keith pode estar com cinqüenta pessoas em uma sala e a única coisa que ele irá notar será a guitarra. Para se viver com uma estrela de rock, uma mulher precisa encontrar sua forma de independência".

Certa ocasião em junho, Anita foi ao Hotel Hilton acompanhado de seis amigos rastafaris. A gerência, protegendo os interesses do hotel em uma região que era conhecida pelo seu racismo, solicita que os homens negros se retirem. Anita fica injuriada com esta atitude e discute com veemência, defendendo o direito de seus amigos lhe acompanharem. O confronto se transforma em um bate-boca, com muita gritaria e troca de palavras que outrora eram impublicáveis. No final, todos são expulsos do hotel e o incidente passa a ser debatido por muita gente do local.

Os vizinhos que moram em Ocho Rios são todos claramente contra a presença de Anita e seus acompanhantes naquilo que consideram seu canto particular do paraíso. Esta mesma comunidade começa a pressionar a polícia para arrumar alguma desculpa para tê-la deportada. Com o pretexto de investigar acusações feitas por uma ligação anônima, a polícia faz uma blitz em Point of View e encontram um quilo de ganja na residência. Anita é prontamente presa por possuir e consumir maconha na Jamaica.

Cadeia de Delegacia

Na cadeia dentro da delegacia, os policiais ofendem Anita. Já que ela gosta de crioulo, então ela pode dividir a cela com eles. Anita é colocado em uma cela com outros seis presos, todos negros. Ela é então estuprada seguidamente por estes homens. Depois de um tempo, ela não consegue nem gritar mais. Ela apanha, e depois mijam sobre ela. Os policiais então retiram Anita dali e jogam-na em um chuveiro, nua. Depois ela é colocada em uma cadeia vazia onde alguns dos policias então passam a estuprá-la. Ela é novamente surrada. Quando terminam, Anita é novamente colocada na cela com os seis prisoneiros que já estão descansados e com fome novamente. Anita é seguidamente estuprada, no que se costuma chamar de gang bang. Quando o barulho aquieta, ela está exausta e melada, em um misto de mijo, porra e lágrimas.

Keith nada sabe do que está se passando com Anita e o tratamento que ela está recebendo na cadeia. Ao saber da prisão, sua primeira reação foi de querer ir até a Jamaica para tentar resolver o problema. Porém alguém dentro da empresa Rolling Stones chama a sua atenção para a possibilidade de ser uma cilada para que ele fosse pego, no que seria uma publicidade negativa para os Stones, tática esta usada muitas vezes contra a banda. Isto abre a oportunidade para um intermediário conduzir as negociações entre Keith e a polícia.

Quem se prontificou foi um empresário que também tinha residência nas redondezas. Era o mesmo homem que havia dado um toque ao Keith sugerindo que deveria conversar com sua mulher sobre suas amizades com os negros. Semanas depois de tudo resolvido, Keith iria constatar que ele também era o responsável por fazer a pressão para que a polícia arrumasse um pretexto para prendê-la. Sem Keith ainda desconfiar de seu envolvimento, este contato negocia a liberação de Anita por meio de um suborno. Keith Richards concordou em pagar o preço de £5.000 libras esterlinas, cerca de $12.000 dólares, para a imediata soltura e deportação de Anita.

Retornando para Inglaterra estão Anita e as crianças Marlon e Angela, enquanto Keith aguarda no aeroporto de Londres. Ao vê-la, Keith fica chocado, sua aparência era mesmo de alguém que havia surrada. Anita lhe abraça calorosamente e começa a chorar. Levada para a casa em Cheyne Walk, um medico é chamado para examiná-la. Este confirma as agressões físicas que as marcas por todo o corpo atestam, como também o estupro múltiplo. Chocado, Keith passa a entender o que se passou com a mulher de seus filhos. Anita chora muito e é receitado Mandrax para que ela se acalme e finalmente durma em paz.

A Viagem da Vovó

Foi precisando comprar calças novas que Keith conheceu John Pearce, dono de uma loja de roupas na Kings Road chamada "Granny Takes A Trip" (Vovó Faz Uma Viagem). A loja se torna rapidamente um dos pontos chics de Kings Road. John Pearce e seu assistente Nigel Weymouth adoram os Rolling Stones, e ficam extasiados com a presença de Keith Richards. E a preferência pela loja não é restrita apenas ao mundo da moda. Clientes especiais podem comprar outras coisas nesta loja tão "hip". Conhecendo a fama de seu herói, Pearce se oferece para arrumar heroína e cocaína sempre que ele precisar. Com a terrível experiência que Anita acabara de viver, Keith procura por Pearce e rapidamente uma remessa de heroína é entregue em Cheyne Walk. Heroína é a maior anestesia conhecida pelo homem e Keith e Anita fazem uso para anestesiar suas dores. É também no "Granny Takes A Trip" que Keith Richards conhece e faz amizade com um jovem jornalista chamado Nick Kent. Outros clientes especiais conhecidos da loja eram Rose Taylor, mulher de Mick Taylor, e Jimmy Page.

Repouso na Suíça

Marlon Richards
Marlon Richards

Keith não pode deixar Londres por estar trabalhando diariamente no novo álbum, porém sugere que Anita pegue as crianças e vá para o chalé na Suíça, onde as coisas são calmas e há bastante espaço e área verde para as crianças brincarem. Lá Anita conhece Mário, um traficante que passa a lhe fornecer heroína e cocaína de boa qualidade vindo da Itália via os Alpes. Enquanto Anita estava fora da cidade, Keith está de novo na noite. Um amigo ator chamado Joe Monk, sabendo que Keith estava sem mulher, oferece a sua. Monk fez parte do teatro vivo de Jullian Beck junto com Anita na década de sessenta, e a amizade com Keith data desde uma certa festa em Redlands em 1967.

A Mulher de um Amigo Meu

Constrangido pela oferta, Keith agradece mas recusa. Depois, quando Monk sai da cidade por conta de uma peça, Keith procura a mulher e os dois passam a ter um caso. Quando Monk retorna de viagem, Keith fica paranóico que Joe possa estar a sua procura. Joe Monk é um negro alto e musculoso, capaz de intimidar qualquer um. Apesar das aparências, Monk era na verdade um ator e poeta muito sensível, e quando percebe o que acontecera pelas suas costas, fica mais magoado do que zangado ou enciumado.

Joe Monk e sua esposa se encontraram com Keith Richards nos bastidores de um show dos Faces. Casal moderno, a esposa saudosa do amante abraçou-lhe e deu um beijo tenro nos lábios. Joe conversou com Keith, explicando que não há mau tempo, embora achasse que por ser um amigo, Keith não deveria ter feito isto às escondidas. Keith então resolveu ficar mesmo com a mulher e passa a morar com ela em Cheyne Walk.

Cheirando cocaína com certa regularidade, a paranóia de um ataque surpresa por parte de Monk buscando vingança não deixa de atormentar sua mente. Por via das dúvidas, Keith mantém o revólver calibre 38 que ganhou nos Estados Unidos, e também manda buscar um rifle que tinha encostado na Suíça, deixando ambos bem a vista no seu quarto. A presença das armas lhe conforta, concluindo que pelo menos elas diminuem as chances de Monk lhe pegar totalmente desprevenido.

Vingança

Na semana depois da volta de Anita, o tal empresário está em Londres e liga para Keith para coletar o seu dinheiro. A esta altura, Keith já descobrira que ele era o responsável por Anita ter sido presa e arde em ódio. Keith marca com o empresário um encontro em seu hotel, onde ele lhe entregaria o dinheiro pessoalmente. Keith então procura aquela mesma pessoa a quem pedira para surrar os dois italianos na briga de bar tempos atrás para cuidar do assunto, lhe oferecendo £5.000 para providenciar alguém para matar o empresário. Keith deixa claro que não quer saber dos detalhes, apenas quer que o serviço seja feito. Este amigo, apesar de concordado com suas razões, acabou conversando e persuadindo Keith a desistir da idéia.

Keith e Anita são Presos

Assim que Anita telefona dizendo que está deixando a Suíça e chegando em casa com as crianças, Keith manda a mulher de Monk embora, dizendo: "lamento querida, mas minha família representa muita coisa na minha vida". Dois dias depois que Anita retorna, dia 26 de junho, o casal recebe uns amigos à noite. Eles já haviam jantado e fumado uns baseados quando de repente a polícia invade a casa.

Além de Mick e Anita encontram Marhall Chess e o Príncipe Stanislaus, o mesmo amigo que fora preso com Brian Jones em 1967, na última vez que pernoitara na casa de um Rolling Stones, em véspera de uma batida policial. Encontraram haxixe com Stanislaus, mas Marshall estava completamente limpo. Anita, que estava com um saquinho com cocaína na mão na hora que vê os policiais entrarem em sua sala, passa a muito casualmente deixar o pó cair sobre o carpete e com o pé, espalhá-lo como se fosse apenas poeira. Keith procura uma desculpa para ir ao banheiro. Ele precisa se injetar para lidar com essa situação, mas os policiais não permitem, exigindo que ele deixe a porta do banheiro aberta o tempo todo. A casa é vasculhada e para a surpresa de absolutamente ninguém ali dentro, encontraram o mandrax que pertencia a Anita, um rifle, uma pistola e munição, tudo ilegal na Inglaterra.

O Inspetor Detetive Charles O'Hanlon deu voz de prisão e são então levados para a delegacia. A polícia apreende também uma linda balança de precisão de bronze, e vários cachimbos d'água e narguilês. Todos receberiam intimação para se apresentar em outubro para julgamento, assim que o laboratório determinasse se havia resíduos de heroína na balança. Por hora, são multados em £450 e liberados. Keith ficou aliviado que a policia tenha ficado tão satisfeita com tão pouco. Se tivessem vasculhado com afinco, teriam encontrado vastas quantidades de cocaína e heroína escondidos pela casa.

De fato, Keith e Anita já estavam em um estágio avançado de vício, onde era inconcebível ficar sem as drogas. Quando as cólicas de abstinência começam a ameaçar, rapidamente injetam o liquido precioso em suas veias. Escondem heroína um do outro. Mentem para quem quer que seja, para evitar se sentir na obrigação de repartir a droga com um visitante amigo. Enquanto esteve na América, Keith conseguiu contratar alguém que trabalha no cinema, para construir objetos com compartimentos falsos, onde ele passa então a esconder cocaína e/ou heroína. Como exemplo, na próxima excursão européia Keith contaria com um novo brinquedo: uma caneta que, além de escrever, continha um compartimento em seu interior, que lhe permitia guardar até 4 gramas de pó.

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Chris Jagger
Chris Jagger

Mick Jagger aluga o estúdio em Stargroves para seu irmão, que pretende gravar seu disco de estréia. Chris Jagger até então havia trabalhado em modas, tendo desenhado modelos usados por gente como John Lennon e Jimi Hendrix. Depois de uma rápida tentativa como ator em um filme dirigido por Kenneth Anger, tenta agora se lançar como cantor, feito o seu irmão famoso.

Mick Jagger participa do projeto cantando na música "Handfull of Dust", carro chefe para o álbum intitulado simplesmente "Chris Jagger". Ian Stewart e Bobby Keys também participam de algumas das faixas. O disco é lançado no início de julho. Apesar de bem produzido e cheio de material que se pode considerar como sólido rock 'n' roll, o álbum não vendeu bem ou sequer promoveu devidamente a carreira do artista.

Peter Rudge já estava com a excursão dos Stones pela Europa e Reino Unido praticamente toda acertada para o final do verão. Com as mixagens do novo álbum prontas, Mick Jagger contrata Michael Lindsey-Hogg para dirigir quatro filmes promocionais para o disco. Sendo assim, dia 17 de julho, os Rolling Stones foram reunidos e filmados enquanto uma fita rolo tocava sem o canal da voz. Apenas o microfone da voz está vivo enquanto Jagger autenticamente cantava "Dancing With Mr. D.", "Angie", e "Silver Train." Outra versão de "Angie" foi filmada, esta seguindo inteira em playback, inclusive o canal de voz. Nesta, Mick Taylor aparece tocando piano, enquanto na outra, ele está no violão.

Parte 43 - A Macaca

Dia 17 de julho os Rolling Stones foram reunidos e filmados enquanto uma fita rolo tocava sem o canal da voz. Apenas o microfone do vocalista estava vivo enquanto Jagger autenticamente cantava "Dancing With Mr. D.", "Angie" e "Silver Train." Outra versão de "Angie" foi filmada, esta seguindo inteira em playback, inclusive o canal de voz. Nesta, Mick Taylor aparece tocando piano, enquanto na outra, ele está na guitarra.

John e Anita

Após a recente batida policial, Keith passa a ficar constantemente desconfiado da possibilidade da polícia retornar e encontrar mais flagrante. Assim, sua saída foi passar a encomendar quantidades pequenas de tóxico trazidas quase que diariamente pelo seu atual fornecedor principal, John Pearce, da loja de roupas. John é um fã dos Rolling Stones e quer de todo jeito firmar amizade. Nas primeiras entregas, tenta puxar conversa e ser mais do que apenas um fornecedor. No entanto, o casal pouco se interessa pela sua atenção, querem apenas suas remessas de heroína. Percebendo o interesse grudento de John, o casal passa a normalmente deixar para o empregado Tony Sanchez recebê-lo, pegar a encomenda, pagá-lo e mostrar-lhe a porta. São raras as ocasiões em que um dos dois recebem pessoalmente John ou seu parceiro Nigel.

Quando Sanchez estava fora cuidando de outros afazeres, era Anita quem o recebia. Querendo ser convidado a tomar um chá, John oferece Anita um pouco de fofoca. Anita gostava desses disse-me-disses e foi assim que ficou sabendo do caso entre Keith com a mulher do Monk. John fez Anita jurar que jamais diria que foi ele quem lhe contou mas mal ele saiu e ela estava invadindo o quarto do casal, pulando em cima de Keith, tentando arrancar o seu cabelo e gritando a plenos pulmões "John me contou tudo!!" Horas mais tarde, com Anita mais calma, Keith tramava se vingar de John.

Neste meio tempo, cismada que fora Joe Monk quem delatara Keith para a polícia, Anita jurou que faria uma macumba contra ele. Por uma infeliz coincidência, Monk morreu algumas semanas depois em um acidente de carro em Mojarca. Algumas pessoas gostam de cogitar que Anita tenha realmente algum poder através do voodoo. Bianca Jagger é a prova que isto é pura ficção...

John e Keith

No dia seguinte, John chega na hora habitual. Tony o informa que Keith gostaria muito de lhe falar. O amor de fã certamente o cegou, extasiado com a idéia de que seu herói fazia questão de falar com ele, e John entrou no quarto aparentemente sem desconfiar de nada. Keith puxa conversa com um sorriso no rosto enquanto recebe sua remessa de cocaína e bate uma carreira. Uma vez se servindo do pó, Keith pega uma espada pendurada na parede e, com a parte chata da lâmina, acerta John que, embora assustado, tenta manter a pose.

"Você anda falando demais, não acha?" disse-lhe ameaçadoramente, enquanto John se faz de desentendido. Keith então passa a apertar a ponta da espada contra o peito de John. Aperta o suficiente para doer muito mas não o suficiente para realmente perfurar a pele. Segundo o testemunho de Sanchez, Keith agarra um tufo do cabelo comprido de John e faz menção de atingi-lo com a lâmina, este na mesma hora pulando da cadeira e correndo para o outro lado do quarto. Keith passa então a fazer desenhos no ar com a espada, fingindo tentar golpear seu desafeto e errando, deixando o coitado branco de medo. Então surge Tony que procura agarrar Keith, que por sua vez finge tentar se desvencilhar, gritando "me larga Tony, vou pegar este cagüete e cuidar dele!" Como parte da encenação, Tony faz o papel do bom amigo gritando para John sair correndo enquanto ele ainda conseguia segurar Keith. Esta é a deixa para John sair em disparada, fugindo porta afora feito um raio. Para trás ficaram Keith e Tony rindo as gargalhadas. A remessa de droga do dia ficou sem ser paga.

Mário Diamorfina

Para substituir John veio Mário, o fornecedor de Anita na Suíça. Mário era italiano e circulava via os Alpes entre Itália e Suíça. Anita telefona e solicita uma remessa de heroína caprichada para durar um mês. Mário chegou no aeroporto de Londres trazendo uma mala com um compartimento secreto escondendo oito onças e meia (quase 230 gramas) de diamorfina, uma forma de heroína crua resultado de morfina aquecida com ácido acético. Ao apresentar a mercadoria, Keith fica pasmo. Para transformar diamorfina em heroína ele precisaria de um químico qualificado, algo que não tinha como conseguir de uma hora para outra. Em compensação, uma vez refinada a diamorfina, as oito onças se tranformariam facilmente em pelo menos trinta, se não quarenta onças.


Contudo, enquanto Diamorfina, esta droga não lhe servia para nada. Mário pensava que estava lhe fazendo um grande favor e estava cobrando apenas £8.000 pelo peso. Keith cria empecilhos e não quer pagar. O traficante se sente ultrajado pois não tem o costume de transportar este material para a Inglaterra, tendo vindo exclusivamente a pedido de Anita, que havia encomendado uma quantidade caprichada e ele trouxe a maior quantidade possível em sua forma mais simplificada para o transporte. Achando toda a situação simplesmente inaceitável, Mário dá um ultimato a Keith: "sua mulher encomendou a remessa e aqui está. Me pague e eu saio da sua vida e até do país". Com relutância, Keith pagou Mário, mas mesmo assim, somente depois que ele aceitou baixar o preço para £7000. Mário sai furioso e nunca mais negociou com eles.

O problema passa então a ser o que fazer com a diamorfina? Experimentam cheira-la em seu estado crú até ficarem com náusea, concluindo que a droga assim não faz o desejado. Keith resolve então guardar tudo até encontrar uma maneira de tranformar aquilo em algo que prestasse.

Polícia de Olho

Certa tarde, Keith percebe de sua janela uma equipe mexendo nos fios telefônicos. Imediatamente presume que é a polícia desfarçada, tentando armar alguma arapuca para pegá-lo. Um empregado faz um teste com o aparelho de Keith, discando um número para desligar em seguida e esperar. Se o telefone tocar de volta, é porque não há nenhuma escuta interrompendo o circuito. O telefone tocou. Sua linha portanto estava livre de espionagem. Mas Keith continuava com receios. Sua casa estava cheia de uma droga que ele não podia usar, mas se fosse pego com ela, com certeza iria para a cadeia. O que fazer?

A Aposentadoria de Ziggy

David Bowie, ainda como Ziggy Stardust & the Spiders From Mars, estava em seu último show de uma excursão que completava o segundo ano. Realizado no Hammersmith Odeon no dia 3 de julho de 1973, o show teve a participação de Jeff Beck, convidado a subir ao palco e tocar com a banda em alguns números. Ao final, em meio aos agradecimentos, David Bowie surpreendeu todos ao anunciar que era a última apresentação da banda.

Aynsley Dunbar, Lou Reed, Mick Jagger, David Bowie, Jeff Beck e Mick Ronson
Aynsley Dunbar, Lou Reed, Mick Jagger, David Bowie, Jeff Beck e Mick Ronson

No dia seguinte, uma grande festa foi realizada no Cafe Royal. Entre os convidados estavam Mick Ronson, Woody Woodmansey, John Hutchinson, Cat Stevens, Lou Reed, Jeff Beck, Lulu, Spike Milligan, Sonny Bono, Hywel Bennet, D.A. Pennebaker, Cherry Vanilla, Dana Gillespie, Tony Curtis, Barbra Streisand, Ryan O'Neal, Elliott Gould, Dudley Moore, Peter Cook, Ansley Dunbar, Keith Moon, Paul e Linda McCartney, Ringo e Maureen Starr, e Mick com Bianca Jagger.

O pianista americano de Nova Orleans, Dr. John, foi contratado para tocar e entreter todos musicalmente. A festa foi organizada pela MainMan Productions, produtora que cuidava de David Bowie e da qual ele era também um dos sócios. O evento ficou conhecido como 'The Last Supper', a última ceia (em referência à Ceia Santa). Depois de uma certa quantidade de Champagne, acoplado de um certo jogo de ciúmes, Bianca passa a dar uma maior atenção para David e Angela Bowie.

O casal Bowie tem desde o início um relacionamento bem aberto. David Bowie estava nesta época mantendo casos amoroso com Cherry Vanilla, Ava Cherry e Angela sua esposa. Tudo dentro de casa, onde Angela, bi-sexual assumida, participa.

Encontrando-se no Wick

Keith começa a passar mais tempo na casa de Ron Wood. Em uma nova visita de Mick Jagger onde membros dos Faces estão presentes, acaba rolando uma versão com banda do novo tema que Mick e Ron iniciaram semanas antes. Agora completo com letra, gravam na noite do dia 24 de julho a primeira versão completa de "It's Only Rock 'n' Roll (But I Like It)." A banda nesta ocasião é formada por Keith Richards na guitarra, Ron Wood no baixo, Ian McLagen nos teclados, Kenny Jones na bateria e Mick Jagger nos vocais.

Em um dos muitos encontros que Keith vinha mantendo com Ron Wood, ele comenta sobre seu atual dilema. Entendendo que o colega está com receio de ficar em casa por temer outra batida policial, Ron faz uma proposta. No final de seu jardim existe um chalé que estava sem uso. Caso queira bancar um trato no lugar, Keith pode ficar hospedado lá pelo tempo que achar necessário. Keith agradece e aceita.

Não demorou para contratar pintores e uma firma especializada para consturir e montar uma cozinha no local. Uma semana depois, com as obras ainda incompletas, Keith chama Tony Sanchez para levar a muamba de Rolls Royce no meio da noite até o chalé. Seguindo à distância na Ferrari, ao chegar, Keith vai sozinho esconder a droga. Já tendo caminhado pelo quintal de Woodie durante o dia, e portanto conhecendo mais ou menos a área, lembra de um estaleiro abandonado no final do terreno. Ele vai e enterra tudo lá.

Mick J. Chega Aos Trinta

Mick Jagger faz trinta anos e o amigo David Milinaric promove a festa em sua casa, uma pequena mansão em Chelsea. Estavam presentes amigos como Pete Townshend, Mama Cass Elliot e os membros dos Faces, além de amigos ligados à organização Rolling Stones. Pessoas fora das artes também estavam presentes, nomes como J. Paul Getty II, Britt Ekland, Duncan Laurie e a fotógrafa Sheleta Secunda. Segundo consta, Anita estava sem sair há tanto tempo para encontros sociais que ela acabou se vestindo exageradamente, na moda típica psicodélica como se fazia em '67. Anita e Keith ficaram na festa apenas até acabar a cocaína que trouxeram, cerca de duas horas.

Sheleta

Sheleta Secunda era a ex-esposa de Tony Secunda, empresário conhecido e respeitado na Inglaterra que cuidava de bandas como The Moody Blues e The Move. Os meandros jurídicos de seu divórcio haviam deixado-a em excelente situação financeira. Ela morava em uma mansão no bairro de Kensington que tinha no banheiro o ponto predileto dos seus amigos, onde as visitas mais ilustres gostavam de se injetar no conforto do tapete espesso e espaço amplo que este oferecia. Sheleta sempre mantinha uma quantidade aparentemente inacabável de heroína e outras drogas para seu uso. Não é de espantar portanto que Sheleta e Anita iniciam aqui uma bela amizade.

Redlands

Keith estava excessivamente preocupado com a possiblidade da polícia estar vigiando sua casa e tentando aprontar alguma batida de uma hora para outra. Com as obras no chalé do Woodie ainda em andamento, sua impaciência o leva a fugir com a família para sua casa de campo em Redlands. Seria uma oportunidade para descansarem e curtirem o calor deste verão antes dos ensaios para a excursão Européia que se iniciaria em breve. Mas parece que não haveria sossego neste passeio. Dia 31 de julho, a residência de Redlands pega fogo. Não era a primeira vez que Keith dormia com um cigarro na boca ou na mão. Quando acordou, o teto de sua casa já estava em chamas.


Keith e Anita corriam desesperadamente da sala para o quintal, a cada vez trazendo uma peça de mobilia, todas antigüdades mantidas na residência.

A Ferrari também foi logo retirada da garagem e estacionado em frente da casa. Os bombeiros não demoraram a chegar, porém, depois que o teto desabou, a casa foi essencialmente consumida pelo fogo.

Tristes e cansados, o casal se muda para a casa ao lado que Keith havia comprado na primavera passada para servir como residência de hóspedes. Lá, depois de se recobrar do susto, dão entrada no seguro e começam a planejar a reforma. Um arquiteto seria logo contratado para reconstruir a casa, tornando-a maior e possivelmente melhor do que já era. A obra duraria anos.

A Macaca

Existe na língua inglesa a gíria monkey, ou seja macaca, para exemplificar as dores, cólicas, etc. que se têm com a abstinência de alguma coisa, mormente drogas. A gíria vem da velha expressão 'as bothering as a monkey on your back', ou seja, 'tão incômodo quanto uma macaca nas costas.'


Certa tarde, enquanto Keith descansava no sofá, uma procissão de carros de polícia entram na rua com suas sirenes a todo volume. O guitarrista pula meio metro e parte correndo para a escada. Levanta o tapete e começa a procurar uma tábua solta, que escondia um compartimento onde ele guardara uma parte de seu estoque. Antes que ele possa chegar a um dos vários locais onde guarda sua heroína, Keith percebe que as sirenes continuavam urrando rua abaixo. A polícia podia estar à procura de alguém, mas ao que parece, não era ele.

Algumas semanas se passaram e inevitevelmente o seu estoque acaba. A necessidade do corpo pela droga traz a insegurança instantânea. O próximo fornecedor que Keith arrumou se chama David, que, ao ser procurado, é obrigado a negar a encomenda, pois não teria para o mesmo dia, promete porém para o dia seguinte. Este é o pesadelo de qualquer junkie, a ânsia pela droga que não está à disposição. Tentando evitar entrar em pânico, Keith vai até The Wick, no chalé no fundo do quintal.

Dentro do chalê, ele havia guardado alguns papelotes de heroína em uma parte oca do teto. O teto descia em um ângulo unindo-se com a parede. Aparentemente os papelotes deslizaram por trás da parede que, feita de madeira, tinha diversas divisórias. Assim, para encontrar qual o local exato onde estariam seria uma questão de adivinhação. Após destruir parte da parede, literalmente retirando as tábuas, concluiu-se que não estava valendo a pena.

À esta altura Keith já entrara em pânico. Suas mãos estavam tremendo e ele já conseguia sentir a febre chegando. Mandou seu assistente comprar heroína nas ruas, o que levou algumas horas. Uma vez injetada a droga de pureza duvidosa e preço exploratório, o suor frio amainava e a calma do guitarrista voltava.

Preparações Para A Excursão Européia

O planejamento para esta excursão européia incluía cinco dias de ensaio em Kleine Zaal, situado em Rotterdam, Holanda. Havia porém uma certa preocupação em relação à crescente dependência de membros da banda por heroína, mormente Keith, que não podia mais passar um dia sem a droga. Os cabeças da operação, no caso Jagger, Chess e Rudge, precisavam estudar uma tática funcional de se conseguir locomover Keith Richards para um novo país a cada dois dias traficando heroína. A única outra opção seria a de desintoxicação, coisa que teria que ter sido iniciada há mais tempo. Caso se internasse em uma clínica, Keith não teria condições físicas ou psicológicas para viajar, quanto mais tocar guitarra diante de milhares de pessoas. A tensão acumulava diante das incertezas.

Marshall Chess
Marshall Chess

Foi Marshall Chess quem chegou com a solução. Ele havia se viciado em heroína em 1971 em Nellcôte, mas se livrou do vício graças a um tratamento feito com um médico da Flórida, que consistia em uma filtração completa do sangue do corpo, eliminando toda heroína da corrente sangüínea. O tratamento foi tão fácil e tão eficiente que Marshall até voltou a usar heroína, sabendo que a cura se tornara uma questão meramente financeira, problema que ele não tinha.

Keith concordou com o tratamento e ficou acertado que o bom doutor iria tratá-lo na Suíça, após a apresentação em Birmingham, dezenove dias depois do início da excursão. Até lá, Keith iria depender da discrição de sua canetinha com heroína malocada em um compartimento secreto. Anita não iria viajar com ele, teoricamente ficando em casa. Na verdade, ela pegaria as crianças e praticamente se mudaria para a casa de Sheleta.

Além de Keith, outros membros da equipe na excursão com problemas de dependência eram Marshall Chess, Bobby Keys, Jim Price e Mick Taylor, o hábito deste último crescendo de uma forma preocupante. Na verdade, esta excursão seria vista no futuro como o ápice da banda (e equipe) no que se refere ao consumo de drogas, todos alucinados o tempo todo. A situação letárgica de todos levaria Bill Wyman a comentar que esta poderia ser sua última excursão com os Rolling Stones. Na realidade, ficara difícil acreditar que a banda poderia continuar existindo por muito mais tempo.

Rotterdam


Dia 18 de agosto os Rolling Stones seguem para Rotterdam e alugam o De Doelen Hall, onde ensaiam durante cinco dias para a excursão. Durante os ensaios um repertório novo começa a ser moldado, incluindo canções do novo álbum. Preparam um número maior de canções do que realmente precisariam para a excurção, experimentando algumas canções novas ou pouco testadas, para ver o que poderiam usar. Dentre as que acabariam de fora estavam "Can You Hear The Music", "100 Years Ago" e "Shine A Light". E entre as novidades que entram para o repertório estavam "Angie", "Silver Train", "Dancing With Mr. D." "Doo Doo Doo Doo Doo," e "Star Star". "Angie", junto com o lado B "Silver Train", se torna o primeiro compacto da banda do ano, lançado dia 20. Na Holanda, Bobby Keys sofre um acidente de carro, caindo com seu Jaguar dentro de um canal. Por sorte não se machucou e não foi necessário ser substituído às pressas.

Goats Head Soup

Goats Head Soup
Goats Head Soup

"Goats Head Soup" é lançado no último dia do mês de agosto, véspera da estréia da excursão. Os Stones promovem o álbum, que tem dez composições novas, durante várias entrevistas realizadas em meio à turnê em vários países diferentes. Como de costume, seria Mick Jagger quem mais falaria, elogiando o fato do disco, em comparação com o anterior, ter canções mais variadas musicalmente. Ele complementaria dizendo: "'Star, Star' é a única canção com um certo cinismo. Todas as demais falam de beleza." Keith destacaria o prazer que foi ter gravado as bases na Jamaica.

"Angie" era a primeira balada lançada pelos Stones e como tal, choca fãs mais antigos. Jagger seria acusado de transformar o grupo em uma banda de balada. Em parte isto não só é verdade como é também uma saída encontrada por Mick para esconder a situação desgastada de Keith, a quem julga não ter mais pique para segurar um show só com rockões. A Atlantic Records também estava desapontada com os Stones, pois a gravadora vinha sonhando com um novo "Brown Sugar" e não com uma balada romântica. Indiferente a isto tudo, a canção faz sucesso mundial e aumenta a popularidade dos Rolling Stones, atraindo um público mais abrangente.

A canção disputa um mercado onde no topo das paradas estavam artistas como Cher, The Carpenters, Gary Glitter, Michael Jackson, Donny Osmond, David Cassady e Helen Reddy. A crítica chamaria o álbum de uma tentativa dos Stones de entrar no filão do Glam Rock. No entanto, o disco vendeu muito e apresentou a banda para um público muito maior, não obsecado por riffs ou r&b. O grande público das pop ballads.

European Tour - Primeiro Terço

Dia primeiro os Stones estão aterrisando em Vienna, Áustria, para o início de um total de quarenta e três shows. A banda contava, além dos cinco integrantes, com a assistência de Billy Preston nos teclados, enquanto os metais ficavam por conta do trio Bobby Keys e Trevor Lawrence, ambos no saxofone, e Steve Madaio no trumpete e trombone. Como medida de segurança, os Stones continuam a utilizar a tática de se registrar em hotéis com nomes falsos. Mick J é Mr. Groves, Keith é Mr. Dino, Bill é Mr. C. Palace, Charlie é Mr. Parker e Mick T é Mr. Wilshire. Duas bandas abrem a cada show. A primeira era uma banda da gravadora Rolling Stones chamada Kracker. Seu empresário era ninguém menos que Jimmy Miller, produtor dos Stones. A outra se chama The God Squad, e tratava-se da banda de Billy Preston, que depois de seu set retorna novamente ao palco com os Rolling Stones.

Haviam boatos que eram provavelmente corretos, dando conta que durante a apresentação em Viena, Áustria, espiões russos estavam entre o público para assistirem e analisarem o show dos Rolling Stones. Acontece que a banda mostrava reais interesses de tocarem em Moscou e as ordens destes homens era de assistir e reportar para o Ministério da Cultura de seu país, para concluírem se este grupo musical tinha algum valor cultural de interesse para a Rússia. A resposta acabaria sendo negativa. Intenções dos Stones de tocarem também em Praga, Tchecoslováquia e Varsóvia, na Polônia, encontraram a mesma receptividade negativa.


Depois da apresentação na Áustria passam dois dias na Alemanha, se apresentando primeiro em Mannheim e depois fazendo dois shows em Cologne. Depois de três dias de descanso, começa no dia 7 de setembro a etapa da excursão dentro do Reino Unido. Um certo alívio recai em todos cientes do problema de Keith em relação a seu vício. Apesar de viajar com flagrante, uma vez no Reino Unido ele pelo menos não iria mais passar por fronteiras (e alfândegas) internacionais.

A Festa do Palácio de Blenheim

Uma festa promocional foi cuidadosamente preparada para a imprensa, promovendo não só a etapa britânica da excursão mas também o novo álbum recém lançado. Mick Jagger aluga o Blenheim Palace, local onde Winston Chruchill nascera, para a realização da festa e deixa claro que toda a banda precisará estar presente. Este ponto foi largamente discutido com Keith. Na noite do evento, Anita fica de birra e não quer sair. Ela passou a odiar programas sociais e raramente participa de tais eventos. Mas a importância deste evento em particular havia ficado clara para Keith e, após uma briga que durou praticamente o dia inteiro, Anita resolveu vestir uma camiseta e jeans e ir com ele e Marlon.

Com o carro se aproximando do local, Anita logo percebe que o evento é de gala, todos impecavelmente bem vestidos. Ela então passa a fazer o maior tumulto dentro do carro, exigindo que voltassem para casa, mostrando absoluta determinação de não entrar vestida de jeans e camiseta. Keith e Anita discutem seriamente enquanto o chofer particular, o auxiliar para assuntos aleatórios e o pequeno Marlon, apenas fingem que não estão ouvindo. No fim do impasse, Anita concorda em esperar no carro enquanto Keith e Marlon marcam presença na festa, sejam fotografados e retornem. Tudo em um total de uma hora.

Enquanto o auxiliar geral Tony cuida de Marlon, Keith e Bobby Keys vão até uma sala ao lado, onde tiram seringas e garrote. Cada um se aplica e estão prontos para a noite. Não demora muito e Mick Jagger chega para carregar Keith dali. "Vamos lá cara, você precisa ser visto. Deixe que eles batam umas fotos com você e a banda, isto é importante!" E Keith sabe que Mick tem razão e segue Mick de volta para o salão principal, mostrando seu espírito de equipe. Atrações da festa incluem engolidores de fogo e mímicos, que apresentam seus truques em um canto do salão enquanto o público conversa e circula livremente.

Depois de uma série de fotos, ele encontra uma cadeira junto à mesa onde está seu filho Marlon e olha o mundo com um olhar tranqülo. Bianca passa e uma vez que Anita não está, ela chega e cumprimenta Keith, puxando conversa com sua costumeira polidez e finura. O tempo vai passando e não demora muito para Anita aparecer, com seus trajes destoando totalmente dos demais. Ela vai direto para a mesa onde Keith e Bianca estão sorvendo Champagne e conversando amigavelmente.

Quando Keith a vê sabe imediatamente que ela está aborrecida. Só lhe resta dar um "olá querida" e esperar que as coisas se resolvam sem muito dor de cabeça. Anita infelizmente estava perto de espumar, tamanha raiva por estar no carro enquanto Keith tomava Champagne e se divertia com os convidados. A primeira coisa que ela faz é mandar o marido à merda. Bianca, perplexa com a recepção, pergunta inocentemente o que houvera e por onde ela estava. Anita responde em um volume que silencia todo o salão: "aonde estive? Não é da sua conta aonde eu estive, sua puta idiota! Vamos Keith, estamos de saída!"

Mick, como todo o resto da festa, ouviu o fora e temendo ver a baixaria em todos os jornais no dia seguinte rapidamente intervém, sussurando no ouvido de Keith para levar Anita embora imediatamente. Keith sabia que ele tinha razão e imediatamente levanta, pega Anita pelo braço e sai por uma porta lateral, com Tony e Marlon correndo atrás. A festa continua harmoniosamente como antes, e Mick, eterno bom anfitrião, encanta todos e não deixa a rusga estragar a noite. No entanto, para quem tem alguma noção do que é conviver com um viciado, sabem qual é o mal que está fermentando dentro do âmago do relacionamento entre Keith Richards e Anita Pallenberg. Depois desta noite, os boatos e apostas sobre quanto tempo de vida lhes restam começariam a fazer parte da conversa casual, primeiro entre pessoas do meio, depois entre os fãs.

Discussão Íntima

Dentro do carro no caminho de casa, enquanto o motorista dirige e Marlon senta no colo de Tony lá na frente, ambos olhando a paisagem da noite escura, Anita e Keith estão no banco de trás fazendo um análise da noite. Keith começa sua dissertação sobre porque a conduta de Anita não lhe agradou dando-lhe um soco, com toda força, bem no meio do rosto. Com a força de tal argumento, Anita revindica o direito de seu parecer pulando em cima do marido e arranhando com as unhas o seu rosto. Depois ela começa a puxar o seu cabelo, os dois a esta altura caindo no chão do luxuosíssimo Rolls Royce.

Por sinal, nada disto estava acontecendo com qualquer discrição. Estavam aos berros um com o outro enquanto o motorista apenas olha para frente, mantendo sua atenção na estrada. Keith consegue se desvencilhar e dá outro soco bem dado no meio da cara de Anita. A esta altura ela já está cansada e passa boa parte da viagem chorando no canto. Depois, cria coragem, e pula novamente em cima de um distraído Keith e arranha novamente seu rosto, tentando arrancar os olhos.

Quase em casa, a briga acalmou a ponto de passarem a discutir realmente, apenas com palavras. Keith se queixa que ela teve o dia inteiro para arrumar uma roupa legal para usar, que ela tinha um monte de jóias e não se vestiu caprichosamente porque não quis ou por preguiça. Anita então começa a reclamar que quer heroína. Ela cheirara sua última grama no carro a caminho da festa. Keith então diz que ele não tem, o que é uma mentira, porque Bobby Keys tinha deixado alguma coisa nas suas mãos.

Chegando em casa, ela foi correndo para o quarto e começou a procurar algum papelote de heroína escondido por Keith. Da sala se ouvia o barulho, Anita parecendo estar destruindo todas os cômodos à procura da droga. Keith finalmente resolve subir para ver se ele consegue acalmá-la por bem ou por mal. Ao ouvi-lo subindo, ela começa a jogar botas e sapatos em sua direção, ofendendo-o com todos os nomes possíveis. Passa a exigir que ele arrume alguma coisa para ela, se não vai entrar em abstinência. Tony é então mandado a procurar algo, voltando duas horas depois com uma pequena quantidade de heroína de má qualidade que lhe custara um preço exorbitante.


Tony, como Keith e Anita, também era um viciado. Ele precisava de parte daquele papelote que acabara de comprar para domar o seu próprio vício. No entanto, Anita pegou o papelote e mandou Tony sair de sua casa. Keith sugeriu que ele saísse, desse um tempo e depois retornasse. Até lá Anita já teria apagado e ele lhe daria o que sobrasse para que Tony pudesse passar a noite sem o efeito da abstinência. Tony era um empregado que trabalhava para Keith havia seis anos. No entanto, quando depois de uma hora ele retorna, ninguém atende à porta. A realidade de um viciado não dá espaço para lealdades a ninguém.

O dia amanheceu com Tony desesperado tocando a campanhia e esmurrando a porta. Ele acaba se conformando em ir para casa, onde passa mal pelas próximas horas. Mas antes que a macaca chegasse com todo o vigor, Keith liga e lhe oferece uma dose salvadora. Mais tarde, Tony consegue com um médico umas prescrições de metadona que usa para tentar enganar seu vício de heroína.

Parte 44 - A Última Excursão de Mick Taylor

O dia amanheceu com Tony desesperado tocando a campainha e esmurrando a porta. Ele acaba se conformando em ir para casa, onde passa mal pelas próximas horas em crise. Antes que a macaca chegasse com todo o vigor, Keith liga e oferece uma dose salvadora. Mais tarde, Tony consegue com um médico umas prescrições de metadona, com o qual passa a tentar enganar o seu vício em heroína.

Um Fantasma do Passado

Sem mais o peso ou o auxílio do alter-ego Ziggy Stardust, David Bowie realiza seu primeiro especial de televisão. Para o seu próximo projeto, ele pretendia fazer um disco conceitual sobre o livro "1984" de George Orwell. Porém, sem conseguir a permissão da viúva do autor, acaba preparando um álbum inspirado no livro porém sem mencioná-lo especificamente. Este disco somente sairia em 1974, mas Bowie já estava focando toda sua atenção no tema.


Assim, o especial televisivo é batizado por ele como "The 1980 Floor Show", um trocadilho onde a palavra "floor" (andar) é uma rima óbvia para a palavra "four" (quatro). Nele, Bowie canta uma série de canções de seu repertório assim como material fora dele. Vários são os convidados para o programa, um deles tendo recebido um convite especial direto de Bowie. Trata-se de Marianne Faithfull.

Marianne começou a se recobrar de seu período espiral para a decadência quando o produtor Mike Leander foi procurá-la no muro(!) em St. Anne's Yard, no Soho, com a idéia de gravar um disco. A Gem Music, que bancava o projeto, pagou o aluguel de um pequeno apartamento em Russell Square em Bloomsberry. É uma área não muito prestigiosa da cidade, no entanto, muito melhor do que morar ao lado de um muro em Soho. Ela também se internou no Bowden House com intuito de se desintoxicar, embora na prática, tenha ficado lá por apenas alguns dias, e ainda por cima havia uma pessoa que lhe levava heroína dentro do hospital. Um enfermeiro, ao descobrir, acabaria quebrando dois dentes da frente de Marianne com um soco. Em seguida ela deixou o local.

Marianne grava "Rich Kid Blues" com uma voz tão fraca, que nada profissional se materializou do trabalho. Mas no plano pessoal, ela foi à sua primeira festa depois de um longo hiato, onde além de passar um tempo enorme no banheiro cheirando cocaína com Mick Jagger e Suki Poiter, conhece um aristocrata chamado Oliver Musker, que se apaixona por ela. Marianne passa a morar com Oliver, que por sua vez a colocou nas mãos de Dr. Willis, bancando seu novo tratamento, que consistia em injetar meia grama de heroína a menos do que o habitual, até o organismo se acostumar. Com isto, Marianne se livrou do vício em oito meses.

Foi quando David Bowie aproximou-se dela com o convite para participar de um programa que ele estava preparando. Bowie queria dormir com Marianne, pois sua meta profissional naquele ponto de sua carreira passara a ser chegar ao nível de Mick Jagger. E tudo que era bom para Jagger ele também queria experimentar. Além disso, o vocalista havia trepado com a sua esposa, que mal haveria em dormir com sua ex?

Marianne Faithfull e David Bowie
Marianne Faithfull e David Bowie

Marianne cantou "Twentieth Century Blues", de Noel Coward, e depois fez um dueto com Bowie cantando o velho sucesso de Sonny & Cher, "I Got You Babe". Digno de nota o fato de Marianne aparecer vestida de freira com um decote na parte de trás que ia até a bunda. Detalhe: ela estava sem calcinha...

Vivendo uma relação extremamente aberta com sua esposa Angela, David concluiu não ter nada demais convidar Marianne a acompanha-lo para ver o show dos Rolling Stones em Wembley. Ela aparece naquela tarde vestida como se fosse Mozart e David acaba se perdendo de seu par nos bastidores. Marianne conversou com Mick, Keith e Anita e depois foi para casa de carona com Andrew Oldham. Somente dentro de alguns meses, já em 1974, que Bowie realmente iria trepar com Marianne. Antes porém, bêbados durante uma recepção na casa de Bowie, Marianne paga um boquete para David em um canto escondido da casa, enquanto Oliver e Angela estão conversando animadamente em outro.

European Tour - Etapa Britânica


Os Stones fazem três shows em Wembley, dois em Manchester, dois em Newcastle seguindo para as terras altas, onde fazem dias 16 e 17, duas apresentações em Glasgow na Escócia. Em todas estas ocasiões, o repertório básico consistia em "Brown Sugar", "Gimme Shelter", "Happy", "Tumbling Dice", "Star Star", "Dancing With Mr. D.", "Doo Doo Doo Doo Doo", "Angie", "You Can't Always Get What You Want", "Midnight Rambler", "Honky Tonk Women", "All Down The Line", "Rip This Joint", "Jumping Jack Flash" e "Street Fighting Man".

Apresentações no País de Gales também estavam inicialmente nos planos mas foram canceladas. Em vez disso, a banda volta para Londres, enquanto Keith vai a Suíça cuidar de seu tratamento. E, logo na primeira etapa da excursão, já fica patente que pela primeira vez em sua carreira, o palco não estava mais imune às conseqüências de seu hábito.

É costume falar de Keith Richards como infalível quando está atuando, afinal, até então o palco era o único santuário que o guitarrista respeitava. Mas agora seu estado estava tal que ele simplesmente não conseguia render o mesmo. Como preparativo durante a excursão, Keith tinha a seu dispor uma série de guitarras, com uma afinação diferente cada, de acordo com a canção. Algumas ainda contavam com um capotraste de acordo com a afinação desejada, para que não fosse necessário se preocupar em fazer pestanas. É válido especular se tais medidas não eram na verdade uma consequência da impossibilidade de Keith conseguir se concentrar o suficiente para afinar ou até mesmo perceber a falta de afinação de sua guitarra. Sem falar no pequeno, porém seguido esforço físico necessário para se fazer e manter uma pestana.

Apesar destas precauções técnicas, Keith vinha oferecendo algumas performances por vezes duvidosas, raramente conseguindo realizar um show completo sem esquecer a letra da única canção que ele cantava, além de constantemente deixar sua palheta cair no chão e ainda por cima demonstrar uma enorme dificuldade para se abaixar e apanhá-la! A solução encontrada para o ridículo dilema foi passar a estocar no bolso palhetas reservas para não ter o trabalho de se abaixar. Jagger perde o respeito pelo parceiro e de vez em quando faz uns comentário irônicos durante o show, tudo com ar de brincadeira de forma a não o insultar de frente nem deixar os fãs perceberem que a dupla não está mais unida como antigamente.

Keith não conseguia enxergar o que a heroína estava fazendo com ele profissionalmente. Negando completamente que estivesse com dificuldades para tocar, chega a comentar para Anita certa vez que excursões eram boas para regular o seu sistema, pois, segundo ele, o veneno deixava o seu corpo através do suor.

Foi às vésperas da apresentação em Manchester que Keith soube do falecimento de seu avô Gus, um parente querido para quem ele creditava em parte a responsabilidade por seu interesse inicial pelo violão. Sua tristeza pode ter lhe inspirado para a apresentação dos Stones. Keith Richards tocou neste show como ainda não tinha feito em todo ano, já que geralmente se limitava a manter os riffs pulsando, deixando os solos para Mick Taylor do outro lado do palco; porém, nesta noite, Keith sola como se cada nota fizesse parte de seu coração. Até cantar "Happy" sem tropeçar na letra ele conseguiu.

A história da transfusão total de sangue

Depois da segunda apresentação em Birmingham, Keith pega um avião e segue para a Suíça, para o seu tratamento. Marshall Chess lhe acompanha, aproveitando a oportunidade não só para dar uma força ao amigo, como também para fazer uma segunda limpeza geral. Keith bancou todas as despesas, incluindo a passagem de ida e volta, estadia e alimentação, o tratamento, duas enfermeiras e um motorista bilíngue para qualquer eventualidade.

Keith, Anita, Marlon, Angela e Marshall aterrisam em Genebra e seguem de táxi até a casa em Villars-sur-Ollon. Dentro de poucas horas chega o médico, que ficara hospedado no Hotel Le Renard, e com isto inicia-se o tratamento. O procedimento ganhou fama de se tratar de uma transfusão total de sangue, mas na verdade, era apenas de uma filtração total do sangue à base de hemodiálise, feita lentamente, durante um período de 48 horas. Depois o paciente ficava sob observação enquanto descansava e se alimentava. O corpo logo se sente fortalecido e pronto para reviver a vida, supostamente com hábitos mais sadios.

European Tour - Outra Esticada

Dia 23, ou seja, quatro dias após o início do tratamento, Keith estava tocando com os Stones em Innsbruck na Áustria, totalmente livre de drogas. Para comemorar, depois do show, ele e Bobby foram cheirar umas carreiras de cocaína. Chega a eles então a notícia da morte de Graham Parsons, que falecera curiosamente no dia do início do tratamento de Keith, que praticamente no mesmo instante também fica sabendo do suicídio de Michael Cooper, fotógrafo amigo de longa data, cujo trabalho mais conhecido são as fotos para a capa do álbum "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" dos Beatles. Cooper, após a morte da mulher por overdose, ocorrida havia pouco mais de um ano, entrara em uma fase de profunda depressão. Michael deixou todo o seu espólio artístico no nome de seu filho antes de tomar propositadamente uma dose letal de heroína. O coração adormeceu e sua vida terrena foi encerrada.


Depois de três apresentações em Berne, Suécia, retornam à Alemanha Ocidental, onde se apresentam em Munich, Frankfurt e em Hamburg no início de outubro. A estação ARD TV filma parte de um dos shows em Munich. Este material se tornaria um mini documentário chamado "Kaetschap". Em Munich inicia-se o relacionamento entre Keith e uma modelo chamada Ushi Obermeirr. Ela segue com a banda na companhia de Keith, enquanto estão na Alemanha.

Ushi

Enquanto os Stones estavam fazendo a esticada inglesa da excursão, Keith Richards resolve aprontar uma contra o seu desafeto Mick Jagger. Keith telefona para a França, onde a modelo alemã Ushi Obermeirr estava trabalhando e a convida para sair. Ushi era uma vistosa jovem de vinte e dois anos, alta, esbelta, com um corpo voluptuoso e uma voz quase soprada, extremamente sexy. A modelo teve um caso com Mick durante a última excursão européia, em 1970. Embora surpresa pela ligação, Ushi é receptiva à idéia de conhecer a outra metade da mola propulsora dos Rolling Stones. Então ficam de se encontrar quando a banda passasse pela sua cidade, Munich.

Ao chegar em Munich, Keith comenta com Mick que ele vai sair com Ushi, o vocalista logo se mostrando interessado em debater a questão, afirmando que ele a viu primeiro e portanto têm preferência. O embate verbal continua como se fossem dois meninos discutindo quem iria brincar com um determinado brinquedo. Keith então encerra a questão dizendo que os dois deveriam ver Ushi e deixar ela escolher com quem quer ficar. Em uma situação que só podia ser real na vida surreal dos Rolling Stones, os dois homens vão bater na casa da jovem modelo, apresentando-lhe o dilema e sugerindo que ela escolha seu par para a noite.

Ushi Obermeirr
Ushi Obermeirr

Extremamente lisonjeada em ter os dois principais Stones disputando sua companhia, ela lhes devolve a incumbência, afirmando que agradece a atenção, admira ambos, e que daria atenção a qualquer um; porém, eles que decidissem entre si quem iria realmente ficar com ela. Mick então utiliza a diplomacia, afirmando que ele deveria passar aquela noite com Ushi, uma vez que no dia seguinte Bianca chegaria e seguiria com a banda pelo restante da turnê. Assim, Keith poderia ficar com Ushi no dia seguinte. Os três entram em acordo e assim foi feito.

Acontece que Keith e Ushi passam a se dar extremamente bem. Ushi respeita Anita Pallenberg, outra modelo alemã famosa no seu país, e portanto sabe que a relação tinha prazo de validade. No entanto, para a surpresa de muitos, Keith se mostra realmente apaixonado, e demonstra uma disposição e atividade sexual há muito não conhecida. O guitarrista e Ushi passam a manter um tórrido romance, resultando em um Keith que aguardava ansiosamente uma próxima oportunidade para que estivessem juntos novamente.

O Conto da Banheira de Champagne

Em Frankfurt, Bobby Keys impressiona uma linda modelo ao convidá-la para tomar um banho em sua banheira cheia de Champagne. Para encher a banheira, Bobby precisou de nada menos do que vinte e oito garrafas de Dom Perignon. Ele e sua parceira entraram na banheira e trataram de beber tudo, tendo ele sumido de vista do restante do grupo por alguns dias. Esta extravagância ficou famosa entre os anais da indústria roqueira como mais um dos grandes contos sobre excessos de uma banda na estrada. Bobby, ao comentar a respeito, teria dito que ele sempre quis saber a sensação de um banho de Champagne e sua companhia fez a brincadeira valer à pena...

European Tour - Etapa Final

Quando os Stones seguiram de Frankfurt para Hamburgo, tiveram que ir de trem pois o setor de controle de tráfego aéreo entrara em greve, e todos os aeroportos estavam fechados. Por sorte a greve não afetou os planos para a banda deixar o país. Deixando Hamburgo, seguem pela Escandinávia, atuando na Dinamarca e Suécia antes de retornar para a Alemanha uma terceira vez. Um dos shows em Aarhus, Dinamarca, foi filmado em Super 8 por alguém da platéia. A apresentação foi realizada no dia 4 de outubro, no Vejlby-Risskov-Hallen. Passam três dias em Essen e seguem para Rotterdam, Holanda, para três shows em dois dias; o primeiro dos quais sendo gravado. Depois seguem para Antwerp e Bruxelas na Bélgica, onde as apresentações também são gravadas com som retirado da mesa.


O show de Bruxelas produz um dos mais desejados bootlegs dos Rolling Stones, dada a qualidade de gravação e da apresentação da banda em si. Lançado pela Trade Mark of Quality, a primeira prensagem deste famoso pirata duplo seria chamada "Nasty Music". O álbum oferecia o show completo salvo uma música, "Star, Star." Dia 18 descansam e finalmente retornam para a Alemanha pela quarta e última vez nesta turnê, onde encerram a excursão no dia 19 de outubro, se apresentando agora em Berlim Ocidental.

Bobby Keys passa mal, a química baleando seu corpo a ponto de não mais conseguir produzir. Assim, Keys não participa do último show da excursão, e por esta transgressão inaceitável, é sumariamente expulso da banda, posto em um táxi até o aeroporto e a caminho de Londres antes do show iniciar.

A excursão foi satisfatória financeiramente, acumulando ganhos de £388.815.p contra despesas de £138.673.57p., dando um lucro à firma Rolling Stones de £250.140.57p. exatos. O disco "Goat Head Soup" estava vendendo bem e embora a crítica o considerasse um pouco disperso, venderia três milhões de cópias só nos Estados Unidos, se tornando o quarto álbum de maior vendagem da banda, em grande parte graças à canção "Angie".

Côrte de Instância Maior de Nice

Dia 15 de outubro, enquanto os Rolling Stones se preparavam para sua apresentação em Bruxelas, a Corte de Instância Maior de Nice concluía o julgamento de Keith Richards e Anita Palenberg, considerando os dois culpados de uso, tráfico e distribuição de maconha(?!). Foram sentenciados a um ano de cadeia, sentença suspensa em prol de uma multa de £600 cada. Foram também proibidos de entrar em território francês por dois anos. Bobby Keys, igualmente encontrado culpado de uso de drogas ilícitas, recebeu uma condenação de quatro meses de prisão, sentença igualmente suspensa em troca de uma multa de mil francos franceses. Com este assunto concluído, Keith pôde finalmente, depois de dois anos, parar de pagar o aluguel de £1000 por semana pela residência de Nellcôte.

Eventos no mundo iriam ditar mudanças em todas as indústrias, inclusive de espetáculos. No dia 17 de outubro de 1973, os países produtores de petróleo se unem e aumentam o barril em 70%. Este fato daria início à primeira crise de petróleo da história, causando uma reavaliação de custos em todas as outras áreas do mercado. Assim, a diminuição radical de bandas excursionando, principalmente pela América e Europa, era apenas um dos muitos efeitos sentidos após a crise.

Marlbourough Magistrate

Enquanto Keith estava excursionando, e ao menos teoricamente se desintoxicado, Anita estava em Londres, tentando também largar o vício. No entanto, com o retorno de Keith e com ele, todos os amigos e sanguessugas, rapidamente ela retornava para a estaca zero, já que o casal consumia heroína sistematicamente. Keith e Anita, com o amigo Príncipe Stanislaus, iriam no dia 23 de outubro para Malbourough Street participar do julgamento pela batida policial realizada em sua casa em junho. Presentes também no dia, apenas assistindo, estavam Mick Jagger e Andy Johns. Os laboratórios policiais, depois de analisarem as peças confiscadas na casa, encontraram resquícios de maconha e heroína, duas armas de fogo e munição, além de vinte e cinco tabletes de Mandrax, um barbitúrico que serve como relaxante.

A defesa argumenta que as duas armas, mesmo que ilegais na Grã Bretanha, foram ganhas como presente e eram utilizadas exclusivamente para efeito decorativo na residência. Para corroborar esta tese estava o fato que, no momento que a polícia as apreendeu, nenhuma das duas estavam carregadas, nem apresentavam sinais de uso. A caixa de munição para o rifle estava com todos os seus cartuchos, portanto sem uso. Alegam também que o casal estava fora por um longo período de tempo e a casa esteve emprestada para um número diferente de pessoas, finalizando ainda que eles haviam retornado poucos dias antes da batida policial e portanto, os produtos ilegais encontrados poderiam ser de qualquer um dos inquilinos que hospedaram na casa durante os dois anos de ausência do apartamento.

Keith e Anita deixando o tribunal
Keith e Anita deixando o tribunal

Sem ter como comprovar que a maconha e heroína pertencia ao casal, a situação lhes favoreceu. O Principe Stanislaus também foi inocentado de todas as acusações, tendo sido provado que ele apenas pernoitara na residência e portanto nada tinha a ver com o que foi encontrado pela casa. Anita Pallenberg foi absolvida pelo porte dos Mandrax e Keith Richards pagou uma multa de £125 pelas armas de fogo e £80 pelas drogas.

Londonderry & Rainbow

O Londonderry House Hotel fica na esquina junto à entrada principal para o Hyde Park. É um hotel situado em um ponto estratégico que a banda vinha usando desde 1969. Keith e Anita já haviam passado longas temporadas no hotel em ocasiões passadas. Mas nada disto importou muito quando, no dia seguinte a sua passagem pela justiça, Keith causa outro acidente. Seu hábito de apagar, nitidamente dormindo em meio a uma frase apenas para acordar minutos depois, continuando onde ele havia parado, já fora engraçado no passado, pois justamente apagando assim ao volante que ele sofreu seus vários acidentes de carro, sem contar a quantidade de colchões que ele queimara (não vamos nem entrar nos méritos das roupa de cama chamuscadas).

Porém os últimos incidentes foram os piores. Três meses antes ele causara o incêndio que destruíra sua casa em Redland e poderia ter matado quase toda a sua família. Agora, na sua suíte no Londonderry House, enquanto há uma festa acontecendo por conta do bom resultado nos tribunais do dia anterior, Keith está na cama assistindo Marlon e o filho de Andy John brincando quando de repente apaga. Logo o cigarro ainda entre seus dedos está queimando a roupa de cama que entra em chamas. Foi quando as crianças começaram a gritar para que alguém viesse socorrê-los. Keith é acordado com um belíssimo esporro. Felizmente ninguém se machucou e o prejuízo foi mínimo, no entanto não só Keith mas todos os Stones passam a ser banidos do estabelecimento. Enquanto isto, em outra parte da cidade, Bill Wyman está comemorando trinta e sete anos de idade.

No dia 25 de outubro, Billy Preston se apresenta no Rainbow Theatre com seu grupo, The God Squad, um ensemble que conta com três tecladistas, Billy Preston, Huby Heard e Kenny Lupert, mais um baterista, Manuel Kellough. Uma atração especial foi o comparecimento de Mick Jagger e Mick Taylor, que participaram com a banda de uma rendição de "Shine A Light" (Jagger-Richard) e "Will The Circle Be Unbroken" (trad.).

Dragões e Demônios

Mick Taylor estava bastante insatisfeito com o modo de vida que andava levando. Prometera a sua mulher e a si mesmo que procuraria um ambiente melhor para sua filha e que, para tanto, adotaria hábitos mais sadios. Dois anos já haviam se passado e de lá para cá sua dependência só havia aumentado estando Rose, sua esposa, agora igualmente viciada e tendo um caso secreto com seu fornecedor. Na realidade, o que ocorre é que, quando se mantém uma relação com alguém viciado em algo como heroína das duas uma: ou se abandona esta pessoa ou passa a ser também um usuário. Esta afirmação possivelmente não está escrita em lugar algum, mas é o resultado de observações seguidas na conduta de casais viciados, onde invariavelmente o eixo de importância principal deixa de ser as pessoas em si, passando a ser a droga. Assim é a vida.

E as pressões na vida de um Stone, sempre na estrada e sempre seguido por uma horda de gente, que estão sempre prontos para oferecer de tudo a qualquer hora, é um grande fator nesta equação. Há muita tentação, muito cansaço e muita necessidade de compostos químicos com intuito de se desligar das exigências constantes. Vida na estrada é cansativa, exigente e em alguns casos, capaz de fazer pessoas sãs cometerem loucuras apenas para quebrar o tédio. Vida de artista consiste em começar a trabalhar enquanto o resto da cidade está buscando diversão.


Quando em casa, acostumado que está com a batida intensa da estrada, às vezes é difícil abaixar o ritmo e voltar ao pique sereno que deveria ser o ambiente de uma casa. Ainda mais se tratando de uma casa com uma criança pequena. Uma casa de família. Sua família: aquela pelo qual se sai para trabalhar para sustentar e melhor proteger. Todos esses pensamentos vinham constantemente fluindo pela mente de Mick T.

Em parte, já está um pouco tarde. Rose cansou de falar e reclamar de sua vida. Ela vem bombardeando seu marido para deixar os Rolling Stones e buscar um outro grupo. Intuia, como se fosse fato estabelecido, que a situação toxicômana de Keith Richards era tal que ele não sobreviveria por muito tempo. Portanto seria sensato assumir o fato que os Stones iriam acabar. Tudo isto vinha sendo dito por ela há um ano. A incapacidade de Taylor de assumir uma atitude faz com que ela comece a desprezar seu marido. Rose, que já vinha mantendo um caso, dá o próximo passo e sai de casa, levando Chloe para morar com o amigo da família, Roy Martin. Mick T sabe que ele precisa mudar a sua maneira de viver e não vê como fazer isto dentro de uma organização intoxicada como a dos Rolling Stones.

Afora seus problemas emocionais, há também os problemas profissionais. Mick Taylor se sente super desprestigiado dentro dos Stones. Seus esforços são pouco reconhecidos pela dupla Keith e Mick J, e suas colaborações com as composições no último disco ficaram totalmente ignoradas na ficha técnica. Isto já seria o suficiente para aborrecer este guitarrista calado e incapaz de enfrentar os leões e defender seus direitos. Mas para piorar a situação, mesmo calado, um dos leões está lhe complicando as coisas. Nos últimos tempos, trabalhar com Keith Richards vinha sendo um bocado extenuante.

Taylor não estava nada ansioso para voltar a entrar no estúdio com os Stones. Mas, ao mesmo tempo, não tem nada acontecendo e ele se sente demasiadamente desorientado fisica e emocionalmente para conseguir concluir corretamente uma linha de ação, e acaba por seguir levando as coisas como estavam. Pelo menos por algum tempo.

Munich

Muitos fatores conspiraram a favor para que os Rolling Stones escolhessem Munich como o local para gravarem seu próximo disco. O fato de Keith estar mantendo um caso com uma linda modelo que mora na cidade era apenas um deles. Outro era a Alemanha ser um país onde se encontrava heroína com certa facilidade. Mas o principal motivo mesmo era o novo estúdio que havia sido construído na cidade. Trata-se do Musicland Studios, que pertencia ao inglês Peter Bellotte e ao italiano Giorgio Moroder, trazendo o que havia de mais moderno em equipamentos, e com isto o local consegue rapidamente uma boa fama, passando a ser o preferido por bandas como Electric Light Orchestra, Deep Purple, Faces e os Rolling Stones.

A banda teoricamente se reuniria em Munich a partir do dia 13 de novembro. Mas na prática nem todos comparecem e as sessões acabam durando somente onze dias. Mick Taylor é o grande ausente, preferindo permanecer em Londres, se internando em uma casa de saúde e dando início ao tratamento visando sua desintoxicação. Oficialmente, para a imprensa, Taylor estaria adoentado e portanto iria ficar em Londres para se recuperar. Um quinto músico porém viajou com a banda, o tecladista Billy Preston.

Material destas sessões incluem "If You Can't Rock Me" e um cover de "Ain't Too Proud To Beg" (Norman Whitfield/Eddie Holland), mais três instrumentais, "Fingerprint File", "Broken Head Blues" e "Slow Down And Stop." Os três iriam ainda ganhar letra com tempo, "Broken Head Blues" depois sendo rebatizado de "Black Limousine." Ron Wood foi convidado a aparecer e de fato participou em um dia, tocando apenas em "Broken Head Blues." Houve também um instrumental sem nome com uma banda formada por Mick Jagger e Keith Richards nas guitarras, Ian Stewart no piano, Billy Preston no órgão, Charlie Watts na bateria e Giorgio Moroder no baixo.

The Glimmer Twins

Por um prisma histórico, esta seria a primeira série de sessões oficiais dos Rolling Stones em que a produção estaria oficialmente creditada aos Glimmer Twins, ou seja, a Mick Jagger e Keith Richards. Jimmy Miller não estava mais com o grupo, sua carreira havia entrado em um período de decadência enquanto ele passava por problemas relacionados com drogas e álcool. Andy Johns foi novamente chamado para cuidar das sessões, com Keith Harwood como segundo engenheiro de som.


Porém a dupla Jagger e Richards não estava mais caminhando na mesma direção musicalmente e portanto houve um ajuste natural. A música, em parte auxiliada pela influência de Billy Preston, estava cada vez mais Funk, o caminho encontrado entre o interesse pelo Reggae de Keith e o interesse pelo Soul de Mick. Isto em parte explica a regravação de "Ain't To Proud To Beg," sucesso dos Temptations em 1966, ou as de própria autoria como "Fingerprint File", que é totalmente Funk em sua concepção, além de "Luxury", que é um meio termo entre Reggae e Funk. Charlie Watts encontrava extrema dificuldade em tocar Reggae corretamente, o que certamente diminuiu as chances de uma maior influência do gênero sobre as músicas deste álbum.

O Musicland Studios agradou e ficou acertado retornarem a Munich depois das festividades de fim de ano. Retornando à Inglaterra, Mick Jagger quer ouvir novamente aquela fita que gravaram no estúdio do Ron Wood. Uma sessão então é realizada no Wick para ouvirem a gravação de "It's Only Rock 'n' Roll." A noite acaba rendendo uma segunda sessão de gravação com Wood colocando outra guitarra e baixo, tendo Mick refeito a sua parte nos vocais. Acompanhando Jagger estava David Bowie, que participa ajudando no coro e palmas.

Inglewood

Bill Wyman segue para Los Angeles onde pretende iniciar de forma mais séria as gravações de seu prometido trabalho solo. Na primeira semana de trabalho, as sessões foram realizadas no Elektra Studios, mas Wyman não gostou de trabalhar naquele local e a partir da segunda semana, passa a alugar o estúdio de Ike Turner, o Bolic Studios. Durante este período Bill Wyman gravou as bases para "I'll Pull You Thro'," "It's A Wonder," "I Wanna Get Me A Gun," "Mighty Fine Time," "Monkey Grip Glue," "Pussy," "What A Blow" e "White Lightnin'." Todas estas composições são de Wyman, com a exceção de "What A Blow", que tem co-autoria de Wyman e Mac Rebenack. A banda básica era formada por Dallas Taylor na bateria, Joe Lala nas percussões, e Danny Kortchmar na guitarra e algumas percussões. Bill, além de cantar e tocar baixo, também executou partes na guitarra, piano e gaita de boca. Os engenheiros de som para todas as sessões deste projeto são os irmãos Howard e Ron Albert.

Festas de Confraternização

As sessões foram consideradas encerradas dia 14 de dezembro e ficou combinada uma festinha para comemorar o fim desta etapa do trabalho, assim como também a chegada do Natal. Na festa, estavam entre outros amigos, os músicos Dave Mason, Wayne Perkins, Todd Rudgren e Leon Russell. O pessoal acabou tocando junto, como geralmente acontece em um lugar onde há uma grande agolmeração de músicos e instrumentos. A brincadeira foi gravada e contou com Jay Windig no órgão, Wayne Perkins no baixo, Dallas Taylor na bateria, com mais Bill Wyman, Danny Kortchmar, Dave Mason, Todd Rudgren e Leon Russell, todos cinco nas guitarras. Segundo conta Bill Wyman, a banda ficou mais interessante no papel do que na prática.

Mick Jagger e John Lennon
Mick Jagger e John Lennon

Parte do pessoal seguiu depois para outra festa, esta realizada nos estúdios Record Plant West em Sausalito. Lá encontraram Mick e Bianca Jagger, John e Yoko Lennon e mais uma galeria de músicos e celebridades. Nesta noite, a programação acabou rendendo uma sessão de gravação. John Lennon produziu Mick Jagger gravando "Too Many Cooks" (Willie Dixon). Depois, foi a vez de Mick Jagger produzir John Lennon que gravou "Bring It On Home" (Sam Cooke).

Depois do trabalho mais sério, uma brincadeira descontraída incluiu um improviso com as participações de John Lennon, Jesse Ed Davis e Danny Kortchmar nas guitarras, Mike Finnegan, Al Kooper e/ou Billy Preston nos teclados, Bill Wyman, Jack Bruce e Wolfgang Metz no baixo, Rocky Djubano cuida das percussões e finalmente Jim Keltner e Bruce Gary na bateria. Bobby Keys e Trevor Lawrence atacam de saxofone, enquanto Harry Nilsson e mais algumas meninas participam no coro.

Fim de Ano

Mick e Bianca passam o final do ano em Trinidade e Tobago onde, dentre outras coisas, o casal assiste às partidas de Crickett. Keith e Anita continuam brigando em Cheyne Walk. Charlie e Shirley, assim como Mick T e Rose, estão em suas respectivas residências nos arredores de Londres. Bill e Astrid permanecem em Los Angeles onde Bill retormaria as sessões para o seu álbum no dia 5 de janeiro.

Parte 45 - Abandonar o Navio

Mick e Bianca Jagger passam o final do ano em Trinidade e Tobago, onde entre outras coisas, o casal assiste as partidas de Crickett. Keith e Anita Richards continuam em Cheyne Walk, sua residência em Londres, brigando rotineiramente. Charlie e Shirley Watts, assim como Mick e Rose Taylor, estão em suas respectivas residências nos arredores de Londres. Bill e Astrid Wyman permanecem em Los Angeles onde Bill retomaria as sessões para o seu álbum no dia 5 de janeiro.

Record Plant West

Bill Wyman acaba mudando novamente de estúdio, completando as sessões do seu álbum no Record Plant West Studios. Sobre as sessões do seu disco, o trabalho utilizava as bases já gravadas adicionando um naipe de metais, chamado de The Bonero Horn Section, que tratava-se dos músicos Peter Graves, Ken Faulk, Mark Colby e Neal Bonsanti. As sessões em janeiro duram apenas nove dias, onde são interrompidas para que Bill volte para Munich, onde os Rolling Stones dão continuidade às gravações do novo álbum.

Quando Keith segue para Munich, Anita passaria a frequentar cada vez mais a casa da amiga Seleta Seconda. As duas mulheres passam a ter uma relação parecida com aquela que Anita tinha com Marianne, só que neste caso, o LSD de então é agora substituído por heroína.

Musicland Studios

No Musicland Studios, os Rolling Stones retomam os trabalhos com a equipe novamente modificada. Andy Johns se mostrou excessivamente ineficaz em função de sua dependência por heroína. Seu irmão Glyn Johns foi chamado para mixar as sessões do irmão, enquanto Keith Harwood passa a ser o engenheiro das sessões restantes. Gravam as bases de "Dance Little Sister", "If You Really Want To Be My Friend", "Labour Swing", "Living In The Heart Of Love", "Luxury", "Till The Next Goodbye" e "Time Waits For No One." Além de Billy Preston, contam também com o talento de Nicky Hopkins que participou ativamente de todas as faixas menos "Dance Little Sister", que tem Ian Stewart no piano. Uma interessante versão de "Drift Away" de Mentor Williams foi trabalhada porém, acabaria deixada de lado.

A participação de Mick Taylor é crucial para vários temas ganhar substância. Taylor trabalha muito bem com Mick Jagger mas não com Keith Richards. Este está constantemente malhado o seu trabalho, literalmente chamando Taylor de imprestável no estúdio e desgravando a noite tudo feito pelo guitarrista com Jagger, durante o dia. Fica muito claro para algumas pessoas que Keith está propositalmente criando uma situação insuportável, possivelmente para forçar Mick Taylor a pedir para sair do grupo. Apesar do péssimo ambiente de trabalho, Mick Taylor não se rebela verbalmente. Pelo contrário, coroa a banda com um dos mais belos trabalhos do repertório dos Stones. Taylor organiza toda a melodia e estruturação instrumental que fecha a composição "Time Waits For No One" de Mick Jagger.

Esta é a mais evidente contribuição feita por Mick Taylor, mas não a única. Neste álbum, além de "Time Waits For No One," está claro que Mick Taylor é na prática, co-autor da música atrás das canções "Till The Next Time" e "If You Really Want To Be My Friend." Na verdade, desde o "Goats Head Soup", certas faixas nos discos dos Stones oferecem arranjos mais elaborados do que era de se esperar da banda. Em retrospecto, Keith Richards irá dizer que são justamente estes arranjos mais elaborados o motivo que esses discos são considerados menos do que clássicos. Mas sem disposição de dar maiores méritos a Mick Taylor, Richards geralmente costuma creditar ao Billy Preston a contribuição musical que alterou as características das músicas lançadas pela banda.

Cansado do abuso e do total desrespeito, Mick Taylor deixa Munich e retorna para Londres depois de aproximadamente três dias de trabalho. Keith apagaria suas contribuições no piano, colocando Nicky Hopkins para refazê-los. Partes inteiras de guitarra também seriam apagadas, refeitas pelo próprio Keith. Como Mick T, Bill Wyman está igualmente desmotivado com a maneira com que os Rolling Stones estão trabalhando. Sem consumir as quantidades de cocaína que Keith e Mick J para continuar acordado, ele não consegue manter o mesmo pique por tantas horas. Wyman, em total desânimo, passa a tocar mal e sem capricho, irritando Keith que reclama sem remorsos. O último dia de gravação foi dia 28 de janeiro.

Rio em Janeiro

De Londres, Mick Taylor pula no próximo avião para a América do Sul e desembarca no Rio de Janeiro em pleno verão carioca. Com o organismo limpo da química, Mick enfrenta seus demônios, agora em uma batalha psicológica. Sabe que tem que se manter longe da tentação e saindo de Londres, longe de seus contatos habituais, ele teria uma melhor chance de evitar cair novamente na velha rotina.

Praia do Vidigal
Praia do Vidigal

Mick Taylor fica hospedado no bairro carioca do Vidigal, situado entre os bairros do Leblon e São Conrado. Hospeda-se na casa do músico Arnaldo Brandão, baixista da banda A Bolha, uma das primeiras bandas da cidade a passar de banda de baile (The Bubbles), para banda de blues-rock pauleira. Envolvido em diversos projetos relevantes, Brandão é talvez mais lembrado hoje por fundar a banda Hanoi Hanoi.

Seu contato com Mick Taylor vem via amizades na área do teatro. Os Stones sempre tiveram vários amigos entre o pessoal da escola de Teatro Vivo de Julian Beck, contato este cuja origem vem do envolvimento de Anita Palemberg com o grupo em 1963-64. Assim, além do Joe Monk, cujas aventuras já foram aqui narradas, tem também o Ruphus Collins que também conhecia Arnaldo e acabou sendo o elo de ligação entre os dois.

Arnaldo Brandão, anos setenta
Arnaldo Brandão, anos setenta

Ao deixar A Bolha de lado, Arnaldo e a esposa Claúdia Brandão passam uma temporada pela Inglaterra, e acabam ficando hospedados na residência de Mick T após a saída de Rose. Ao preparar o retorno do casal para o Rio, surgiu a hipótese de Mick Taylor aparecer na cidade para refrescar a cabeça em outro ambiente.

Uma cidade com mais sol sugere ser mais saudável do que o depressivo inverno londrino. Depois das lastimáveis sessões em Munich com o péssimo tratamento recebido por parte de Keith Richards, a idéia de alguns dias nas praias do Rio lhe parecem realmente atraentes.

Enseada de Botafogo com o Pão de Açúcar ao fundo
Enseada de Botafogo com o Pão de Açúcar ao fundo

Mick Taylor desembarcou no Aeroporto do Galeão provavelmente no dia 17 ou 18 de janeiro. A cidade maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro, capital do então Estado da Guanabara, lhe recebe com um sol de derreter asfalto. Mick manteve-se incógnito com relativa facilidade, já que poucos sabiam de sua estada na cidade ou sequer no país. A primeira ida para a praia, no caso a Praia da Macumba, trouxe consigo a primeira queimadura de pele feroz, com direito a bolhas e todo o desconforto tradicional que geralmente passam nossos turistas gringos.

Bandas Nacionais

Os Secos & Molhados
Os Secos & Molhados

Inglês louro de pele clara, Mick T estava, como se costuma dizer, vermelho feito camarão. Mesmo assim, resolve visitar todos os pontos turísticos tradicionais: Corcovado, Pão de Açucar, Copacabanda, Ipanema, etc. Afora os lugares óbvios, Mick T foi visto no dia 19 com o casal Arnaldo e Cláudia, mais amigos do casal, assistindo à apresentação dos Secos & Molhados no Teatro Teresa Raquel em Copacabana.

Taylor ficou impressionado (e um pouco assustado) com o rebuliço ao redor do teatro. Com um público muitas vezes superior ao que fisicamente cabe no teatro comparecendo, precisou a Polícia Militar intervir, dissipando a aglomeração e botando os cabeludos sem ingressos para circular.

Outros artistas nacionais que se sabe Mick Taylor assistiu foram Maria Alcina no Teatro da Lagoa, o Grupo Soma no Teatro João Caetano situado no Centro e Os Novos Baianos que se apresentavam no Teatro Excelsior em Ipanema.

Quebrado o Anonimato

A relativa paz encontrada no anonimato de uma cidade turística situada em um país do terceiro mundo na América Latina foi quebrada com uma pequena nota no jornal O Globo do dia 22 de janeiro. A nota não poderia ser mais precisa ao confirmar a presença de um Rolling Stone na cidade, hospedado no Vidigal na casa de Arnaldo Brandão. Pronto. Acabou o sossego. A notícia rapidamente se espalhou e logo havia gente aglomerada na frente do prédio, aguardando na expectativa de ver o roqueiro sair e tentar as chances de um autógrafo.

Mick Taylor por sua vez estava em uma fase muito delicada quanto a associar o seu nome com o dos Rolling Stones. Ele já havia comentado com Arnaldo e Cláudia do seu desejo de deixar o grupo. Ser agora caçado por repórteres e fãs da banda não só não estava na programação, mas também era motivo de extremo chiliques. Cláudia Brandão em particular estava achando exagerada a aversão do guitarrista à atenção natural que sua presença despertava. Vizinhos e curiosos começaram a interpretar sua atitude como sendo de estrelismo, o que acabou atraindo para si uma certa antipatia. Essa ótica pode ser confirmada pelo fato de que chegaram a jogar uma pedra na vidraça do casal Brandão. Em 1968, pegaram o chapéu do Mick J para ver se barata voava. Agora, seis anos depois, jogam pedras na vidraça da casa onde se hospedava Mick T. Um retrato de como evoluimos como um povo.

Amazonas

Rio Negro
Rio Negro

A esta altura, Mick Taylor já fora apresentado a vários amigos do casal Brandão. Entre estes estavam Neville de Almeida e Ezequiel Neves. Taylor estava tão estressado pelo fato de pessoas saberem onde encontrá-lo que acabou passando o seu estresse para toda a casa. Assim, depois de um comentário mal dado, ficou acertado que o melhor seria o guitarrista deixar o Vidigal. Taylor se hospedou então na casa do cineasta Neville de Almeida e de sua esposa Liège de Monteiro. Pouco depois os três pegaram um vôo até Manaus, onde além da cidade, com sua arquitetura do século XIX, havia a floresta Amazonas, atração principal do povo do primeiro mundo. Mick T e Neville subiram o Rio Negro de balsa e o passeio foi extremamente excitante para o guitarrista, dado a magnitude da floresta que impressiona todos que a contemplam.

Novamente no Rio de Janeiro, Mick T passou a maior parte de suas manhãs ouvindo discos do Ayrton Moreira ou Carlos Santana. Neville registrou sua passagem em filme Super 8, no entanto, até o momento, nenhuma destas imagens chegaram a ser vistas pelo grande público. Mick Taylor retorna então para Londres, onde é chamado para algumas sessões no Stargroves com Mick Jagger.

Monkey Grip

Enquanto Mick Taylor se encontrava no Rio, Bill Wyman estava em Los Angeles terminando as sessões de seu primeiro disco solo. Durante boa parte de fevereiro, overdubs finais são gravados com as participações de Leon Russell, Dr. John, e Lowell George. Concluídas as gravações e feita a mixagem, o álbum, intitulado "Monkey Grip", seria lançado pela Rolling Stones Records em maio.

Ladies And Gentleman, The Rolling Stones


Já em março, é lançado o longa-metragem "Ladies And Gentleman, The Rolling Stones", filme dirigido por Rollin' Binzer e Stephen Gebhardt. Trata-se das apresentações em Texas dos Rolling Stones em sua excursão Americana de 1972. Segue a relação das imagens e suas origens que são encontradas no filme:

- Brown Sugar - Houston 25.6.72, 2º show
- Bitch - Fort Worth 24.6.72, 2º show
- Gimme Shelter - Fort Worth 24.6.72, 1º show
- Dead Flowers - Fort Worth 24.6.72, 1º show
- Happy - Fort Worth 24.6.72, 1º show
- Tumbling Dice - Houston 25.6.72, 1º show
- Love In Vain - Houston 25.6.72, 1º show
- Sweet Virginia - Fort Worth 24.6.72, 1º show
- You Can't Always Get What You Want - Houston 25.6.72, 1º show
- All Down The Line - Houston 25.6.72, 2º show
- Midnight Rambler - Houston 25.6.72, 2º show
- Apresentando a banda - Fort Worth 24.6.72, 2º show
- Bye Bye Johnny - Houston 25.6.72, 1º show
- Rip This Joint - Fort Worth 24.6.72, 2º show
- Jumping Jack Flash - Houston 25.6.72, 1º show
- Street Fighting Man - Houston 25.6.72, 2º show

O filme estréia no Ziegfield Theatre de Nova York e tem lançamento simultâneo com o livro "A Journey Through America With The Rolling Stones" do jornalista Robert Greenfield, que conta com detalhes a então já famosa excursão.

Stargroves

Stargroves e o caminhão-estúdio, Rolling Stones Mobile Unit
Stargroves e o caminhão-estúdio, Rolling Stones Mobile Unit

Uma das primeiras coisas que Mick Jagger faz no final de março é pegar a fita com "It's Only Rock 'n' Roll" de The Wick e levá-la para o Olympic Studios, onde é transferida para um rolo de 16 canais. Depois, já em abril, Jagger leva a nova fita rolo junto com as demais masters gravadas em Munich para o seu estúdio na casa de campo chamado Stargroves. Lá, o americano Willie Winks é convidado a gravar um baixo no lugar do feito por Ron Wood. Ian Stewart também contribui adicionando piano.

É em Stargroves que todas as adições ou overdubs são feitos para as bases gravadas. Os músicos convidados são Ray Cooper nas percussões, Jolly Kunjappu na tabla e a já esperada participação de Mick Taylor, concluindo suas contribuições para o álbum sem a presença de Keith Richards. Há ainda as participaçoes de Nicky Hopkins, Billy Preston e Ian Stewart nos teclados. Uma vez estando as músicas consideradas prontas, as mixagens foram marcados para a semana de 20 à 25 de maio realizados no Island Recording Studios em Londres.

Durante os últimos dias de abril, Jagger está no Record Plant de Nova York, gravando um grupo vocal recém contratado da Atlanta, para fazerem a parte de coro em várias faixas. Este grupo, originariamente de Philadelphia, se chama Blue Magic, e são compostos por Theodore Mills, Vernon Sawyer, Wendell Sawyer, Keith Beaton e Richard Pratt. Foi no dia 29 de abril que, de surpresa, aparece John Lennon. Acontece que Lennon está em meio a seu projeto de gravar canções de rock nos anos cinquenta, em um álbum que irá ser lançado no ano seguinte com o nome de 'John Lennon - Rock And Roll', seu último pela sua gravadora, a Apple Records. Neste encontro inesperado, Lennon produz a faixa, "Please Don't Ever Change", onde Jagger é convidado, e aceita ser o cantor principal.

Com o fim das sessões para o novo disco dos Stones, o material só faltando ser mixado, Mick Jagger contrata o desenhista holandês Guy Paellaert para fazer a capa deste próximo álbum. Conversando com os demais integrantes da banda, Keith manifesta o desejo de excursionar ainda neste verão, intenção rechaçada por Charlie e Bill.

Os Relacionamentos de Jagger

O casal Mick e Bianca inicia seu período mais tumultuado. Chegam à tona os relacionamentos de Jagger nos Estados Unidos com Carly Simon, Dana Gillespie e a diva negra Patty LaBelle. Bianca acusa seu marido de ser mulherengo e para desafiá-lo passa a ameaçar adotar amantes também. Com isso Mick passa a ficar sempre de pé atrás em relação a sua mulher, sempre inseguro. Contudo, Bianca não sentindo maiores mudanças no comportamento do marido, passa a comentar entre amigos e amigas de confiança (não com a imprensa), que caso Mick pense em continuar a se comportar mal (ou seja, manter amantes), então ele pode estar certo de que ela iria se comportar duas ou três vezes pior.

Todavia, antes que Mick entenda que Bianca é mesmo capaz de agir conforme suas ameaças, ela precisa chifrá-lo algumas vezes, propositadamente fazendo com que ele ficasse sabendo. Bianca tem, como vingança irônica pela relação com Carly Simon, um romance secreto com o ator americano Warren Beatty. A princípio, estes fatos deixam Mick inseguro, e em parte, servem como um atiçador na relação entre os dois. A segurança absoluta em uma relação, como ele sentiu com Chrissie e depois com a Marianne, o leva ao tédio. Com Bianca não há tédio mas também não há paz.

Wyman e Monkey Grip


Na primeira semana de maio Bill Wyman filma os promos para seu disco de estréia, "Monkey Grip". São quatro promos rodados em um dia, "Monkey Grip Glue", "White Lightnin'" e "What A Blow" (Bill Wyman e Malcolm Rebenack). Com Mac Rebenack, mais conhecido como Dr. John, gravam ao vivo no estúdio um dueto de baixo e piano para um programa de rádio, que inclui também uma pequena entrevista. A canção escolhida foi "Goodnight Sweetheart" de Ray Nobles, James Campbell e Reginald Conelly.

Com data de lançamento marcado para o dia 10, Wyman logo percebeu a pouca disposição da gravadora Rolling Stones de promover devidamente o disco. Então ele mesmo cuidou de tudo, indo ao encontro da imprensa e organizando encontros e festas de lançamento. Antes mesmo do disco sair, Bill já estava no dia 7 aterrisando em Nova York para promover o álbum. Depois ele seguiu para Los Angeles, onde acaba participando da festa de inauguração do novo selo do Led Zeppelin, chamado Swan Song. A festa foi realizada no pátio do Bel Air Hotel e teve entre os músicos convidados as presenças de Alice Cooper, Bill Wyman, Brian Ferry, Bozz Burnell e Maggie Bell.

Apenas Rock 'n' Roll

No dia primeiro de junho, véspera do aniversário de Charlie Watts, os cinco Rolling Stones se encontram novamente para filmar os promos para o novo álbum. Vestidos em uniforme de marinheiro, filmam "It's Only Rock 'n' Roll" dentro de um domo de plástico que passa a ser gradativamente cheio de espuma durante o desenvolvimento da canção, evidentemente com Charlie sentado no banquinho enquanto toca sua bateria, que no final acaba totalmente encoberto pela espuma. Se observado com atenção, percebe-se no filme que, ao final da canção, Mick Jagger já está rindo de nervoso tentando tirar um pouco da espuma que encobria seu baterista, que se recusava a abandonar seu posto, tal qual um Comandante que afunda juntamente com seu navio.


O dia foi concluído com as filmagens para "Ain't Too Proud to Beg" e "Fingerprint File." Importante acrescentar que embora se trate de uma imagem com som em playback, as versões das três músicas utilizadas aqui não são as mesmas constando no disco. E das três, apenas "It's Only Rock 'n' Roll" é pura mímica, nas demais Mick Jagger está cantando realmente, enquanto uma fita com a música sem a voz do cantor fornece a base.

O álbum chega as lojas no dia 26 de junho de 1974.

Reunião em Genebra

Foi durante uma reunião geral no final de outubro, realizado na Suíça, no Hotel des Bergues, que todos souberam da impossibilidade de ir adiante com o projeto do álbum ao vivo da última excursão como planejavam. Haviam ainda muitos problemas pendentes em relação à legalidade do que é dos Stones e o que é de Allen Klein. Os Rolling Stones preferem então não dar ao ex-empresário mais uma fonte de renda e o projeto do disco é arquivado. Uma outra proposta passa ser uma grande excursão mundial, que poderia render um álbum e um filme. Projetos também lançados para análise incluem uma filmagem para a televisão e um livro.

Outro assunto discutido neste encontro foi a excursão americana no próximo ano, marcada para iniciar em junho. Mick Jagger havia passado parte do verão negociando com as autoridades americanas um visto para Keith. Jagger aproveita sua passagem pelos Estados Unidos para, com Bianca, irem à Nicarágua averiguar como o dinheiro de suas doações estavam sendo gastos. Assim, naturalmente foram discutidas nesta reunião quais medidas possíveis e cabíveis poderiam ser adotadas diante da possibilidade do visto para Keith Richards ser negado.

Ao terminar, estava acertado que dia 7 de dezembro iniciariam as sessões para o próximo álbum. Estas sessões seriam realizados novamente em Munich no Musicland Studios de Giorgio Moroder. Mick Taylor nada falou nesta reunião sobre suas intenções, que já estavam muito claras em sua mente. Seu silêncio nesta reunião importante seria o ponto principal para as futuras queixas da organização Rolling Stones, principalmente de Mick J e Keith, contra ele.

No entanto, antes de poder falar abertamente, Mick T sente a necessidade de primeiro confirmar qual seria seu trabalho seguinte. Afinal, se você vai anunciar para o mundo que vai deixar uma banda lucrativa como os Rolling Stones, é preferível que se tenha um bom motivo. E se esse motivo não é informação que se queira sair divulgando, por exemplo motivos ligados a abusos químicos, é interessante e de bom senso comentar sobre suas intenções. No caso de Mick Taylor, seu futuro projeto parecia se aninhar no Jack Bruce Band, banda do famoso baixista do antigo super-grupo Cream. Através de Andy Johns, agora trabalhando com Jack Bruce, a aproximação foi feita entre os dois músicos.

O Fim

Mick Taylor está muito insatisfeito com a maneira de se trabalhar dentro dos Rolling Stones. Ele não recebe praticamente nenhum crédito pelo seu papel dentro da banda e ainda ultimamente vem tendo que aturar desaforos seguidos de Keith Richards. A banda está sempre à beira de ser presa, dada a quantidade de flagrante que Keith precisa carregar para sobreviver a cada dia. Taylor sabe que quase ninguém se fala com ninguém dentro dos Stones. Charlie some quando não é requisitado, Bill não se dá com Jagger nem Richards, Taylor só se entende mais ou menos com Bill e Jagger, enquanto Keith além de não ter muito saco para aturar Bill ou Mick T, agora está com o ovo virado com Mick J.

Foi com todas essas coisas em mente que Mick Taylor participou de sua última reunião dos Rolling Stones, realizada em Montrex, para organizar o calendário de atividades do ano de 1975. Nela, concordou com tudo que foi projetado e não deu a entender que ele pudesse não querer seguir com a banda. Não muito depois, quase que como por acaso, Mick Jagger e Mick Taylor se encontram em uma festa.

Era uma festa promovida por Robert Stigwood, após o show de Eric Clapton no dia 5 de dezembro, em um show onde Ron Wood foi convidado para subir ao palco e tocar com Clapton e sua banda em duas canções, "Steady Rollin' Man" (R. Johnson) e "Little Queenie" (C. Berry). Naquele instante, por um mero acaso, Jagger estava conversando com Ron Wood e Marshall Chess. Taylor chegou com um "oi", e sem maiores introduções informou que não pretendia trabalhar mais com os Rolling Stones. Sem dar maiores explicações, a não ser de que gostaria de fazer outro tipo de música, Mick Taylor dá as costas para o maior emprego dentro do mundo rock 'n' roll. Os Rolling Stones estão pela segunda vez sem guitarrista.

Em choque, Mick Jagger olha para Ron Wood diante dele e pergunta: "você quer entrar na banda?" Ron comenta que adoraria, mas não pode pois ele tem suas obrigações com The Faces. Jagger na mesma hora concorda, porém complementa: "mas se ficar desesperador, posso te chamar?", recebendo como resposta um sorriso e o consentimento de Wood. E assim começa o período em que os Rolling Stones ficariam sem um guitarrista para solar, período este que duraria todo um ano. A notificação oficial da saída de Mick Taylor só seria divulgada quase dez dias depois, aparecendo primeiro em uma nota da Melody Maker do dia 12 de dezembro de 1974.

Especulações sobre insatisfações financeiras foram as primeiras levantadas pela imprensa e negadas seguidamente pelo guitarrista. Mick T declarou resumidamente: "não houve nenhuma animosidade pessoal na separação". Keith Richards inicialmente teria comentado entre amigos que "ninguém deixa esta banda a não ser em um caixote de pinho!" Apesar de furioso com a atitude egoista de Taylor, Keith lhe manda um simpático telegrama com a seguinte mensagem: "realmente foi uma alegria trabalhar com você nestes últimos cinco anos. Obrigado por todas as coisas boas. Desejo o melhor e amor". Segundo comenta-se, Mick Taylor leu o bilhete e começou a chorar.

A Carreira Não Deslancha


Mick Taylor forma então a sua Mick Taylor Band, ensaiando material sem tocar ao vivo. O interesse facilita negociações com a CBS, um contrato sendo assinado e sessões iniciando em final de 1975. Porém, em passo lento, o álbum só ficaria pronto e seria lançado no final de 1978.

Este seu primeiro álbum solo, simplesmente intitulado "Mick Taylor", é em termos técnicos uma obra prima. Calmo e relaxante, o disco infelizmente não vendeu praticamente nada, encerrando assim a sua carreira solo em vinil. Sua segunda oportunidade de gravar um álbum aconteceria somente na década de noventa, mas Taylor ainda gravaria em 1978 um trabalho com a banda Gong.

Apesar de constantes mudanças na formação, sua Mick Taylor Band existe até hoje, fazendo ocasionais apresentações ao vivo, geralmente bem recebidas pelo público. Mick Taylor se mudou para Nova York onde mantém um apartamento até hoje, e essencialmente se limita a fazer apresentações nas costas leste e oeste dos Estados Unidos. O guitarrista se associaria durante a década de oitenta com Alvin Lee, John Mayall e Bob Dylan. Depois de uma série de apresentaçõs em dueto com Carla Olson, lança em 1991 o álbum "Live" gravado em março de 1990, no Roxy Theatre, localizado na cidade de Hollywood. Volta a morar na Inglaterra no final da década de noventa, se associando com Snowy White e Kuma Harada.

Comentários

Mick Taylor, 1979
Mick Taylor, 1979

Keith Richards - "Ele estava entediado e se achava um compositor e produtor de grande estatura. Tinha um milhão de planos. Mick é um lindo guitarrista, mas continuo esperando ele acontecer."

Mick Jagger - "Ainda não sei realmente porque ele saiu. Ele nunca explicou, pelo menos não para mim. Ele queria uma carreira solo. Acho que ele achou difícil trabalhar com Keith."

Bill Wyman - "Inicialmente pensamos que estava blefando, uma forma de expor sua frustração."

Charlie Watts - "Eu pensava que ele se tornaria o próximo Pat Metheny ou algo assim. E nada aconteceu."

Mick Taylor - "Me tornei cínico. Não sou pago por alguns dos discos mais vendidos de todos os tempos. Fui roubado e isto te deixa cínico e atrapalha sua vida."


Fontes de pesquisa variam, mas destaques e agradecimentos especiais para:

Fontes:

Mick Jaggger – Anthony Scaduto
Up And Down With The Rolling Stones – Tony Sanchez
Faithful – An Autobiography – Marianne Faithfull with David Dalton
Stone Alone – Bill Wyman with Ray Coleman
Os Rolling Stones no Brasil - Do Descobrimento À Conquista – Nélio Rodrigues
A Journey Through America With The Rolling Stones – Robert Greenfield
Dance With The Devil – Samuel Booth
Old Gods Almost Dead – The 40 Years of the Rolling Stones – Stephen Davis
The Rolling Stones - A Life On The Road – Interviews by Jools Holland & Dora Lowenstein

http://www.timeisonourside.com/index.html
http://stoneslib.homestead.com/
http://www.valleyism.com/stones45's/Stonesposter.html
http://www.albec.net.mx/personales/rocksoff/index.htm
http://www.rollingstones.cwc.net/stones.htm
http://www.nzentgraf.de/books/tcw/works1.htm
http://www.africanet.com.br/massive/roots.htm
http://www.swagga.com/rasta.htm
http://www.reachouttrust.org/info/world/rastas.htm


Leia no link abaixo a primeira parte desta biografia.
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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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