A História Impopular dos Rolling Stones - Parte 27 - O Inferno de Dulac

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Por Márcio Ribeiro
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Índice das partes desta matéria

A apresentação dos Rolling Stones no Hyde Park renderia três filmes. "The Rolling Stones In The Park", produzido por Jo Durden Smith e Leslie Woodhead teve sua estréia na televisão britânica em setembro. "Under My Thumb", produzido por Peter Ungerleiden, é uma outra versão do mesmo concerto, desta vez muda, e teve no New Art Lab em Camden, Londres, sua estréia em março de 1970. Uma terceira equipe filmou o concerto, esta versão para o diretor Kenneth Anger, que utilizou partes da apresentação para compor o seu filme "Invocation of My Demon Brother".

Cartaz original da peça 'Hair.'
Cartaz original da peça 'Hair.'

Muitas pessoas passaram mal com o calor mas no final do dia, todos acharam que valeu a pena. Naquela noite, a banda, menos Mick Taylor e Charlie Watts, foram assistir um show do Chuck Berry. Marianne, embora estivesse em Hyde Park, não estava se sentindo bem e voltou para casa. Mick Jagger foi acompanhado da atriz e cantora Marsha Hunt, uma jovem e vistosa negra, que estava fazendo bastante sucesso com uma nova e audaz peça teatral chamado "Hair". No dia seguinte, Mick e Marianne estavam deixando o país em rota para Austrália.

A Abstinência de Marianne

O início das filmagens do longa metragem chamado "Ned Kelly" iria começar dentro dos próximos dias. A razão pela qual Marianne estava passando tão mal nos últimos dias era a abstinência. Ela havia praticamente parado com o uso de Heroína e estava pagando o preço com as cólicas, depressões, diarréias e febre que advém com sua falta. Ela queria que seu organismo ficasse limpo novamente e fez aquele esforço extra. Todavia, a morte de Brian havia lhe atacado psicologicamente de forma extremamente forte. No seu íntimo, ela culpava Mick. E na sua paranóia latente, ela começava a temer se ela não seria a próxima que ele mataria.


Seguindo um raciocínio lógico, embora deturpado, alimentado pelo convívio descompassado deste relacionamento sem entregas, Marianne concluíra que Mick Jagger teria o poder de sugar as pessoas até elas se descarregarem por completo. Estava claro para Marianne que a morte de Brian Jones residia neste poder de seu amante. Ele havia descarregado toda a energia criativa de Brian, destruído sua confiança e tomado controle sobre a alma do guitarrista, tirando dele todas as coisas que compõe a sua identidade. Marianne passou chorando a maior parte deste período entre a morte de Brian e a viagem de avião para Sidney. Ela perdeu o seu rumo, deslizando-se em uma avalanche de angústia. Durante o longo vôo, seu temor girava em torno do seu futuro. Afinal, Mick certamente teria o poder de fazer o mesmo com ela, conclui.

Esta insanidade alimenta sua insegurança, de forma que toda uma revelação instintiva passa a ser ao seus olhos, uma realidade tão óbvia quanto assustadora. Mick já estava tomando conta de sua identidade! Por que outra razão ele iria fazer tanta questão de fazer um filme ao seu lado? Certamente ele estaria indo filmar Ned Kelly, para poder mostrar para ela e ao mundo quem era o melhor ator. Ele queria despeitá-la, mostrando claramente dominar igualmente os anais do cinema, tal como domina os da música.

Aterrizando em Sydney

Evidentemente que toda teoria de conspiração contra ela é infundada. Porque Mick Jagger quer ir com ela para Austrália? Participando de um filme que ele acredita não será bom? A razão era simples: todas as informações que Mick Jagger tem sobre Sydney dizem que seria mais fácil Marianne encontrar ouro no deserto do que Heroína naquela cidade. Jagger é incapaz de tocar no assunto "vício" com Marianne, e a falta de controle que ela demonstra ter. O casal nunca conversa sobre problemas pessoais. Nunca. Ele finge que não repara, raciocinando pela pressuposição de que se é seu corpo, é seu reino. Jagger quer ver Marianne bem novamente e a maneira que ele encontrou de ajudá-la não foi de levar um bom papo de casal a dois. Foi de arrumar um trabalho, ou seja, este filme, que serve como um pretexto para trazê-la a um lugar onde não teria acesso à droga.

Parar de tomar Heroína não é uma coisa que basta você decidir parar e pronto. Não é como parar de fumar cigarro, que embora difícil para aqueles que possuem o hábito, bem no fundo basta um pouco de determinação e o auto controle de não fumar mais. O máximo de retaliação que se sentirá será ficar bastante irritado e rabugento para com as pessoas ao seu redor durante as primeiras semanas. Com Heroína, o seu corpo vai reivindicar a droga de volta no organismo e sua resolução intelectual de desobedecer este desejo vai provocar retaliações. Não apenas a cobrança psicológica como quando sob abstinência de Cocaína, onde você está convencido de que precisa do pó, e sem os cristais brancos você se deprime assustadoramente. Não. Com Heroína, além desta retaliação psicológica haverá também a retaliação orgânica. Seu estômago vai doer tanto que você não conseguirá comer e o que conseguir digerir não permanecerá no estômago. A pele entra em erupção com feridas por todo o corpo. A temperatura interna começa a flutuar com momentos de febre extrema. Enfim, você vai se coçar todo, vomitar, delirar em febre e se contorcer com cólicas horríveis por alguns dias.

Para conseguir suportar as crises de abstinência, Marianne foi ao seu médico pedindo calmantes para dormir. Sua desculpa foi medo de voar, estando se preparando para passar três meses na Austrália. O doutor lhe receita Tuinal em quantidade para durar os três meses. Durante a longa viagem, ela ficava de mal a pior e desesperada, acaba ingerindo cerca de quinze tabletes do calmante. No aeroporto de Sydney, encontram a eterna tirania de repórteres se acotovelando para conseguir fazer a pergunta mais sensacionalista e vazia possível. O casal força passagem para chegar até o transporte que os levarão até o hotel. Cansados pela longa viagem, quando finalmente chegam na suíte que lhes havia sido reservada no Hotel Chevron, Mick só quer saber de dormir.

Marianne esta pálida, tremendo e com feridas aparecendo por todo seu corpo, feito brotoejas. Sua pele está oleosa, seu olhar, como seu andar, mais parece o de alguém em transe e ela está novamente febril. Jagger mal entrou no quarto, tirou a camisa, deitou na cama e dormiu sem mostrar nenhum sinal de reparar ou reprovar o estado deplorável da namorada. Ela lentamente vai, em passos trôpegos, até o banheiro, onde senta em um banquinho defronte a um espelho. Marianne contaria esta passagem de sua história pessoal com muitos detalhes. Ela afirma que não se lembrava mais onde estava, nem tampouco se lembrava mais quem ela era. Ao olhar para o reflexo no espelho, ela via apenas uma menina assustada com um olhar vazio, olhando de volta.

Marianne Conta Sua Visão

De cabelo recém cortado bem curto, e sem conseguir segurar comida no organismo há dias, ela está portando agora um rosto quase cadavérico. A face que Marianne encontrava a sua frente estava tão diferente, que ela praticamente não reconhecia mais como sendo a sua. Olhando fixamente para aquela figura estranha, lentamente ela começava a reconhecer aquele rosto. No espelho, olhando fixamente de volta para ela, estava o rosto de Brian Jones. Então Brian se mexeu e no susto, ela também se mexe.


Ele começa a sussurrar algo, tentando se comunicar, contudo falando sem mexer muito com os lábios. Apesar de seu esforço, Marianne não consegue entender direito as palavras, que vindo do outro lado do espelho, chegam com um som abafado, como alguém tentando falar debaixo d'água. Brian estende a mão para ela e Marianne responde de acordo, as duas mãos estendidas, se tocando apenas pelas pontas dos dedos, cada um do seu lado do espelho.

Marianne conscientiza-se de que Brian havia falecido despreparado para a morte. Pensamentos voltam a recair sobre ela mesma e a forma com que nos últimos anos se tornara uma mera extensão da vida de Mick Jagger. Houve um tempo em que possuía uma carreira. Mas agora ela mesma não consegue mais se enxergar como uma pessoa à parte de seu famoso namorado. Era cada vez mais forte a impressão de que Mick estava sugando sua energia, suas forças, roubando sua identidade, suas idéias, enfim, a sua existência. Estava agora evidente que ela estava deixando de existir. Nervosa e assustada, Marianne começa a entender, agora com maior clareza, como Brian foi consumido por Mick Jagger, perdendo suas características pessoais e todas as demais coisas que compunham sua identidade, até não haver mais nada para mantê-lo vivo. Morreu tomando para si, a culpa de todos os abusos de todos os drogados sobre a face da terra, feito um Cristo moderno do rock 'n' roll.

Marianne começa agora a raciocinar sobre a imagem que ela via a sua frente. Se a sua imagem refletida era o de Brian, então isto quer dizer que ela é Brian. Ou isto, ou ela era a gêmea de Brian. Sendo assim, se Brian está morto, então ela precisa igualmente estar morta para poder acompanhá-lo. Com esta lógica relevante concluída, ela se levanta e toma as cápsulas de Tuinal restantes que haviam, 150 tabletes ao todo. Lembrando que ela também tinha trazido Mandrax, ela vai e consome todo o seu estoque.

O Chevron Hotel
O Chevron Hotel

Marianne então caminha para a outra extremidade do quarto, passando pela cama onde Mick dormia feito anjo. Vai até a janela que oferece um lindo panorama do porto da cidade, vista do alto do quadragésimo quinto andar. Tenta então abrir a janela, se esforça, mas não consegue. A medicação começa a fazer efeito e ela não tem mais força para insistir com a janela. Se pudesse, sem sombra de dúvida, ela teria pulado. Foi quando seus olhos passaram a enxergar o povo lá embaixo. Todos estão olhando para cima, olhando para ela. Marianne começa a reconhecer a maioria, vários são amigos e conhecidos. Ela acena para o povo alegremente e então repara que entre eles estava o Brian.

Ele começou novamente a lhe falar e enquanto as palavras lentamente chegavam ao seus ouvidos, a figura de Brian se distanciava dos demais, aumentando de tamanho e se aproximando. Quando ela deu conta, ele estava diante dela, do lado de fora, a poucos metros, suspenso no ar pelo próprio vento. Marianne então deu alguns passos para frente, atravessando o vidro da janela. Ela estava agora do lado de fora, no parapeito do edifício, a um passo de uma queda livre. Mas ao fixar sua atenção ao seu redor, ela logo percebeu que estava em outro lugar. Quem sabe, do outro lado? Não havia vento, nem brisa. Não havia luz ou trevas. Havia apenas uma imensidão sem forma reconhecível. Brian e Marianne então conversam calmamente, caminham lado a lado. Brian conta que quando acordou estava com uma enxaqueca e foi buscar um Valium. No entanto, seu vidro havia sumido. Ele inicialmente entrara em pânico, se sentindo só e confuso com o que estava lhe acontecendo. Aos poucos, Marianne começa a perceber que Brian também não sabe exatamente aonde estar nem para onde estão indo. Brian confessa então que precisava desesperadamente conversar com alguém, por isto resolveu buscá-la.

O Inferno de Dulac - Bem-vindo à Morte

Enquanto caminhavam, tudo estava calmo. Mas mal acabam de passar e a terra à direita e à esquerda deles parece ruir em um abismo negro. A conversa amena se estendeu para uma lista de encomendas que Brian queria. Alguns livros para ajudá-lo a passar o tempo. Ela observava que, em nenhum momento, Brian mostrou uma maior noção de que estava morto. Marianne concordou em ajudá-lo a conseguir sua encomenda, garantindo que iria procurar pelos livros assim que voltasse a Londres. Mas agora ela começava a se questionar, mesmo que lá no fundo de seus pensamentos, se ela também já não era um fantasma? Imediatamente Brian reagiu, como se pudesse ter ouvido os seus pensamentos secretos, retrucando, "A morte é a maior das aventuras."


Marianne concordou candidamente. Todavia, Brian agora parecia um pouco perturbado. Olhando para ela diz, "Bem-vindo à morte." "Então é este o lugar em que estamos?" Marianne pergunta, tentando tratar a afirmação como se fosse apenas uma brincadeira. Mas a conversa começava a lhe assustar como uma doce fantasia começando a azedar. Foi quando o caminho em que seguiam acaba e verificam que estão diante de um penhasco. Brian muito naturalmente se vira para ela e pergunta, "Vamos então?" Com isto ele pula no abismo e some na escuridão do infinito. Marianne apenas olha, agora sem nenhum desejo de segui-lo. Ela então passa a ouvir vozes atrás dela, chamando de longe o seu nome.

Virando-se, ela estava agora em outro lugar. Em uma cidade deserta onde todas as coisas portavam uma cor desbotada. Ela passa a andar solitariamente observando as ruas vazias por algum tempo. De repente, começam a passar pessoas, quase todas conhecidas, flutuando, pois os seus pés não estão tocando o chão. Ela chama pelo seus nomes mas ninguém para, como se não pudessem lhe ver ou ouvir. Então ela se dá conta que, mais uma vez, o cenário mudou e ela estava em um novo lugar. Um lugar que mais parecia um aeroporto, cheio de pessoas indo e vindo para todos os lados. Agora, quando as pessoas passavam, elas paravam para lhe perguntar, "Você está perdida, filha?", "Você sabe onde está?", "Você sabe o seu nome?", como que perguntando a uma criança perdida. E Marianne respondia placidamente a todas as perguntas com a mesma resposta, "Estou esperando Mick vir me pegar."

A última coisa que ela se lembra de sua aventura foi isto. Depois tudo se apagou e nenhuma outra imagem apareceu para substitui-la. Até que, lentamente, gotículas de luz salpicam sobre o breu que tomou o seu consciente. Da luz veio a cor, tons e sombras que por sua vez começavam a trazer formas concretas para as coisas. Lentamente os olhos de Marianne se abriram e ela pôde perceber que estava de volta. Ela estava em um hospital e já se passara seis dias desde que ela entrara em coma. Ao seu lado estava Mick Jagger, que ao perceber seu movimento, segurou sua mão com alívio. "Querida, você voltou!" ele saúda. "Você não vai conseguir se livrar de mim assim tão facilmente!" foi sua resposta. Mick então, com os olhos cheios de lágrimas lhe diz com ternura, "Não seja tola, meu amor. Deus sabe que pensei que eu tinha te perdido desta vez." Marianne encara Mick nos olhos com um olhar sereno e responde, "Cavalos selvagens não conseguiriam me arrastar embora."

Fama de Mau

Eva Faithfull, sua mãe, também estava no quarto. Ela havia sido chamada para vir à Austrália depois que Marianne fora internada. Aparentemente Mick, quando encontrou Marianne estirada no chão, não titubeou em pensar no que fazer. Chamou imediatamente uma ambulância e por isto, e graças somente a isto, que ela ainda estava viva. Se ele não tivesse acordado, provavelmente com o barulho, mesmo que abafado pelo carpete, do corpo da Marianne caindo no chão no momento que ela perdera a consciência, dificilmente ela teria sobrevivido para contar a todos sua visão tão curiosa.

Marianne foi informada depois que a ação imprudente que cometera poderia ter causado terríveis danos cerebrais. Ela também ficou sabendo que sua mãe havia mandado realizar uma cerimônia de extrema-unção. Mais tarde, tendo que dar satisfação para a polícia de seus atos, ela ficou pasma em perceber que os detetives de Sydney desconfiavam que Mick havia forçado-a a tomar as pílulas. Ou até, forçado ele mesmo as pílulas garganta abaixo da pobre indefesa namorada. A imagem de Mick ser diabólico, reforçado muito graças a canção "Sympathy For The Devil", aparentemente perdurava com bastante força, até mesmo nos cantos mais longínquos do planeta.

Ned Kelly

As filmagens começaram no dia marcado, com Marianne ainda em coma e Diane Craig contratada às pressas para substitui-la. Mick teve que dividir suas atenções entre o personagem que ele estrelava no set de filmagens em Melbourne, e seus sentimentos e preocupações com Marianne em Sydney. Com Eva sempre ao lado da filha, ele pôde trabalhar mais tranqüilo sabendo que em momento algum Marianne estaria só. Assim, caso ela acordasse, o faria com alguém bem quisto ao seu lado. Entre idas e vindas de Melbourne à Sydney, Mick acabou estando no quarto no momento em que ela acordou. Depois, ele partiria novamente para as filmagens, mas passaria a semana escrevendo cartas diárias.

Entendendo Porquê

Mick Jagger como Ned Kelly
Mick Jagger como Ned Kelly

Marianne foi então transferida para o Mount St. Michael Hospital em Ryde, nas cercanias de Sydney, onde ela passava as tardes contemplando o lindo jardim da casa. Lá ela medita sobre seu relacionamento com Mick Jagger e sobre a diferença entre a imagem de Marianne Faithfull a cantora, e ela mesma, a verdadeira pessoa que é Marianne Faithfull. Assim como também sobre a diferença entre a imagem de Mick Jagger o astro do rock, e o verdadeiro Mick Jagger, fora do palco. Conscientiza como as duas coisas, antes bem definidas, agora se misturam de tal forma que ficou quase impossível perceber quando ele está sendo real ou apenas vivendo um papel.

Marianne passa a entender assim o seu suicídio. Não como fruto de um desespero momentâneo, mas sim da completa falta de percepção de qual era sua real identidade. Depois de muito meditar a respeito ela começa a entender que não o ama mais. Que talvez ela nunca tivesse amado ninguém ainda, embora Mick tenha sido certamente quem chegara mais perto de ser um verdadeiro amor.

Depois de um longo período de recuperação, Eva e Marianne, mãe e filha, se mudaram para uma casa perto de onde estavam sendo as filmagens, nas cercanias de Melbourne. Aproveitando um feriado prolongado, Mick e Marianne fugiram para Indonésia, tentando recapturar um pouco daqueles momentos mágicos de paz e amor conseguidos no Brasil em '68. O fracasso da tentativa foi constrangedor. Os dois deixaram a região perfeitamente cientes que a relação já acabara, embora não admitissem abertamente um para o outro. Marianne então seguiu com sua mãe para a Suíça, onde entraria em tratamento psiquiátrico em uma clínica especializada - tudo pago por Mick, evidentemente.

O Fracasso de Ned Kelly


A realização do filme não estava acontecendo da mesma maneira criativa e desafiante como em "Performance". Os textos eram fracos, o diretor quase não dava instruções para o elenco e como resultado, os atores estavam encenando desanimados. Todo o projeto parecia estar sendo tocado sem um maior capricho nos detalhes. Em uma cena de briga, Mick ao disparar a sua arma contra o oponente, quase perde a mão quando o revólver velho explode. Jagger foi levado ao hospital, tendo levado dezesseis pontos em sua mão. Ele contou para Marianne que os esparadrapos eram de mentira e faziam parte do enredo, nada falando de seu acidente.

Arduamente, Mick aprendeu que no cinema o ator não tem controle sobre o projeto, embora seja ele quem o público irá ver e com quem associarão o trabalho. O filme iria fazer sua estréia no ano seguinte em Glenrowan, Melbourne, perto da casa onde o verdadeiro Ned Kelly antigamente morava. As críticas foram más, alguns críticos extremamente duros com o astro da música, agora debutando como ator dramático. Sim, estreando, pois embora seu primeiro filme, o "Performance", houvesse sido filmado no ano anterior, levaria outro ano até ser lançado para o público. Assim, para o mundo, Ned Kelly é tido como sendo seu primeiro filme.

Planos em Andamento

Enquanto Mick Jagger estava na Austrália cuidando de sua carreira cinematográfica, Keith Richards ficara em Londres "cuidando da loja". Nos últimos anos, era Mick o homem de frente dos Stones, porém as decisões normalmente eram feitas após consultar Keith e de vez em quando o resto da banda. Esta seria a primeira e única vez em que Keith se vê obrigado a realmente organizar alguma atividade para o grupo. E o plano era para preparar uma excursão pelos Estados Unidos durante o outono Americano. O trabalho do Keith seria apenas de angariar informações, receber e analisar as propostas.

Keith certa vez questiona Mick sobre sua necessidade de fazer cinema e até que ponto ele realmente precisava desta segunda atividade. Mick lhe explica que, por ser guitarrista, a música lhe consume e satisfaça totalmente. No entanto, ele como apenas cantor, sentia naquela altura de sua carreira, a necessidade de experimentar outros formas de expressão artística.

A Trilha

Como parte do acordo que Mick assinara em relação ao filme Ned Kelly, estava uma cláusula onde Jagger se comprometia em dar uma canção para a trilha sonora. Durante toda a filmagem, sempre que o diretor perguntava sobre a tal canção, Mick dava uma resposta evasiva, basicamente dizendo para não se preocupar e que a canção seria entregue. Acontece que o problema residia em Keith Richards, que andava irritado com o envolvimento de Jagger com este filme, atrapalhando o andamento dos planos para a excursão americana, assim como da mixagem para o álbum "Let It Bleed".

Com o filme pronto e todos de volta em Londres, Mick forçou sua vontade e armou uma sessão de estúdio em setembro onde os Rolling Stones gravariam algo para o filme. Até chegar a este ponto, Keith havia se recusado a cooperar em compor alguma coisa para o filme e Mick acabou fazendo tudo sozinho. A canção que surgiu foi "The Wild Colonial Boy", que os Rolling Stones tentaram gravar, porém Keith tocando propositadamente mal, não permitindo um take decente que pudesse ser aproveitado. Com a sabotagem, Mick marcou outra sessão, contratou músicos de estúdio e gravou o que acabou se tornando seu segundo compacto solo.

A Fase de Traumas

A morte de Brian atacou todos os principais personagens dentro dos Rolling Stones, cada um de uma maneira distinta e, cada um a seu tempo. Marianne mergulhou na Heroína até culminar com sua tentativa de suicídio em Australia. Mick foi se transformando em Turner na vida real. Este personagem vivido por Mick inicialmente no filme Performance, é em essência uma somatória das personalidades de Keith Richards e Brian Jones junto a dele mesmo.


Keith aos poucos vai se tornando um junkie, substituindo Brian neste papel. A diferença é que Keith é menos frágil psicologicamente e não enlouquece. Anita também sofreria alguns pesadelos após a morte de Brian. Ela passou a ter o hábito de recortar dos jornais e revistas todas as fotos de Brian Jones. Depois ela cola algumas destas fotos no teto e nas paredes do seu quarto. Na manhã seguinte, Anita arrancava as fotos das paredes e rasgava tudo. De noite, voltava a fazer tudo de novo, em uma espécie de loucura onde o artista cria e depois destrói sua criação. O ato lembra em muito o próprio Brian Jones, que gravava músicas lindas e depois destruía as gravações, ora gravando por cima, picando a fita com uma tesoura ou jogando o rolo na lareira como lenha.

Bill e Charlie

Charlie e Serafina
Charlie e Serafina

Enquanto isto, em Halland, a família Watts está cuidando da pequena Serafina que já começa a demonstrar interesse em querer andar. Na residência, onde setecentos anos antes o Arcebispo de Canterbury usara o local para caça, Charlie e Shirley usam o local para a procriação e para cuidar do bem estar de animais. São donos de dois gatos, dois cavalos e três cães de raça (Welsh Collies).

Bill Wyman está vivendo também uma vida menos noturna e mais sossegada com sua namorada sueca Astrid. Com seu filho Stephen sob seus cuidados, Bill, que dera encaminhamento para seu divórcio com Diane em abril, teria a moção legalmente definida no dia 10 de outubro 1969.

Mick Taylor

Enquanto sua nova banda não estava gravando, Mick Taylor estava fazendo o que gosta mais, ou seja gravando e namorando. Ele participara durante o mês de agosto das gravações do Keef Hartley Band, tocando sua guitarra na canção "Believe In You". Taylor também passa a morar com sua namorada Rose Miller e os dois contemplam a idéia de se casarem num futuro próximo.


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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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