Quando o show da banda australiana AC/DC foi anunciado no Brasil, como parte da bem-sucedida turnê do disco “Black Ice”, certos jornalistas da imprensa especializada apressaram-se em estampar manchetes dizendo que eles eram uma das maiores bandas de rock do mundo. Você consegue dizer exatamente o motivo? Pois quem esteve no Estádio do Morumbi nesta sexta, 27, integrando um mar de chifrinhos brilhando em vermelho nas arquibancadas e pista lotadas, sabe a resposta na ponta da língua.






E não tem nada a ver com a superprodução de sons, luzes e explosões, com o palco de 78 metros de largura ou com a locomotiva de seis toneladas que se posicionava ao fundo dos músicos. Tem a ver com todo o vigor e a atitude que estes senhores roqueiros ainda mantêm, apresentando seu som básico e sem frescuras com uma energia que dá gosto. Tem a ver com a eletricidade que percorreu as mais de 65.000 pessoas presentes quando o guitarrista Angus Young executou o riff lendário de “Back in Black” saltitando pelo palco em seu figurino típico de colegial e com a perninha levantada. Aquela cena é um clássico absoluto, que não pode faltar no currículo de qualquer sujeito que chame a si mesmo de “fã de rock”. Este é o real motivo pelo qual se pode dizer que o AC/DC é uma das maiores bandas do mundo.
Quem teve a missão de abrir a noite foi Nasi, ex-vocalista dos paulistanos do Ira!. Com um set econômico, com pouco menos de 30 minutos, o cantor igualmente veterano abriu a apresentação com “Por Amor”, de sua antiga banda. Mas quem esperava mais petardos do Ira!, se decepcionou. Nasi preferiu revisitar o passado de outra forma, aquecendo a galera com covers de clássicos do rock como “Should I Stay or Should I Go?” (The Clash) e “I Wanna Be Your Dog” (The Stooges). O rock brasileiro foi homenageado com “Até Quando Esperar” (Plebe Rude) e duas de Raul Seixas: “Mosca na Sopa” e “Sociedade Alternativa”. Nas guitarras, o arroz de festa Andreas Kisser, do Sepultura – que, como bom são-paulino fanático, aproveitou a presença no Morumbi e subiu ao palco com a camisa do time.
Por volta das 21h30, depois de 13 anos sem dar as caras no país, o AC/DC abriu os trabalhos de sua apresentação única por aqui. Os telões em alta definição mostraram uma animação com os integrantes da banda no comando de um trem em alta velocidade, às voltas com uma dupla de gostosonas sacanas. Quando o telão principal se abriu, revelando o extravagante adereço metálico de palco – que também tinha seus chifrinhos. Era a deixa para que o grupo tocasse “Rock ‘n’ Roll Train”, primeiro single do novo disco e com um refrão ganchudo o suficiente para não deixar nada a dever ao desfile de clássicos que viria a seguir. “Não falamos português, mas falamos a linguagem do rock”, disse o vocalista Brian Johnson, debaixo de seu indefectível chapéu – o mesmo que se via desfilando em muitas cabeças pelo público. Eles falaram a linguagem do rock... e todos os brasileiros pareciam compreender muito bem.
Era de se esperar que canções do disco novo como “War Machine” e “Big Jack” fossem receber uma boa acolhida da animada platéia, que até arriscou acompanhar as letras aqui e ali. Mas aquelas milhares de vozes queriam mesmo cantar os clássicos – e a reação que o cantor causava ao anunciar músicas como “Dirty Deeds Done Dirt Cheap” e “T.N.T.” indicava bem o que de fato os presentes queriam ouvir. O poderoso refrão de “Thunderstruck” foi acompanhado de tal maneira que chegava a ser ensurdecedor. Da mesma forma que o delírio foi imediato assim que o enorme sino desceu do alto do palco para que o frontman pudesse se pendurar na corda e anunciar “Hells Bells”. E quando Johnson deu a dica sobre uma certa homenagem a uma mulher chamada Rosie, o frenesi foi imediato: uma gigantesca boneca inflável (devidamente trajada com sutiã e calcinha) surgiu no palco, sentada em cima do trem e parecendo dançar enquanto o vocalista cantava as desventuras amorosas com a gordinha de “Whole Lotta Rosie”.
Johnson é mesmo uma figura, com um pique invejável para alguém com aquela protuberante barriguinha. Mesmo paradão atrás de seu microfone, Malcolm Young contribui bastante para botar fogo no público com suas caras e bocas estampadas no telão. E a eficiente e enxuta cozinha formada por Cliff Williams e Phil Rudd ajuda a deixar bem corpulento o som da banda. Mas, todos eles que me perdoem – um show do AC/DC costuma ser dominado pela figura de Angus Young, o guitarrista que é símbolo de tudo que o grupo representa. No Brasil, não foi diferente. Sem parar um minuto, ele vai para todos os lados do palco, atravessa a plataforma que o deixa mais perto dos espectadores, faz caretas, rebola, se joga no chão. Um guitar hero que também incorpora a figura de showman.
No delicioso blues “The Jack”, talvez o ponto alto da apresentação, Johnson o anuncia como um sujeito que tem “o diabo nos dedos e o blues na alma”. Faltou dizer que Angus também tem o diabo no corpo – porque, aproveitando a melodia de contornos sensuais, o guitarrista tratou de tirar a parte de cima da roupa, ficando sem camisa e revelando brevemente uma cueca que traz a inscrição “AC/DC” no traseiro. Angus já passa dos 50 anos e está bem longe de ser sexy, com o corpo magrelo e os poucos cabelos que lhe restam. Mas seu jeito fanfarrão carrega doses generosas de carisma, fazendo até uma das meninas mostradas no telão se empolgar e levantar a camiseta, mostrando o sutiã e enlouquecendo os muitos marmanjos de plantão.
Ao final do set principal, com “Let There Be Rock”, Angus dominou novamente a performance, fazendo um alucinante solo de quase 10 minutos de duração. Sem parar de tocar, às vezes com apenas uma das mãos, ele foi erguido numa plataforma diante da audiência (com direito a fumaça e a uma chuva de papel picado). Depois sumiu por trás do palco para ser erguido em frente ao telão principal, bem onde estava o trem, agora desaparecido. Ali, evocando os berros de seus seguidores tupiniquins, o guitarrista provou definitivamente que, muito mais do que o excêntrico tiozinho divertido, é um músico que domina plenamente seu instrumento. Muito mais do que uma demonstração gratuita de virtuose, do tipo “veja, mamãe, sei tocar 183 notas por minuto!”, o solo foi um momento roqueiro para lavar a alma. Fim do primeiro ato.
No bis, uma fumaça em tons vermelhos revela o retorno de Angus Young ao palco, com seus próprios chifres demoníacos colados na testa. A música, é claro, era “Highway to Hell”. Logo depois, o palco é dominado por uma dúzia de canhões. E todos sabíamos que o show estava prestes a se encerrar, com a lendária saudação de “For Those About to Rock (We Salute You)”. Ao comando do cantor, os canhões explodiam sonoramente, mostrando que os brasileiros ainda tinham fôlego para muito mais. Quando o quinteto finalmente se despediu, um verdadeiro espetáculo de fogos de artifício eclodiu como celebração pela bela noite que chegava ao fim. Nem a chuva torrencial que castigou a capital ao longo da semana apareceu para atrapalhar.
O repertório de duas horas foi rigorosamente o mesmo que o AC/DC vem executando ao longo de toda a turnê, sem grandes surpresas. Mas ninguém parecia se importar. Paulistanos, cariocas, mineiros e goianos. Todos com quem esta reportagem do conversou ao final do show saíram igualmente em estado de graça. A produção milionária e os efeitos especiais são de encher os olhos. Mas no fim do dia, o que conta é a música – e o hard rock destes camaradas da terra dos cangurus envolve todos os tipos de pessoas. Homens, mulheres, crianças (sim, muitas delas), senhores, adolescentes, corintianos, são-paulinos, gremistas. Todos pulando e batendo cabeça. O AC/DC promove um headbangin’ absolutamente democrático. É. Isso também pode ajudar uma banda a ser chamada de “uma das maiores do mundo”, afinal.
LINE-UP
Brian Johnson - Vocal
Angus Young - Guitarra
Malcolm Young - Guitarra
Cliff Williams - Baixo
Phil Rudd - Bateria
SETLIST
Rock ‘n’ Roll Train
Hell Ain’t a Bad Place to Be
Back in Black
Big Jack
Dirty Deeds Done Dirt Cheap
Shot Down in Flames
Thunderstruck
Black Ice
The Jack
Hells Bells
Shoot to Thrill
War Machine
Dog Eat Dog
You Shook Me All Night Long
T.N.T.
Whole Lotta Rosie
Let There Be Rock
Bis:
Highway to Hell
For Those About to Rock (We Salute You)
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Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no mundodeelcid.blogspot.com.
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