O significado de "cercas embandeiradas que separam quintais" em "Ouro de Tolo" de Raul Seixas
Por Gustavo Maiato
Postado em 01 de novembro de 2024
Raul Seixas, em seu clássico "Ouro de Tolo", utiliza uma mistura de sarcasmo, crítica social e misticismo para criar uma das canções mais marcantes da música popular brasileira. O trecho "longe das cercas embandeiradas que separam quintais" merece uma análise mais profunda, pois ele reflete tanto o protesto contra as normas sociais quanto a busca por algo além da existência material, uma temática recorrente na obra de Raulzito.
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Lançada em 1973, no álbum "Krig-ha, Bandolo!", a canção se destaca pela crueza com que Raul expõe o mal-estar da classe média brasileira da época. Em meio a um regime militar que pregava o "milagre econômico", Raul denuncia a superficialidade das conquistas materiais e questiona a ideia de felicidade imposta pela sociedade. É nesse contexto que surge a metáfora das "cercas embandeiradas", que, à primeira vista, descreve a divisão física entre quintais vizinhos, mas que carrega significados mais profundos.
Ao falar sobre as cercas embandeiradas, Raul se refere à demarcação de propriedades. Como explica um artigo do site Letras.mus, "para ele, não faz sentido nos preocuparmos com essas barreiras e nos dividirmos por elas; ele acredita que deveríamos nos unir e nos preocupar com algo maior, algo que está além de tudo isso". Essa visão se desdobra em uma crítica à vida suburbana e burguesa, onde as posses materiais e a conformidade social tornam-se sinônimo de sucesso.
Conforme analisa o site Sr. Personna, "o eu-lírico nega a posição do dia de domingo, de ser mero espectador de sua vida conquistada, de suas próprias pequenas e burguesas realizações". O "apartamento" mencionado na letra é uma referência à vida genérica e sem sonhos da classe média, que dorme "em seus sofás de boca aberta sem mais expectativas". A música, portanto, não só critica esse estilo de vida, mas também aponta para o desejo de transcender essas limitações.
No final da canção, o eu-lírico se afasta do materialismo e fala de um lugar que está além das cercas, onde a realidade se mistura com a fantasia. A inserção poética dos versos "Porque longe das cercas embandeiradas / que separam quintais / No cume calmo do meu olho que vê / Assenta a sombra sonora de um disco voador" é destacada no site Bonas Histórias, que afirma que "essas palavras podem não dizer muitas coisas lógicas… mas são belíssimas. Isso é inegável".
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