On The Road: Os quatro CDs do Apocalipse

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Por Cláudio Vigo
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Que os tempos não estavam muito propícios a muitas esperanças no futuro a gente já sabia. Vivemos uma época em que a utopia além de demodé chega a ser hilária. Apocalipse Now? Sei lá, o que posso enxergar é a história batendo de frente na nossa cara em estado bruto; Jim Morrison cantando "The End" enquanto americanos intranqüilos verificam assustados, que ela (a história) não acabou.

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Eu tinha acabado de saber que o Pentágono tinha sido atacado, as torres estavam pra ir para o chão e a sensação de irrealidade tipo "Marte ataca" era total. Lembro que entrei numa obra que fiscalizo e os operários estavam meio dormindo depois do almoço. Comecei a discursar como um arauto do apocalipse, anunciando o fim dos tempos e tudo mais e fui recebido com uma frieza escandinava: "É nada... será que chega aqui?", "E eu com isso?" Foi o mínimo que eu ouvi. Ante o meu espanto, um deles falou pra mim: "Doutor, quem mora no Morro do Alemão vive em guerra há muito tempo". Caramba, esta foi no fígado! Mudei de assunto e segui em frente. É lógico que tudo isso é muito complexo, não estou reduzindo nada, mas que dá pra pensar dá. Até nossa desgraça é virtual e espetacular, o horror vizinho e cotidiano é totalmente suportável. Daí a "eficiência" deste atentado, o maior horror possível com a maior divulgação. A paranóia está instalada. Temo pelo que vem por aí, pelo controle ainda maior dos corações e mentes. Se o mundo tava virando videogame, o sonho acabou. Bem vindos ao século XXI, que agora realmente começou.


Dois dias depois estava com meus amigos Chicozé e o impagável Cecil Galvão, gastando uma tarde, que escorreu inteira à janela do Albamar, entre tantos barcos e navios que iam e vinham, indiferentes na Baía de Guanabara, enquanto entre muitos chopes e rãs grelhadas observávamos o pôr do sol que dava fim ao quase interminável almoço. O Islã esteve sempre presente no Jazz das figuras de Ahmad Jamal, Yusef Lateef, Kalid Yasin etc... Negros que através da fé muçulmana retomaram um passado oposto ao oferecido pelo American Way of Life. Quando a noite caiu e o restaurante fechou, chegamos a conclusão que o mundo não ia acabar e que "A Night In Tunísia" de Dizzie Gillespie era uma boa trilha sonora pra comemorar.

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Enquanto andávamos na beira do cais, olhando para aquele abominável viaduto, eu pensava em Dom João VI, no Mercado Municipal já destruído (que não conheci) e comentei que fazem exatos dez anos que Miles Davis morreu e John Coltrane faria 75 anos se estivesse vivo. Todas estas aventuras se apagando. Tudo memória e informação, assim como a imagem daquele avião vazando a Torre que se repete 24 horas por dia na TV desde então.

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Sempre nestas horas vêm aquele papo clássico de fim dos tempos: qual o melhor livro, o melhor disco, o melhor filme etc... Foi então, que não lembro mais quem fez a proposta: Quais os quatro discos atuais que se levaria pra ilha deserta apocalíptica junto com as baratas mutantes e o bonzo enlatado?

"Não vale clássico?" Retruquei. Não, só valia disco comprado este mês. Coisa recente, lançada de cinco anos pra cá. Fascinado com o desafio já me imaginei como se fosse um Charleston Heston olhando a Estátua da Liberdade enterrada na areia com meu Cd Player no ouvido e os quatro cds na mão. Quais seriam? Vamos lá, aos clássicos instantâneos:


NIACIN (Niacin) - Primeiro disco do power trio formado por Billy Sheehan (baixo), John Novello (Hammond) e Dennis Chambers (bateria), sonzeira insana e virtuose. Os três tocam uma barbaridade, parece que o Emerson, Lake & Palmer se entupiu de Jazz e anfetaminas e foi fazer um som. O que John Novello faz no Hammond é de encher o coração de alegria. Os dois discos posteriores ("High Bias" e "Deep") são excelentes também, mas acho que eu levaria este pra ilha. Pra quem não conhece a ida urgente à importadora (antes da explosão do dólar) é altamente recomendável. Imperdível.

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SNOWBOY AND THE LATIN SECTION (Mambo Rage) - Pra encarar a ressaca atômica nada melhor que mambo. Esse disco do percursionista Mark "Snowboy" Cotgrove é o maior antídoto pra pasmaceira possível. Não há niilismo que resista. Lembra um dia ensolarado, mulheres encorpadas, mojitos. Uma maravilha luminosa. O suingue é total e a cozinha (quatro percursionistas) não deixa a peteca cair um segundo sequer. Ótimo naipe de sopros e um cantor (não aparece na foto) que deve ter um bigodito de risca e uma camisa florida sensacionais. Paguei um mico bacana no trânsito por causa deste disco. O sinal parou e todo mundo ficou olhando meus ughs! de entusiasmo.


GLEN MOORE (Dragonetti's Dream) - Disco solo do baixista do Oregon. Solo mesmo, o disco é todo de baixo acústico solo. "É chato?" perguntarão os mais incrédulos. Que nada, Moore faz e acontece com seu baixo fabricado em 1715. Nada de slaps e solos estratosféricos. Lindas melodias e muito arco pra dar o clima. Pra fim do mundo é um pouco triste, mas um pouco de intimismo nestes casos é fundamental não é? Quando o homem resolve entortar chega a arrepiar. Pra ouvir enquanto se assiste (sem som) o Sétimo Selo de Bergman. Nada mais adequado.


MORPHINE (Yes) - Este é um pouco antigo, mas pra mim é o melhor deles. O que o finado Mark Sandman faz no baixo slide de duas cordas é emocionante. Considero-os um dos grandes grupos dos anos 90. Adoraria tê-los assistido ao vivo, uma pena não ter sido possível. Sandman morou no Rio, foi bicho grilo de Santa Tereza. Os outros discos são ótimos, mas este é demais. Pra ouvir surfando a tal onda de trezentos metros de altura que dizem irá fazer o sertão virar mar e o mar virar sertão.

Têm mais? É lógico que tem, poderia incluir o Beck ("Odelay"), o Air ("Moon Safári"), o Radiohead ("Ok Computer") e mais um monte de outros, mas o combinado foi quatro. Como se fossem quatro cavaleiros, com fim dos tempos não se brinca.


Aonde tudo isso vai parar? Sinceramente não sei e desconfio muito de quem diz que sabe. Estamos diante de um dos maiores fatos históricos da era moderna e suas conseqüências serão sentidas em diversos níveis ao longo dos próximos tempos. Dizem que vão levar onze meses pra retirar todo o entulho da destruição das torres do World Trade Center. Quanto tempo levará pra digerirmos o que vem por aí?

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Sobre Cláudio Vigo

Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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