On The Road: Jeff Beck, economia e bom gosto, eis a conseqüência

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Por Cláudio Vigo
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Reza a lenda que toda última sexta feira do mês, num boteco de Los Angeles, se reúnem sintomaticamente três anjos do inferno, travestidos de virtuose das cordas, que atendem pelo nome de Steve Vai, Joe Satriani e Steve Lukather. Abandonam suas hordas de discípulos da velocidade, que beijam as capas de Guitar Player e vão para os fundos do boteco (uma simples loja que vende Margueritas e tacos) onde há um quarto escuro com uma imagem de Jeff Beck. A situação se repete há anos, os três se despem de sua púrpura, pompa e circunstância e de joelhos sobre o milho põe pra tocar inteiro o álbum "Truth" e depois o "Blow by Blow" e choram copiosamente entoando o mantra: "Ah, porque não sou assim?".

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Depois de muito ranger de dentes e ataques de auto comiseração fazem uma jam onde copiam por puro prazer cada nota emitida pelo mestre. Só quem vê isso é Chico (o dono do bar) que não se importa pois além de tudo é fã de Santana. Recompostos voltam para suas limusines e seus estúdios pois tem muitas coisas pra gravar rapidamente.

Sou fã alucinado de Jeff Beck desde os meus quinze anos quando ouvi o "Blow by Blow" que estava saindo aqui no Brasil. Desde então ouvi tudo que ele gravou antes e depois. Tive o privilégio de assisti-lo ao vivo. E acho que, sinceramente, assim como Hendrix, Jeff Beck inaugurou uma forma de tocar guitarra que teve conseqüências profundas no Rock e no Fusion. Podemos ouvir eco de seu trabalho em quase todos os guitarristas. Seu domínio da capacidade do instrumento como um todo (volume, timbres, efeitos, etc) é espantoso.

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Recentemente fui surpreendido com o excelente CD ao vivo - "Performing This Week - Live At Ronnie Scott" que o mostra em grande forma acompanhado por uma superbanda: Vinnie Colaiuta, Jason Rebello e a estonteante Tal Wikenfeld (que só falta fazer chover no baixo). Assisti também o DVD que me deixou ababolhado e com vontade de me prostrar no milho também. Sem sombra de dúvida o melhor registro ao vivo do mestre que está tocando uma barbaridade. Todos os clássicos estão lá em versões econômicas sem nenhuma concessão a pirotecnia, gordura trans ou malabarismo. Ferro no ferro, pau puro e verdade de propósitos. Se você gosta de guitarra elétrica, compre o seu, se possível todos os outros também e ouça como medicamento também. Seu nível de colesterol vai baixar e se for músico quando tiver vontade de desperdiçar notas a esmo vai pensar duas vezes. Economia e bom gosto, eis a conseqüência.

Pensando em guitarras me veio a mente a quantidade de excelentes guitarristas que temos aqui no Brasil e que muitas vezes desconhecemos. Gente que faz música de todo tipo com excelentes resultados e que por não estar na boca do holofote não fazem chegar ao consumidor ideal seu trabalho muitas vezes extremamente sofisticado, que agradaria em cheio massas que não tem acesso ao biscoito fino que fabricam. Estou sempre atrás destas pepitas raras e tenho muitos trabalhos nas minhas estantes, desde demos, sobras de estúdio, jams, CDS independentes até oficiais que ficam restritos a pequenas ilhas de informação, apesar de sua grande qualidade.

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Vamos falar de dois soberbos artífices das cordas hoje: o carioca Pedro Braga e o curitibano Henrique Steffen, universais que reciclam a velha estrada do jazz e do rock com um acentuado sotaque brasileiro, seja nas esquinas latinas até nos recantos do choro, do baião e da nossa multidão de ritmos. Propósitos amplos com exuberância técnica, sem gordura pra queimar.

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Pedro Braga vem de longe, lenda viva da cena rock carioca dos anos 70 com seu pesadíssimo MAGIA NEGRA, era o Blackmore de plantão. Lembro de ter assistido inúmeros shows desta época sempre cercado pelo culto de uma legião de freaks apaixonados. Nos 80 iniciou uma sonoridade mais prog com o grupo CONTRASTE de saudosa memória e no auge do surto Brock apareceu com o ARTIGO 171.

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Dono de uma técnica refinada, iniciou então um flerte com a musica folk e coisas como INCREDIBLE STRING BAND e FAIRPORT CONVENTION passaram a freqüentar seu toca discos assim como inúmeros instrumentos de corda em seus sets.

O tempo passou e Pedro (então com sólida formação musical) passou a acompanhar vários cantores importantes, se transformando em um requisitado musico de estúdio. Com Virgínia Rodrigues excursionou pela Europa toda e participou de vários festivais de Jazz nos EUA onde tocou com Caetano no Carnegie Hall inclusive.

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Atualmente toca com Luisa Possi e faz um duo espetacular com Luis Chaffin chamado COM A CORDA TODA. Tenho os três CDS e são muito bons. Um duo acústico virtuoso que incorpora com acento jazzy coisas de nossa tradição mais remota até Villa Lobos. Chaffin, outro soberbo guitarrista com grande percurso na MPB e larga tradição roqueira, contribui com sutileza e beleza na elaboração de temas, onde os solos se complementam fazendo uma estrutura encorpada onde nenhuma nota é desperdiçada. Lembra coisas do grupo DALMA, DUO FEL sem esquecer de Rafael Rabello e tantos outros. Recomendo com louvor e pra quem quer uma amostra veja no site www.comacordatoda.com.br ou assista a gravação do clássico dos NOVOS BAIANOS "Bilhete pra Didi" no Cabaré Máxime em Lisboa:

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Tive acesso a seu estúdio também onde pude ouvir muito material elétrico de qualidade no que poderia se transformar em belos CDS. Conteúdo e bom gosto. Brasil com conhecimento de causa. Uma viagem sem volta pras nossas raízes com um molho apimentado de jazz de New Orleans e a memória de quem fazia a galera ensandecer na magia negra dos distantes anos 70.

Neste ultimo carnaval numa inusitada opção me afastei do praticumbum momesmo e rumei com a família para casa de um velho amigo em Curitiba que inaugurara um estúdio particular para seu desfrute onde passa seu tempo agora cercado de milhares de CDS e DVDs com a nata do Rock, do Jazz e da boa musica. Consegui assistir coisas brilhantes e inusitadas como o mais recente concerto de Adrian Belew de 2009 derretendo lentamente um rio de malte em puras pedras de gelo cristalizado. De repente surge o convite para abandonar à poltrona que já rumava para katmandu e assistir em um pub local uma banda chamada PIRA.

Chegando lá vi no canto um power trio arrumando o equipamento no ambiente enfumaçado. O guitarrista e o batera com visual skin head e o baixista espetando uns slaps. Imaginei que ia ver alguma barulheira braba e eis que sou surpreendido com uma bela versão de "Scatterbrein" de - logo quem - Jeff Beck, que foi emendada com uma faiscante stratus (Billy Cobham) e terminada com uma surpreendente Stateboro Blues (Allman Bros). A partida já estava ganha quando apareceu o pop perfeito do Steely Dan e material próprio.

Após o primeiro intervalo me apresentei a Henrique Steffen (o guitar hero) que me apresentou o resto da banda. Soube que faziam a noite curitibana sempre tocando este mix de covers da alta octanagem de Jazz e rocks selvagens e que havia um CD gravado e que outro estava a caminho.

Henrique também gosta de sustança, odeia malabarismos estéreis e procura enxertar elementos brasileiros em seu trabalho. Roqueiro de formação participa também da banda tributo a Jimi chamada Jimi Rendasse (ap Tom Zé) onde emula os velhos clássicos do mestre (ouvi uma demo da banda e gostei bastante). O papo corria solto e acabei ganhando o CD "Outside", que traz uma mistura de fusion com progressivo e um excelente trabalho de guitarras. Se a curiosidade está mordendo veja a PIRA em ação no tal boteco:

Voltamos cheios de entusiasmo e no dia seguinte conversando com meu amigo, enquanto lagarteávamos ao sol de Campo Largo, ouvíamos os CDS do COM A CORDA TODA e do "Outside". Pedro Braga, Luis Chaffin e Henrique Steffen foram os alvos de nosso assunto, assim como Torcuato Mariano, Vitor Biglione, Ricardo Silveira, Paulinho Guitarra, Cecelo Frony, Toninho Horta e tantos guitarristas espetaculares brasileiros. Lembramos do Jeff Beck e da penitência do milho. Aí perguntei pro Ruy: Com tanto guitarrista bom, o que a gente faz com o milho? "Pipoca pra acompanhar o uísque", gargalhou o gauchão.


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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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