Muscle of Love

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Por Bento Araújo
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Por um lado foi sorte nossa. A edição brazuca de "Muscle Of Love" não vinha com aquela embalagem de papelão forrando o "produto". Me lembro perfeitamente de uma voltinha histórica com meu pai pela Galeria do Rock, quando eu era uma criança e meu velho me acompanhava nas perigosas andanças pelo centrão de Sampa.

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Numa loja, esbarrei de cara com "Muscle Of Love" na prateleira! A capa me hipnotizou logo no primeiro olhar. Aquela coisa kitsh, meio cafona de porta de boate. Aquele clima meio de porto, promíscuo até o último gole, me traumatizava.


Alice aparecia com um punhado de dólares e uma cara de sacana. A banda exibia drogas e bebidas, todos trajando uniformes da Marinha, e aquele jeitão do Glen Buxton intimando o pobre comprador eram de arrepiar!

Curioso é que não está escrito "Alice Cooper" em nenhum lugar da capa, tornando tudo aquilo um enigma ainda maior, ainda mais para uma pobre criança. A contra-capa era ainda pior. Alice e seus amigos haviam levado uma surra daquelas!

Não podia ser diferente, comprei o disco e levei para rodar na minha casa quando "Big Apple Dreamin' (Hippo)" começou a saltar dos falantes e um arrepio ia subindo no crescente da música. A introdução de batera desleixada de Neal Smith e a voz pastosa de Alice declarando "We're so young and pretty, we're so young and clean..." traçavam um dos maiores anti-hinos à Big Apple. "New York is waiting for you and me, baby, Waiting to swallow us down" era pura realidade da cidade grande. A música foi trabalhada no estúdio e seu nome original era "Hippopotamus" uma homenagem a casa noturna novaiorquina que a banda ousava em freqüentar.


"Never Been Sold Before" poderia se chamar "Never Been Stoled Before" pois é uma recauchutagem do riff de "Day Triper" dos Beatles! O Nazareth foi mais fundo na picaretagem dois anos depois quando cunhou seu hit, "Hair Of The Dog", sobre o mesmo Riff. Já o que vem depois é simplesmente a melhor música do álbum, e quiçá uma das melhores baladas de Alice Cooper - "Hard Hearted Alice". Peça fundamental daqueles shows no Brasil e da tour que promovia o disco. Resquícios da época áurea da psicodelia, tecladeira azeitada (cortesia do tecladista Bob Dolin que até saiu em tour com eles) vocais Pop a la Beatles, percussão forte e um clima viajante - perfeito, inovação pura na sonoridade da banda! O vaudeville de "Crazy Little Child" fechava o primeiro lado.


A banda de apoio de Alice estava em atrito ferrenho com o líder. A moçada naquela altura, sedenta por Rock e experimentações musicais, estava cansada do lance "teatral" da coisa, se ligando mais na música mesmo. Alice já pensava diferente e queria sempre incrementar o seu show de horrores, deixando a música para segundo plano. O estopim desses desentendimentos foi esse "Muscle Of Love", mais roqueiro, básico e puramente musical do que seus antecessores. Sem a tutela do produtor Bob Ezrin (que sentiu que o bicho ia pegar nas gravações e se mandou) Alice ficou meio perdido e a banda, para nossa alegria, acabou se sobressaindo.


Abrindo o Lado B, "Working Up A Sweat" é festa rock n' roll, tanto que encerrava os shows da tour. A faixa título aparece e traz mais uma daquelas geniais linhas de baixo do exemplar Dennis Dunaway. Curioso é que ela foi trabalhada no estúdio com o nome de "Respect For The Sleepers".

Alice sempre foi um fã de cinema e principalmente de James Bond. "Man With The Golden Gun" foi composta pela banda com o exclusivo intuito de ser o tema principal para o filme homônimo do agente 007. Inclusive o cantor insistiu bastante para que isso realmente acontecesse, mas a produtora acabou rejeitando a música na última hora, e ela veio parar nesse maravilhoso disco, mais uma sorte nossa!


Outra pérola do repertório de Alice é "Teenage Lament' 74". Mais um manifesto da rebeldia infanto-juvenil revisitada por Cooper. A fórmula já tinha surtido efeito devastador com o hit "I'm Eighteen" (que saiu no disco "Love It To Death" de 1971), e voltava a estourar. "Teenage..." foi o maior hit de "Muscle Of Love", saiu em compacto e vendeu horrores mundo afora. Liza Minelli e as Pointer Sisters davam uma forcinha nos backing vocals. Tudo tinha fim com "Woman Machine", faixa que trazia um solo de guitarra de Mick Mashbir, o guitarrista fantasma que tocou no disco inteiro e também fez a tour de promoção, mas sempre sem constar nos créditos.

Alice não aprovou o resultado final e as vendas foram baixas em relação ao multi-platinado "Billion Dollar Babies", lançado no mesmo ano. Não é à toa que este "Muscle Of Love" foi o último registro de Cooper com sua banda original, pois logo depois ele dispensaria todo mundo e ampliaria ainda mais seu público com o projeto conceitual "Welcome To My Nightmare" de 1975, cuja sonoridade é mais pomposa e menos visceral.


Muscle Of Love
Lançado na América em 20 de novembro de 1973.

Faixas:
- Big Apple Dreamin'(Hippo) (Cooper, Bruce, Buxton, Dunaway, Smith)
- Never Been Sold Before (Cooper, Bruce, Dunaway, Smith, Buxton)
- Hard Hearted Alice (Cooper, Bruce)
- Crazy Little Child (Cooper, Bruce)
- Working Up A Sweat (Cooper, Bruce)
- Muscle of Love (Cooper, Bruce)
- Man With The Golden Gun (Cooper, Bruce, Dunaway, Smith, Buxton)
- Teenage Lament 74 (Cooper, Smith)
- Woman Machine (Cooper, Bruce, Dunaway, Smith, Buxton)

Músicos
Alice Cooper - Vocais
Neal Smith - Bateria e Vocais
Dennis Dunaway - Baixo e Vocais
Glen Buxton - Guitarra Solo
Michael Bruce - Guitarra Base, Solo, Vocais, Piano e Órgão
Bob Dolin - Teclados
Mick Mashbir - Guitarra
Dick Wagner - Guitarra
Paul Prestopino - Banjo em "Crazy Little Child"
Liza Minnelli - Backing Vocals em 'Teenage Lament '74" e "The Man With The Golden Gun"
La Belle (Noma and Sarah) - Backing Vocals em 'Teenage Lament '74"
Ronnie Spector - Backing Vocals em "Teenage Lament ' 74"
The Pointer Sisters - Backing Vocals em 'Teenage Lament '74" e "Working Up A Sweat"

Produção: Jack Richardson e Jack Douglas para Nimbus 9 Produções
Estúdios: Sunset Sound, Hollywood. Record Plant, New York e The Cooper Mansion, Greenwich, Connecticut.
Engenheiro de som - Jack Douglas
Técnicos de gravação - Reed Stanley, Dennis Frerante e Ed Sprigg
Arranjos de cordas e metais: Macmillan, gravados nos A&R Recording Studios, New York.
Engenheiro de gravação - Phil Ramone
Concepção e Arte da capa - Pacific Eye And Ear
Fotos - Saint-Jivago Desanges/La Legion
Maquiagem - Linda Livingston


Notas:
# As edições originais do LP na América, Austrália, Japão, Nova Zelândia, Canadá, Inglaterra e Argentina vinham embaladas numa caixa de papelão, com o disco cuidadosamente acoplado a um envelope que trazia a foto da banda na frente da boate e mais um encarte com uma foto da banda descascando batatas. A edição Argentina tinha o nome de "Musculo De Amor" e todas os títulos das faixas traduzidos para o castelhano.

# No Brasil foi lançado em janeiro de 1974, sem a embalagem e sem encarte pela Discos Continental.

# Alice ia batizar o disco com o nome de "A Kiss And A Fist". Na última hora ele achou melhor trocar para "Muscle Of Love"

# Prova de que Alice nunca curtiu muito esse disco é o fato dele raramente executar canções desse disco em seus shows pós 1974. O cantor ainda declarou: "Esse álbum trazia uma série de pequenas e estranhas músicas! Eu nunca o entendi muito bem, apesar de ser um divisor de águas na minha carreira!"


# # Boatos dão conta de que Liza Minelli chegou ao estúdio para gravar seus vocais e antes mesmo de cumprimentar Cooper foi direto perguntando pela Cerveja.

# Uma faixa inédita (que não saiu oficialmente até hoje) chamada "Baby Please Don´t Stop" foi gravada naquelas seções e contava com o batera Neal Smith nos vocais.

A capa foi censurada na África do Sul e causou uma grande euforia quando chegou no Aeroporto local. Os fiscais da alfândega receberam uma ordem de dar um sumiço nas capas, forçando os lojistas a comercializarem somente o LP!


A matéria na íntegra está na versão impressa, com o panorama completo dos shows de Alice Cooper pelo Brasil em 1974. Lá você também encontra uma entrevista exclusiva com o batera Neal Smith, fotos inéditas do show de São Paulo e mais depoimentos de gente como Leopoldo Rey, Vitão Bonesso, Rolando Castello Júnior, Paulo Zinner, Kid Vinil, Valdir Montanari, Antônio Carlos Monteiro e outros...

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Sobre Bento Araújo

Bento Araújo nasceu em 1976. É jornalista profissional e adora a música dos anos 60 e 70. É o editor chefe da Poeira Zine, a única publicação do país dedicada à música dos bons tempos. Lá ele escreve os textos, faz a diagramação, cuida da arte, do visual, faz 'a social' com os anunciantes, distribui, faz correio, banco, responde os e-mails e as cartas e também limpa o banheiro da redação... Além de tudo isso, o cara ainda tira uma onda tocando contra-baixo pela noite paulistana, além de vez ou outra fazer um 'bico' em alguma loja de discos em troca de raridades vinílicas... O Editor também oferece seus serviços jornalísticos e musicais a quem se interessar... (nada que uns bons dólares não possam resolver...)

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