The James Gang - A gangue encrenqueira do rock

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Por Bento Araújo
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Aquele guitarrista de cara engraçada, mais conhecido pelos leigos por suas caretas durante o solo de "Hotel California", naquele famoso vídeo dos Eagles, é sempre lembrado como líder do James Gang. Walsh foi sim a figura de frente da gangue durante seu período mais arruaceiro, quando lotavam estádios e lançavam uma trinca de álbuns acima da média. No entanto, quem organizou essa turma toda em prol do rock não foi Walsh, mas sim o baterista Jim Fox.

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Fox teve sua primeira aventura ao lado de um grupo profissional lá por volta de 1965, com os Outsiders, uma banda de Cleveland que emplacou um único hit: “Time Won’t Let Me”. A canção emplacou no top five no ano seguinte, alcançando uma projeção sequer sonhada por qualquer canção do James Gang. Curioso que essa é uma frustração que Fox faz questão de relembrar em todas entrevistas que concede. A frustração de não chegar nas paradas sempre foi um fantasma horripilante na visão do baterista.

Ser full member dos Outsiders não era nada fácil para um jovem de 18 anos de idade, principalmente quando uma canção está nos charts e uma tour pelo continente parece eminente. A família de Fox também pressionava bastante, pois o rapaz era um dos destaques da Kent State University de Ohio. Largar tudo pra cair na estrada do rock? Nem pensar!


O bichinho do rock ia corroendo Fox por dentro, principalmente depois do surgimento dos power-trios: Cream e Jimi Hendrix Experience. A idéia de Fox seria montar uma banda naqueles moldes, um trio com total influência das bandas inglesas, algo totalmente diferente do que o pessoal vinha fazendo na América.

Fanático também pelos Yardbirds, Fox começou a juntar uma grana e aos poucos foi investindo em instrumentos para sua futura banda. Estudando na faculdade durante o dia e pegando pesado no trabalho à noite, o baterista ia nos fins de semana montando um pequeno estúdio na garagem de sua casa, comprando peça por peça dos equipamentos.

Não demorou muito para o baterista convocar alguns amigos da faculdade para alguns ensaios em sua casa. Dessas aventuras sonoras surgiu o que seria a primeira versão do James Gang, no formato quinteto: vocal, duas guitarras, baixo e bateria. Numa dessas sessões, um dos guitarristas sugeriu o nome The James Gang, imediatamente aprovado por todos.


Aqui cabe um curioso parênteses: a banda chegou a declarar em seu press-release que era formada por sobrinhos legítimos do lendário bandido Jesse James. Pura balela promocional, que colou por muitos anos, gerando na certa uma repercussão malvada para o grupo. Hoje em dia Fox dá boas gargalhadas sobre o caso e garante que sempre desaprovou apenas um detalhe quanto ao nome James Gang: ele odiava ter a sonoridade da banda associada à música country. Talvez por culpa da gravadora, que abusava de temas Western nas capas dos discos do James Gang, como podemos comprovar no disco ao vivo, "Straight Shooter", "Thirds", "Passin’ Thru", na coletânea da época, "Jesse Come Home", etc. Para Fox, o visual do James Gang era aquele das fotos que ilustravam o álbum "Rides Again', rockers em suas Harleys.

Voltando aos ensaios da moçada, apesar das altas jams que deixavam a família de Fox furiosa, ficou claro que a banda funcionava mais como um trio. Nessa concepção, que era o intuito de Fox desde o início, a formação mais consistente contou com Glenn Schwartz nas guitarras e vocais, Tom Kriss no baixo e o próprio Jim Fox na bateria e vocais. Schwartz não esquenta muito seu posto e sai para integrar o Pacific Gas & Electric.


Nessa altura pinta na gangue Joe Walsh, nativo de Wichita, Kansas, guitarrista que apesar de jovem já esbanjava experiência, tendo se aventurado como baixista por grupelhos semi-profissionais como os G-Clefs, The Nomads e The Measles. Walsh começou na música tocando clarinete, oboé e contra-baixo, mas foi quando se mandou para Cleveland que descobriu a guitarra. Fox conheceu Walsh na Kent State University e nos intervalos das aulas pintou o convite para o guitarrista assumir a linha frente da gangue.

O primeiro registro veio em 1969, com o nome de "Yer Album'. Como era de praxe no período, um cuidado todo especial foi dispensado com a performance dos temas. O James Gang fazia parte daquela escola de Hard que priorizava talvez a execução do que a composição, o que de maneira alguma ofusca o brilho de grande "Yer Album". A bolacha foi uma das primeiras produções de Bill Szymczyk, famoso posteriormente por trabalhar com medalhões da música norte-americana, como os Eagles, por exemplo.

Bill era apaixonado pela sonoridade crua e jovial do James Gang. Na estréia, produziu, cuidou do arranjos, fez engenharia de som pro grupo e ainda quebrou o galho como fotógrafo, registrando as fotos da capa do disco.


Mal o álbum foi lançado e o baixista Tom Kriss sai para dar espaço a Dale Peters. Com uma formação consistente como uma rocha, o trio lançou seu segundo registro em 1970: "James Gang Rides Again". A capa simples já dava as cartas – nada me muita firula – rock sólido e suingado e algumas belas baladas.

Um outro detalhe que é bastante lembrado quando o assunto é James Gang: Pete Townshend perdeu o sono com Joe Walsh! Ao ouvir “Take A Look Around” o cara ficou dias sem dormir e exigiu que seu empresário na época contratasse o James Gang para abrir uma perna da tour do Who, de 1971. Alguém aí já reparou como a introdução de “Pure and Easy”, do The Who, lembra demasiadamente “Take a Look Around” do James Gang? Corra para a vitrola mais próxima e jogue na minha cara se estou mentindo!

Townshend chegou a declarar em algumas publicações sua admiração pelo estilo de Walsh e tais palavras acabou subindo na mente do norte-americano que de uma hora pra outra fartou-se do James Gang.

Perdeu o interesse no grupo e passava meses só falando em se lançar como artista solo. Nesse meio tempo pinta o convite para participar da trilha do filme Zachariah, inclusive com direito a uma ponta na película e tudo mais.


Pressionado pela gravadora, Walsh engole um sapo e vai para o estúdio com o James Gang, registrando talvez o melhor disco da carreira do grupo, "Thirds". Graças a faixa de abertura do álbum (“Walk Away”), o trio ganha projeção mundial e execução maciça nas rádios. No auge, o James Gang amargava uma tremenda crise interna.

Walsh era nitidamente o centro das atenções, o que gerava desconforto em Fox e Peters, tanto que ambos exigiram que pelo menos quatro músicas de autoria da dupla deveriam aparecer em "Thirds". Os shows ficavam mais concorridos e a gravadora não perde tempo e lança "Live In Concert", um belo souvenir da tour, mais famoso ainda por ser a despedida de Walsh do grupo.

Não foi nada fácil suprir a ausência de Walsh. Fox acabou expandindo a formação para um quarteto com a inclusão de Roy Kenner nos vocais e Domenic Troiano nas guitarras. Jim Fox e Dale Peters conheceram Troiano numa jam do guitarrista ao lado de Eric Clapton, num clube de Cleveland. Eles queriam inclusive que Troiano fizesse também os vocais, mas o guitarrista achou melhor chamar um frontman, Roy Kenner, então seu companheiro na banda Bush.


Nessa fase ‘intermediária’ o James Gang lançou dois álbuns, em 1972: "Straight Shooter" e "Passin’ Thru". Apesar de apresentar dois trabalhos de estúdio acima da média, ao vivo o grupo sofria com os antigos fãs, que não aceitavam a ausência de Walsh. Num show em Santa Monica, foram recebidos com uma chuva de ovos e tomates pela platéia! A imprensa pra piorar ainda mais as coisas declarava que ambos os álbuns eram retratos de uma banda nada inspirada e completamente apática.

Troiano não segurou o tranco, se mandando para o Guess Who. Mais uma vez o James Gang se via à beira de um abismo, sem reconhecimento e sem guitarrista. Quem deu uma força foi o próprio Walsh, que ouviu numa rádio local a notícia de que o grupo estava procurando um guitarrista.

Walsh recomendou o jovem Tommy Bolin, super-talentoso e egresso de bandas como o Zephyr e o Energy. Bastou uma audição de 15 minutos para Bolin deixar todo mundo de quatro no chão. Estava na cara que a engrenagem voltaria a funcionar bem, como mostra o clássico "Bang", lançado em 1973 e contando com oito faixas de autoria de Bolin. Os shows também melhoram bastante, e o sucesso parece querer timidamente reaparecer graças a uma aparição relâmpago no conceituado programa televisivo "Don Kirshner’s Rock Concert". Ainda nessa fase o grupo lança o álbum "Miami", também altamente recomendável.


Fox declarou que o fato de Bolin aparecer para tocar cada vez mais alto e chapado, era um problemão difícil de ser resolvido. Bolin parecia não perceber que as drogas estavam prejudicando sua musicalidade já nessa época. Ficou com o posto de guitarrista no Deep Purple e o resto da triste história todo mundo leu na poeira Zine número 7.

Sem Bolin o fim estava mais uma vez batendo à porta da gangue. O incansável Fox não desiste e recruta Bubba Keith para os vocais e Richard Shack para a guitarra. Em 1975 lançam "Newborn", embalado numa ilustração alucinante de Salvador Dali. Por problemas legais a banda é obrigada a mudar a capa do álbum, já que tinha usado a ilustração na maior cara de pau, sem sequer consultar alguém sobre os direitos da obra. Apenas uma foto da nova formação foi incluída na capa, aliás foi essa versão que saiu em elepê por aqui em 1976. Nesse mesmo ano, mais mudanças na formação, entram Bob Webb e Phil Giallombardo e saem Keith e Shack. O último registro já nasce brochado, "Jesse Come Home", fraco e sem nenhum respaldo, seja da crítica ou dos fãs. Fox e Peters entregaram os pontos de vez.


Na segunda metade dos anos 90 a surpresa! Walsh resolve juntar o James Gang para alguns shows pelos EUA. O grupo reformulado com Walsh/Peters e Fox participou da campanha de Bill Clinton e ofereceu a chance de toda uma nova geração conferir a força da banda nos palcos.

De lá pra cá a banda vem se reunindo esporadicamente para shows, como fez no início deste ano, percorrendo várias cidades norte-americanas. Alguns selos independentes andaram lançando material desses shows.

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Sobre Bento Araújo

Bento Araújo nasceu em 1976. É jornalista profissional e adora a música dos anos 60 e 70. É o editor chefe da Poeira Zine, a única publicação do país dedicada à música dos bons tempos. Lá ele escreve os textos, faz a diagramação, cuida da arte, do visual, faz 'a social' com os anunciantes, distribui, faz correio, banco, responde os e-mails e as cartas e também limpa o banheiro da redação... Além de tudo isso, o cara ainda tira uma onda tocando contra-baixo pela noite paulistana, além de vez ou outra fazer um 'bico' em alguma loja de discos em troca de raridades vinílicas... O Editor também oferece seus serviços jornalísticos e musicais a quem se interessar... (nada que uns bons dólares não possam resolver...)

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