Black Sabbath: a "era 'Mob Rules'"

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Por Bento Araújo, Fonte: poeira Zine
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Chamado por muitos como “o primo pobre” de Heaven And Hell, o segundo álbum de Ronnie James Dio com o BLACK SABBATH envelheceu de forma grandiosa e hoje também é considerado um clássico supremo do heavy metal.

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Depois de alguns meses de férias após a extensiva e extenuante turnê do álbum "Heaven And Hell", o BLACK SABBATH se reuniu em Los Angeles, em abril de 1981, para começar a compor e gravar aquele que seria o segundo registro da era-Dio. Mudanças foram propostas de imediato pela própria banda: Geezer, que era o letrista principal do conjunto nos anos 70, voltaria a escrever, agora ao lado de Dio, que cuidou sozinho das letras do disco anterior, devido a ausência temporária do baixista. Na parte sonora, a banda queria fugir um pouco da sonoridade mais limpa e cristalina de HAH e voltar à agressividade e distorção dos antigos discos com Ozzy no vocal. Para isso convocaram novamente o experiente Martin Birch.


Com tudo parecendo estar nos trilhos novamente, um misterioso baixo astral começou a rondar a banda com força total, como relembrou RJD 20 anos depois: “Foi nessa época que adentramos nosso período ‘Sabbath odeia todo mundo’. HAH foi muito fácil de ser criado, pois envolveu apenas eu e Tony; quando Geezer voltou e insistiu para participar desse processo, tudo ficou mais difícil. Eu não sei a razão, mas Geezer tinha atitudes extremamente negativas perante a banda e a sua própria vida. Bastava tudo estar indo bem para ele desconfiar que existia alguma conspiração contra ele ou contra o grupo. Ele achava que todo mundo queria sabotar a banda de alguma forma. Se não existia algum problema com o Sabbath, Geezer logo criaria um bem rápido e daqueles bem problemáticos. A trajetória do conjunto comprova exatamente isso, foram problemas atrás de problemas. Isso colaborou, e muito, para as coisas ficarem difíceis pra gente; se alguém não está feliz dentro do grupo a música sofre com isso. Essa negatividade estava presente o tempo todo. Mesmo assim escrevemos juntos. Geezer é um excelente letrista, apesar de às vezes você ter que concordar com ele, evitando assim uma discussão que levaria a coisa muito adiante. Ele tinha muitos problemas familiares na época e odiava estar nos EUA, mas isso não pode afetar o processo criativo de um disco e foi exatamente o que aconteceu. Isso tudo estava muito distante do alto astral meu e de Tony quando fizemos o HAH.”

"Mob Rules", o novo disco, sofria então com esse caótico processo de composição. Mesmo assim Geezer aprovava o novo material: “Estou mais satisfeito com esse disco do que com o anterior. HAH continha algumas músicas que me cansaram com o passar do tempo. Agora Vinny se encaixou muito bem no grupo e ele era um apreciador de nossa música desde o início da banda. Mesmo assim, Bill ainda é o meu favorito. Ronnie por sua vez escreve tudo muito rápido, ele pode inclusive escrever uma letra enquanto canta a melodia. O ponto baixo é que Ronnie pensa que HAH foi um sucesso unicamente pelo fato de contar com a sua própria presença, não dando crédito para mais ninguém pelo que foi feito naquele álbum. Ele tinha esse tipo de atitude: ‘Eu ressuscitei essa banda e sem mim eles não seriam nada’. Era muito difícil lidar com essa postura dele.”

O processo de composição nessa época, por mais produtivo que fosse, trazia algumas fissuras que logo derrubariam por completo a confiança e a amizade entre os integrantes. Em HAH, os créditos de todas as composições (músicas) ficaram divididos entre os quatro integrantes, tudo “em nome da música”, o que deixou Dio furioso, pois ele sempre clamou por ter criado tudo sozinho ao lado de Iommi.


Em "Mob Rules", todas as músicas foram creditadas a “Butler, Dio e Iommi”, com todas as letras do disco sendo creditadas à apenas Dio, assim como no álbum anterior. Essa tensão perante os créditos pairava no ar e Ronnie sempre deixou muito claro que essa não foi uma época feliz de sua carreira. A alegria e camaradagem havia durado pouco, somente na época de HAH. Em "Mob Rules" a coisa já havia desandado e o vocalista considerava também a fase de "Live Evil" como a mais triste e depressiva de toda a sua carreira.

Nessa época a banda havia renovado seu contrato com a Warner, que teria avisado que HAH seria o último lançamento pelo selo. Devido ao grande sucesso de vendas a gravadora não só renovou o contrato para mais alguns álbuns, como assinou também, na surdina, um contrato com Ronnie James Dio para um disco solo. Enquanto "Mob Rules" estava sendo gravado, o Sabbath foi convidado para se apresentar no lendário festival Heavy Metal Holocaust, que aconteceu em Stoke On Trent, na Inglaterra, e contou com Frank Marino, Triumph, Motörhead e Ozzy Osbourne. Evitando um contato direto com seu ex-vocalista, o grupo cancelou sua aparição e se concentrou totalmente na gravação do novo álbum.


"Mob Rules" foi finalmente lançado no dia 4 de novembro de 1981, e chegou a 12ª posição da parada britânica, por onde permaneceu por 14 semanas. Dois singles foram extraídos da bolacha: “Turn Up The Night” e “The Mob Rules”.

Com exceção de “Over And Over”, a banda executou todas as faixas do novo álbum durante a tour que se seguiu, que teve início no Quebec City Coliseum (Le Colisee), em Quebec, Canadá, no dia 15 de novembro de 1981. A abertura ficou por conta de Alvin Lee e sua banda, que nessa época contava com uma forcinha especial do guitarrista Mick Taylor. Para o Sabbath era uma honra ter um ex-integrante do Ten Years After e um Stone no palco naquela primeira “perna” da turnê. Três dias depois, no gigantesco Maple Leaf Gardens, ainda no Canadá, mais um tumulto entre o público. Parecia que o Black Sabbath atraía esse tipo de confusão...

O show na capital escocesa de Edimburgo foi cancelado em função da forte neve que castigava a cidade. Em Cardiff, no País de Gales, o teto do teatro onde o grupo se apresentaria, o Sophia Gardens Pavilion, desabou devido a uma tempestade de neve. Mais cancelamentos no caminho... E também confusões de mais diversas procedências durante a excursão: Vinny Appice foi ferido pelo gelo seco do palco e Tony Iommi passou maus bocados depois de ingerir comida estragada. O show em Winnipeg, Ontario, Canadá, precisou ser cancelado por um motivo pra lá de bizarro: a arena tinha sido alugada para um circo, que estava montado quando a banda chegou para se apresentar. O jeito foi arrumar outras preocupações e tentar ignorar a onda de azar: durante a parte norte-americana da tour a banda grava algumas apresentações para um futuro álbum duplo ao vivo. Era preciso combater "Live At Last", lançado à revelia de Iommi e Geezer.

"Mob Rules" pode não ser tão conceituado como "Heaven And Hell", mas sem dúvida é mais épico, pesado e até mesmo mais “progressivo” que seu antecessor. Se "Heaven And Hell" era o cérebro, "Mob Rules" era o coração pulsante da era-Dio do Sabbath. Seja qual for o seu preferido, o que é unânime é que ambos são capítulos emocionantes e irretocáveis da história do heavy metal.

"Mob Rules" - O Disco


O segundo disco de Dio com o Sabbath tem um som diferente: mais gordo, encorpado e caloroso se comparado a "Heaven And Hell": “O equipamento utilizado foi o mesmo, não alteramos nada. Tivemos um troca de baterista, é claro, mas creio que foi mais uma progressão natural do nosso produtor Martin Birch. Ele estava testando coisas diferentes e isso refletiu no disco,” confessou Ronnie James Dio.

Os graves definitivamente estavam mais pesados e marcantes. Os bumbos de Vinny Appice apareciam com destaque, assim como o baixo de Geezer e os riffs infernais de Iommi. Birch era fissurado em sons pesados de bateria e baixo, e teve como meta extrair o melhor som possível da banda em estúdio.

As incansáveis comparações entre "Mob Rules" e "Heaven And Hell", o trabalho anterior da banda, se dão ao fato da primeira faixa de ambos ser muito semelhante, praticamente uma repetição da fórmula. “Turn Up The Night” tenta desesperadamente recriar o vigor, potência e frescor de “Neon Knights”, mas não consegue. Dio inclusive nunca foi um grande apreciador dessa canção.

“Voodoo” é a faixa seguinte, mais cadenciada e com um riff cavalar de Iommi; e abre caminho para talvez a melhor do disco, a épica e gloriosa “The Sign Of The Southern Cross”, uma das preferidas de Dio, com uma letra mística e elaborada: “Eu amo essa música. Quando se fala desse álbum ela é a primeira a ser lembrada. Gosto muito também do título e quando eu tocava trompete quando garoto, a gente tocava uma canção chamada ‘The Southern Cross’. Foi muito divertido compor essa canção, pois precisávamos de algo na linha de ‘Heaven And Hell’.”

“E5150” é uma vinheta eletrônica, utilizada também para abrir os shows da banda dali pra frente. Geezer queria de qualquer maneira incluir a palavra “evil” no disco, então aqui temos a letra “E”; o “5” no algarismo romano é “V”, o “1” é “I”, e o “50” é “L”; juntando tudo: “EVIL”. O Van Halen mais adiante batizou um álbum e uma música como “5150”, mas alegando que se tratava de um código usado pela polícia norte-americana para designar os criminosos com problemas mentais.

Versão pirata em fita K7
Versão pirata em fita K7

A faixa “The Mob Rules” é outro destaque, uma das mais agressivas da carreira da banda; “Country Girl” foi escrita por Ronnie em homenagem a sua esposa Wendy e tinha uma temática mais convencional, o que desagradou Tony e Geezer, apesar do riff que era Sabbath puro. “Slipping Away” é a próxima e tem uma levada mais funk que é puro Led Zeppelin, com Vinny colocando de fora toda sua admiração por John Bonham. Outro ponto alto do tema é o solo de baixo repleto de distorção e malandragem de Geezer.

“Falling Of The Edge Of The World” traz outro riff agressivo de Iommi, como há tempos não pintava num disco do Sabbath. Foi uma das últimas faixas a ser composta para o disco e também caprichava no teor épico e dramático. O título, assim como “Heaven And Hell”, foi mais uma vez baseado numa outra canção de George Young e Harry Vanda, a dupla de compositores dos australianos do Easybeats, uma das bandas favoritas de RJD.

O disco é encerrado com a melancólica “Over And Over”, uma pequena pérola depressiva, com solos mais blueseiros de Iommi e uma interpretação impecável e dramática de Dio, que comentou sobre ela: “Gosto do que eu escrevi nessa letra; ela é essencialmente um tema bem ‘Dio’, e reflete como eu me sentia nessa época, passando uma ideia da minha luta contra a negatividade da banda. Tem até um trecho que retrata a vida como um pedaço de papel, e daí temos uma chama. Essa chama pra mim era como algum integrante do grupo na época.” A letra trazia também uma frase que resumiu o fim da era-Dio no Sabbath: “Oh How I Need To Be Free Of This Pain.”

Kill OZZY?


O impressionante desenho usado na capa de "Mob Rules" é na verdade uma tela de autoria do artista Greg Hildebrandt, que pintou essa obra ainda nos anos 70. Com nome original de Mob Dream, a tela foi licenciada para ser usada pelo Black Sabbath e foi aí que a confusão começou.

Para muitos fãs, a arte que apareceu na capa do álbum traz a inscrição “Kill Ozzy”, ou “Matar Ozzy” meio escondida na parte inferior do desenho, no que seria o chão daquela cena violenta. A palavra “Kill” pode ser percebida ao lado esquerdo da assinatura do artista, e a palavra “Ozzy” exatamente abaixo do nome do artista.

Más línguas garantem que a arte foi alterada a pedido do grupo. Um representante da Warner chegou até a confessar que isso realmente aconteceu, porém a banda sempre negou tal acusação.


Dio: “As pessoas sempre vão ler o que querem ler. É uma questão de querer enxergar algo fictício, assim como aquele papo de que virando o logo DIO de ponta-cabeça você tem a palavra ‘DEVIL.’”

Esse texto e muitos outros sobre Ronnie James Dio você encontra na edição impressa da revista poeira Zine, numa edição limitada de colecionador inteiramente dedicada ao vocalista. Black Sabbath, Rainbow, ELF, Heaven & Hell, DIO e muito mais. Para saber mais sobre essa edição, acesse o www.poeirazine.com.br.

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Post de 03 de outubro de 2012


Sobre Bento Araújo

Bento Araújo nasceu em 1976. É jornalista profissional e adora a música dos anos 60 e 70. É o editor chefe da Poeira Zine, a única publicação do país dedicada à música dos bons tempos. Lá ele escreve os textos, faz a diagramação, cuida da arte, do visual, faz 'a social' com os anunciantes, distribui, faz correio, banco, responde os e-mails e as cartas e também limpa o banheiro da redação... Além de tudo isso, o cara ainda tira uma onda tocando contra-baixo pela noite paulistana, além de vez ou outra fazer um 'bico' em alguma loja de discos em troca de raridades vinílicas... O Editor também oferece seus serviços jornalísticos e musicais a quem se interessar... (nada que uns bons dólares não possam resolver...)

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