On The Road - Jorge Mautner
Por Cláudio Vigo
Postado em 09 de janeiro de 2001
Estamos em 2001, a odisséia já foi pro espaço, meu computador não se chama Hal e a última que eu soube do Arthur Clarke era que estava metido numa encrenca brava onde ele mora (Sri Lanka), acho, um papo de pedofilia e tudo mais. Desde 1958, quando lançou "Deus da chuva e da Morte", que Jorge Mautner está aí para desafinar no coro dos contentes e difundir o Kaos de maneira profética, transformando este mundo em transformação no próprio Maracatu Atômico.
Foto: Mário Luiz Thompson
Com uma obra que liquidifica tendências que vão do existencialismo beat aos sambas de Ismael Silva, Mautner sempre se manteve a margem da via principal da mpb tradicional, apesar de ter sua obra gravada por quase todas as estrelas disponíveis. Seus gritinhos desafinados e seu violino a lá Bolinha (Luluzinha) junto com citações de Buda a Heidegger sempre foram um verdadeiro impasse para o senso comum.
Já assisti inúmeros shows dele, alguns inesquecíveis, tenho os livros, sou aquilo que se pode considerar um fã. Aí virá a pergunta: Mas Mautner é rock? Sim e não, eis a resposta. O som nem tanto, mas a atitude e o astral são totalmente underground e muito mais rock, no que este tem de revolucionário, que muita, mas muita banda de moleque cabeludo que simplesmente repete uma tradição pré-estabelecida pela mídia e a industria fonográfica. Capaz de aglutinar o genial com o banal. Um caso sério pra quem gosta de simplificar e reduzir as coisas a simples esquemas.
Saiu há pouco tempo um cd duplo comemorativo de seus quarenta (isso mesmo, eu disse quarenta) anos de carreira que é indispensável para quem quer conhecer a obra deste vampiro de almas, deste profeta do pós calipso. Chama-se: O Ser da Tempestade. Estão lá todos os clássicos: O Relógio Quebrou, Pipoca da Meia Noite, O Vampiro e Maracatu Atômico. Simplesmente imperdível principalmente se ouvido junto com a leitura de algum de seus livros como Narciso em Tarde Cinza, Fragmentos de Sabonete, Panfletos da Nova era e tantos outros mais.
Encontrei muitas vezes com Mautner pela noite do Rio, figurinha fácil junto com o inseparável parceiro Nelson Jacobina, altamente simpático e acessível. Esteve com os baianos Caetano e Gil no exílio em Londres (onde filmou o clássico udigrudi O Demiurgo), furou o Festival de Woodstock quando ainda era pago (assim diz a lenda).
Sempre freqüentou meios intelectuais bastante sofisticados assim como deu shows em botecos furrequissimos, comigo presente assistindo sempre que podia. Tenho um amigo que toda festa que vamos faz uma performance antológica e dionisíaca da musica do "Sobe Cobra" que é um espetáculo digno das mil e uma noites relatadas por Sherazade. Um mico inesquecível e irrepetível (cada festa tem uma versão coreográfica diferente); uma coisa que devia ser filmada assim como as imitações do próprio (Mautner) de Hitler e Jânio Quadros.
Esta coluna foi escrita para quem não conhece, ou conhece pouco, a obra de Jorge Mautner. No início vocês vão até rir muito (tomara, rir é ótimo), mas prestem atenção nas letras e em tudo que cerca o som e os livros dele.Se eu pudesse dar uma dica para esse milênio que se inicia, seria essa: ouçam o disco, leiam o livro e vejam o filme.
"Vejam a chuva e o Sol
Um são raios a outra são águas
Uma é samba o outro é rock n roll
Mas ambos tem as mesmas mágoas"
Jorge Mautner
On The Road
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