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Motorhead: uma ditadura Rock And Roll

Por Antonio Rodrigues Junior e Denis Augusto
Postado em 20 de abril de 2009

Uma vida dedicada ao rock and roll define bem a trajetória do vocalista, baixista e líder do Motörhead, Lemmy Kilmister. Somente à frente de sua atual banda, o músico já possui mais de 30 anos de carreira, sempre se mantendo fiel as suas origens. Segundo Lemmy, esta é a principal razão do sucesso de seu grupo, que está vindo ao Brasil neste mês para divulgar o último álbum de estúdio Motörizer.

NOTA: a entrevista a seguir foi realizada antes da vinda da banda para a tour no Brasil.

Ao lado de seus companheiros Phil Campbell (guitarra) e Mikkey Dee (bateria), o vocalista e baixista fará uma turnê de quatro datas no Brasil: dia 12, em Goiânia; dia 15, em Belo Horizonte; dia 17, no festival Abril Pro Rock, no Recife; e no dia seguinte, em São Paulo, no Via Funchal.

Em breve também chega aos cinemas do mundo todo o documentário Lemmy: The Movie. O filme dirigido e produzido por Greg Olliver e Wes Orshoski conta a história do vocalista e baixista através de depoimentos, trechos de shows e entrevistas. Alice Cooper, Steve Vai, Slash (ex-Guns N’Roses) e Dave Grohl (Foo Fighters) são alguns dos famosos que têm seus depoimentos incluídos do vídeo.

Em entrevista exclusiva a Comando Rock, o "ditador" Lemmy Kilmister falou sobre a nova passagem pelo País, a gravação e a composição do álbum Motörizer, a inclusão de suas músicas em desenhos e a doação de fundos para a Children’s Cancer Association, contou sobre o documentário a seu respeito e sobre alguns desafetos adquiridos durantes esses anos, comentou sobre a investigação na Alemanha para averiguar uma estampa nazista em seu chapéu e sua coleção de itens nazistas e objetos pertencentes aos "países do eixo" e sentenciou: "pode chamar o Motörhead de ditadura, se quiser".

Comando Rock: Este mês a banda estará novamente no Brasil, onde realizará quatro apresentações. Qual a expectativa pela nova turnê pelo País?

Lemmy Kilmister: Como sempre, nos divertiremos muito no Brasil. Temos nos apresentado lá por cerca de 20 anos e é o melhor País para tocar e nos divertir com os amigos. Temos muitos amigos no Brasil, inclusive alguns caras da nossa equipe são brasileiros. Sem mencionar as garotas lindas, os ótimos lugares para ir, as bebidas e as festas. Definitivamente, o Brasil se tornou a segunda casa do Motörhead com o passar dos anos. Espero que os fãs se preparem para uma verdadeira performance headbanger!

Entre as apresentações, o grupo será o headliner da 17ª edição do festival Abril Pro Rock. Qual a sensação de estar presente em um dos mais importantes festivais locais?

Lemmy Kilmister: Acho que houve outro festival no qual tocamos com o Iron Maiden em São Paulo (Philips Monsters Of Rock, de 96), há muitos anos e é sempre incrível participar de festivais. Não sei direito qual festival é este, mas assim que estivermos lá, iremos fazer os fãs agitar. Mas claro, sempre significa muito ser convidado para participar de algo tão grande como este evento.

Na mesma turnê, o trio poderá sentir a experiência de tocar em um festival e em um show individual. Quais as principais diferenças entre os dois formados para a banda?

Lemmy Kilmister: Na verdade, as coisas giram entorno do tempo. Quando se está tocando em festivais, tem de se preocupar com as outras bandas, se todos estão fazendo seu trabalho da maneira certa, se a passagem de som não atrasará... Para a equipe especialmente costuma ser um pesadelo logístico! De qualquer forma, nosso setlist e apresentação são basicamente os mesmos, sem nenhuma grande mudança. Todos os fãs querem ver um bom show e é isso que tentamos dar a eles.

A nova turnê está divulgando o último disco de estúdio Motörizer. O álbum, que vem figurando entre os mais vendidos de diversos países, é o mais bem sucedido do grupo nos últimos anos. Ao que você dedica este fato?

Lemmy Kilmister: Acredito que a principal razão para tanto sucesso vem do fato de que tentamos resgatar as coisas que normalmente colocamos em álbuns passados. Motörizer é um disco pesado, tem canções rápidas e lentas, realmente capta a essência da banda e assim por diante. Há todas as influências e referências que vemos usando por todos esses anos. Por outro lado, sempre buscamos compor e gravar um disco melhor do que o anterior. Acredito que essa seja a razão pela qual Motörizer foi tão bem sucedido.

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Ao contrário de outras bandas que exploram outras sonoridades durante a carreira e invariavelmente acabam se perdendo, o Motörhead nunca se deixou levar por modismos ou músicas comerciais. Na sua opinião, manter suas origens é um dos motivos do sucesso do grupo durar mais de 30 anos?

Lemmy Kilmister: Mas é claro! De fato, o que faz um grupo viver e sobreviver a modismos na música é como seu som é e como se trabalha o mesmo. Por exemplo, o Motörhead sempre manteve seus ideais e sua própria maneira de compor, gravar, tocar e dar isso ao público. Não posso falar em nome de outras bandas, mas para o Motörhead não faz sentido algum. Se tentarmos mudar a maneira com a qual direcionamos a banda, a música, isso realmente irá arruinar nossa reputação. Os fãs do Motörhead são leais ao nosso trabalho, por que não sermos leais a eles também?

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O novo disco Motörizer é mais uma prova que o clássico rock and roll do trio continua atingindo o público. De onde vem a inspiração para continuar compondo?

Lemmy Kilmister: Como disse acima, é uma combinação de muitas coisas. Nossa prioridade é fazer com que os fãs curtam quando ouvem aos nossos discos e trabalhamos para dar a eles o melhor, o clássico e o tradicional Motörhead. Novamente, não faz sentido mudar algo em nossa forma de trabalhar. Temos um lema: menos é mais. Este disco foi gravado em Los Angeles, Grohl (Dave, do Foo Fighters) nos ajudou muito e basicamente fizemos um disco simples, cru e clássico. Sem grandes experimentos musicais. Apenas rock and roll. Fashion é para modelos, não música. Coisas muito elaboradas são para cantoras sexys. Somos uma banda de rock e mantemos as coisas da forma que elas são.

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Os três integrantes do Motörhead moram em países diferentes. Como fizeram para gravar o último álbum, por exemplo?

Lemmy Kilmister: Os dois vieram a Los Angeles (onde mora Lemmy) e ficamos no estúdio por três semanas preparando o álbum. Escrevo as letras e eles compõem a maioria da parte instrumental. Mas corto muita coisa do que eles me mostram, transformando aquilo em músicas de verdade – os deixo p... com isso (risos). A questão é que eles não entendem de vocais. Se pudessem, fariam um disco com solos do começo ao fim, sabe?

Isso me faz lembrar de uma entrevista com Mikkey alguns anos atrás. Ele dizia que um dos preços que se paga para tocar no Motörhead é ter suas idéias podadas por Lemmy...

Lemmy Kilmister: Mas o que posso fazer se algumas das idéias dele são uma m... (risos)? Se ele vem com uma boa sugestão é claro que vamos usar. Afinal, ele é um excelente baterista. Toca um bumbo duplo matador, não acha? Mas, realmente, a última palavra é minha. Pode chamar isso de ditadura, se quiser (risos).

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Diversos álbuns do grupo estão sendo relançados em formato estendido, a maioria deles em CD duplo. O que acha desses relançamentos?

Lemmy Kilmister: Realmente não me preocupo com essas questões. Faço música, esse tipo de coisa deixo para a minha gravadora e para o empresário.

No final do ano passado, a Walt Disney Pictures lançou o longa-metragem Bolt, uma animação que em uma de suas cenas conta com a música "Dog-Face Boy", faixa do álbum Sacrifice.

Lemmy Kilmister: É incrível ter a oportunidade de mostrar nosso trabalho para pequenos e futuros fãs de rock! Também já tivemos uma canção no filme do Bob Esponja.

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Falando em crianças, a banda doou recentemente diversos itens para serem leiloados e os fundos doados para a Children’s Cancer Association. Na sua opinião, outros grupos também deveriam usar sua imagem para ajudar em causas importantes como esta?

Lemmy Kilmister: Claro! Todas as bandas deveriam fazer isso! Não é algo que consuma muito tempo e é sempre uma grande recompensa ver nossas coisas indo a leilões que realmente irão ajudar alguém. Hoje em dia, há uma porção de grupos fazendo isso e mais deveriam seguir esses exemplos. Câncer é uma doença horrível e deveríamos lutar contra isso. Não ajuda nada reclamar que não há muito avanço nas pesquisas. Temos de fazer o que devemos fazer, cada pequena ação e demonstração de boa ação, como a doação de um item para leilão, por exemplo, é um grande passo. Parabenizo os fãs que adquiriram nossas coisas e ajudaram essas crianças.

Está previsto para este ano o lançamento do documentário Lemmy: The Movie, que deve contar a história da sua vida.

Lemmy Kilmister: Eles me acompanharam e conseguiram algumas boas entrevistas com pessoas ligadas ao Motörhead. Não interpretei um papel, simplesmente deixei que me filmassem. Sou eu! Vocês vão ter de esperar pelo lançamento para ver.

O que foi que pensou quando os produtores e diretores Greg Olliver e Wes Orshoski falaram que queriam fazer um filme seu?

Lemmy Kilmister: Achei que seria uma boa idéia, senão nunca deixaria eles fazerem.

Pelo teaser disponível na Internet, já é possível conferir alguns depoimentos de grandes nomes do rock, como Alice Cooper, Slash, Steve Vai e Dave Grohl. O que acha de tanta gente importante declarando sua admiração por você?

Lemmy Kilmister: Fico feliz por eles! Todos são ótimos músicos e pessoas importantes do cenário do rock and roll. São pontos de vistas diferentes e alguns deles são grandes amigos meus. É um sentimento muito bom ter esse tipo de resposta de outros músicos. Bom, sou quem sou e as pessoas me admiram por isso.

Segundo o documentário, o vídeo relata como é a vida no verdadeiro estilo rock and roll. Assim sendo, o que você diria a um jovem que pretender viver neste estilo?

Lemmy Kilmister: Eu diria: garotada, se esforcem, dêem o seu melhor. Infelizmente, música não se trata apenas de talento e persistência. É também um caso de estar no lugar certo, na hora certa, conhecer as pessoas certas ou simplesmente ter sorte. Para viver esse sonho, você deve ter foco, não se deixar perder no meio desse negócio que é a música ou por todas as outras coisas que lhe acompanham.

Ao ler sua autobiografia, reparamos que você não falou muito do ex-guitarrista Eddie Clark. Qual foi o real motivo de sua saída da banda?

Lemmy Kilmister: Ele estava sendo um verdadeiro imbecil naquela época! Estava sempre saindo da banda. Praticamente toda semana, por meses, anos... Então chegou um ponto que ficamos de saco cheio daquilo tudo. Brigávamos constantemente. Se você estivesse na banda sei que ficaria p... também.

Anos atrás, você também teve problemas com o apresentador Mark Lamarr no programa de TV Nevermind The Buzzcocks. O que realmente aconteceu?

Lemmy Kilmister: Aquele Mark Lamarr é um escroto! Deixei o programa logo depois do primeiro break, porque ele começou a ofender aquelas três garotas. Disse coisas tipo "vejo vocês mais tarde no prostíbulo" e um monte de outras m... Então me dirigi à porta de saída e todos começaram a entrar em pânico. Não preciso disso.

No ano passado, você esteve sobre investigação na Alemanha iniciada para averiguar um crime por vestir o que parece ser uma estampa nazista num chapéu militar. Como ficou a tal investigação?

Lemmy Kilmister: Era apenas um chapéu! Não sei porque as pessoas fizeram tanto caso. Coleciono algumas coisas, como arte, só isso.

Você realmente possui uma coleção de itens nazistas e objetos pertencentes aos "países do eixo". Você não tem receio de ser mal compreendido apenas pelo fato de possuir tal coleção?

Lemmy Kilmister: Como disse antes, não entendo o por quê das pessoas se interessaram tanto sobre isso. É apenas uma coleção, assim como outra qualquer. Acho que interpretações erradas sobre certos atos acontecem eventualmente.


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